Ávaris
Ávaris
ود بانقا | |
|---|---|
| Localização atual | |
| Localização do sítio no Egito | |
| Coordenadas | 30° 47′ 14,7″ N, 31° 49′ 16,9″ L |
| País | |
| Região | 100-140 kmkm ao nordeste do Cairo |
| Localização | margem oriental do Nilo |
| Dados históricos | |
| Civilização | Antigo Egito |
| HIERÓGLIFO | |||||
| |||||
| Hut-waret (ḥw.t-wˁr.t) |
Ávaris[1] (em egípcio: ḥw.t wꜥr.t, às vezes transliterado como hut-waret; em grego antigo: Αὔαρις, Auaris; em grego: Άβαρις, Ávaris; em árabe egípcio: اڤاريس, Ávaris) foi a capital dos hicsos no Antigo Egito.[2][3] A cidade localizava-se no sítio arqueológico atualmente conhecido como Tell el-Dabʿa, no nordeste do Delta do Nilo.
Com a migração do principal curso do rio Nilo para leste, Ávaris passou a ocupar uma posição estratégica no centro dos entrepostos comerciais do delta, o que a tornou uma capital de grande importância econômica e comercial. A cidade foi habitada aproximadamente desde o século XVIII a.C. até ser conquistada pelo faraó Amósis I.[4]
Etimologia
[editar | editar código]O nome da cidade na língua egípcia do II milênio a.C. era provavelmente pronunciado /ḥaʔət-waʕrəʔ/ (“Casa da Região”), uma designação que indica sua função como capital de uma divisão administrativa do território (wʕr.t). Alternativamente, Clemente de Alexandria mencionou essa cidade com o nome de Atíria.[5]
Escavações
[editar | editar código]Em 1885, o suíço Édouard Naville realizou as primeiras escavações na região de Tell el-Dabʿa. Entre 1941 e 1942, o egiptólogo egípcio Labib Habachi foi o primeiro a propor que o sítio poderia ser identificado com a antiga cidade de Ávaris. Posteriormente, entre 1966 e 1969 e novamente a partir de 1975, as escavações passaram a ser conduzidas pelo Instituto Arqueológico Austríaco.[6] Em 2010, com o uso de tecnologia de imageamento por radar, os pesquisadores conseguiram identificar o traçado da antiga cidade, incluindo ruas, casas, um porto e até um braço secundário do rio Nilo que atravessava o assentamento.[7]
Atualmente, o sítio de Tell el-Dabʿa encontra-se em ruínas e cobre uma área de cerca de 2 quilômetros quadrados. No entanto, as escavações revelaram que, em seu auge, o local foi um importante centro comercial, com um porto movimentado capaz de receber mais de 300 embarcações durante uma única temporada de comércio. Entre as descobertas mais notáveis estão artefatos encontrados em um templo erguido durante o período hicso, que incluem objetos provenientes de diversas regiões do mundo egeu. O templo apresenta, inclusive, pinturas murais de estilo minoico, semelhantes às do Palácio de Cnossos, em Creta. A oeste do templo, também foi escavada uma grande tumba de tijolos de adobe, onde foram encontrados bens funerários, como espadas de cobre, reforçando a importância e a riqueza do local em seu período de maior prosperidade.[8]
História
[editar | editar código]Fundação
[editar | editar código]O sítio foi fundado originalmente por Amenemés I em um braço oriental do rio Nilo, no delta. Sua proximidade com a Ásia fez da cidade um destino atraente para imigrantes asiáticos, muitos dos quais se integraram à cultura egípcia, adotando práticas locais como o uso de cerâmica egípcia. Ainda assim, esses grupos preservaram diversos elementos de suas próprias tradições, perceptíveis nos sepultamentos de origem asiática, onde foram encontrados, por exemplo, armamentos de procedência levantina. Evidências arqueológicas indicam ainda que um dos distritos palacianos foi abandonado durante a XIII dinastia, possivelmente em decorrência de uma epidemia.[9]
Conquista hicsa
