Augustinologia

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Augustinologia, ou Agostinologia é o estudo da vida e pensamento de Agostinho de Hipona.

A situação política da África na era pré-agostiniana[editar | editar código-fonte]

Para entendermos a situação africana no período pré-agostiniano, mister se faz partir da situação geral do Império Romano, sobretudo, e de modo particular, da influência do trono imperial.

A vida imperial[editar | editar código-fonte]

O Império Romano assistiu a dois períodos fortes e antagônicos: o Alto Império (27 a.C. a 235 d.C.) e o período da decadência, chamado Baixo Império, que vai de 235 d.C. até a queda do Império, que já se encontrava dividido: o do Ocidente findou-se em 476 e o do Oriente em época mais recente (1453) com a queda de Constantinopla dominada pelos muçulmanos.

Agostinho (de Hipona) viveu, portanto, no período correspondente ao Baixo Império; período este marcado principalmente pela luta incansável, desleal e insubordinada ao poder do trono. Todo o Império estava à mercê dos caprichos e ordens do Imperador.

Aureolado de um prestígio religioso, o Imperador era onipotente - pelo menos até que um usurpador o derrubasse - e governava por meio de uma corte rodeada de privilégios, no meio de uma burocracia militarizada e hierarquizada, de extraordinária complexidade. Economia planejada, fábricas estatais, sindicalismo obrigatório, castas hereditárias, fiscalização extrema, justiça feroz e, como se vivia sob uma contínua ameaça de conspirações, polícia secreta. Quantas vezes, na biografia de santo Agostinho, aparece a figura inquietante dos agentes in rebus, termo que os humanistas traduziram ingenuamente por "encarregados de negócios". Não nos enganemos: tratava-se, sem dúvida, de um tipo de polícia secreta. Vivia-se, então, num mundo de terror: a equipe que detinha o poder encarnava uma potência absoluta, até que esta começou a se dissolver. Aí se produziu o grande processo de traição, cuja repressão alcançou milhares de inocentes. Permanentemente gravitava sobre todos a ameaça da ruína, da prisão, da tortura e da morte. Bastava um pequeno atraso no pagamento dos impostos.

Esta pesada máquina, cujos benefícios não se pode negar, no Oriente conseguiu se manter até o ano de 1453; mas no Ocidente logo começou a se desmoronar, principalmente sob as pressões de sublevações internas - Bagaudes, nas Gálias e Circunceliões, na África de Agostinho -, como também as invasões bárbaras nas fronteiras.

África: província romana[editar | editar código-fonte]

Desde o ano 148 a.C. (ano 608 de Roma), quando os romanos conquistaram Cartago, após muitos anos do delenda est Carthago! (Cartago deve ser destruída!) de Catão, o Censor, toda aquela região da África passou a ser romanizada. Catão, estadista romano, depois que viu Cartago, terminava sempre os seus discursos no Senado com este refrão: Além disso, penso que é preciso destruir Cartago!

Cartago havia sido fundada séculos atrás pelos fenícios, e havia atingido grande grau de destaque político, social, mercantil e econômico. Com a sua destruição e conseqüente domínio romano, passou pouco a pouco a ser influenciada mais diretamente pela cultura e pragmatismo, pelas qualidades, valores e vícios dos romanos.

A cultura romana dava uma tônica marcante na vida da classe média e baixa do norte da África. Mesmo a língua latina foi se difundindo no meio mais social e nobre. A história desta região da África passou a acompanhar a história de Roma.

Entre as principais cidades da África romanizada, encontramos Cartago e Hipona, cidades-cenário da vida de santo Agostinho, sendo Tagaste sua terra natal, uma cidade da Província de Numídia.

A África foi uma das províncias mais romanizadas das que constituíam o Império Romano. O geógrafo Estrabão nos traz uma lista de 300 cidades, colônias e municípios só no território de Cartago. Contudo, mesmo com a África sob o domínio romano, por muito tempo persistiu a população fenícia e númida e a língua oficial africana no século V d.C. era a púnica. Os númidas eram um povo forte e estavam apenas submetidos aos romanos.

A vida provincial africana[editar | editar código-fonte]

Com o início do período da decadência, Roma passou a ser a capital parcial da política, intelectualidade e comércio. A importância de cada província ia crescendo pouco a pouco, e a África passou a ser um dos pontos fortes do Império, principalmente em termos financeiros.

Mesmo contando com os piores imperadores, a África passou por um período de grande prosperidade. Esse fato era de um enorme interesse para os detentores do poder. A África contava com 28 províncias nitidamente prósperas, contando, em especial, com o favorecimento da exploração agrícola pelos imperadores. As culturas mais rendosas eram a vinha e a oliveira.

Mas essa prosperidade não durou muito tempo. A causa disso veio de fora das províncias: o abatimento e a miséria foram agravando-se com o propósito de fornecer mantimentos para os exércitos que começavam a ter que defender o Império Ocidental contra as invasões dos ostrogodos, visigodos, germanos, hunos, além de outros, principalmente no noroeste da atual Europa. Soma-se tudo isso à manutenção dos empregados e dos próprios imperadores mordomizados. A conseqüência da miséria residia principalmente nos altos impostos que terminaram por ocasionar o abandono das terras, causar motins, insurreições, descontentamentos e guerras civis. Os que não pagavam impostos, ou simplesmente os atrasavam um pouco, sofriam a ameaça de ficar sem as terras, serem presos, torturados e até mortos.

No início do século I, com a vinda e a vida de Jesus Cristo (veja o verdadeiro nome em Yeshua), a tendência do ateísmo foi desaparecer. Posteriormente, os peregrinos e sacerdotes deram continuidade ao ideal de Cristo, que consistia num estilo de vida igual tanto para o povo em geral quanto para a aristocracia.

Cronologia: algumas datas significativas[editar | editar código-fonte]


De Nero a Constâncio II[editar | editar código-fonte]

64 Nero acusa os cristãos de incendiarem Roma.

67 Morte dos Apóstolos são Pedro e são Paulo.

312 Vitória de Constantino sobre Magêncio.

313 Édito de Milão concedendo liberdade social para os cristãos e tornando o cristianismo religião oficial do Império Romano Ocidental.

325 Primeiro Concílio de Niceia, cujo objetivo é restabelecer, na Igreja, a paz perturbada pelo arianismo.

337 Morte de Constantino, o grande; o Império é dividido.

340 Primeira guerra entre os irmãos Constantino II (Império Ocidental) e Constantino (Itália-Ilíria). Morte do primeiro.

350 O exército, insatisfeito com Constantino proclama Magêncio Imperador da Gália. Constantino foge e morre. No Danúbio, o exército proclama Vetrano Imperador da Ilíria. Guerra civil. Constâncio II chama os germanos que penetram na Gália. Magêncio, traído, suicida-se em Lyon. Surge a primeira versão gótica da Bíblia, feita por Ulfila.

353 Constâncio II, único Imperador, morre sem descendência. Galo e Juliano, o Apóstata, são nomeados cônsules. Galo vai ao Oriente e lá é decapitado. Juliano luta na Gália.

Do nascimento ao batismo de Agostinho[editar | editar código-fonte]

354 Nasce em Tagaste, Numídia, Agostinho, um dos maiores expoentes do pensamento cristão.

355 Francos, alemães e saxões invadem a Gália.

356 Vitória de Juliano sobre os alemães.

360 Juliano, o Apóstata, é proclamado Imperador em Paris, rebelando-se contra Constâncio. Morre inesperadamente Constâncio II. Juliano torna-se dono do Império. Agostinho está com seis anos de idade.

363 Depois de uma política anticristã de Juliano, durante os anos 361-362, na qual é revitalizado o culto pagão por decretos do mesmo Imperador, este é vencido e morto pelos persas na Mesopotâmia. Joviano, escolhido pelo exército, o substitui por um breve período de 8 meses. Sendo cristão, devolve todos os direitos aos cristãos.

364 Valentiniano I, oficial da guarda, é eleito Imperador em Niceia. Valente, seu irmão, é nomeado Augusto, mas fica no Oriente, enquanto Valentiniano fica no Ocidente. Nova invasão dos alemães na Gália. Valentiniano os faz recuar. Escoceses e viquingues penetram na bretanha romana. Agostinho está com 10 anos. Na África, subleva-se um movimento. Teodósio domina a rebelião. A África é tomada por lutas religiosas.

365 Usurpação de Procópio (Constantinopla). Luta com Valente. Traição dos oficiais. Agostinho com 11 anos, vai estudar em Madaura.

369 Agostinho com 15-16 anos, volta a viver em Tagaste, onde passa um ano na ociosidade por falta de recursos para continuar os estudos.

370 Com a ajuda de Romaniano, Agostinho estuda em Cartago. Curso superior.

371 Guerra contra os godos. Grandes processos e movimentos. Repressão da Magia no Oriente.

372-375 Firmus, chefe berbere rebela-se na África.

372 Agostinho está com 18 anos. Nasce seu filho Adeodato. Logo após descobre a filosofia lendo Ortensius de Cícero. Depois, entra no maniqueísmo.

373 Agostinho com 19 anos leciona em Tagaste. santo Ambrósio torna-se bispo de Milão.

374 Os hunos passam o Volga, avançando para o Ocidente. Agostinho, com 20 anos, leciona Retórica em Cartago.

375 Morte de Valentiniano I. Sucede-lhe Graciano (com apenas 16 anos). Reside em Tréveris. Valentiniano II, irmão de criação de Graciano, reside em Milão. Sua mãe, Justina, é a regente. Inauguram-se as grandes invasões: germanos passam o Danúbio; hunos vêm do centro da Ásia e atravessam os reinos ostrogodos; os visigodos entram no Império (Trácia); os alemães entram pela Gália. Agostinho (21 anos), com a ajuda de seu amigo Romaniano, abre uma escola de Retórica.

378 Valente morre em luta com os godos em Adrianópolis. Agostinho completa 24 anos.

379 Teodósio, general espanhol, empossado como Augusto, no Oriente, por Graciano. Pacifica os godos que passam a morar "federati" do Império na Panônia.

380 O Édito de Teodósio torna o cristianismo a religião oficial do Império Romano do Oriente.

381 Primeiro Concílio de Constantinopla, convocado por Teodósio e que completou o Símbolo de Niceia.

383 Magno Máximo, governador espanhol da Bretanha (usurpador) contra Graciano, que foge, mas é logo assassinado. Máximo torna-se dono da Gália, Espanha e Bretanha. Valentiniano apóia os arianos. Entra Máximo na Itália. Valentiniano II foge. Agostinho, aos 29 anos, abandona o maniqueísmo e leciona em Roma.

384 Agostinho (30 anos) é professor em Milão. São Jerônimo começa a tradução da Bíblia para o latim, tradicionalmente conhecida como Vulgata.

