Wet lease
Na aviação civil e comercial, wet lease é um contrato de locação em que uma companhia aérea (denominada lessor ou arrendadora) disponibiliza uma aeronave, a tripulação completa (incluindo pilotos, mecânicos de voo e comissários de bordo), efetua a manutenção e suporta o seguro operacional do avião para outra empresa aérea ou operador de transporte (o lessee ou arrendatário). A modalidade também é amplamente conhecida no setor aeronáutico pelo acrônimo ACMI (do inglês: Aircraft, Crew, Maintenance and Insurance — Aeronave, Tripulação, Manutenção e Seguro). Em contrapartida, a companhia arrendadora recebe o pagamento pelas horas de voo efetivamente operadas.[1][2]
Neste modelo, o lessee (operador contratante) assume a responsabilidade direta pelos custos operacionais variáveis de cada trajeto, o que inclui o fornecimento de combustível de aviação, taxas aeroportuárias, encargos de navegação aérea, serviços de processamento em solo (handling), tributos locais e a gestão das reservas, tarifas e comercialização das passagens. O voo é realizado utilizando o número de voo (flight number) e a identidade comercial da empresa contratante.[1]
Características operacionais
[editar | editar código]Um contrato de wet lease possui duração habitual que varia entre 1 e 24 meses. Contratos com durações pontuais ou inferiores a trinta dias são frequentemente classificados como operações de fretamento ad hoc (charter), embora o wet lease também seja considerado, estruturalmente, uma modalidade especializada de charter onde a empresa arrendadora provê os serviços operacionais mínimos (ACMI), enquanto a arrendatária fornece a estrutura de comercialização, distribuição de assentos e os códigos de voo (ao contrário do fretamento tradicional, onde o próprio operador executa o voo sob seu código de chamada original).[1]
Entre as variações contratuais e arranjos operacionais similares ou derivados do wet lease encontram-se os acordos de código partilhado (codeshare), acordos de reserva de blocos de assentos (block seat agreement) e os contratos de compra de capacidade operacional (capacity purchase agreement — CPA).[1]
Motivações e aplicações
[editar | editar código]As companhias aéreas e operadores de viagens recorrem à sublocação de aeronaves em regime de wet lease por diversas razões estratégicas, técnicas, regulatórias ou econômicas:
- Picos de demanda sazonal: Em períodos de alta temporada (como férias de verão ou festas de fim de ano), empresas utilizam o wet lease para ampliar rapidamente sua oferta de assentos sem assumir os custos de longo prazo vinculados à aquisição de novas aeronaves ou à contratação e treinamento de tripulações permanentes.[1]
- Manutenção pesada: Quando aeronaves da frota própria necessitam ser retiradas de serviço para a realização de inspeções obrigatórias de longa duração (heavy maintenance checks ou revisões gerais), os operadores contratam empresas especializadas em ACMI para suprir a indisponibilidade de capacidade e evitar o cancelamento de voos programados.[1]
- Lançamento e teste de rotas: Para avaliar a viabilidade comercial de novos destinos ou mercados intercontinentais com risco financeiro reduzido, companhias arrematam aeronaves — particularmente modelos de longo curso (widebody) — até que a rota amadureça o suficiente para justificar a alocação de frota própria.[1]
- Restrições regulatórias e de segurança: Aeronaves operadas sob regime de wet lease podem ser utilizadas para realizar voos com destino a países ou blocos econômicos onde a companhia contratante (ou o país de registro principal de sua frota) sofre restrições legais ou está incluída em listas de banimento aéreo, uma vez que a aeronave, as licenças dos tripulantes e o certidão de operador aéreo (AOC) pertencem à empresa arrendadora.[3]
Exemplos e contornos políticos
[editar | editar código]No mercado da aviação comercial sul-americana, um caso ilustrativo de aplicação do wet lease para contornar desafios de frota é o acordo operacional entre a LATAM Airlines Group e a companhia espanhola Wamos Air, especializada na sublocação de aeronaves em regime ACMI. Em decorrência da escassez global na cadeia de suprimentos da aviação e da indisponibilidade temporária de aeronaves gerada por um amplo programa de modernização e reconfiguração de cabines (retrofit) em sua frota própria de Boeing 787 Dreamliner, a LATAM recorreu ao fretamento contínuo de aeronaves Airbus A330-200 e tripulações técnicas da Wamos Air para assumir rotas internacionais de longo curso (como voos intercontinentais e regionais saindo de Santiago).[4] Anteriormente, em 2018, arranjo semelhante já havia sido acionado entre as duas empresas durante inspeções de segurança obrigatórias nos motores Rolls-Royce dos jatos chilenos.[4][5]
Além das justificativas logísticas e comerciais, operações de wet lease são ocasionalmente implementadas como ferramentas para contornar embargos diplomáticos, disputas geopolíticas ou diretrizes governamentais sensíveis.
Um caso histórico emblemático envolveu a empresa estatal egípcia EgyptAir. Durante décadas, a companhia foi impedida por políticas governamentais do Egito de operar voos com sua própria identidade visual, marca e número de voo para Israel. No entanto, como a existência de ligações aéreas civis regulares entre o Cairo e Tel Aviv era uma exigência dos termos do Tratado de paz israelo-egípcio de 1979, o governo egípcio criou uma subsidiária dedicada chamada Air Sinai. A empresa operava exclusivamente utilizando aeronaves, pilotos e comissários sublocados em regime de wet lease contínuo da própria EgyptAir, mas sem a exibição dos logotipos ou símbolos da empresa-mãe, contornando a controvérsia política sem violar o tratado diplomático.[6]
Em outubro de 2021, o governo do Egito alterou formalmente sua política diplomática de aviação, permitindo que a EgyptAir assumisse a operação das rotas para o Aeroporto Internacional Ben Gurion sob sua própria bandeira comercial, encerrando a necessidade operacional do arranjo de arrendamento com a Air Sinai.[7][8][9]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 5 6 7 «Aircraft Leasing: ACMI, Dry / Wet Lease Definition» (em inglês). Consultado em 12 de junho de 2007. Arquivado do original em 23 de fevereiro de 2012
- ↑ «Wet lease definition». BusinessDictionary (em inglês). Consultado em 30 de setembro de 2020. Arquivado do original em 30 de setembro de 2020
- ↑ «List of airlines subject to an operating ban or operational restrictions within the European Union» (PDF) (em inglês). 30 de abril de 2011. Consultado em 27 de julho de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 30 de abril de 2011
- 1 2 Ricardo Meier (1 de outubro de 2024). «LATAM vai voar com jatos A330 de terceiros no lugar dos Boeing 787». Airway. Consultado em 27 de julho de 2026
- ↑ «LATAM e Wamos - Acordo de Wet Lease». LATAM Airlines. Consultado em 27 de julho de 2026
- ↑ Yoav Zitun (23 de março de 2011). «Egypt Air removes Israel from map». Ynetnews (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2026
- ↑ «First 'Egyptair' flight lands in Israel». Al Arabiya English (em inglês). 3 de outubro de 2021. Consultado em 27 de julho de 2026
- ↑ Villamizar, Helwing (3 de outubro de 2021). «First Official EgyptAir Flight Lands in Israel». Airways Magazine (em inglês). Consultado em 27 de julho de 2026. Arquivado do original em 21 de outubro de 2021
- ↑ «First official EgyptAir flight lands at Israel airport» (em inglês). Business Insider. 3 de outubro de 2021. Consultado em 27 de julho de 2026. Arquivado do original em 24 de outubro de 2021