Casa da mãe joana

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Casa-da-mãe-joana é uma expressão de língua portuguesa que significa "o lugar ou situação onde vale tudo; sem ordem; onde predomina a confusão, a balburdia e a desorganização".

A sua origem mais provável remontará ao século XIV, por alusão a uma famigerada ordenação de D.ª Joana I, rainha de Nápoles e condessa de Provença, que estipulou os estatutos dos bordéis de Avinhão.[1]

Origem[editar | editar código-fonte]

Ensina Câmara Cascudo que a expressão se deve a Joana I de Nápoles, que viveu na Idade Média entre 1326 e 1382 e foi rainha de Nápoles e condessa de Provença. Teve uma vida atribulada e em 1346 passou a residir em Avinhão, na França, segundo alguns autores por ter se envolvido em uma conspiração em Nápoles de que resultou a morte de seu marido André, segundo outros por ter sido exilada pela Igreja por causa de sua vida desregrada e permissiva.

Em 1347, aos 21 anos, Joana regulamentou os bordéis da cidade onde vivia refugiada. Uma das normas, destes estatutos por si promulgados, dizia: «O lugar terá uma porta por onde todos possam entrar».[2]

Transposta para Portugal, a expressão «paço-da-mãe-joana» tornou-se sinónimo de prostíbulo. Teófilo Braga, na sua obra etnográfica «Costumes Crenças e Tradições, Vol II», de 1885, refere que a expressão ainda era de uso comum nos Açores, nos finais do século XIX.[3]

Trazida para o Brasil, o termo «paço», por não ser da linguagem popular, foi substituído por «casa». Desse modo, surgiu a expressão «Casa da mãe Joana», a qual serviu, por extensão, para indicar o lugar ou situação em que cada um faz o que quer; onde imperam a desordem e a desorganização.

Este termo, pode também querer dizer que tal casa não possui janelas nem portas; onde todos entram e saem sem pedir licença, imperando, portanto indisciplina e desrespeito, dentre outros.

Abonações históricas[editar | editar código-fonte]

João Baptista Silva Lopes, na sua obra «Corografia, ou, Memoria económica, estadistica, e topográfica do Reino do Algarve», faz o relato a respeito do primeiro prostíbulo legal, aberto no Reino dos Algarves, sob domínio português. O qual, à época, era referido popularmente como «paço-da-mãe-joana».[4] [5]

Trata-se da Mancebia aberta pelo segundo conde de Vila Nova de Portimão, D. Martinho de Castello Branco, camareiro-mor de el-rei D. Manuel I, vedor da fazenda real e preferido do rei. [6]

A 6 de Maio de 1516, este nobre recebeu o privilégio régio para abrir e explorar um prostíbulo na dita vila, sob condição de manter as "mancebas" (mulheres de costumes fáceis), apartadas das mulheres casadas e de bons costumes. Os rendimentos da exploração da dita casa reverteram a favor deste conde e dos seus descendentes, livres e isentos de quaisquer sindicâncias ou controlos por parte da justiça ou do clero.[7]

Referências

  1. Braga, Teófilo (1885). O povo português II: Nos seus costumes, crenças e tradições. Lisboa: Livraria Ferreira Editora. p. 132. 546 páginas  «(...)a Mancebia concedida em privilégio ao conde de Vila Nova, e certas locuções populares se referem também a isso, como o Paço da Mãe Joana, com que se designa a casa que está aberta para toda a gente»
  2. Braga, Teófilo (1885). O povo português II: Nos seus costumes, crenças e tradições. Lisboa: Livraria Ferreira Editora. p. 132. 546 páginas  «Nuns estatutos sobre bordéis de Avignon, atribuídos a Joana rainha de Nápoles e condessa de Provença, com data de 1347, estabelece-se que «tenha uma porta por onde todos possam entrar (et que siegs une porto... dou todas las gens intrarom)». (De la Prost. en Europe, fl. F.)»
  3. Braga, Teófilo (1885). Costumes, Crenças e Tradições. Lisboa: Livraria Ferreira Editora. p. 132. 546 páginas  «Nos Açores é muito usual para dizer que uma porta está escancarada. É como o paço da Mãe Joanna.»
  4. Silva Lopes, João Baptista (1841). Corografia, ou, Memoria económica, estadistica, e topográfica do Reino do Algarve. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 268 
  5. Braga, Teófilo (1885). O povo português II: Nos seus costumes, crenças e tradições. Lisboa: Livraria Ferreira Editora. p. 132. 546 páginas  «(...)a Mancebia concedida em privilégio ao conde de Vila Nova, e certas locuções populares se referem também a isso, como o Paço-da-Mãe-Joana, com que se designa a casa que está aberta para toda a gente»
  6. Silva Lopes, João Baptista (1841). Corografia, ou, Memoria económica, estadistica, e topográfica do Reino do Algarve. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 268, nota 2  « D. Manoel a quantos esta nossa carta virem, fazemos saber que o Conde de Villa Nova veedor de nossa fazenda nos disse ora q por quanto na dita villa (de Portimão) he necessaria huma mancebia e elle por bem e honestidade da boa vizinhança dos moradores della queira fazer aa sua custa em algum logar da dita villa q para isso seja mais conveniente encostada ao muro para se nella recolherem as mancebas solteiras e se apartarem de conversarem com as mulheres cazadas q vivem em sua honra lhe dessemos hum luguar para isso e ouvessemos por bem que ninguem a podesse fazer salvo esta, e visto por no seu Requerimento por lhe fazermos merce, nos pras de lhe dar luguar como de feito por este damos q elle faça a dita mancebia na dita Villa, e outra pessoa alguma ao diante o nom possa fazer nella, e tenha e aja para sempre toda a renda d'ella. E porém mandamos aos juízes e justiças da dita villa e a todos outros officiaes e pessoas a que o conhecimento desta pertence que lhe leixem fazer a dita mancebia e ter e aver a Renda delia assi elle com todos seus herdeiros que depois delle vierem para sempre como dito he; e em caso que a dita villa venha a nos e aos nossos successores todavia elle e os seus herdeiros ajam a Renda sobredita porque assim he nossa merece. Dada em a nossa villa de Almeirim, a seis dias de maio. Jorge Fernandes o fez de 1517»
  7. Branco, Manoel Bernardes (1893). Portugal e os estrangeiros. Lisboa: Imprensa Nacional. p. 30 
  • COTRIM, Márcio - O Pulo do Gato (Geração Editorial, 2005)
  • HOUAISS, Antonio - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Ed. Objetiva, 2004) - on line, para assinantes UOL