Discussão:O Livro Tibetano dos Mortos

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Movimentação / Redirecionamento[editar código-fonte]

Sugiro criar um redirecionamento deste artigo para o título Livro Tibetano dos Mortos, pois é como é mais conhecido no comércio, inclusive citar isto. Esta expressão vem da comparação com o Livro Egípcio dos Mortos. Existe ainda o Livro Maia dos Mortos e o famigerado Necronomicon. Sabe-se lá quantos livros dos mortos ainda existem. É necessária uma página de desambiguação melhor definida e estruturada para explicá-los. 191.254.184.21 (discussão) 21h44min de 25 de abril de 2015 (UTC)





Comentário de Danilo Pereira sobre o filme "Enter the Void" (nov/2016):

"Assisti a "Enter the Void" no início do ano passado, depois de algumas experiências com ayahuasca, jurema e arruda da síria, num contexto umbandista-espírita-candomblecista...

A princípio, o que despertou a minha atenção no filme foi a narrativa em transe da consciência. Antes mesmo de assistir ao filme, já havia me perguntado como seria a experiência de morrer sob o efeito do chá de ayahuasca ou jurema, se o transe continuaria depois da morte e se poderia haver algum controle dessa experiência, uma espécie de habilidade em manipular o efeito para fazer uso de seu poder de realçar a realidade.

Nesse contexto meio confuso, o Bardo Thodol caiu como uma luva, pois dava um mapa para lidar com esses estados alterados de consciência. Apesar de o livro/guia ser num contexto xamânico da cultura tibetana, forçando um pouco, dá para adaptar a qualquer cultura, como na imagética cristã do inferno e purgatório, ou mesmo espírita do limbo e umbral.

Fora isso, não há nada de novo em usar o Bardo Thodol como guia para viagens psicodélicas, já fizeram isso nos anos 60/70 com o lsd. A própria descrição do bardo alucinatório da pós-morte permite essa identificação, parece uma experiência regada a ácido.

O que eu não havia entendido na época, e esse é o ponto crucial, é que o Bardo Thodol é um guia para quem não havia tido a oportunidade de praticar em vida o reconhecimento da natureza da mente. Ou seja, o Bardo Thodol é um guia para que o recém-falecido não se perca em suas próprias criações mentais e não caia em reinos inferiores de grande sofrimento e nenhuma oportunidade de prática.

Em um contexto mais amplo, o Bardo Thodol é um guia de transferência de consciência, uma prática conhecida como Powa. A consciência do falecido pode ser conduzida para uma terra pura, onde ele teria a oportunidade de praticar e reconhecer a natureza da mente, da qual ele teve um vislumbre como clara luz no início do bardo da morte. A depender da conexão cármica, a consciência pode conseguir um novo renascimento humano, o que seria bastante auspicioso, como acontece no filme.

Hoje eu responderia a minha indagação inicial de uma forma diferente: não seria nada agradável passar pelo bardo da morte e pós-morte sob o efeito do dmt ou juremanina, ou qualquer outra triptamina. O efeito dessas drogas apenas tumultuaria o fluxo mental, e como eu não tenho qualquer realização de estabilização da mente, a minha tendência seria me identificar com esses processos mentais e ser arrastado por essas visões até onde houvesse conexão cármica que as sustentasse.

"Enter the Void" surfa na onda do mal-entendido da teosofia e romantiza o Bardo Thodol, mas não compreende a sutileza por trás dos estados intermediários, os bardos, que, de acordo com Guru Rinpoche, ou como a gente conhece no ocidente, Padmasambhava, são cinco ou seis estados: bardo da vida, do sonho, da meditação, da morte, pós-morte e renascimento. Todos esses estados são intermediários, transitam uns pelos outros, ao ponto de o reconhecimento de um bardo dentro do outro ser o treinamento da mente em lucidez, como a vida e o sonho, o contraste entre um bardo e outro é o desenvolvimento da lucidez.

Hoje eu me faria uma outra pergunta, não mais como intensificar a experiência psicodélica, mas: o que permanece entre um bardo e outro? O que se sustenta entre um estado intermediário e outro que me permite dizer que há uma continuidade, uma identidade? Qual a semelhança entre a experiência do sonho com a vida desperta? E qual a diferença, o contraste que permita desenvolver lucidez? A resposta para essas perguntas aponta diretamente para a raiz da mente, e não mais para os fenômenos como naturalmente existentes, independentes de quem os observa."