Zé Pelintra

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Zé Pelintra
Imagem de Zé Pelintra
Outro(s) nome(s) Mestre do Catimbó
Nome nativo José Pereira dos Anjos
Clã Linha dos Malandros
Símbolo comidas nordestinas, cerveja clara, cigarro, moedas, cartas de baralho
Dia 28 de outubro
Cor(es) branco e vermelho
Região Brasil
Religiões Catimbó e Umbanda


Zé Pelintra é uma falange[1] de entidades de luz originária da crença sincrética denominada Catimbó, surgida na Região Nordeste do Brasil. O Zé Pelintra também é comumente "incorporado" em terreiros de Umbanda, tendo seu culto difundido em todo o Brasil. Nessa religião, é considerado parte da linha de trabalho dos malandros.[1]

O Zé Pelintra é uma das mais importantes entidades de cultos afro-brasileiros, especialmente entre os umbandistas. É considerado o espírito patrono dos bares, locais de jogo e sarjetas, embora não alinhado com entidades de cunho negativo, é uma espécie de transcrição arquetípica do "malandro".[2]

Descrição[editar | editar código-fonte]

No seu modo de vestir, divergem-se algumas formas do típico Zé Pelintra: na mais comum, é representado trajando terno completo na cor branca, sapatos de cromo, gravata grená ou vermelha e chapéu panamá de fita vermelha ou preta.[2] Sua roupa assemelha-se aos "zoot suit", usada nos Estados Unidos por negros e latinos nas década de 1930[3] e 1940.[4]

Também é possível utilizar roupas de algodão comumente usadas entre os escravos e chapéu de palha diferenciando-se apenas por seu lenço vermelho ou cachecol vermelho e uma fita vermelha em seu chapéu, bem como porta sua bengala típica.

Já na Jurema, é representado de camisa comprida branca ou quadriculada com mangas dobradas e calça branca dobrada nas pernas, sem sapatos e com um lenço no pescoço nas cores vermelha ou outras, traz na mão sua bengala e seu cachimbo.

Incorporados, costumam consumir bebidas alcoólicas.[5]

História[editar | editar código-fonte]

Contam que nasceu no povoado de Bodocó, sertão pernambucano, próximo ao município do Exu. Fugindo da terrível seca que assolava a cidade a família de José dos Anjos rumou para o Recife em busca de uma melhor vida, mas o menino aos três anos perdeu a mãe. Cresceu, então, no meio da malandragem, dormindo no cais do porto e sendo menino de recados de prostitutas. Sua estatura alta e forte granjeou o respeito dos circunstantes. Sua morte seria um mistério. Aos 41 anos foi encontrado morto sem nenhum vestígio de ferimento.

Uma outra versão do mito alude a José Gomes da Silva, nascido no interior de Pernambuco, um negro forte e ágil, grande jogador e bebedor, mulherengo e brigão. Manejava uma faca como ninguém, e enfrentá-lo numa briga era o mesmo que assinar a própria sentença de morte. Os policiais já sabiam do perigo que ele representava. Dificilmente encaravam-no sozinhos, sempre em grupo e mesmo assim não tinham a certeza de não saírem bastante prejudicados das pendengas em que se envolviam.

Não era mau de coração, muito pelo contrário, era bom, principalmente com as mulheres, as quais tratava como rainhas.

Zé Pretinho, um dos representantes dos Malandros que se veste de preto

Sua vida era a noite, sua alegria as cartas, os dados a bebida, a farra, as mulheres e brigas. Jogava para ganhar, mas não gostava de enganar os incautos, estes sempre dispensava, mandava-os embora, mesmo que precisasse dar uns cascudos neles. Mas ao contrário, aos falsos espertos, os que se achavam mais capazes no manuseio das cartas e dos dados, a estes enganava o quanto podia e os considerava os verdadeiros otários. Incentivava-os ao jogo, perdendo de propósito quando as apostas ainda eram baixas e os limpando completamente ao final das partidas. Isso bebendo Aguardente, Cerveja, Vermouth, e outros alcoólicos que aparecessem.

Apesar de ter importância religiosa tanto para os praticantes de Catimbó quanto de Umbanda, Zé Pelintra é entidade originária do primeiro.[6] A absorção da entidade de uma religião por outra se processou quando os grandes centros urbanos do sudeste do Brasil passaram a englobar antigas áreas rurais e estimular a migração de trabalhadores de outras partes do país, em seu processo de desenvolvimento.

Culto[editar | editar código-fonte]

Zé Pelintra é invocado quando seus seguidores precisam de ajuda com questões domésticas, de negócios ou financeiras e é reputado como um obreiro da caridade e da feitura de obras boas. No catimbó, é considerado um "mestre juremeiro". Já na Umbanda, Zé Pelintra é um guia pertencente à linha do Povo da Malandragem. Por vezes, incorpora em giras de exus[2] ou em giras de pretos-velhos, embora não seja de nenhuma dessas duas linhas de trabalho.

