Combate do Côa

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Combate do Côa
Guerra Peninsular
LocalAlmeida.svg
Localização de Almeida, onde se deu o Combate do Côa.
Data 24 de Julho de 1810
Local Junto à praça de Almeida, Distrito da Guarda
Portugal
Resultado Retirada das forças Anglo-Portuguesas
Combatentes
Reino Unido Reino Unido
Flag Portugal (1707).svg Reino de Portugal
França Primeiro Império Francês
Comandantes
Brigadeiro-General Robert Craufurd General Michel Ney
Forças
± 5.750 britânicos e portugueses ± 9.800 franceses
Baixas
333  

O Combate do Rio Côa (24 de Julho de 1810) ocorreu no início da Terceira Invasão Francesa, no âmbito da Guerra Peninsular (1807-1814). Trata-se do primeiro combate travado durante aquela invasão. As forças aliadas comandadas pelo Brigadeiro-General Robert Craufurd foram obrigadas a retirar perante o avanço do 6º Corpo de Exército (VI CE) do Marechal Michel Ney que se deteve na margem Leste do Rio Côa a fim de pôr cerco à Praça-forte de Almeida.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Apesar de Napoleão Bonaparte reinar sobre quase toda a Europa, continuavam a existir dois focos de resistência à expansão francesa: as Ilhas Britânicas e a Península Ibérica, especialmente o Reino de Portugal que tinha já sido objecto de duas tentativas de domínio por parte dos Franceses. A Primeira Invasão Francesa de Portugal teve início em 1807 sob o comando de Junot e a intervenção britânica, após a eclosão das revoltas, primeiro em Espanha, depois em Portugal, determinou a expulsão das tropas francesas no ano seguinte. Em 1809 deu-se a Segunda Invasão Francesa, sob o comando de Soult, que culminou com a ocupação do Porto. Novamente a intervenção das tropas britânicas, agora mais bem apoiadas pelos regimentos portugueses já reorganizados ou em fase de reorganização sob o comando de William Carr Beresford, obrigaram a uma retirada, dramática, do exército francês.

Napoleão concentrou forças na Península Ibérica, ordenou a organização do chamado "Exército de Portugal" e para o comandar nomeou, em 17 de Abril de 1810, o Marechal André Massena, um dos seus generais favoritos.[1] Massena assumiu o comando no dia 28 de Maio, em Salamanca, quando a campanha já tinha começado.[2] A rota a seguir era Ciudad RodrigoAlmeidaCoimbraLisboa e isto significava que só depois de Ciudad Rodrigo ter sido tomada o exército francês podia avançar para Almeida. Ciudad Rodrigo, a cerca de 30 km da fronteira portuguesa, capitulou a 10 de Julho de 1810. Massena devia agora preocupar-se com a praça de Almeida pois só depois de estar na posse desta fortaleza podia avançar com segurança em direcção a Coimbra.[3]

Wellington não queria travar uma batalha decisiva nos terrenos planos do território espanhol em que se movimentavam as tropas de Massena pois não podia arriscar, numa batalha, perder o exército anglo-luso. Escolheu por isso manter-se nas regiões mais montanhosas, em Portugal, onde lhe era mais fácil retardar e flagelar o inimigo, causando-lhe baixas com a consequente redução dos efectivos disponíveis e afectando-lhe negativamente o moral das tropas, mas também, onde os franceses teriam mais dificuldade em utilizar a sua cavalaria e artilharia, armas em que eram nitidamente mais fortes do que as forças anglo-lusas.[4] Por outro lado, Wellington conservou o seu exército afastado da fronteira com o objectivo de manter flexibilidade para se movimentar em qualquer direcção e não ser surpreendido por um ataque de surpresa das forças francesas. Posicionou as suas forças para Oeste do rio Côa pois as pontes e vaus não eram abundantes e não desejava ver-se encurralado com aquele obstáculo à retaguarda. Assim, destacou a Divisão Ligeira de Craufurd para, junto à fronteira com Espanha, vigiar os movimentos do exército de Massena.[5]

As forças em presença[editar | editar código-fonte]

A Divisão Ligeira (Light Division em Inglês) era comandada pelo Brigadeiro-General Robert Craufurd e, com as unidades que lhe foram adicionalmente atribuídas para esta missão, tinha um efectivo de aproximadamente 5.750 homens sendo constituída por:[6]

Major-General Robert Carufurd, comandante da Divisão Ligeira do Exército de Wellington.
  • 43rd Foot (43º Regimento de Infantaria de Linha) com 973 homens;
  • 52nd Foot com 997 homens;
  • 95th Rifles[7] com 895 homens;
  • Um corpo de cavalaria formado pelo 1st Hussars KGL[8] e os 14º e 16º Regimentos de Dragões Ligeiros, com um total de 1.343 homens;
  • Uma bateria de artilharia a cavalo.