386 Teodósio repele os godos no Danúbio. Agostinho, com cerca de 32 anos, descobre o neoplatonismo; lê as cartas de Paulo de Tarso (São Paulo); converte-se ao cristianismo, demite-se do cargo de professor e vai para Cassicíaco, onde escreve Contra acadêmicos, De beata vita, De ordine e Soliloquiorum. Em Milão, antes do batismo, escreve De inmortalitate animae e Disciplinarum libri.

387 Agostinho, antes ainda de completar 33 anos, no dia 25 de abril recebe o batismo, junto com Alípio e Adeodato. Parte para Roma, onde morre sua mãe Mônica. Permanece em Roma 10 meses (até julho ou agosto de 388). Em Roma escreve De quantitate animae e inicia o De libero arbitrio.

Início da vida monacal agostiniana[editar | editar código-fonte]

388 Derrota de Máximo em Aquileia. Casamento de Teodósio com Gala, irmã de Valentiniano II. Estabelecimento deste na Gália, que recebe também o franco Arbogasto como conselheiro. Agostinho (+- aos 34 anos) parte para a África e começa uma vida monástica em Tagaste. Aí escreve De música, De magistro, De vera religione.

388 ou 389 Morte de Adeodato, filho de Agostinho, com 16 ou 17 anos de idade.

390 Conflito entre Santo Ambrósio e Teodósio I.

391 Agostinho, com 37 anos, por aclamação popular torna-se presbítero de Hipona.

392 Morre Valentiniano II. Arbogasto coloca Eugênio no trono. Este, dotado de caráter religioso, favorece o paganismo. Agostinho polemiza com o maniqueu Fortunato.

393 Sínodo de Hipona: Agostinho explana aos bispos a fé e o Símbolo.

394 Teodósio declara guerra a Eugênio. Vitória de Teodósio em Milão. Eugênio é preso e executado. Arbogasto comete o suicídio. Teodósio, senhor absoluto do Império. Os Jogos Olímpicos são suprimidos.

395 Morre Teodósio em Milão. O Império é dividido: Oriente (Arcádio) e Ocidente (Honório). O velho eunuco Eutrópio domina Arcádio; o germano Estilicão domina Honório. Agostinho (395 ou 396), com 41 ou 42 anos, torna-se bispo auxiliar de Valério, em Hipona.

396 Os visigodos na Ilíria (Alarico - Estilicão).

397 Agostinho, já bispo titular de Hipona, assiste a um concílio de Cartago.

397 ou 398 Redige as Confissões.

398 Controvérsias de Agostinho com Fortunato (bispo donatista) e com Félix (maniqueu) a quem converte.

399 Os vândalos (alanos, suevos, burgúndios) entram na Gália.

De Trinitate e Cidade de Deus[editar | editar código-fonte]

399-422 Agostinho redige De Trinitate.

400 Os hunos atingem o Elba.

401 Agostinho assiste a um concílio em Cartago. Luta contra os donatistas.

407 Invasão da Gália pelos vândalos e suevos.

408 Os saxões entram na Bretanha.

409 Vândalos na Espanha. Estilicão é assassinado. Pelágio em Cartago.

410 Alarico I, rei visigodo, invade e conquista Roma.

411 Conferência de Cartago entre donatistas e católicos. Triunfo de Agostinho.

413 Agostinho começa a redigir Cidade de Deus.

414 Ataúlfo, sucessor de Alarico, casa-se com Gala Placídia, irmã de criação de Honório.

416 Agostinho assiste ao concílio de Milevi contra os pelagianos.

417 Paulo Orósio, discípulo de Agostinho, publica sua Historia Universalis.

415-455 Valentiniano III, Imperador do Ocidente.

426 Agostinho conclui a Cidade de Deus. Nomeia Heráclio para bispo auxiliar a quem delega grande parte de suas funções eclesiásticas.

427 Vândalos na África, chamados por Bonifácio. Rebelião na África do Conde Bonifácio, amigo de Agostinho.

Morte de Agostinho e queda de Roma[editar | editar código-fonte]

430 Vândalos fazem cerco a Hipona. Agostinho falece aos 28 de agosto, com 76 anos de idade.

431 Concílio Universal de Éfeso: em Cristo só há uma pessoa e duas naturezas; a Virgem Maria é verdadeiramente mãe de Deus.

452 Átila, o "Flagelo de Deus", rei dos hunos, invade o Império Romano.

455 Roma é saqueada pelos vândalos, chamados da África.

476 Odoacro, general germano, invade o Império Romano.

Como pudemos ver, o Império Romano, após Diocleciano (284-305) e Constantino I (306-337) foi se quebrantando pelas invasões dos bárbaros e pelas anarquias internas. É o Baixo Império.

Agostinho viveu, portanto, em tempos de grandes catástrofes políticas e sociais, como também religiosas. Na sua infância, conviveu com as convulsões do Império e, já na sua idade adulta viu, a 24 de agosto de 410, Roma desmoronar-se diante da força dos visigodos de Alarico.

As repercussões não foram apenas políticas, mas fez o santo meditar profundamente sobre o sentido da queda do mundo civilizado que se acreditava eterno. À base das reflexões sobre a queda de Roma, Agostinho escreveu uma de suas obras mestras: os 22 livros da "A Cidade de Deus".

África cristã[editar | editar código-fonte]

Os romanos, vencida Cartago, cerca do ano 148 a.C., começam uma prodigiosa transformação no norte da África, traçando uma ampla rede de estradas, construindo cidades, erigindo vilas, promovendo a agricultura, difundindo por toda parte a cultura, o comércio e o bem estar.

Agostinho chama-se a si mesmo de africano. Falando de Apuleio: "qui nobis Afris Afer est notior" (que, como africano, é mais conhecido por nós africanos: Ep. 138,19); de Ponticiano: "civis noster in quantum Afer" (nosso concidadão enquanto africano: Conf. 8,6.14); de Máximo de Madaura: "homo Afer scribens Afris, cum simus utrique in Africa constituti…" (um homem africano escrevendo aos africanos, já que ambos estejamos radicados na África: Ep. 17,12). Quando, mais tarde, Juliano lhe dá, por zombaria, o apelido de púnico, Agostinho não o recusa, mas faz referências honrosas ao púnico Cipriano e admoesta ao adversário que aos adversários se vencem com a razão, não com a raça; Juliano era italiano da Púglia (Op. Imp. C. Jul. 1,7; 6,18).

Origens do cristianismo na África[editar | editar código-fonte]

Muito se discute se a origem do cristianismo na África é apostólica. Parece mais provável que tenha sido evangelizada por Roma, conforme as seguintes primeiras notícias da Igreja africana:

  • "Atas de Santas Perpétua e Felicidade". Igreja já organizada (ano 180).
  • Mártires escilitanos e de Madaura: os escilitanos foram decapitados em Cartago por haverem confessado ser cristãos durante a quinta perseguição geral que começou no ano 202, ordenada por Septímio Severo. Seus nomes são: Esparato, Narzalo, Citino, Vetúrio, Félix, Acilino, Letâncio, Januária, Vestina, Donata e Segunda.

O cristianismo teve acesso fácil numa sociedade romanizada e dominada.

Mártires e Santos[editar | editar código-fonte]

Foram sempre a glória da Igreja africana. "Africa sanctorum martirum corporibus plena est" (A África está cheia de corpos de santos - S. Agostinho?).

Vários santos marcaram profundamente com suas vidas a história da Igreja:

São Cipriano[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Cipriano de Cartago

Bispo e Mártir, um dos mais ilustres Padres da Igreja latina, nascido provavelmente em Cartago nos princípios do século III e morto em 258. Descendente de uma nobre família senatorial, recebeu uma bela educação, e ensinou brilhantemente a retórica. Aos 35 anos de idade foi convertido ao cristianismo por um padre de Cartago. Recebeu o batismo em 246. Vendidas por ele suas propriedades, distribuiu toda a renda aos pobres, retirou-se para o isolamento e aí se consagrou ao estudo das Escrituras e dos autores sagrados, principalmente os eclesiásticos, dentre os quais, de maneira especial, Tertuliano. Quando do falecimento de Donato, bispo de Cartago, o povo compeliu-o a aceitar o episcopado (248). Não pode evitar um cisma provocado por Fortunato, Feliciano e Novato.

São Optato[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Optato de Mileve

Tertuliano[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Tertuliano

O mais antigo e, logo abaixo de S. Agostinho, o maior dos antigos escritores eclesiásticos do Ocidente; criador da literatura cristã em latim. Nasceu em Cartago por volta do ano 150, de boa família (o pai era centurio proconsularis). Recebeu excelente educação e instrução em quase todos os ramos das ciências e da cultura: grego, latim, retórica, direito, etc. Converteu-se ao cristianismo já em idade avançada. Depois caiu na heresia do montanismo, seita muito severa e puritana. Morreu cerca do ano 255.

Religião oficial[editar | editar código-fonte]

O cristianismo da África naquele tempo era um cristianismo vigoroso. Os pagãos muitas vezes provocavam confusão e atritos (cf. S. Agostinho, Ep. 91; 93). Havia, por outro lado, muitos costumes pagãos religiosos e políticos difundidos no meio do povo.

Houve decretos imperiais contra os templos e ídolos pagãos:

  • Constâncio: em 341, 342 e 354;
  • Graciano, Valentino e Teodósio: em 381, 382, 385 e 391;
  • Teodósio, Arcádio e Honório: em 392;
  • Arcádio, Honório e Teodósio II: em 407 e 408.

Nem todos os cristãos eram fervorosos, nem dignos de sua conduta. Anteriormente, nos períodos de perseguição, muitíssimos eram os que apostatavam. Exemplo disto são as motivações para as heresias: donatismo, novacianos, montanismo.

Hierarquia da Igreja africana[editar | editar código-fonte]

Cartago aparece como sede religiosa. É de Cartago que partem as lideranças hierárquicas da Igreja, embora, muitas vezes, seus expoentes não sejam os mais cotados. Ela se torna sede de muitos concílios regionais (de 218 a 222). Também de Cartago surgem as perseguições de alguns imperadores contra a Igreja da África.

A mudança de comportamento do Império em relação à Igreja fazia com que muitos cristãos, ainda não muito firmes na fé, titubeassem, ou assumissem uma atitude de rigidez e intolerância para com os que fraquejavam, ou uma atitude de extrema condescendência, chegando ao extremo do afrouxamento e do descompromisso.

A hierarquia africana mantinha uma organização bem distinta de outros recantos do Império. A presença de dissidentes e hereges multiplicava dia a dia a presença de bispos de ambas as facções. Muitas vezes, numa mesma cidade havia a presença de dois bispos, cada qual numa facção religiosa, não contando bispos auxiliares e sacerdotes respectivos. Os sacerdotes também eram numerosos. Ao lado de seus bispos, embora muitos tendo mais cultura que eles, mantinham um trabalho insistente de evangelização e catequese do povo.

