Wikipédia:Editores autistas
Esta página é um ensaio. Ensaios são conselhos ou opiniões de um ou mais contribuidores da Wikipédia. Ensaios não são políticas, recomendações e nem informativos. Alguns ensaios representam práticas já bem difundidas na comunidade; outros apenas representam pontos de vista minoritários. |
| Resumindo: Editores no espectro autista podem ter padrões de conexões cerebrais diferentes, mas isso não significa que sejam estúpidos. Entenda as diferenças e tente tirar bom proveito deles! |

A Wikipédia é o pote de mel definitivo! Se um grupo de pesquisadores tivesse recebido a tarefa de criar um ambiente de trabalho ou passatempo projetado especificamente para atrair pessoas no espectro autista, não teriam conseguido fazer algo melhor do que a Wikipédia!
Como acontece com muitas coisas, quando aplicadas ao mundo real, o transtorno do espectro autista talvez nem devesse ser considerado "transtorno" ou "deficiência", já que, na verdade, trata-se apenas de diferenças na forma de processar o pensamento. Atribuir rótulos como transtorno ou deficiência muda a forma como enxergamos essas características — desloca-nos para um paradigma da deficiência, quando na realidade pode ser apenas uma variação, como algumas cores de cabelo ou olhos que são consideradas "incomuns".
Fiação do cérebro
[editar código]O cérebro humano possui milhões e milhões de fibras nervosas e conexões — como interruptores — entre essas fibras. Diferentes áreas do cérebro se especializam em funções distintas. Algumas apresentam extensas redes de fibras (ou fibras altamente ativas), enquanto outras têm conexões mais esparsas (ou menos ativas).
O cérebro de cada pessoa é único. Áreas com uma densidade de conexões acima da média geralmente resultam em habilidades mais desenvolvidas — talentos específicos e até lampejos de genialidade —, enquanto áreas com menos conexões tendem a apresentar desempenho um pouco abaixo da média nessas funções. Tudo isso é perfeitamente normal; pessoas diferentes têm conexões cerebrais diferentes. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas se destacam em matemática, enquanto outras se sobressaem em artes, esportes ou disciplinas como história e geografia, que exigem maior memorização de fatos.
Nosso cérebro é um organismo vivo. Ele pode se adaptar — até certo ponto. Ao aprendermos novas habilidades ou praticarmos para aprimorar as que já temos, o cérebro aumenta a intensidade das conexões e o número de ligações nas áreas responsáveis por essas funções. Ele se assemelha, em parte, a um computador capaz de reconfigurar e adicionar novos periféricos conforme a necessidade. Se alguma região do cérebro sofre danos físicos, outras partes frequentemente conseguem compensar — dentro de certos limites — formando novas rotas neurais para contornar a área afetada (desde que haja o treinamento e suporte adequados).
Ainda assim, predisposições naturais existem. Algumas pessoas têm talentos inatos ou uma maior aptidão para determinadas tarefas. Por isso, mesmo com prática, é improvável que todos desenvolvam todas as habilidades com o mesmo grau de paciência.
Explicação das diferenças
[editar código]Ao usar a metáfora do computador[1] para a estrutura e função do cérebro, a maioria das pessoas (ou seja, aquelas que são "neurotípicas") têm uma fiação muito intensa/ativa nas áreas típicas de seus cérebros e uma fiação muito mais esparsa/inativa em outras áreas, como padrão. Essas são suas "configurações padrão"; é com isso que elas nascem. Pessoas autistas, incluindo aquelas com Asperger, têm uma fiação mais esparsa (ou inativa) em algumas das áreas onde os neurotípicos são fortemente conectados e uma fiação mais intensa (ou mais ativa) — às vezes muito mais intensa — em áreas diferentes. Se a "atividade" dos circuitos em algumas áreas dos cérebros neurotípicos for temporariamente reduzida, eles temporariamente percebem o mundo mais como os autistas.[2][3][4][5][6][7]
As únicas generalizações que podemos fazer são as seguintes:
- Tipicamente, para pessoas autistas, uma das áreas menos ativamente conectadas do que a média é a área que lida com a compreensão inata de algumas interações sociais, bem como com algumas outras funções que são processadas na mesma área. Isso significa que algumas coisas simplesmente "não surgem naturalmente" da maneira que ocorrem em pessoas neurotípicas.
