Biogeografia da região andina

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A América do Sul atualmente possui uma diversidade resultante de um longo processo histórico marcado por mudanças climáticas, glaciações e períodos de isolamento geográfico, bem como a quebra desse isolamento e flutuações no nível do mar. Esses fatores guiaram as mudanças na paisagem e, por consequência, na composição da biota sulamericana.

Devido a todos esses processos de isolamento e conexão, postula-se que a biota da América do Sul tenha uma origem híbrida.[1] Sendo formada por um componente austral/meridional, que estaria relacionado a outras áreas meridionais como Austrália, Tasmânia e Nova Guiné, e um componente tropical, relacionado às biotas da África e da América do Norte.Essas duas biotas sulamericanas possuem características claras que as diferenciam, sendo evidenciadas nas maiorias das regionalizações biogeográficas do continente desde o século XIX por autores como Philip Lutley Sclater e Alfred Russel Wilson. Apesar de vários autores reconhecerem a divisão, os limites de cada região variam de um autor para outro. Morrone[2] propôs a divisão em uma biota Andina, referente à porção meridional do continente, e uma biota Neotropical, compreendendo as áreas tropicais e relacionadas às biotas norte-americanas e africanas, além dessa divisão, propôs também a existência de uma zona de transição entre as regiões, contendo tanto elementos neotropicais como elementos andinos.


Caracterização da região Andina[editar | editar código-fonte]

A região Andina estende desde o Chile Central na direção do sul, passando pela Patagônia e Terra do Fogo. Dentro dessa região, Morrone[3], identificou três biotas notavelmente diferentes entre si, tanto na composição taxonômica quanto na ecossistêmica, são elas: a chilena central, a subantártica e a da estepe patagônica ou erêmica. Apesar das diferenças notáveis atualmente, se voltarmos no tempo geológico essas biotas tornam-se indistinguíveis, comprovando que têm uma origem comum.


A biota da subregião central chilena estende-se entre 30 e 37º S de latitude. A vegetação é xérica do tipo matorral mediterrâneo e alterna-se com florestas de baixa altura. Na subregião subantártica encontram-se as florestas temperadas de ambos os lados das cadeias do sul dos Andes, as Ilhas Juan Fernández, no Pacífico e ilhas subantárticas como as Maldivas (Falklands). A presença de florestas constituídas pelo gênero Nothofagus é característica deste bioma. As espécies do gênero variam conforme a latitude e a altitude ao longo dos Andes e abaixo de 35ºS na Argentina e no Chile. A biota patagônica ou erêmica compreende a região do sul de Mendoza, na Argentina, até o norte da Terra do Fogo, incluindo o Rio Negro. A vegetação é de estepe arbustiva e a família com maior número de endemismos é Asteraceae.

A reconstrução da história de uma região biogeográfica não é uma tarefa simples. Uma região é reconhecida pela presença de determinados táxons e por suas características fisionômicas, estas são influenciadas por fatores geográficos, geológicos, climáticos etc. Nenhum dos componentes que permitem reconhecer uma região mantém-se estável ao longo do tempo, cada qual tem sua própria taxa de mudança, culminando em um ponto em que nenhuma das características que identificavam uma região é reconhecível.

Evolução Geobiótica[editar | editar código-fonte]

Para entender as características de cada subregião e da região Andina como um todo é preciso voltar no tempo geológico e observar quais eventos levaram a unidade à sua conformação atual. Para essas inferências são utilizadas informações geológicas e paleontológicas, principalmente de plantas vasculares e mamíferos, dois grupos com grande registro no Cenozóico da América do Sul. Os primeiros mamíferos placentários e marsupiais no continente foram registrados no Paleoceno[4]. Nesse mesmo período, as plantas com fores se tornaram dominantes nos ambientes continentais.

Paleoceno[editar | editar código-fonte]

A atividade tectônica na América do Sul ao longo do Mesozóico e do Cenozóico era controlada por um sistema de subducção na margem ocidental e expansão na margem oriental, onde está localizada a Cordilheira Centro Atlântica. Esses eventos foram muito influentes para a porção sul, direcionando as mudanças climáticas, a evolução das paisagens e a composição da biota. Durante o Paleoceno Inferior ocorreu a formação do Mar Salamanquense, que estendia-se desde o extremo sul da Patagônia até a região onde hoje encontra-se o Peru, devido a ausência de grandes barreiras topográficas. Essa formação dividiu o continente em Norte Gondwânico e Sul Gondwânico. O Mar Salamanquense regride durante o Paleoceno Médio, restringindo-se ao sul da Patagônia e a Terra do Fogo, os territórios antes cobertos por ele formam grandes planícies aluviais e bacias de lagos. Ao longo do Paleoceno, América do Sul e Antártica permaneceram unidas, além disso, o outro extremo antártico estava conectado à Austrália, permitindo o intercâmbio de fauna e flora entre essas regiões. Na Patagônia, em concordância com a alta temperatura dos oceanos, predominavam florestas tropicais e os mamíferos dominantes eram insetívoros-frugívoros ou ramoneadores.