O povo participava ativamente nas solenes celebrações religiosas e, algumas vezes, na indicação ou escolha de seus bispos e sacerdotes, como o atesta a escolha de Cipriano, de Cartago e, anos depois, de Agostinho para sacerdote e bispo de Hipona.

Heresias[editar | editar código-fonte]

Vamos apresentar aqui algumas das principais heresias que, nascidas tanto dentro quanto fora da África, tiveram certa importância na vida da Igreja africana. Sabemos que surgiram várias e com variados nomes.

Donatismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Donatismo e Cisma donatista

Durante a grande perseguição do tempo de Diocleciano (ano 303) os cristãos receberam ordem de entregar os seus livros santos para serem queimados ou destruídos. Os que obedeceram foram chamados de "traidores"; e tornou-se problema importante de disciplina eclesiástica determinar o procedimento que se deveria usar para com eles: deveriam ser readmitidos? Em que condições? A pate mais benevolente da Igreja, favorecida por Roma, era a maioria.

Mas havia também o partidos dos rigoristas, os donatistas (que, a não se pelo nome, nada têm a ver com Donato, o santo bispo de Cartago, antecessor de Cipriano). Os donatistas consideravam os "traidores" uns indesejáveis, que com sua presença corrompiam o corpo eclesiástico; e, além disso, que toda função sacerdotal por eles exercida seria ipso facto nula e sem valor. Na opinião dos donatistas, a validade dos sacramentos dependia da santidade dos ministros que os realizavam. Este cisma perturbou profundamente a Igreja toda no norte da África durante o século IV; foi condenado por muitos concílios regionais; uma conferência solene, reunida em Cartago (411), deu-lhe o golpe mortal e os donatistas retornaram em sua totalidade ou em grande número ao seio da Igreja. O principal oponente do donatismo foi Santo Agostinho.

Honório e Teodósio, o Moço, perseguiram severamente os resquícios da seita, que ainda tentou continuar existindo até o a invasão dos árabes (693). Esta varreu a África, e com ela o Donatismo e o Catolicismo.

Novacionismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Novacionismo e Cisma novaciano

Novaciano era um sacerdote de forte ascendência da comunidade romana durante o pontificado de São Damião. Tinha uma cultura bastante vasta. Nos últimos anos de São Damião aí pelos anos 245-250, a fama de Novaciano crescia cada vez mais. À morte do Pontífice, foi escolhido para ser seu sucessor um outro sacerdote de nome Cornélio. Novaciano, que contava talvez com a sucessão, acusou o novo papa de laxismo e, tendo obtido considerável número de adeptos, conseguiu ser sagrado bispo e declarou-se antipapa. De Roma, o cisma alastrou-se por todo o Império e chegou a constituir uma igreja importante, rival da Igreja Católica. Por ocasião do cisma, escreveu São Cipriano, bispo de Cartago, o seu célebre tratado Da Unidade da Igreja. Novaciano morreu obscuramente e a igreja por ele fundada teve ainda alguns representantes no Oriente até o século VII.

Gnosticismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Gnosticismo

É mais um sistema de filosofia religiosa cujos sectários pretendiam ter os atributos e o conhecimento pleno da natureza de Deus. Doutrinas místicas e filosóficas que, na história intelectual e moral dos primeiros séculos da nossa era, teve considerável importância. Para os gnósticos, a fé era para os que ainda não tinham cultura, isto é, para os ignorantes: servia para iniciá-los na exposição simples do dogma; era a ciência vulgar das massas. E a gnose restringia-se ao pequeno número de eleitos que podiam atingir a transcendência dos problemas religiosos, constituindo-se na filosofia do cristianismo.

Contudo, a gnose não surgiu com o aparecimento do cristianismo. Já antes, pelo menos desde o início do primeiro século, nos santuários do politeísmo grego e nas escolas filosóficas, entre os Judeus [1] e egípcios, havia resquícios gnósticos bem profundos. Era, pois, antiga como as velhas e perpétuas questões especulativas: Como apresentar a passagem do infinito para o finito? Como imaginar o início da criação? Como pode Deus, puro espírito, ser autor de um mundo material, tão contrário a sua essência? Se o Criador é perfeito, donde as imperfeições do mundo? No campo da filosofia houve uma identificação ou volta às religiões do Oriente.

Não é, pois, de se admirar que, ao serem fundadas as primeiras igrejas da Ásia, os simples cristãos encontrassem a combatê-las as sutilezas dos gnósticos. De fato, os gnósticos eram intelectualmente superiores aos simples cristãos. No entanto, no aspecto vivencial prático tornaram-se inferiores por terem estabelecido, como primeiro princípio, o livre exame que, por fim, os enfraqueceu e dispersou, visto que cada chefe tinha seu sistema próprio.

Por um outro, a luta dos sistemas entre si, e por outro, as contínuas transformações que sofreram, provenientes da permanente intervenção do espírito subjetivista pessoal, lançaram o gnosticismo na auto-destruição.

Arianismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigos principais: Arianismo e Controvérsia ariana

Seita fundada por Ário (ou Arrio). Tratava do problema da natureza divina de Jesus Cristo. Como conciliar a divindade de Jesus Cristo com o monoteísmo? Considerá-lo plenamente verdadeiro Deus, não seria cair num diteísmo? E, fazer dele uma divindade subordinada, não seria rebaixá-lo ao nível das criaturas? Em meio a estas questões se debatiam as opiniões dos séculos II e III d.C..

Por isso, tentando achar uma solução, o presbítero Ário afirmava que o Filho só possui uma divindade secundária e subordinada. Daí surgiu o subordinacionismo que declarava que Jesus Cristo não é realmente Deus eterno, infinito, onipotente.

Pelagianismo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Pelagianismo

Pelágio, natural da Grã-Bretanha ou da Irlanda; por vezes recebeu o sobrenome Brito; em celta era chamado Morgan. Era monge. Dotado de grande severidade de costumes e grande austeridade de caráter. Foi residir em Roma. E, gravemente escandalizado pela vida sensual e licenciosa que prevalecia na Igreja, pensava que tal estado de coisas provinha da crença generalizada na eficácia dos sacramentos e da suficiência da fé. Entendeu, então, que o remédio para tudo isso estava em aceitar o princípio de que a salvação do ser humano dependia do seu próprio comportamento. Indo ao Oriente, Pelágio foi acusado (415) perante João, bispo de Jerusalém e perante o sínodo de Dióspolis, sendo condenadas como heréticas estas suas proposições (417-418), pelo sínodo geral de Cartago, a que assistiram 200 bispos da África e da Ibéria, e depois, no terceiro Concílio Universal de Éfeso (431).

As principais afirmações geralmente reconhecidas sob o nome de pelagianismo, embora seja duvidoso que todas elas fossem efetivamente do próprio Pelágio, pois ele sempre se exprimiu cautelosamente, mas que, de fato, são resultado de seu ensino inicial:

  1. Adão era mortal por natureza e teria morrido mesmo que não tivesse pecado;
  2. As conseqüências do pecado de Adão ficaram confinadas nele mesmo e não afetaram, por isso, o resto da raça humana;
  3. Os recém-nascidos estão nas mesmas condições que Adão antes da queda;
  4. Sendo iguais em suas promessas, tanto a Antiga Lei quanto o Evangelho qualificam o ser humano para a bem-aventurança;
  5. Antes de Cristo alguns homens viveram sem pecado, podendo, portanto, cumprir os mandamentos de Deus sem dificuldade e preservar-se a si próprio em estado de inocência; e, ainda, a graça de Deus nos é dada em proporção aos nossos méritos.

Com sofismas e equívocos, Pelágio confundiu muitos de seus acusadores, mas encontrou um forte adversário em Santo Agostinho. Pelágio morreu exilado na Palestina (420).

Maniqueísmo[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Maniqueísmo

Esta seita apareceu originariamente como uma religião nova, não tanto como uma heresia cristã. Seu fundador foi Manes (ou Mani), nascido na Mesopotâmia, cerca dos anos 215-216.

Aos 25 anos começou a pregar sua religião nas festas da coroação de Sapor I, no palácio real. Ainda que conquistando muitos adeptos na Pérsia, no Turquestão, na Índia e na China, foi combatido pelos sacerdotes do masdeísmo e pelo próprio Sapor, e teve que se exilar. Passados trinta anos, voltou à Pérsia e deu continuidade à sua pregação, até que, depois de várias vicissitudes, o rei Vararanes I o mandou prender e crucificar em Bendosabora, perto de Susa, em 276-277. O corpo foi esfolado, a pele, cheia de palha, esteve exposta em uma das portas da cidade, depois chamada "porta de Mani".

Perderam-se os livros que ele escreveu, porque autoridades civis e religiosas mandaram destruir seus escritos. Os poucos fragmentos que restam são as citações dos apologistas cristãos, especialmente de Santo Agostinho, que dos 19 aos 28 anos professou o maniqueísmo, embora como simples "ouvinte".

No Oriente agregou-se a outras religiões. No Ocidente conquistou muitos adeptos e começou a agregar elementos cristãos que lhe foram dando aspectos de heresia.

Na Itália, na Alemanha, na França e na Inglaterra, reapareceram, desde os séculos IX e X, teses maniqueístas. Os albigenses, os caldenses e os cátaros foram considerados rebentos do maniqueísmo, se bem que não tivessem ligações diretas com os maniqueus antigos.

Doutrina maniqueia[editar | editar código-fonte]

Parece que Manes não chegou a conhecer o verdadeiro cristianismo. Sua religião preocupava-se com o problema da existência do mal e continha uma grande complexidade de fontes: elementos do masdeísmo persa aliados a lendas babilônicas, reminiscências judaicas, infiltrações búdicas e idéias cristãs apreendidas dos gnósticos sabeus.

O fundamento desta doutrina é o dualismo: a eternidade de dois elementos opostos concebidos sob a forma de dois reinos: o da Luz, que representa o bem físico e moral, e o das Trevas, que representa o mal. Os dois reinos entram em luta. O primeiro, que é o domínio de Deus, compreende um céu e uma terra luminosos; o segundo é o domínio de Satã e dos demônios, desprovido, portanto, de céu.

Satã chega a invadir a terra luminosa. Aparece, então, um ser novo: o homem primitivo, nascido de Deus e lançado por este contra Satã. No primeiro assalto Satã vence ao homem primitivo, prende-o e rouba-lhe parcelas de luz. Mas Deus acode com seus anjos, liberta o homem primitivo e afugenta o adversário. Contudo, o homem primitivo fica imerso em luz e trevas, tornando-se teatro de lutas entre as forças do bem e do mal, e começa a propagar, pela geração, a sua raça, na qual se perpetuará essa luta terrível. Daí a necessidade de um ascetismo rigoroso que facilite a libertação dos elementos luminosos, aniquilando, assim, os outros.