- Normalmente, pessoas autistas têm uma ou mais coisas que "vêm naturalmente" para elas, o que não acontece com neurotípicos; esse não será o mesmo conjunto de talentos para todas as pessoas autistas, pois há muita variedade nisso.
- Normalmente, também há uma diferença muito grande na forma como a linguagem é processada. Pessoas autistas costumam ser programadas para interpretar as coisas de forma muito literal e se concentrar nos detalhes. Elas costumam dizer tudo o que precisa ser dito e esperar que os outros também o façam. Essa é a configuração padrão.
Isso significa que às vezes acabamos nos entendendo mal.
Imagine três pessoas, todas ouvindo a mesma música, mas em sistemas diferentes. O sistema de uma pessoa tem os agudos aumentados e os médios e graves abaixados; o de outra tem os médios aumentados, mas os agudos e os graves abaixados; a terceira tem os graves aumentados, mas os médios e os agudos abaixados. É como ter duas pessoas autistas e um neurotípico na mesma sala. É a mesma música que todos estão ouvindo, mas soa completamente diferente para cada um deles, e eles não conseguem evitar o fato de que soa diferente. Eles não conseguem ajustar seus ouvidos! Se nenhum deles perceber que a música é balanceada de forma diferente para cada um deles, cada um vai acabar pensando que os outros dois são estúpidos, teimosos, preguiçosos, loucos ou o que quer que seja, por não serem capazes de entender o que eles pessoalmente ouvem de forma tão óbvia e clara. (ver também: Os Cegos e o Elefante)
Quando entendemos essas diferenças, fica mais fácil não apenas lidar com elas, mas fazer bom uso delas.
Pessoas autistas podem ser capazes de concentração e foco extremamente intensos em coisas nas quais outras pessoas talvez não se fixem tanto. Isso tem um lado positivo e um lado negativo.
A desvantagem é que pode ser muito difícil para contribuidores autistas largarem o controle e deixarem algo ir — muito, muito mais difícil do que para neurotípicos; como ter uma sede incontrolável e ouvir que não podem beber o que está à sua frente. Isso não é desculpa para continuar fazendo isso, é apenas algo que os usuários autistas precisam estar cientes e com o qual precisam ter cuidado especial. Outros contribuidores devem ajudá-los a deixar ir, lembrando-os gentil e claramente sobre isso; talvez encontrando algo muito mais interessante para eles se concentrarem.
A vantagem é que um editor autista "em missão" pode ser um pesquisador incansavelmente dedicado e um solucionador de problemas. Quando se trata de qualquer tarefa em que obsessivos-compulsivos possam se destacar, autistas também valem seu peso em ouro. Editores autistas podem produzir, do zero, um trabalho com qualidade de artigos destacasos em apenas alguns dias se se dedicarem a isso, e se se dedicarem, podem fazê-lo facilmente.
Autistas podem ter um tipo de memória fenomenal para armazenamento de dados. A desvantagem é que memórias de disputas passadas e bagagens emocionais da vida real podem atrapalhar. A vantagem é que, depois de se familiarizarem com as políticas da Wikipédia, eles as compreendem incrivelmente bem e podem inventar inúmeras maneiras de explicá-las, o que é incrivelmente útil ao lidar com autistas recém-chegados. Uma das melhores maneiras de um neurotípico treinar um autista recém-chegado é ter um colaborador autista experiente e bem versado disponível para ajudá-lo.