Majoritariamente os seguidores de Zé Pelintra concentram-se nos ambientes urbanos de Rio de Janeiro e São Paulo, mas eles também podem ser encontrados no Nordeste do Brasil, entre os "catimbozeiros", e nas áreas rurais de praticamente todo o país.[2]

Zé Pelintra, tanto na Umbanda, como no Catimbó, é tido como protetor das classes menos favorecidas em geral, tendo ganhado o apelido de "Advogado dos Pobres", pela patronagem espiritual e material que exerce. É comum achá-lo em festas e exposições, sempre rindo.

Homenagens[editar | editar código-fonte]

O músico e compositor Itamar Assumpção escreveu uma canção sobre Zé Pelintra, em 1988, em parceria com Wally Salomão, intitulada “Zé Pilintra”.[7] Em 2005, foi homenageado no samba-enredo da escola de samba Unidos de Cosmos, no refrão que diz "o meu tambor, vai ecoar, boa noite Zé Pelintra, tenho fé vou lhe exaltar".[8] Este samba passou a ser cantado todos os anos antes do início do desfile da escola, bem como em festividades na quadra.

Referências

  1. a b www.genuinaumbanda.com.br. «Zé Pelintra». Consultado em 3 de novembro de 2018 
  2. a b c d Mario Teixeira de Sá Júnior. «Malandros e Baianos: A sacralização do humano no panteão umbandista do século XX» (PDF). Consultado em 3 de novembro de 2018 
  3. Face of the gods: art and altars of Africa and the African Americas. [S.l.]: Museum for African Art. 1993. 98 páginas. 9780945802136 
  4. Nei Lopes (2004). Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. [S.l.]: Selo Negro. 697 páginas. 9788587478214 
  5. Mariana Balan (11 de Junho de 2017). «Uma Questão de Fé - Meu encontro com Zé Pelintra». Consultado em 3 de novembro de 2018 
  6. «Origens do catimbó». 4 de setembro de 2005. Consultado em 13 de maio de 2010 
  7. «Rita Amaral e Vagner Gonçalves da Silva - Foi Conta pra Todo Canto». Consultado em 26 de maio de 2010 
  8. Galeria do Samba. «Carnaval 2005». Consultado em 3 de novembro de 2018 
Bibliografia
  • Augras, M. (1983) O duplo e a metamorfose: A identidade mítica em comunidades Nagô. Petrópolis: Vozes.
  • Bardin, L. (1994) Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70.
  • Bastide, R. (1978) O Candomblé da Bahia. Rito Nagô. (2ª ed.) São Paulo: Ed. Nacional; Brasília, INL. (Coleção Brasiliana, V. 313).
  • Birman, P. (1985) O que é Umbanda. (3ª ed.) São Paulo: Brasiliense. (Coleção Primeiros Passos, V. 97).
  • _________. (1991) Relações de Gênero, Possessão e Sexualidade. Phisis. A representação na Saúde Coletiva. 1(2), 37-57.
  • _________. (1995) Fazer estilo criando gênero: Possessão e diferenças de gênero em terreiros de Umbanda e Candomblé no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, Ed. UERJ.
  • Damatta, R. (1991) A casa & a rua: Espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan.
  • __________. (1997) Carnavais, Malandros e Heróis: Para uma sociologia do dilema brasileiro. (6ª ed.) Rio de Janeiro: Rocco.
  • Del Priore, M. (1993) Ao sul do corpo: Condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: Edunb.
  • Magnani, J.G.C. (1986) Umbanda. São Paulo: Ática. (Série Princípios, V. 34).
  • Meyer, M. (1993) Maria Padilha e toda a sua quadrilha: De amante de um rei de Castela a Pomba-Gira de Umbanda. São Paulo: Duas Cidades.
  • Montero, P. (1985) Da doença à desordem: A Magia na Umbanda. Rio de Janeiro: Graal. (Coleção Biblioteca de Saúde e sociedade, V. 10).
  • Mott, L. (1988) Escravidão, homossexualidade e demonologia. São Paulo: Ícone.
  • Negrão, L.N. (1996) Entre a cruz e a encruzilhada: Formação do Campo Umbandista em São Paulo. São Paulo: EDUSP.
  • Nogueira, C.R.F.(2000) O Diabo no imaginário cristão. Bauru: EDUSC.
  • Ortiz, R. (1991) A morte branca do feiticeiro negro: Umbanda e Sociedade Brasileira. (2ª ed.) São Paulo: Brasiliense.
  • Parker, R.G. (1991) Corpos, Prazeres e Paixões: A cultura sexual no Brasil contemporâneo. (2ª ed.) São Paulo: Best Seller.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]