A massa do povo constituía os chamados "ouvintes" que viviam como toda gente, mas estavam encarregados de sustentar os eleitos. Esses eleitos constituíam uma espécie de monges ou santos obrigados a guardar continência e respeitar a vida universal, incluindo a das plantas; não podiam comer carne, nem beber vinho; viviam de ervas e frutos, que deviam ser colhidos pelos ouvintes. Acima dos eleitos estavam os sacerdotes; depois, os 72 bispos; e mais acima, os 12 doutores, um dos quais, o chefe supremo, residia em Babilônia. O culto constava apenas de orações e hinos, quatro vezes ao dia, com o rosto voltado para o sol, para a lua ou para a estrela polar. Agostinho escreveu várias obras contra os maniqueus, como poderemos ver.

Outras heresias[editar | editar código-fonte]

Entre outras heresias, havia também o Montanismo, o Tertulianismo, o Priscilianismo e outras que não vamos comentar aqui para não fugir ao nosso propósito, mas que direta ou indiretamente têm alguma relação com Santo Agostinho, pois ele fez sobres elas alguma referência.

Concílios regionais da África[editar | editar código-fonte]

Devido aos frequentes cismas e heresias, os concílios regionais foram bastante numerosos na África.

  • Agripino presidiu dois, em Cartago (218-222);
  • São Cipriano presidiu sete (até 256);
  • Grato presidiu outros dois (47-348);
  • Houve mais dois nos anos 386 e 389.

Em 391, o bispo Aurélio preside a Igreja de Cartago. Dirige cerca de 20 concílios regionais. O primeiro deles foi em 393, em Hipona, onde Agostinho, ainda como sacerdote, prega aos bispos.

O clero nem sempre era suficientemente edificante. Não faltavam os escândalos entre os donatistas, principalmente, e entre católicos. Mas a vida de ascese e piedade era vigorosa (Cf. De moribus ecclesiae cath. et manich. I, 65-67).

Santo Agostinho[editar | editar código-fonte]

Além de tudo o que ficou dito nos pontos anteriores, é importante situar bem Santo Agostinho, conhecendo outros aspectos da vida da Igreja no seu tempo. Por isso colocamos aqui alguns dos principais personagens mais ou menos contemporâneos a ele. Mas antes, entendamos um pouco deste personagem:

No livro de Paulo aos Romanos, capítulo 11,1-2, encontramos: "Pergunto, pois: Acaso rejeitou Deus ao seu povo? De modo nenhum… Deus não rejeitou seu povo que antes conheceu…"

Santo Agostinho elaborou a doutrina que representa os judeus e a nação de Israel como sendo testemunhas da verdade do cristianismo. Ou seja, os judeus serviram para nos deixar o legado da fé e a verdade cristã. Agora eles deveriam estar em constante humilhação quanto ao triunfo da Igreja sobre a sinagoga. Assim, os monarcas do Império Romano deveriam ver os judeus como servos da câmara (servicamerae) quando os judeus eram utilizados como bibliotecários escravos para manter os escritos hebraicos. Eram usados também para a prática da usura ou empréstimo de dinheiro, pois a usura era considerada como algo que colocaria a salvação eterna em risco, e por isso foi proibida. Em outras palavras as almas dos judeus já estariam perdidas de qualquer jeito.

Assim, no período que antecedeu as Cruzadas a semente do anti-semitismo já estava lançada. A deterioração da posição judia na sociedade estava ganhando espaço. A judeufobia virulenta estava primeiramente somente dentro do clero, que orientavam suas ovelhas para que ficassem longe dos judeus. À medida que o cristianismo crescia, crescia também a aversão pela nação de Israel e pelo povo judeu. Tal atitude, hoje, a Igreja rejeita. Esperamos que a recíproca seja verdadeira.

Santos[editar | editar código-fonte]

Como podemos observar, a época em que viveu Santo Agostinho foi um período de grande florescimento da Igreja em todos os aspectos: vida, cultura, doutrina, santidade. Tanto no Oriente quanto no Ocidente.

A doutrina católica ia se estruturando com os ensinamentos, escritos e exemplo desses grandes personagens. Em meio a heresias e controvérsias de seu tempo, todos tiveram que dar uma resposta ortodoxa e fiel à verdade revelada, sem deixá-la diluir nos erros e nas falácias de doutrinas malsãs. No meio de todos eles, Agostinho representa um síntese extraordinária de filosofia e teologia nos mais diversos campos da cultura eclesiástica.

Papas[editar | editar código-fonte]

No período de vida de Santo Agostinho, foram papas:

  • Libério (352-366): 36º papa na sucessão de Pedro;
  • São Félix II que, na verdade não foi papa. Apenas substituiu Libério durante o seu exílio. Retornando este, foi-lhe restituído o cargo;
  • São Dâmaso I (366-384). Realização do II Concílio Universal de Constantinopla (381). Encomendou a São Jerônimo estudos sobre a Bíblia, visando traduzi-la para ao Latim Vulgata;
  • Ursino (366-367): Antipapa;
  • São Sirfício (384-399);
  • Santo Anastácio I (399-401): Analisou a doutrina de Orígenes;
  • Santo Inocêncio I (401-417): Defendeu a doutrina da supremacia do papado. Combateu o pelagianismo. Ocorreu a invasão de Roma (410);
  • São Zózimo (417-418);
  • São Bonifácio (418-422);
  • Eulálio (418-419): Antipapa;
  • São Celestino I (422-432): Convocou o Concílio de Éfeso;

A família de Agostinho[editar | editar código-fonte]

É importante conhecer a índole da família para compreender alguns detalhes da vida de Agostinho. Para isso, nada melhor que ler seu livro Confissões. Porém, damos aqui um breve apanhado.

Pai Patrício[editar | editar código-fonte]

Funcionário público. Membro da corporação curial (decúrio). Pagão. Sem interesses religiosos. classe média-baixa. Possuía casa e uma pequena propriedade rural. Possuía também empregados ou escravos. De temperamento iracundo. Esforçou-se para dar aos filhos o devido estudo. Morreu quando Agostinho contava 17 anos de idade (cfr. Confissões III,4). Agostinho fala pouco dele. Foi batizado um pouco antes de morrer, conquista espiritual de Mônica, sua esposa.

Mãe Mônica[editar | editar código-fonte]

De família cristã. Bereberé. Não pobre. Educação cuidada. Casa por contrato na sua juventude. "União estreita", como afirma Agostinho. Mulher paciente e prudente, conquistou a admiração do marido. Marcou profundamente a alma de seu filho Agostinho, que lhe dá o duplo título de "Mãe da carne" e "Mãe do espírito". Preparou a conversão do filho: com seus ensinamentos, gravando no coração dele o nome de Cristo e outras verdades cristãs; com seu exemplo de mulher casta, discreta, crente, caridosa; com sua oração, pois "oferecia orações e lágrimas…" (Conf. VI,1). Era também uma figura conciliadora, "um grande dom".

Morreu em Óstia Tiberina (cfr. Confissões IX,8). Agostinho construiu um lindo monumento nas mais belas páginas panegíricas das Confissões à sua memória. É, no seu dizer, a serva servorum Dei (Conf. IX,9). Ela se distinguia, portanto, pela:

  • Fé: "A disciplina do vosso Cristo e sua doutrina educaram-na no vosso temor, no seio de uma família fiel, digno membro da Igreja";
  • Oração: "Piedosa", "Sóbria e casta" (Conf. III, 11), solícita com a saúde física(Idem IX,8), também com saúde espiritual do filho (Idem III, 11-12) e do esposo (Idem IX,9). Atenciosa para com todos;
  • Vida: "Com as boas obras dava testemunho de santidade", "vivia de tal modo que Vosso nome era louvado na sua fé e nos seus bons costumes" (idem IX,13). Alma eucarística. "Todos os que as conheciam vos louvavam, honrando-vos e amando-vos nela porque sentiam no coração a vossa presença, comprovada pelos frutos de uma existência tão santa" (Idem IX,9);
  • Desprendimento: Elevação espiritual. Dom da contemplação (Idem IX,10).

Irmãos: Navígio e Perpétua[editar | editar código-fonte]

O irmão mais velho de Agostinho chamava-se Navígio e era o primogênito. Além deste, Agostinho teve uma irmã, cujo nome se ignora e da qual sabemos apenas que foi religiosa e governou um mosteiro feminino próximo de Hipona. Alguns autores chamam-na de Perpétua, embora não tenhamos nenhuma referência.

Posição social da família[editar | editar código-fonte]

Classe média-baixa, como já adiantamos ao falar de Patrício, pai de Agostinho. Como decúrio, Patrício devia enfrentar frequentemente o deficit dos impostos e arcar com outros gastos com serviços e diversão da cidade. O trabalho confere à família certa honra social, mas ela não era rica. De fato, não pode carregar o peso dos estudos superiores dos filhos, particularmente de Agostinho. Foi necessário contar com a ajuda de Romaniano, grande amigo da família.

Ambiente religioso[editar | editar código-fonte]

Filho de matrimônio misto: pai indiferente, mãe fervorosa. Na época, século IV, o paganismo, como sistema religioso organizado, tinha retrocedido.

Após Constantino, sucedem-se decretos imperiais contrários ao paganismo. Permanecem fiéis a ele grupinhos aristocráticos saudosos. O cristianismo cresce. Na época, porém, o cristianismo sofre sérios ataques do Maniqueísmo e Donatismo.

Raça, língua e costumes[editar | editar código-fonte]

Agostinho era de raça berbere. Tagaste era centro de cultura berbere. Mas, embora africano de nascimento, Agostinho foi romano de cultura e de língua. Nunca aprendeu o púnico, a não ser algumas poucas expressões idiomáticas e frases curtas.

Era de cor branca. Personalidade viva por temperamento e inteligência.

Estudos[editar | editar código-fonte]

Desde cedo foi colocado na escola para as primeiras disciplinas. Embora tivesse muita facilidade para aprender, logo no começo adquiriu aversão por certas matérias que lhe eram ministradas sem muita pedagogia. Era uma criança normal.

Inteligência, perspicácia[editar | editar código-fonte]

"Qualquer coisa que se referisse à arte de falar (Retórica), de raciocinar discorrendo (Dialética), tudo o que se referisse a dimensões (Geometria), a músicas (Música) e a números (Aritmética), sem grande dificuldade compreendeu, mesmo sem ninguém explicar, tu, Senhor, sabes… porque a facilidade de compreensão e a perspicácia da percepção é teu dom" (Confissões IV,16,30, tradução livre).

