Branca de Neve (filme)

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Branca de Neve
Cartaz promocional.
 Portugal
2000 • cor • 75 min 
Realização João César Monteiro
Produção Paulo Branco
Argumento João César Monteiro
Baseado em Branca de Neve 
de Robert Walser
Elenco Maria do Carmo Rôlo
Ana Brandão
Reginaldo da Cruz
Luís Miguel Cintra
Diogo Dória
Género drama
Idioma português
Música Heinz Holliger
Salvatore Sciarrino
Cinematografia Mário Barroso
Edição Fátima Ribeiro
Lançamento 10 de novembro de 2000
Página no IMDb (em inglês)

Branca de Neve é um filme português de 2000, escrito e realizado por João César Monteiro, adaptado da peça homónima do escritor suíço Robert Walser.

Caracteriza-se por ser um filme sem imagem, uma projeção a negro com raros e curtos planos inseridos. Logo no início, Walser, vestido de preto, estendido num campo coberto de neve, morto de ataque cardíaco perto do asilo onde esteve internado grande parte da sua vida. De vez em quando, um céu com ténues nuvens brancas, pontuadas com inverosímeis sons da natureza. No final, em plano aproximado[1] , no meio de uma floresta, o próprio Monteiro murmura umas breves palavras inaudíveis. Os diálogos da peça, traduzidos em português literário, são lidos pelos vários intérpretes num tom arrastado e monocórdico. Tudo o mais fica por conta do espectador.

O filme estreou no cinema King, em Lisboa, a 10 de novembro de 2000.

Sinopse[editar | editar código-fonte]

«Que imprudente ideia, a do príncipe, ter interrompido "Branca de Neve" no melhor dos sonos e, com um beijo que ela negará sempre, retirá-la do caixão de vidro para a restituir à vida, isto é, à carne, e arrogar-se direitos sobre ela». [2]

Enquadramento histórico[editar | editar código-fonte]

Quis João César Monteiro adaptar a cinema a obra de um louco, a Branca de Neve do autor suíço Robert Walser, com quem se identifica na loucura e no génio. Deu-se mal, e ele próprio o confessou, num rasgo de sensatez. Vendo que não conseguia fazer o filme que pretendia (com imagens em movimento), desavindo com o produtor Paulo Branco, deu-lhe uma raiva, coisa nele corriqueira: pendurou a gabardina na objetiva (é o que consta) e deu ordem de motor.

Aquilo não foi raiva, foi génio! (é o que se diz). É como se a objetiva fosse forçada a virar-se para dentro. Os olhos do espectador, que a imitam, soltam a imaginação, vendo o que não poderia ser visto sem a gabardina do João. Na projeção ouve-se vozes apenas. A partir daí tudo se torna possível, cada um vê o que quer e a Branca de Neve, despida da sua branca pureza, até pode ser vista a cores. Haverá quem prefira vê-la ebúrnea, seráfica ou transparente, ela dará sempre a ver o que de mais nua pode ter, tal como se deu a ver aos sete anões.

Nada se vendo no negro ecrã, erguem-se vozes, gera-se o burburinho, é o escândalo. Enfurecem-se os que, sem imaginação, nada veem. Os que a têm rejubilam, afirmando que aquilo que afinal lá se vê são coisas indizíveis. Rejubilando bem a seu modo, fica-se o João a imaginar aquilo que os mais ilustrados imaginam: as carnes rosadinhas da alva menina, o tal filme que ele não conseguiu fazer. Sente-se justificado. Perante o escândalo e a vozearia dos detratores, os tolos que nada veem, o produtor sente-se obrigado a devolver ao ICAM, a entidade financiadora, metade dos fundos atribuídos à produção. Bem vistas as coisas, garante no entanto que não se arrependeu.