Eoceno[editar | editar código-fonte]

No Eoceno Médio os primeiros glaciais do tipo Alpino foram registrados na antártica, e no Eoceno Superior, foram registradas deformações tectônicas correspondentes a Fase Inca do soerguimento dos Andes. Na transição Eoceno-Oligoceno observa-se a substituição da flora tropical por uma mais temperada, com expansões das florestas de Nothofagus e o aparecimento de táxons comuns de ambientes xéricos. Na mastofauna desse período ainda notava-se o domínio dos ramoneadores, mas houve um aumento na diversidade de mixed-feeders e de pastadores. Durante essa transição o Mar da Tasmânia abre-se na Antártica e a mudança do fluxo das águas na região acarreta numa diminuição da temperatura e do nível do mar.

Oligoceno[editar | editar código-fonte]

Apesar da relativa calma tectônica durante o Oligoceno, as modificações na convergência das placas de Nazca e Sul-Americana provocaram a reativação da atividade vulcânica no arco andino. A atividade magmática ocorreu em grandes áreas da Argentina central, Bolívia e Peru, mas foi escassa no sul da Argentina e no Chile. Uma nova transgressão marinha ocorreu e o Mar Patagônico cobriu as mesmas áreas que foram cobertas pelo Mar Salamanquense no Cretáceo e no Paleoceno Inferior. A separação da Austrália da Antártica no limite Eoceno-Oligoceno provocou o surgimento de uma corrente de água fria em torno da Antártica, iniciando a glaciação no leste desse continente. A flora no Oligoceno Superior começou a tomar forma similar a de hoje, com a presença de formações xerofíticas nos ambientes costeiros e manchas de vegetação aberta no interior, apesar da presença de florestas notofágaceas, araucárias e podocarpáceas na região da Patagônia. A comunidade de mamíferos do Oligoceno Superior passou a ser dominada pelos pastadores, apesar da alta diversidade de ramoneadores e mixed-feeders, essa distribuição permite inferir que as comunidades foram desenvolvidas em uma vegetação de savana arborizada.

Mioceno[editar | editar código-fonte]

No Mioceno o aumento na taxa de subducção entre as placas de Nazca e Sul-Americana tiveram alto impacto sobre a biota e o clima, diferenciando a biota ocidental da oriental no continente e resultando na diferenciação da região andina. Nesse período houve mais uma glaciação na Antártica (Mi1) e a definiu-se uma sazonalidade climática na Patagônia. Do Mioceno Inferior ao Médio a temperatura do mar aumentou em 2º C. No Mioceno Médio e Superior uma nova transgressão marinha ocorreu, o Mar Paranaense. A conclusão da camada de gelo na Antártica, junto com o aumento no gradiente de temperatura entre o Equador e os polos levou a rápida redução da temperatura e da precipitação em nível global. As comunidades vegetais caracterizaram-se pelo aumento na abundância de táxons xerofíticos, expandindo a zona árida na Patagônia e retraindo as florestas à encosta ocidental dos Andes. A presença de primatas na Patagônia é evidencia de que os climas quentes e ambientes florestados persistiram mesmo nas porções mais austrais da região. Mas durante o Mioceno Superior os mamíferos relacionados a ambientes florestais extinguiram-se, tornaram-se escassos ou desapareceram da Patagônia, e a mastofauna foi dominada por pastadores e mixed-feeders, com baixa diversidade de ramoneadores e frugívoros. Essa mudança seria uma resposta à passagem de savanas-parque para estepes e pastagens.

Plioceno e Pleistoceno[editar | editar código-fonte]

Na transição Mioceno-Plioceno, o recuo do Mar Paranaense deu início a “Idade das planícies austrais”, grandes formações que estendiam-se desde o norte da Patagônia até o porção superior da bacia do Amazonas. Essa fase termina com o início da Fase Diaguita da orogenia andina, que eleva a Cordilheira Central da Argentina e do Chile. Essa elevação intensificou o efeito da “Zona de Sombra de Chuva”, culminando em áreas áridas entre a Cordilheira Central e as Serras Pampeanas, no leste da Argentina, esse efeito é o principal responsável pela diferenciação da região andina. No Plioceno Superior o fechamento do Ístimo do Panamá altera a circulação das águas oceânicas e auxilia a formação da corrente circum-Antártica. Por volta de 2,3 Ma foram registradas glaciações na Patagônia. No Pleistoceno os ciclos glaciares produziram expansões recuos dos ambientes áridos e úmidos, resultando na interligação da biota de ambientes abertos. Ao longo dos Andes orientais formou-se um corredor de savanas, permitindo a conexão das estepes do sul da Argentina às pradarias colombianas. As florestas expandiram-se inversamente aos ambientes abertos, ou seja, quando estes se retraíam durante os períodos interglaciais quentes e úmidos. O registro de mamíferos para o Plioceno-Pleistoceno na Patagônia é muito pobre, provavelmente devido a predominância de agentes de erosão sobre os depósitos, decorrência da eleveção dos Andes.

Referências

  1. Crisci et al. 1991. Historical Biogeography of southern South America. Sys Zool, v. 40, p. 152-171.
  2. Morrone, J.J. 1994. Distributional patterns of Rhytirrhinini (Coleoptera: Curculionidae) and the historical relationships of the Andean provinces. Gob. Ecol. Biogeog. Lett., v.4, p. 188-194.
  3. Morrone, J.J. 1994. Distributional patterns of Rhytirrhinini (Coleoptera: Curculionidae) and the historical relationships of the Andean provinces. Gob. Ecol. Biogeog. Lett., v.4, p. 188-194.
  4. Posadas & Ortiz Jaueguizar. 2011. cap11. In: Carvalho & Almeida. Biogeografia da América do Sul. Roca.