Artes liberais[editar | editar código-fonte]

Liberal é diferente de manual (serviços mecânicos reservados aos escravos e servos). As Artes liberais procuravam levar o indivíduo à perfeição "humanística". Só aos patrícios podiam permitir-se o luxo de dá-las aos filhos. Se a economia não era forte (economia familiar), só restava a possibilidade de ganhar um generoso mecenas, que favoreciam os estudos de jovens pobres com dotes intelectuais relevantes. Assim aconteceu com Agostinho, cujo mecenas foi Romaniano.

Agostinho cursou o curriculum completo do ensino primário, médio e superior próprio da época.

  • Primário - Dos 7 aos 12 anos, com mestre ou professor. As crianças aprendiam a ler, escrever e contar.
  • Médio - Dos 12 aos 16 anos, com o chamado gramático, pessoa encarregada de ministrar as seguintes matérias: Gramática, História, Mitologia, Arte métrica, Música e leitura de textos dos Poetas.
  • Superior - Dos 16 aos 20 anos. Estudavam Retórica (comunicação e expressão), Dialética, Geometria, Música, Aritmética, Filosofia (sistemas, pensamentos, escolas…).
  • Leituras - Agostinho foi mau estudante quando criança (Confissões 1,12,19). Mas pouco a pouco vai sendo dominado por um desejo ardente de leitura: "Entendi e compreendi quaisquer livros que pude ler" (Conf. IV,16). Trata-se de leituras literárias e científicas das Artes liberais. Conheceu, certamente, as obras de Virgílio, Cícero, Salústio, Horácio, Varrão, Aristóteles, Platão.

A leitura de Hortênsio de Cícero mudou radicalmente seu comportamento interior em relação à sabedoria. Nasceu aí a atitude filosófica frente à retórica. Nesse momento aderiu também ao maniqueísmo, porque estes se proclamavam seguidores de Cristo. Ao mesmo tempo Agostinho leu "muitas coisas dos filósofos" (Conf. V,3,4).

O próprio Agostinho nos indica ter lido as seguintes obras filosóficas:

  • De Aristóteles (tradução de Mário Vitorino): as dez Categorias, Perihermenias, Tópicos;
  • De Platão: Fédon (tradução de Apuleyo); Timeu (tradução de Cícero);
  • Provavelmente de Porfírio: Isagoge ou introdução às Categorias de Aristóteles; Filosofia dos Cálculos (trad. de Mário Vitorino);
  • Das Escolas gregas, com suas linhas mestras de pensamento, através das relações feitas por Cícero, Varrão, Cornélio Celso;
  • De Cícero: De amicitia, De senectute, De academicis, Hertensius, De natura Deorum, Tusculanae, De finibus, De oficiis, De república;
  • De Varrão: Fonte histórico-filosófico-religiosa para Agostinho. Disciplinae;
  • De Apuleyo: Astronomia.

Processo espiritual[editar | editar código-fonte]

Agostinho não apenas acreditou sempre em Deus, como também na sua providência, na vida futura, nos julgamentos divinos; e teve sempre no coração o nome de Jesus, que havia bebido, como ele mesmo afirmava, com o leite materno (Conf. 3,4,8).

Durante toda sua vida foi se desenvolvendo, de uma forma lenta e gradativa, um processo humano de maturação afetivo-psico-intelectual que lhe deu base também para a maturação cristã.

Sua conversão foi um processo contínuo da graça de Deus, mas também foi muito decisiva sua formação humana, determinando sua capacidade de decisão, força de vontade, que ele reconhece como "dons" de Deus.

Infância[editar | editar código-fonte]

Da infância de Agostinho sabemos muitas coisas devido a suas Confissões. Durante sua infância foi acometido de uma febre, por causa de uma forte dor no estômago, e esteve perto de morrer; chegou mesmo a quase receber o batismo, o chamado batismo clínico.

Foi dotado pela natureza de um ânimo bom, afetuoso, decisivo e forte. Amante da ordem, da calma, da amizade e, sobretudo, da verdade. Comovia-se facilmente. Não gostava de desordens (Cfr. Confissões 1,20,31). Afinal, um menino normal, dentro dos conceitos de sua própria idade.

Adolescência[editar | editar código-fonte]

Também através das Confissões, temos muitas informações de sua adolescência. Esta sua fase etária foi muito marcante. A distância da influência da mãe, os exemplos dos companheiros, os coleguismos, fizeram com que ele tivesse, muitas vezes, "vergonha de não ser sem vergonha". Mas, por outro lado, sua própria mãe o elogiava, pois, era considerado por ela como "piedoso" (Conf. 9,12,30).

Foi, além disso, externamente expansivo, e rico de fantasia. Gostava dos jogos e brincadeiras e barulhos nas praças, assistir os espetáculos, imitar os atores, caçar pássaros nos bosques vizinhos.

Um ano que passou na ociosidade, sem poder estudar, encheu-lhe a vida de grandes problemas e vícios que mais tarde muito o fez lamentar.

Cultivou sempre uma profunda dedicação à amizade, a tal ponto de ser esta uma das características marcantes de sua vida.

Leitura de Hortênsius, de Cícero[editar | editar código-fonte]

Aos 19 anos, Agostinho descobriu o ideal da verdade, ao ler esta obra. Trata-se de um valor absoluto, transcendente às formas belas e úteis da Literatura.

Onde está a verdade? Cícero não o diz em seu livro, mas aconselha a buscá-la, não nas escolas ou autores, mas diretamente, por ela mesma.

Agostinho sente-se encantado por esta ideia ou proposta: ele mesmo é que deve iniciar agora uma caminhada espiritual, intelectual, longa e cheia de surpresas em direção à verdade.

Busca da Verdade[editar | editar código-fonte]

Começou, então, a ler com avidez não apenas as obras de literatura e poesia, mas também alguns filósofos. "Mas não havia ali o nome de Cristo".

Nas Escrituras[editar | editar código-fonte]

Não encontrando o nome de Cristo nos escritos filosóficos, partiu para as Escrituras, onde se deteve para beber ansioso a sabedoria. Foi um fracasso! Encontrou-a muito infantil. Não compreendeu sua linguagem.

Ele adorava a beleza do bem-dizer clássico. As Escrituras, no entanto, oferecem um linguajar humilde demais. Sua conclusão: não pode a sabedoria estar em formas tão desprezíveis; não combina com seu sistema e modo de pensar (Conf. 3,5,9).

Ele ainda não sabia que a Sabedoria de Deus só alcança os corações humildes.

No maniqueísmo[editar | editar código-fonte]

Os maniqueus, além de falarem de uma pretensa sabedoria, usavam o nome de Cristo. Por isso eles pareciam satisfazer as necessidades de quem busca a sabedoria, ao mesmo tempo que o nome de Cristo.

Agostinho se deixou envolver pelo maniqueísmo, e fala de "sedução" da falsa sabedoria.

Falto e carente de sólida interioridade ("encontro-me fora de mim mesmo"), caiu na rede pseudo-científica de um sistema filosófico-religioso vazio de conteúdo, mas exuberante de retórica e imaginação.

Agostinho fala de ficções brilhantes, falsidades, ficções vãs, comida, conjecturas, quimeras.O maniqueísmo prometia das explicação racional sobre o problema mundo-homem-Deus. Argumentos científicos. Não submissão à fé.

Ele frequentará este ambiente por nove anos. Primeiramente, entusiasmado; depois, desiludido. "Diziam: Verdade, Verdade! E muito falavam dela para mim… e ela não estava neles, mas falavam coisas falsas, não somente de Ti… mas também destas coisas e elementos do mundo…"

  • Adesão - Mas, por que Agostinho aderiu? "No fundo desta adesão houve, antes de mais nada, uma indigência profunda, uma veemência vital, uma surda inquietude, que a todo o custo suspirava para a harmonia de uma solução" (Capánaga, Introdución General a las Obras de San Agustín I, Madrid, 1946,10).

Bebeu a primeira água que lhe foi oferecida: "Não por escolha, mas por falta de outra" (De utilit. credendi 1,2).

Para esta adesão, que foi que mais lhe impressionou?

  • A solução do problema do mal?
  • O ascetismo dos "eleitos"?
  • A promessa de uma ciência racional?
  • As críticas à fé cristã?

Aceitação - De início entregou-se confiante ao sistema maniqueu. Chegou a empolgar-se com ele até ao proselitismo.

O sistema maniqueu[editar | editar código-fonte]

O maniqueísmo se caracteriza por um materialismo dualista, pelo pampsiquismo, pelo fatalismo e por uma ética catártica. Aqui nos propomos comentar algumas dessas características.

Pampsiquismo - tudo é mistura: luz-trevas. As diferenças são quantitativas. Todo ser finito tem um elemento de luz a ser liberado. São partículas de luz, princípios de vida ou alma (psiqué), de bondade. Tais princípios podem ser liberados pela ação dos "eleitos".

Antropologia - o homem também é mistura de luz-trevas. Mas é, ou pode ser, instrumento para encaminhar a liberação de luz nos seres inferiores (animais e vegetais). Existem dois tipos de homens:

  • Os eleitos - os que penetraram na "gnose" libertadora. São os "iluminados", "dominados pela luz". A morte deles significa a plena libertação.
  • Os ouvintes - os que apenas aceitam a doutrina de Manes. São imperfeitos. Não fizeram a opção total pelo Bem. Não se submeteram à ascese (celibato-abstinência). Se não se decidirem antes da morte terão que se reencanar.

Fatalismo - liberdade não é possível num sentido interior pessoal. No máximo pode-se falar de uma liberdade externa (ausência de coerção). Não há eleição auto-determinante para o Bem. Somente há liberdade externa, isto é, ausência de coação externa.

Responsabilidade - Não é possível também assumir a responsabilidade pessoal dos próprios atos. Isso levava a não ter que se angustiar com problemas de consciência nem arrependimentos humilhantes. Fácil solução ao problema do mal moral pessoal.

Ética maniqueia - é basicamente fundamentada num rito de purificação (catársis). É uma ética de fuga, uma luta "negativa" contra o mal. Não é o bem que entusiasma e compromete, mas o mal que ameaça e aprisiona. A perfeição será alcançada por quem maior desprendimento do mal ou maior domínio das fontes do mal conseguir.

Aqui convém lembrar a doutrina dos três selos, ideal no domínio ascético do maniqueu, que marcavam o tríplice caminho progressivo na conquista da perfeição: ventre/abstinência; mão/celibato; boca/ciência.