O Zé Povinho, espicaçado pelas notícias dos jornais e pelas reportagens da TV[3] (o escândalo é nacional), berra e barafusta dizendo que lhe andam a roubar o dinheirinho que paga de impostos para extravagâncias culturais como as do João. Olhos postos na tela, os tolos que se deixaram levar pela curiosidade e que vão ver a fita, os curtos de vista, o público reles, proclamam: cadafalso! Furioso, irritado por lhe achincalharem o génio, responde o João sem papas na língua: «Quero que o público português se foda!».[4] Há quem não entenda muito bem por que vitupera ele a esse ponto perante quem se queixa, o pobre e ignorante Zé Povinho, quando por ele mostrou particular ternura ao ponto de fazer filmes com certas histórias que ele pariu (ver literatura popular portuguesa[5] ), ao ponto de se meter na pele de personagens que ele criou, como em Veredas (ver ainda Silvestre). Perante todo este desatino, logo acode quem com ele se identifica em certas convicções e certos interesses. Entre eles, destacam-se certos colegas de profissão e certos amigos. Manoel de Oliveira, esquecendo que o João ostensivamente lhe chamou «o Fóssil portuense» e que por ele mostrou visceral desprezo, acode sem ressentimento explicando que um e outro se entendem neste ponto: «Quando eu digo que o cinema não existe, que o que existe é o teatro e que o cinema é um processo de fixação audiovisual do teatro, é porque é aí que ele é rico, que é verdadeiramente distinto do teatro, que é rápido, que é efémero. Se eu digo que o cinema não existe, é da mesma maneira que podia dizer que a vida não existe, que o que existe de facto é o teatro[6] [7] .Porque a vida escapa-se-nos a todo o instante, o momento de agora é já perdido, e portanto o que nos resta da vida é o teatro»[8] . Em suma: o cinema é um teatro sobre o teatro, palavra antes de ser imagem, algo que legitimamente o seu colga João dispensa na genial reviravolta que levou a Branca de Neve a ficar pintada de preto. Voluntarista, a teoria do «Mestre» contraria aquilo que o cinema é na sua essência: imagem animada, artifício que lhe permite ser aquilo que é desde que foram dadas as primeiras voltas à manivela, mesmo sendo mudo. Não precisa da palavra para nada, a não ser quando se assume como teatro filmado, o que só ocorre numa fase já avançada da sua história. O seu modo de articulação é como o da visão, quando os olhos se movem de um lado para o outro, de trás para a frente e vice-versa[9] . Com toda a legitimidade, o estilo de Manoel de Oliveira assenta numa ambiguidade teórica que o distingue e o leva a certos limites. Limites esses dificilmente suportáveis para qualquer espectador, mesmo aquele que se sujeita, submisso, disso tirando um certo gozo da requintada flagelação do «Mestre». Tanto na sala de cinema como na missa, o espectador é o fiel devoto que assiste passivamente a um ritual, a uma cerimónia solene[10] . Pode mesmo deixar de ser passivo, possuído pelo transe, entrando em êxtase em certas ocasiões. Questão menor, se porventura tal submissão se contamina a vastíssima irmandade, aos crentes de certa religião, tal como parece ser o caso, tanto no do santificado Manoel como no do endiabado João. Não havendo crença sem pregação, há que avaliar até que ponto uma e outra são causa e efeito. Talvez esta questão merecesse um pouco mais de atenção por quem se interessa por estas coisas.

Vendo coisas destas a seu modo, um não menos enfant terrible, o célebre Luís Pacheco, que não menos detesta o terrível João quanto este o colega Manoel, questiona-se: «será (…) que ele guarda no íntimo um enorme desdém, rancor, nojo, por todos nós, seus compatriotas de nascimento e contemporâneos de desgraça? Ele faz (mera hipótese) filmes como quem nos cospe?». Conclui o autor do artigo que cita esta frase, este um bom amigo do João (Vítor Silva Tavares): «João César Monteiro odeia espectadores. Em compensação, exige cúmplices». Puras coincidências estas conivências do Manoel e do João? (Nota: ver O Passado e o Presente).

Elenco[editar | editar código-fonte]

Nota: interpretações em voz over

Festivais[editar | editar código-fonte]

  • Festival de Veneza (Novos Territórios), 2000
  • Festival de São Paulo, 2000
  • Festival de Frankfurt, 2002

Referências

  1. Plano aproximado (escala) em o Cinema na Escola
  2. Base de dados: "Branca de Neve" (2000). Amor de Perdição. Página visitada em 25 de abril de 2014.
  3. Artigo de Augusto M. Seabra arquivado na pág. sobre Joião César Monteiro no SAPO
  4. Entrevista com João César Monteiro – reportagem da RTP1 na data de estreia do filme - Ver Youtube em (…) watch?v=S9Ot_fnU6xk
  5. A Literatura Popular e as suas marcas na produção literária portuguesa do séc XX – artigo de João Pinto-Correia publicado na Revista Lusófona, Nova Série, 9, 1938, pp. 19-45
  6. Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes 2007, Palavra de D. Manuel Clemente durante o ato de entrega do Prémio a Manoel de Oliveira]
  7. Palavra, silêncio e vida. A “presença” de Bresson no cinema de Oliveira, de Maria do Rosário Lupi Bello
  8. O Estilo de Oliveira – artigo em CITI
  9. A Linha do Olhar – ver o ensaio Os Olhos e o Cinema, de Ricardo Costa
  10. Nota: por várias vezes e em diversas circunstâncias realçou João Bénard da Costa a semelhança entre a solenidade da cerimónia religiosa na igreja e a solene intimidade da sala de cinema

Ligações externas[editar | editar código-fonte]