Gênio maligno

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O génio maligno foi uma metáfora usada pelo filósofo francês René Descartes para evidenciar que nenhum pensamento por si mesmo traz garantias de corresponder a algo do mundo. Anuncia o génio maligno como um ente que coloca na cabeça dele, Descartes, pensamentos bastante evidentes, contudo, falsos. O génio maligno estaria continuamente a trabalhar para criar ilusões.

As Meditações Metafísicas[editar | editar código-fonte]

Neste texto, Descartes usa o método da dúvida hiperbólica para encontrar uma primeira certeza. Introduzida nessa primeira meditação, a hipótese do gênio do mal constitui uma das últimas etapas na extensão da dúvida. Depois de duvidar da informação transmitida pelos sentidos e sugerir que tudo o que acreditamos ser realidade pode ser apenas um sonho,

Com isso, Descartes mostrou que somos falíveis, e que devemos ter muito cuidado ao examinar nossos próprios pensamentos, buscando a verdade em todos os detalhes, para evitar sermos "enganados" pelo gênio maligno, ou seja, o conhecimento a posteriori nunca deve ser considerado como certo.

Aparece o génio maligno pela primeira vez nas Meditações sobre filosofia primeira (Meditationes de prima philosophia, 1641). Na primeira meditação, Descartes escreve:

"Supponam igitur non optimum Deum (…) sed genium aliquem malignum, eundemque summe potentem & callidum, omnem suam industriam in eo posuisse, ut me falleret: putabo coelum, aërem, terram, colores, figuras, sonos, cunctaque externa nihil aliud esse quàm ludificationes somniorum, quibus insidias credulitati meae tetendit."
("Irei supor, então, não a existência de uma divindade (…) um gênio maligno, que é ao mesmo tempo sumamente potente e enganoso, empregue todo seu talento para lograr a mim. Vou acreditar que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as demais coisas externas são nada mais do que ilusões de sonhos, que esta criatura emprega para me iludir.")

Suponho, portanto, que não existe aquele Deus, que é muito bom e que é a fonte soberana da verdade, mas que um certo gênio do mal, não menos astuto e enganador do que poderoso, empregou toda a sua diligência em mim. Para enganar. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas que vemos, são apenas ilusões e enganos, que ele usa para surpreender a minha credulidade. Eu me considerarei como sem mãos, sem olhos, sem carne, sem sangue, sem significado, mas acreditando falsamente que tenho todas essas coisas. Vou permanecer obstinadamente apegado a esse pensamento; e se por esse meio não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, pelo menos está em meu poder suspender meu julgamento. (Descartes, Primeira meditação )

Apesar de seu poder, o gênio do mal postulado por Descartes não tem o poder de fazê-lo duvidar de sua existência. A evidência de cogito é tão forte que esta hipótese não pode contestá-la. Além da certeza intuitiva de cogito, o argumento de Descartes consiste em dizer que, se um gênio do mal o engana, ele próprio deve sê-lo para ser enganado.

Portanto, não há dúvida de que eu sou, se ele me engana; e que ele me engane o quanto quiser, ele nunca poderia me fazer ser nada, enquanto eu pensar que sou alguma coisa. (Descartes, Segunda meditação )

O estatuto do génio do mal não é unânime: podemos considerar que se trata de uma hipótese puramente metodológica destinada a manter a dúvida ao mais alto nível ou considerar que a dúvida cartesiana é reforçada por esta hipótese.

Observe que, embora de poder igual ao de Deus, o gênio do mal não é o Deus enganador de quem Descartes também fala nas "Meditações". A noção de "Deus enganador" é contraditória em si mesma e não é usada como sinônimo de "gênio do mal".

O argumento cético[editar | editar código-fonte]

Na continuação das “Meditações”, Descartes justifica a existência real dos objetos externos confiando na veracidade de Deus. Deus, a primeira realidade certa alcançada depois do cogito, não pode enganar. Deus, sendo verdadeiro, não fez o homem de tal forma que o mundo que lhe parece existir não exista realmente.

Deixando de lado a perspectiva cartesiana, a hipótese do Gênio do Mal constitui uma hipótese cética muito poderosa. Ele pode ser usado para formar o seguinte raciocínio:

  1. Não sei se não existe algum gênio do mal que está me enganando sobre a existência do mundo exterior.
  2. Se eu não sei se não há algum gênio do mal me traindo, então não sei se o mundo exterior existe ou não.
  3. Não sei se o mundo exterior existe ou não.

Cérebro em uma cuba[editar | editar código-fonte]

A hipótese do gênio do mal foi reformulada na filosofia contemporânea na forma do "Cérebro em uma cubaV. O sujeito que acredita na existência do mundo exterior poderia, de fato, ser um cérebro banhado em um tanque de líquido e artificialmente estimulado por um grupo de cientistas.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Jean-Pierre Cavaillé, Dieu trompeur, doctrine des équivoques et athéisme: entre Grégoire de Valence et Descartes, dans G. Canziani, M. Granada e Y.-C. Zarka (éds.), "Potentia Dei. L’onnipotenza divina nel pensiero dei secoli XVI e XVII", Milano, Franco Angeli, 2000, pp. 317-334.
  • Henri Gouhier, Le malin génie et le bon Dieu, dans "Essais sur Descartes", Paris, Vrin, 1937, pp. 143-196.
  • Tullio Gregory, La tromperie divine, dans Z. Kaluza et P. Vignaux (éds.), "Preuves et raisons à l’Université de Paris. Logique, ontologie et théologie au Predefinição:S-", Paris, Vrin, 1984, pp. 187-195 (repris dans T. Gregory, Mundana sapientia. Forme di conoscenza nella cultura medievale, Roma, Edizioni di Storia e Letteratura, 1992, pp. 389-399).
  • Tullio Gregory, Genèse de la raison classique de Charron à Descartes, Paris, PUF, 2000 (Chapitre X. Dieu trompeur et malin génie, pp. 291-347).