Quem possuía as três era "perfeito". Quem parava no primeiro, não passava de "ouvinte". Nasce, em definitivo, uma "ética subjetivista" em que a conduta pessoal passa a ser norma para todos. É o critério do momento, o costume, a própria justiça que se projeta como norma universal, e não uma lei reta e eterna estabelecida por Deus (Cfr. Confissões 3,7). É nessa linha que Agostinho rebate as acusações de impiedade lançadas ironicamente pelos Maniqueus contra os Patriarcas (Confissões 3,7,13-14).

Materialismo - Agostinho caiu no materialismo. "Não podia imaginar outra substância além da que nossos olhos constantemente vêem" (Confissões 7,1). "Não podia imaginar o espírito senão como um corpo sutil que se espalha pelos espaços" (Confissões 5,10,20).

Agostinho foi se desanimando da doutrina maniqueia. A decepção chega ao máximo na entrevista com Fausto, representante maior da doutrina maniqueia (Confissões 5,7,13). Ficou desprovido, sem possibilidade de novos caminhos dentro da seita. Fausto era o mais douto; no entanto, não soube dar respostas às suas dúvidas. Mas, embora desencantado com Fausto, ele o admirou pela sinceridade em admitir a própria ignorância (Confissões 5,7,12). Ainda que desencantado, Agostinho, em Roma, continuou, por razões de amizade e conveniência frequentando ambientes maniqueus. Contudo, o fez já sem expectativa de caminhar naquela falsa doutrina. Então, tíbio e negligente, manteve certo núcleo doutrinal, na esperança de poder um dia trocar por algo melhor.

Ceticismo dos Acadêmicos[editar | editar código-fonte]

Neste período, a Academia de Platão havia assumido uma postura cética. O ceticismo imperava nesta escola. Certamente este ceticismo não era o pirronismo, ou ceticismo universal, mas o propabilismo, mais mitigado, portanto.

Chega para Agostinho a tentação deste movimento (Confissões 5,10). "Ocorreu-me ao pensamento ter havido uns filósofos chamados acadêmicos, mais prudentes do que os outros porque julgavam que de tudo se havia de duvidar, e sustentavam que nada de verdadeiro podia ser compreendido pelo homem" (Confissões 5,10,19). São os primeiros sinais da desesperança. Não confia no maniqueísmo cheio de fábulas, ao qual decide abandonar, ainda que tomado pela tristeza, "duvidando de tudo" (Confissões 6,16,26), pois, mesmo o ascetismo dos eleitos era falso. Não sabe para onde se dirigir. Não pensa achar solução na Igreja Católica. Mas, será que a dúvida afetou nela todas as áreas do saber? Não, às verdades matemáticas (Confissões 6,4,6). Não, às verdades ontológicas de Deus: existência, providência, etc. (Confissões 6,5,7). Não, ao temor da morte e juízo (Confissões 6,16,26).

Parece que a dúvida só afetou a verdade de caráter religioso: possibilidade de alcançar Deus = Verdade = Bem (Confissões 5,14,24); verdade de ordem moral: justiça interior, castidade, responsabilidade. Trata-se mais de um ceticismo prático, mas que deixou forte impressão na sua vida. Tal experiência pessoal, dolorosa, sem dúvida, levará Agostinho a traçar vivamente a resposta ao problema da certeza, a natureza da verdade e os critérios do verdadeiro conhecimento humano.

Catecumenato[editar | editar código-fonte]

Em Milão, no ano 384, Agostinho estabeleceu contato com santo Ambrósio: estava à procura de oratória, não da verdade. Mas, "a verdade se me aproximava insensivelmente"(Confissões 5,13,23). Agradou-lhe e lhe foi uma descoberta perceber o sentido alegórico-espiritual com que Ambrósio interpretava as Escrituras; além do estilo atraente, com que aclarava muitas passagens impugnadas pelos maniqueus.

Nasce aí o desejo polêmico contra os maniqueus. Apoiado nas doutrinas cosmológicas dos filósofos "conhecedores das coisas do mundo" (Confissões 5,3) que lhe convencem mais que as fábulas de Manes ("copiosissime delirans"), e duvidando, com maior razão, de seu testemunho religioso, Agostinho decide abandonar o maniqueísmo.

Nessa situação de indecisão e sem maiores opções, determina ingressar como catecúmeno na Igreja que lhe foi recomendada por seus pais "até vir alguma certeza a elucidar-me no caminho a seguir" (Confissões 5,14). Esta nova situação levará Agostinho a entrar em contato com os temas centrais da doutrina católica.

Neoplatonismo[editar | editar código-fonte]

Por este tempo, caem nas mãos de Agostinho alguns livros "platônicos", traduzidos do grego ao latim. "Lidos, porém, de Plotino pouquíssimos livros" (De beata vita, 4). São livros de Plotino traduzidos ao latim por Mário Vitorino (Cfr. Confissões 8,2). Tais leituras causam em Agostinho um grande efeito. Foi como "balsamo sobre chama" que provoca um incrível incêndio (Contra acadêmicos, II,5).

Agostinho estabelece correspondências entre a doutrina de São João sobre o Verbo e as hipóteses divinas da Enéada de Plotino (Uno-Nous-Alma→ Enéada V), rejeitando, porém, o seu politeísmo emanatista (Confissões 7,10). Um novo mundo de realidades impensadas descortina-se ante o "olhar interior" de Agostinho. Recolhi-me ao coração, conduzido por Vós" (Confissões 7,10).

Neste momento começa a descobrir algumas verdades sobre Deus, a Criação, o Mal, o Verdadeiro, o Bem-Felicidade, o conceito de pecado, o retorno e a ascensão espiritual. Enfim, os livros neoplatônicos mostraram para onde devia orientar seus passos. As Escrituras iriam mostrar-lhe o Caminho por onde alcançar a Bem-aventurança desejada.

Ao Cristianismo[editar | editar código-fonte]

O Neoplatonismo descobriu para Agostinho a existência e o valor da Verdade eterna que pode ser e contemplada e fruída. Não podia oferecer-lhe, porém, a caminhada eficaz que o levasse à região da Verdade. A inteligência ficava olhando de longe.

Em se tratando da Verdade absoluta, divina, não adianta querer aparentar sabedoria, nem inchar-se com a ciência (Confissões 7,20,26), porque o conhecimento intimo de Deus não pode ser fruto de penetração intelectual, mas da livre comunicação (Revelação) de Deus.

E isso o Neoplatonismo não podia fazer. É Deus quem concede a sua graça aos humildes e lhe apraz revelar seu mistério aos pequeninos (Mt 11,25). Diante de Deus não tem valor a presunção e sim a confissão. A meditação humilde da Palavra de Deus levará Agostinho à conversão; com a graça, com a humildade, encontra e vive Deus.

Outros dados sobre Agostinho[editar | editar código-fonte]

Existem outras informações da vida de Agostinho que devem ser estudadas, pois são úteis ao seu melhor conhecimento. Dentre essas, anotamos as seguintes:

Constituição física[editar | editar código-fonte]

Desconhecemos sua fisionomia, mas sabemos bastantes detalhes sobre sua constituição física, devido a seus próprios escritos. Não foi uma pessoa de compleição forte. Ao contrário, era frágil e sujeito a constantes problemas de saúde.

Na meninice, "sobreveio-me certo dia uma febre alta, causada por uma opressão no estômago" (Confissões 1,10,17), e esteve quase à morte. Chegou a pedir o batismo.

Aso 29 anos foi colhido por uma enfermidade grave, mas não ainda especificada, que também quase o levou ao túmulo (Confissões 5,9,16).

Aos 33 anos foi atingido por uma lesão pulmonar que, causando-lhe fortes dores no peito, tornou difícil a respiração e por muito tempo o impediu de falar claramente (Confissões 9,2,4).

Em Cassicíaco teve uma aguda dor de dente que o impediu de expressar-se oralmente (Confissões 9,4,12).

Aos 56 anos de idade, em Hipona, uma doença o obrigou a um repouso de convalescência fora da cidade, durante a qual teve uma recaída com crises de febre (Ep. 118,34).

Aos 73 anos, em Hipona, quando foi procurado pelo conde Bonifácio, encontrava-se tão debilitado que mal conseguia falar (Ep. 220,2).

Fora estes casos de enfermidade, Agostinho sempre teve uma saúde muito debilitada. Logo de volta à África, escreveu a seu amigo Nebrídio que a enfermidade do corpo não lhe havia permitido fazer tudo quanto gostaria (Ep. 10,1). Muitos anos depois, já no final da vida, dirá ao povo que será velho pela idade, mas de há muito o está por causa das enfermidades corporais (Serm 355,7).

De fato, a frágil saúde o impediu muitas vezes de empreender viagens marítimas e mesmo ultramarinas, às quais, por necessidade de ministério, sobrecarregava aos irmãos no episcopado (Ep 122,1). Sua constituição não o permitia suportar o frio (Ep 124,1; 269). Foi atormentado de dores e de inchaços que muitas vezes o obrigavam à cama (Ep 38). Tinha uma voz tão fraca que não se escutava senão com um grande silêncio (Serm maio, 126; In Ps 50,1). Mais de uma vez, falando, confessou cansaço e afonia (Serm 42,1; 94; 320; 348,4; 350,2; In Joan tract 19,20).

A mulher de Agostinho[editar | editar código-fonte]

Agostinho, entre 17 e 18 anos de idade, começou a viver com uma mulher, certamente jovem como ele. Viveu com ela cerca de 14 anos, numa fidelidade impressionante. Ela era uma cartaginesa, que Agostinho havia trazido da África e com a qual teve um filho de nome Adeodato. Por que, depois de convertido, na hora de pensar no matrimônio, não se cogitou em legitimar a união com ela?

De acordo com a nossa concepção moderna, parece que esta seria a solução mais lógica; na verdade, a única justa. Mas isto não aconteceu e, certamente, não por falta de amor. Agostinho amava aquela mulher mais do que podemos imaginar. A separação lhe fez sangrar o coração: "Sendo arrancada do meu lado, como impedimento ao matrimônio, aquela com quem partilhava o leito, o meu coração, onde ela estava presa rasgou-se e vertia sangue. Retirara-se ela para a África, fazendo-vos voto de jamais ligar-se a outro homem e deixando-me o filho natural que dela tivera. E eu, miserável, não imitei esta mulher! Não sarara ainda a chaga, aberta pelo corte da primeira mulher. Mas, após a inflamação e após a dor pungentíssima, a ferida gangrenava, doendo-me dum modo mais frio, mas mais desesperado" (Confissões 6,15).

Por que Agostinho, na hora de casar-se, havia decidido casar-se com outra? Três hipóteses foram levantadas: a) por razões espirituais; b) por razões econômicas; e c) por razões sociais. Segundo T. Trapé, as duas primeiras hipóteses parecem insuficientes; a verdadeira razão devia ser a de ordem social. Se a mãe de Adeodato era, como parece evidente, de baixa condição social, a lei civil proibia em tal caso o matrimônio de pleno direito. De qualquer modo, não se pode falar nem de insensibilidade nem de culpa da parte de Agostinho. A primeira é desmentida pelas Confissões e a segunda não foi confessada. Se fosse culpado, Agostinho, tão sensível como era, teria falado longamente nas mesmas Confissões. Parece ter sido pessoa de altas qualidades intelectuais.