[editar | editar código]No século XVIII a.C., os hicsos conquistaram o Baixo Egito e estabeleceram Ávaris como sua capital. Camés, o último faraó da XVII Dinastia, chegou a sitiar a cidade, mas não conseguiu derrotar os hicsos nem retomá-la.[9]
Reconquista egípcia
[editar | editar código]A reconquista de Ávaris foi realizada por Amósis I, que derrotou definitivamente os hicsos. Evidências arqueológicas, como artefatos de estilo cananeu datados do período tutmósida ou do Império Novo, indicam que uma parcela significativa da população semita da cidade permaneceu no local mesmo após a retomada egípcia.[10]
Com a ascensão da XVIII Dinastia, os faraós transferiram a capital para Tebas. O complexo palaciano de Ávaris foi então brevemente abandonado, embora áreas como o Templo de Seth e a região conhecida como G6 tenham permanecido continuamente ocupadas. Tudo indica que, após o reinado de Amenófis II, Ávaris deixou de exercer seu papel como centro político, passando por um período de hiato que se estendeu até o final da XVIII Dinastia.[11]
Abandono
[editar | editar código]Durante o reinado de Ramessés II, foi construída a cidade de Pi-Ramessés, cerca de 2 quilômetros ao norte, o que levou à substituição definitiva de Ávaris. A antiga capital acabou sendo abandonada no período raméssida. Partes do antigo sítio passaram a ser utilizadas como cemitério e área funerária pelos habitantes de Pi-Ramessés, enquanto uma grande porção do local foi convertida em uma importante base naval. Apesar disso, o topônimo “Porto de Ávaris” continuou em uso para designar o antigo porto da cidade ao longo de todo o período raméssida.[12]
A nova cidade de Pi-Ramessés tornou-se um importante centro administrativo e militar do Egito. Ainda assim, o nome Ávaris não caiu no esquecimento: ele é mencionado no Papiro Sallier I, datado do final do século XIII a.C., e também aparece na obra de Manetão, do século III a.C., citada por Flávio Josefo em Contra Apião (1.14).
Referências
- ↑ Silva 1996, p. 99.
- ↑ Candelora, Danielle. «The Hyksos». American Research Center in Egypt. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- ↑ Roy, Jane (2011). The Politics of Trade: Egypt and Lower Nubia in the 4th Millennium BC. [S.l.]: BRILL. pp. 291–292. ISBN 978-90-04-19610-0
- ↑ Grant, Michael (2005). The rise of the Greeks. [S.l.]: Barnes & Noble Books. ISBN 978-0-7607-7000-9
- ↑ "E suas observações são no sentido seguinte: Amósis, que viveu na época do argivo Ínaco, derrubou Atíria, como Ptolomeu de Mendes [via Maneto] relata em sua Cronologia." – Clemente de Alexandria 1.22
- ↑ «Tell el-Dab'a - History». Tell el-Dab'a-Homepage. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- ↑ «Ancient Egyptian city located in Nile Delta by radar». BBC News. 21 de junho de 2010. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- ↑ Booth, C. (2005). The Hyksos Period in Egypt. [S.l.]: Shire. ISBN 9780747806387
- ↑ a b van de Mieroop 2021, p. 124-5.
- ↑ Manfred Bietak (ed.). «The Aftermath of the Hyksos in Ávaris» (PDF). Tel Aviv University. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- ↑ «The harbour of Tell el-Dabʿa». Österreichische Akademie der Wissenschaften. Consultado em 18 de dezembro de 2025
- ↑ Potts 2018, p. 20.
Bibliografia
[editar | editar código]- Silva, Alberto da Costa (1992). A Enxada e a Lança - A África Antes dos Portugueses. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira Participações S.A. ISBN 978-85-209-3947-5
- van de Mieroop, Marc (2021). A History of Ancient Egypt. Nova Jersey: Wiley-Blackwell. ISBN 978-1405160711
- Potts, Timothy (2018). Beyond the Nile: Egypt and the Classical World. Los Angeles: J. Paul Getty Museum. p. 360. ISBN 978-1606065518