Lidando com isso na Wikipédia
[editar código]Algumas pessoas — autistas ou não — não têm perfil para contribuir na Wikipédia. Vândalos, trolls e editores abusivo ou perturbadores podem ser bloqueados, e o autismo não é uma justificativa para comportamentos inaceitáveis.
Na realidade, é bastante provável que pessoas autistas representem uma porcentagem maior da comunidade da Wikipédia do que da população em geral. A Wikipédia é, por assim dizer, um verdadeiro pote de mel para pessoas autistas.
Isso tem dois lados:
- Se você é neurotípico, esteja ciente de que é mais provável encontrar pessoas autistas na Wikipédia do que em outras esferas da vida. Procure aprender a colaborar de forma produtiva com elas.
- Se você é autista, saiba que é tão responsável por suas ações quanto qualquer outra pessoa. Adotar uma postura de vitimização não o isentará das consequências por comportamentos inadequados. A comunidade é ampla e é possível perceber quando alguém tenta usar uma condição neurológica (ou outros fatores) como desculpa para atitudes problemáticas — como edições tendenciosas ou comportamento hostis.
Todos os editores — neurotípicos ou autistas — devem estar dispostos a buscar formas alternativas e criativas de explicar as coisas, lembrando que os processos de pensamento que parecem naturais para uns podem não ser para outros.
- Estabelecer paralelos que ativem diferentes áreas do cérebro pode ser muito útil. Relacionar um conceito a sons, cores ou formas pode fazer uma enorme diferença.
- Evite ambiguidades sempre que possível. Pessoas autistas costumam ter interpretações muito literais, e é tão fácil compreender algo de forma errada quanto de forma correta — sendo muito difícil "desfazer" a interpretação equivocada. Seja claro: muitos conflitos surgem de simples mal-entendidos de boa-fé.
- Vale sempre reformular uma explicação ou solicitar outra abordagem. A página de resolução de disputas pode ser um bom lugar para encontrar pessoas capazes de apresentar explicações alternativas que ajudem a tornar o assunto mais compreensível.
- Se você é neurotípico, não deixe informações importantes subentendidas — explicite-as. Pessoas autistas podem ter dificuldade para entender por que certos dados são omitidos. Se você não disser nada, elas podem presumir que não há mais nada a ser dito.
- Não atribua significados ocultos ao que um editor autista disser. É muito provável que ele esteja dizendo exatamente o que quer dizer — nem mais, nem menos.
Fatos e informações podem ter valor emocional significativo para pessoas autistas — são como tesouros, algo que pode ser ao mesmo tempo reivindicado e compartilhado. Como muitas delas veem o conhecimento e a memória como seus maiores pontos fortes, podem ficar profundamente abaladas ao descobrir que algo que acreditavam saber está incorreto. Ter um de seus "fatos" refutado pode ser tão perturbador quanto dizer a uma criança que o Papai Noel não existe, ou contar a alguém que sua casa foi roubada. Nesses momentos, elas podem se sentir enganadas ou roubadas.
Essas situações podem ser emocionalmente intensas, então seja diplomático ao corrigir equívocos. Uma boa forma de lidar com uma ideia incorreta é compartilhar descobertas mais recentes na área em questão, oferecendo informações mais atualizadas e precisas que elas possam usar e repassar. Essa pequena mudança de abordagem pode fazer toda a diferença: você deixa de ser um "opositor" que está "atacando" o conhecimento da pessoa e se torna um aliado que a está ajudando a expandi-lo. Pode ser tão impactante quanto a diferença entre queimar a casa de alguém... ou comprar uma nova para ela.
Compreensão e tolerância
[editar código]É importante que pessoas não autistas compreendam que transtornos do espectro autista que não afetam a capacidade intelectual (ou a percepção dela) não representam uma "deficiência" nas pessoas que convivem com esses transtornos. O processamento neurotípico e o autista são apenas formas diferentes de funcionamento neurológico.[8]
Comparados aos neurotípicos, autistas de alto funcionamento e pessoas com Síndrome de Asperger apresentam "dificuldades" principalmente na compreensão intuitiva de interações sociais e no processamento da linguagem. Por outro lado — e com igual validade — neurotípicos apresentam limitações em relação a autistas quando se trata de processamento, indexação e recuperação rápida de informações. Cada grupo possui áreas em que apresenta dificuldades em comparação ao outro.