O filho Adeodato[editar | editar código-fonte]

Adeodato nasceu no ano 372, quando Agostinho tinha mais ou menos 18 anos. Agostinho o chama humildemente de "o filho do pecado"(Confissões 9,4). Esteve sempre em companhia dos pais. Quando sua mãe precisou separar-se de Agostinho para voltar a África, Adeodato ficou com Agostinho em Milão, onde foi batizado juntamente com o pai e Alípio na noite de 24 de abril de 387.

Viajou para a África e tomou parte do primeiro mosteiro de Tagaste. Adeodato é o interlocutor do diálogo ''De magistro''. Tinha, então, a idade de 16 anos. O próprio Agostinho afirma que todos os pensamentos colocados nos lábios de Adeodato são dele mesmo; e manifesta seu assombro por constatar que em tão tenra idade seu filho manifestasse tal admirável inteligência.

Adeodato morreu na adolescência em 388 aos 16 ou 17 anos de idade. Alguns acreditam que sua morte tenha ocorrido no ano 389.

Personalidade de Agostinho[editar | editar código-fonte]

Alguns traços característicos da personalidade de Agostinho:

  • religioso. O sentido do religioso lhe foi ministrado "com o leite materno" (Confissões 3,4,8). O nome de Jesus o marcou profundamente. Mesmo quando aderiu ao maniqueísmo, o fez pensando que aí pudesse satisfazer sua sede: "Qualquer obra que faltasse aquele nome (Jesus), mesmo que fosse sábia, ilustre e verdadeira, não me conquistava inteiramente"(Confissões 3,4,8).
  • apaixonado, no sentido da caracterologia. De fato, tudo dá a entender que era ativo, emotivo. Pelo menos a maioria de suas obras assim o revelam. Por isso mesmo tinha grandes sentimentos.
  • amante da amizade. Tinha um verdadeiro culto à amizade. Dedica páginas inteiras a esse assunto. Conheceu a amizade "inimiga", que faz o homem ter vergonha de não ser sem vergonha (Confissões 2,9,17); a amizade "humana" (Confissões 4,4,7; 4,4,9-7,12); e a "amizade cristã" (Ep. 258), em outras passagens onde elogia o afeto dos bons e verdadeiros amigos (De Civ. Dei 19,8), ou Alípio "amigo do peito", Nebrídio "amigo dulcíssimo", Severo "meu caríssimo concidadão", Profuturo "um outro eu mesmo".
  • saúde debilitada. A falta de saúde influía apenas em alguns trabalhos. Agostinho, de fato, não tinha uma constituição robusta e resistente. Escreve a Nebrígio informando que a enfermidade do corpo não lhe permite fazer tudo quanto gostaria (Ep 10,1).
  • expansivo e rico de fantasia. Tinha uma imaginação fértil, explorando-a nos seus escritos e sermões.
  • ordeiro. Amante da ordem, tinha uma profunda aversão à bagunça dos "baderneiros" (Conf. 3,3,6,; 5,8,14).
  • amante da beleza. Foi pela beleza que se aproximou da verdade: converteu-se primeiramente pelas formas belas à filosofia; posteriormente, para os vários aspectos do ser humano e do mundo antropocêntrico e teocêntrico. Ele mesmo afirmara que a filocalia (amor à beleza) era o passo necessário para a filosofia (amor à sabedoria).
  • amante da verdade. Sempre a procurou. Sua atitude de busca o fez trilhar vários caminhos antes da conversão.
  • desejoso da Felicidade. "Todo homem quer verdadeiramente ser feliz".
  • inteligência e coração. Uma das expressões mais utilizadas nos brasões agostinianos é sciencia et charitas. Não se pode entender Agostinho separando mente e coração. Ilumina a sensibilidade com a inteligência e dá sensibilidade à razão.
  • afetiva e emocionalmente equilibrado. Em todos os seus escritos transpira uma aversão ao pecado, mas um grande respeito e amor à pessoa. Agostinho é otimista metafísico e teológico.

Professor de Retórica[editar | editar código-fonte]

A Retórica, em sentido estrito, é um corpo de doutrina que se propõe ditar normas que capacitam à pessoa falar em público e a levar os outros, por meio da palavra, à persuasão. Num sentido mais amplo, no entanto, Retórica ultrapassa o campo da eloquência, invadindo o da poética, até se tornar também a arte de escrever belamente.

Agostinho, como professor de Retórica, necessariamente tinha que se desenvolver na arte do falar e do escrever. À medida que ele ia ministrando esta arte aos seus alunos, foi adquirindo, pelo seu gênio, uma versatilidade em relação à mesma.

Ao lado de grandes leituras que lhe deram o conteúdo, adquiriu, assim, o manejo da arte da persuasão através da palavra falada e escrita, que lhe deu a forma. Isso explica, em parte, a proficuidade dos escritos do Santo.

Converso[editar | editar código-fonte]

A crítica moderna tem pretendido demolir o conceito tradicionalmente aceito da conversão agostiniana, solapando, assim, a veracidade do relato das Confissões.

É claro que parecem um tanto divergentes os relatos próprios de sua conversão. Por exemplo, se formos comparar Contra acadêmicos, 2,2,5; PL 32,921; De beata vita 1,1,4; De utilitate credendi 1,8,20; PL 42,78-79. De fato, temos a impressão que o convertido, segundo os Diálogos de Cassicíaco, não pode ser o mesmo convertido segundo as Confissões. Mas devemos entender que as Confissões foram redigidas cerca de doze anos depois, o que explica o novo colorido que dá aos fatos.

Nos Diálogos aparece o neo-convertido, não o teólogo e polemista. Daí admitirmos não uma ruptura ou contradição entre os escritos, mas uma evolução. Muito menos ainda, considerar por estes motivos, que alguma destas obras tenham caráter de apócrifas.

Contudo, há verdadeiras discussões e antagonismos sobre o processo espiritual de Agostinho. Uns afirmam que o neoconverso aparece como um simples discípulo de Plotino, um neófito da filosofia, da arte, da escola da sabedoria antiga, não um discípulo de Cristo ou verdadeiro catecúmeno e converso da Igreja Católica.

Propriamente não se poderia falar de conversão, mas de evolução espiritual. Mas, onde entraria, então, a Graça? Segundo H. Gros, uma conversão supõe três etapas: 1. Um estado anterior de dispersão e desordem; 2. Um estado intermédio de crise; 3. Um estado de ordem e de unidade na alma (Cfr. BAC v. I, Obras de San Agustín, p. 19). Estas três etapas têm um realce especial e extraordinário na conversão de Agostinho.

Cristão[editar | editar código-fonte]

Com a conversão, Agostinho incorporou à vida nova a multidão de elementos adquiridos anteriormente. Foi, assim, ampliando sua síntese de vida, enriquecendo-a agora com os valores evangélicos. O Agostinho humano não desapareceu sob o Agostinho cristão. Mas ninguém pode duvidar que a cena do horto de Milão tenha mudado radicalmente sua vida. Trata-se de uma verdadeira conversão:

  • mudança nas idéias: antes tinha uma verdadeira repulsa à verdade central do cristianismo: a encarnação do Filho de Deus.
  • mudança de afetos e sentimentos: antes voltados para o terreno; agora orientados para o absoluto e eterno.

Mas Agostinho não queria ser cristão apenas conforme os preceitos evangélicos. Se assim fosse, não teria tido problemas maiores. Austero e generoso, fiel à mulher com a qual convivia, pai extremado, teria podido receber o batismo, celebrar o casamento, esperar a promoção que se previa não distante. Teria, assim, sido um bom cristão, um bom administrador e filósofo.

Contudo, ele aspirava e olhava bem mais alto. Queria dedicar-se inteiramente à Sabedoria, rompendo com as esperanças terrenas. Este era seu propósito desde os 19 anos: procurar a sabedoria e, uma vez encontrada, transferir-se a ela com toda a alma (Conf. 3, 4.7.8; 6, 11,18; 8, 7,17).

Agora já não havia mais as justificativas anteriores que o impediam de realizar estas aspirações. A verdade já aparecia certa. Os obstáculos a serem vencidos eram três: as riquezas, as honras, a mulher (Confissões 6,6,9). O primeiro, na verdade, não era muito forte, pois, desde a leitura de Hortênsius aprendeu a não desejar as riquezas e a não buscar senão o necessário alimento e a honesta utilidade (Soliloquios 1,10,17).

A segunda, isto é, a ambição do sucesso o havia dominado mais longamente. Foi essa ambição que o empurrou principalmente de Tagaste a Cartago, de Cartago a Roma, de Roma a Milão. Mas também essa ambição já havia dado passo ao amor da sabedoria. Quando Simpliciano lhe contou que Vitorino, sujeitando-se à lei do imperador Juliano que proibia aos cristãos de ensinar literatura, havia deixado, depois da conversão, o ensino, julgou que aquela atitude foi de sorte e não de violência: lhe oferecia de fato ocasião de dedicar-se inteiramente a Deus.

O terceiro obstáculo, a mulher, parecia-lhe mais forte. Com longas conversas procurou convencer Alípio, pois este tinha opinião diferente de Agostinho. O projeto de um "mosteiro" de filósofos, falido logo no começo pela presença das mulheres, deu razão a Alípio, mas não desarmou Agostinho (Confissões 6,14,24). Quem do grupo mais impelia Agostinho ao casamento era Mônica. Mulher inteligente e prática, pensava que somente no casamento Agostinho poderia viver aquele ideal cristão, ao qual se aproximava cada dia mais. Chegou mesmo a encontrar uma donzela milanesa que logo aceitou a ideia, mas que lhe faltavam ainda dois anos para a idade núbil. Essa moça parecia ter os dotes necessário para a situação(Solil. 1,10,17).

Rumo a África, Agostinho passou por Roma, onde permaneceu por dez meses, visitando mosteiros, os lugares religiosos e escrevendo livros. Roma, agora olhada com olhos cristãos, marcou-o indelevelmente.

Monge[editar | editar código-fonte]

Recebida a graça da conversão, Agostinho decidiu retornar à sua terra natal acompanhado de concidadãos e amigos. Seu propósito era colocar em prática o programa de vida concebido em Milão e estudado em Roma.