Da mesma forma que autistas podem parecer — para neurotípicos — ter habilidades sociais e linguísticas abaixo do esperado, neurotípicos podem parecer — para autistas de alto funcionamento, inclusive aqueles com traços de savants — apresentar baixa capacidade de processamento de dados. É por isso que frequentemente nos frustramos uns com os outros: é extremamente difícil para um grupo acreditar que o outro não esteja sendo intencionalmente provocador, evasivo ou até mesmo desonesto (ou "deficiente").
Uma das melhores analogias é comparar os dois perfis a dois tipos distintos de computadores: um deles tem uma interface de usuário incrivelmente intuitiva, mas menor capacidade de processamento de dados; o outro possui imenso poder de armazenamento e processamento, mas uma interface pouco amigável (comparativamente falando). Trata-se apenas de diferentes "softwares" pré-instalados — não de maior ou menor capacidade.
Há um grande mito, amplamente difundido entre neurotípicos, sobre o que o espectro autista realmente representa. Esse mito é fonte de inúmeros mal-entendidos, e apenas a educação e a conscientização podem combatê-lo. Em resumo: por favor, não associem o autismo a deficiência ou limitação intelectual. Nem autistas de alto funcionamento nem neurotípicos são "inferiores" uns aos outros — somos apenas diferentes quanto ao foco e à forma como nossos "processadores" operam.
Ver também
[editar código]Referências
- ↑ Epstein, Robert (18 de maio de 2016). Weintraub, Pam, ed. «Your brain does not process information and it is not a computer»
- ↑ Koenig; Tsatsanis; Volkmar (2001). The development of autism: Perspectives from theory and research. Mahwah, NJ: Erlbaum. pp. 81–101. ISBN 9781138866614
- ↑ Minshew, NJ (1996). «Brief report: Brain mechanisms in autism: Functional and structural abnormalities». Journal of Autism and Developmental Disorders. 26 (2): 205–209. PMID 8744486. doi:10.1007/BF02172013
- ↑ Sugranyes, Gisela (2011). «Autism Spectrum Disorders and Schizophrenia: Meta Analysis of the Neural Correlate of Social Cognition». PLOS ONE. 6.10 (E25322): e25322. Bibcode:2011PLoSO...625322S. PMC 3187762
. PMID 21998649. doi:10.1371/journal.pone.0025322
- ↑ Dapretto, M.; Davies; M.S.; Pfeifer; J.H.; Scott; et al. (2006). «Understanding emotions in others: Mirror Neuron dysfunction in children with autism spectrum disorder». Nature Neuroscience. 9 (1): 28–30. PMC 3713227
. PMID 16327784. doi:10.1038/nn1611 - ↑ Snyder; et al. (2003). «Savant-like skills exposed in normal people by suppressing the left fronto-temporal lobe» (PDF). Journal of Integrative Neuroscience. pp. 149–158. Consultado em 7 de abril de 2012
- ↑ Snyder; et al. (2006). «Savant-like numerosity skills revealed in normal people by magnetic pulses» (PDF). Perception. pp. 837–845. Consultado em 7 de abril de 2012
- ↑ Baron-Cohen S (2002). «Is Asperger syndrome necessarily viewed as a disability?». Focus Autism Other Dev Disabl. 17 (3): 186–91. doi:10.1177/10883576020170030801A preliminary, freely readable draft, with slightly different wording in the quoted text, is in: Baron-Cohen S (2002). «Is Asperger's syndrome necessarily a disability?» (PDF). Cambridge: Autism Research Centre. Consultado em 2 de dezembro de 2008. Arquivado do original (PDF) em 17 de dezembro de 2008