"Chegado (em Tagaste), aqui permaneceu por três anos. Renunciou aos bens, e junto com aqueles que lhe foram unidos, vivia para Deus nas preces, nas boas obras, meditando dia e noite a Lei do Senhor. E das verdades que Deus revelava à sua inteligência na meditação e na oração ele tornava participantes aos que estavam presentes e ausentes,ensinando-os com sermões e com livro" (Possídio, Vida de Santo Agostinho 3,1,2).

Este texto explica bem o ideal agostiniano: pobreza, vida comum, ascetismo, estudo, apostolado. O objetivo era, no dizer de Possídio, "viver Deus" (=viver para Deus), ou, como já havia dito o próprio Agostinho: deificari in otio (deificar-se na tranquilidade da vida contemplativa).

A comunidade foi crescendo. Agostinho sentia a obrigação de ensinar a todos a voltarem-se para dentro de si mesmos (In Jo 18,10; Sermão 52,22). Uma ciência difícil que era e ficará sendo para ele o ponto central da vida monástica. Enquanto isso, continuava seu programa intelectual e apostólico.

Sacerdote[editar | editar código-fonte]

Como Agostinho se tornou e quais as circunstâncias que acompanharam sua escolha? Vejamos o que ele mesmo nos diz:

"Eu procurava um lugar onde estabelecer um mosteiro e viver com meus irmãos. Tinha abandonado já toda esperança neste mundo e, aquilo que eu poderia ter sido, não quis sê-lo, nem mesmo procurei ser o que agora sou (bispo). Escolhi ser humilde na casa do Senhor, antes que viver nas casas dos pecadores (Salmo 83,11). Procurei manter-me longe daqueles que amam o mundo, e nem me retive igual àqueles que governam os povos. Ao chamado do meu Senhor não escolhi um lugar superior, mas inferior e humilde… eu temia o episcopado… tanto que evitei frequentar lugares onde sabia que o ofício de bispo era vacante. Mas,…o servo não deve contradizer ao patrão. Tinha vindo a esta cidade para visitar um amigo a quem eu pensava conquistar para Deus a fim de que pudesse viver conosco no mosteiro. Sentia-me seguro, pois naquela cidade havia bispo. Fui tomado e feito sacerdote. Assim, através do grau do sacerdócio cheguei ao episcopado (Sermão 355,2).

Por meio de outras fontes ficamos sabendo de outros detalhes: o velho Valério, bispo de Hipona, era grego de nascimento e não dominava bem o latim. Necessitava, portanto, da ajuda de um sacerdote. Ignorando tudo quanto estava para acontecer, Agostinho estava ali, no meio do fiéis. Sua presença, contudo, não passou despercebida. Valério expôs ao povo suas dificuldades. As palavras do velho bispo excitaram os ânimos dos fiéis presentes. Então, "apoderaram-se dele e, como se costuma em tais casos, o apresentaram ao bispo para que o ordenasse: todos, com unânime consenso e desejo pediam, com grande animosidade e algos gritos, que assim se fizesse" (Possídio, Vida de Santo Agostinho 4,2).

Mas, ainda que investido do caráter sacerdotal, conseguiu conciliar o sacerdócio com a vida pastoral e monacal (Cf. Sermão 355,2).

Assim, a vida monástica religiosa foi se difundindo rapidamente por todo o norte da África com esta nova característica de união entre a vida comunitária e apostólica. "Eu mesmo, continua Possídio, tenho conhecido uma dezena de santos e veneráveis varões, castos e doutíssimos, que o bem-aventurado Agostinho consentiu dar a diversas igrejas, algumas das quais até mesmo de muita importância" (em, Vida de Santo Agostinho 11,2,5) O mesmo Possídio foi membro de um dos mosteiros antes de se tornar bispo de Calama.

Agora sacerdote, Agostinho precisou aprofundar e dar uma direção nova à sua vida. Inclusive nos seus estudos. Obrigou-o a aprofundar com maior urgência sua cultura religiosa, teológica. Aliás, já estava pensando nisto em Tagaste, mas lhe faltava tempo. Agora, a urgência superava o tempo. Daí seu profundo estudo das Escrituras e autores eclesiásticos.

Bispo[editar | editar código-fonte]

A sagração episcopal não foi menos movimentada do que sua ordenação sacerdotal. Também neste caso o bispo insiste, o candidato resiste, o povo aclama.

Uma variante, contudo: o velho Megálio de Calama, primaz da Numídia, que devia sagrá-lo, se recusa. Valério tinha pressa a que Agostinho fosse sagrado bispo. Já de idade avançada, não queria perder tal candidato. Dois colegas de Agostinho tinham já sido escolhidos:

Alípio, para Tagaste, Profuturo, para Cirta. O bispo Valério, com muita astúcia, pediu a Megálio de Calama para fazer uma visita à igreja de Hipona; e, aqui, diante dos bispos reunidos em concílio regional e diante do povo, anunciou a sua intenção. Segundo Possídio, "Todos, ao ouvir aquilo, se alegraram e com grande entusiasmo gritaram para que assim se fizesse".

Mas, surgiram algumas dificuldades:

  • o costume na igreja da África não permitia mais de um bispo para cada sede;
  • Megálio, que deu ouvido a certas acusações de donatistas, entre as quais aquela que acusava Agostinho de ter problemas amorosos, não queria consagrá-lo.

Contudo, não foi preciso muito para convencer Megálio e outros opositores. O próprio Agostinho deixou-se persuadir pelas exceções que estavam se tornando comuns, tanto na África quanto nas igrejas de além mar, a respeito do primeiro problema (ele não sabia, então, que havia uma proibição de um concílio universal, o de Niceia, sobre este ponto). Quando, mais tarde, tomou conhecimento ficou profundamente aborrecido, conforme suas Cartas 31,4 e 213,4, escritas posteriormente.

Quanto ao segundo problema, Megálio reconheceu logo que havia sido enganado e confessou publicamente o seu erro (Contra Cresconium 3,80,92; 4,64,79; Contra litt. Petil. 3,16,19). A sagração episcopal de Agostinho ocorreu entre os anos 395 e 397. Na realidade, isto é muito discutido. Uma coisa é certa: o episcopado foi para ele um peso. Nunca o desejou, embora o tenha aceitado por amor e o exerceu com amor, conforme ele escreve ao monges de Cartago (Cf. De opere monachorum 29,37).

É seu o aforisma: praesse est prodesse: estar à frente é ser útil (=presidir é servir). Não se pode entender Agostinho, se não numa linha de "disponibilidade" e de serviço. Nessa linha é que deve ser entendida a "pobreza" agostiniana; não tanto no sentido do não ter, mas do estar disponível às necessidades da Igreja e dos irmãos.

Agostinho tinha razão de insistir sobre o peso do episcopado. No século IV, na África, numa cidade como Hipona, que também era porto marítimo, vinham forasteiros de todas as partes, inclusive os camponeses do interior. Social e religiosamente a população era dividida. Era muito pesado para Agostinho, principalmente na administração da justiça, sentar-se por horas a fio no tribunal, escutar, admoestar, decidir era tarefa extenuante. Muitas vezes até a hora da refeição; outras vezes o dia inteiro em jejum (cf. Possídio, Vida de Santo Agostinho, 19,2,5).

Podemos aplicar a Agostinho as mesmas palavras que ele dirigia a Pedro que havia pedido a Cristo ficar no monte Tabor: "Desce, ó Pedro. Desejavas repousar sobre o monte. Mas, não, desce; proclama a Palavra… trabalha, suporta a fadiga, sofre os tormentos… A realização do teu desejo, ó Pedro, está reservada, mas para depois da morte. Nesta ocasião, ele mesmo, o Senhor, te diz: 'Desce à terra para trabalhar, para servir, para ser desprezado, para ser crucificado'. A Vida desceu para fazer-se matar; desceu o Pão para passar fome; desceu o Caminho para cansar-se no caminho; desceu a Fonte para sofrer a sede; e tu recusas trabalhar? Não procure o teu interesse. Tenha a caridade, proclama a verdade e chegarás à eternidade, encontrarás a paz" (Sermão 78,6).

Agostinho foi sacerdote por cinco anos e viveu 34 anos de episcopado. Hipona era uma cidadezinha de cerca de 40.000 mil habitantes.

As obras de Agostinho[editar | editar código-fonte]

Nossa intenção aqui não era apenas apresentar uma lista, mas um comentário, ainda que sumário, de suas obras. Mas para não ferir os direitos alheios, remetemos nossos leitores ao eminente agostinólogo Agostino Trapé (Patrologia, Institutum Patristicum Augustinianum, v. III, Edit Marietti, (Roma) Torino, 1978, pp. 336–381), onde se poderá encontrar, além de uma lista das obras agostiniana, uma breve referência ao conteúdo de cada obra elencada.

Seja como for, queremos dizer que, para entender suficientemente as obras e o conteúdo dos escritos de Agostinho, é necessário, antes de tudo, situá-lo no tempo e no espaço.

De fato:

  • há uma evolução no seu pensamento. Então, é muito importante saber se ele escreveu no começo de sua conversão ou já na maturidade de sua vida e, portanto, de suas idéias;
  • muitas vezes lança mão de recursos retóricos: alegorias, exposições, hipérboles;
  • a intencionalidade do escrito determina uma certa conotação unilateral para reforçar o argumento;
  • o contexto da Igreja na época faz com que ele assuma certos posicionamentos.

Fontes[editar | editar código-fonte]

As fontes literárias dos seus escritos são duas, e ambas, devemos reconhecer, são incompletas: as "Retratações" e o "Indículo" (pequeno índice) de Possídio.

Agostinho já estava pensando nas "Retratações" desde o ano 412 (Cf. Epístola 143,2), mas só começou a fazê-las nos anos 426-427 (Retractationes 2,4,51 e De doctrina christiana 4,26,53). Foi um longo e minucioso exame de consciência sobre toda sua produção literária. Dividiu-a, segundo o gênero literário, em livros, cartas e tratados. Pode recensear apenas os livros, colocando-os em ordem cronológica, a fim de que o leitor pudesse conhecer "como, ao escrever, fez progressos". Faltou-lhe tempo para rever o restante das obras.

Além da importância bibliográfica, as "Retratações" têm outros valores de não menor monta: doutrinal, que oferece a chave para ler suas obras e conhecer seu pensamento conclusivo; autobiográfico, já que revelam a personalidade de Agostinho.

Possídio, seu primeiro biógrafo, acrescentou à sua obra (Vida de Santo Agostinho), uma lista das obras produzidas por Agostinho. Indicou aí, entre livros, cartas e tratados, 1030 obras, não considerando aquelas que "não podem ser numeradas", dizia ele. Certamente se referia ao catálogo das obras existentes na Biblioteca de Hipona (Retract. 2,41), da qual, tanto o "Indículo" como as "Retratações" dependem. Apesar de suas lacunas e alguns descuidos, trata-se de um documento precioso.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]