As tropas francesas que tiveram intervenção neste combate pertenciam ao VI CE do General Michel Ney e englobavam duas brigadas de cavalaria e a 3ª Divisão de Infantaria que seguia na dianteira do grosso das forças. Ao todo eram cerca de 9.800 homens[5] e estavam organizadas da seguinte forma:[9]

  • Brigada de Cavalaria, do General Lamotte, atribuída ao VI CE, com um total de 1.680 homens e constituída pelos 3º Regimento de Hussares e 15º Regimento de Caçadores a cavalo.[10]
  • Brigada de Cavalaria, do General Claude Gardenne, da Reserva de Cavalaria de l'Armée du Portugal, com um total de 1.426 homens e constituída pelos 15º e 25º Regimentos de Dragões[11]
  • 3ª Divisão de Infantaria, do General Louis Henri Loison, do VI CE, com um total de 6.826 homens e organizada da seguinte forma:
→ Brigada Simon, constituída pelo 26º Regimento de Infantaria de Linha (3 batalhões – 1.625 homens), Légion du Midi (564 homens) e Légion Hanovrienne (2 batalhões – 1.158);
→ Brigada Ferey, constituída pelo 32º Regimento de Infantaria Ligeira (1 batalhão – 413 homens), pelo 66º Regimento de Infantaria de Linha (3 batalhões – 1.830 homens) e pelo 82º Regimento de Infantaria de Linha (2 batalhões – 1.236 homens).

O combate[editar | editar código-fonte]

A Divisão Ligeira de Craufurd tinha-se mantido nas últimas semanas entre a fronteira portuguesa e Ciudad Rodrigo. O seu objectivo era vigiar e flagelar o inimigo sem nunca se empenhar num combate. Ciudad Rodrigo rendeu-se a 9 de Julho de 1810 e os franceses começaram a voltar as suas atenções para a fronteira portuguesa. No dia 21 de Junho Ney fez avançar a 3ª Divisão de Loison e a cavalaria que estava atribuída ao VI CE. Craufurd retirou as suas tropas para a região de Almeida. Wellington tinha-lhe dado ordens para passar para a margem ocidental do Rio Côa se os franceses se aproximassem com uma força tão forte que pudesse pôr em perigo a Divisão Ligeira. Antes de entrar em Portugal, Craufurd fez explodir o forte espanhol de La Concepcion para que os franceses não pudessem utilizá-lo de alguma forma.[12]

Disposição das força de infantaria e movimentos de retirada.

Craufurd concentrou a sua infantaria em Junça, uma aldeia a cerca de 6 km das portas de Almeida.[13] A sua cavalaria foi enviada para a frente a fim de efectuar reconhecimentos mais próximos dos franceses. O avanço francês, sempre marcado por escaramuças com a cavalaria britânica, parou em Vale da Mula, 6,5 km a Sudeste de Almeida. A cerca de 5Km para ocidente ficava Junça.[14]

A praça de Almeida está situada a pouco mais de 3 km do Rio Côa. Sobre este existe uma ponte estreita a que se acede, a partir de Almeida, por uma estrada que, no terreno mais íngreme perto do rio, tem um traçado com uma curva apertada que pode dificultar a circulação. O rio corre num leito profundo e de acessos muito difíceis. Constitui um obstáculo difícil de transpor. Da praça de Almeida não se consegue avistar, nem se conseguia bater com o fogo de artilharia, a ponte ou o troço da estrada no terreno mais íngreme. Almeida situa-se portanto no extremo de um planalto que se estende para Este até ao Rio Águeda. O terreno na zona de Almeida é muito rochoso e a paisagem estava cortada por numerosos muros de pedra.

Se Craufurd decidisse combater nas posições a Leste do rio teria, desta forma, um importante obstáculo à retaguarda que lhe iria dificultar a retirada quando aparecessem forças superiores contra as quais não se deveria empenhar. A sua acção a Leste do rio Côa, no entanto era inestimável pois permitia ganhar tempo que era importante para a continuação do reabastecimento da praça para a qual se previa um cerco prolongado.[15] O ataque, no entanto, foi mais forte do que o esperado. Quando a cavalaria francesa que seguia à frente, no dia 24 de Julho de manhã cedo, pôs em fuga as patrulhas da cavalaria britânica e os postos avançados lançados pelo 95th Rifles e se ouviram os tiros das carabinas e espingardas, os cinco batalhões de infantaria da Divisão Ligeira ocuparam rapidamente as posições de combate. Formaram uma linha que apoiava o seu flanco esquerdo na zona de um moinho existente nos terrenos mais elevados a Sudeste de Almeida, a cerca de 600 metros das muralhas e se estendia para Sul ao longo da estrada para Junça. A artilharia de Almeida proporcionava protecção à ala esquerda do dispositivo anglo-luso.

Cerca de uma hora após terem ocupado as posições de combate, os três batalhões britânicos e dois batalhões de caçadores portugueses foram atacados em força pela Infantaria de Loison, treze batalhões que, apesar da esmagadora superioridade numérica foram detidos no primeiro assalto. Mas de repente, o 3º Regimento de Hussares carregou ao longo do intervalo entre as muralhas de Almeida e o extremo da ala esquerda de Craufurd. Nesta acção, apesar do fogo da artilharia na praça de Almeida, a companhia de O'Hare do 95th Rifles foi praticamente aniquilada pois sofreu 12 mortos ou feridos e 45 prisioneiros, isto num total de 67 homens.[16] Craufurd deu imediatamente ordens para a retirada.

A cavalaria e a artilharia receberam ordens para se dirigirem de imediato para a ponte e passarem para a margem ocidental. Em seguida foi dada a mesma ordem aos dois Batalhões de Caçadores. Os restantes batalhões, britânicos, deviam retardar o avanço inimigo, tanto quanto possível. Esta acção tornava-se tanto mais difícil de executar quanto mais próximo se encontrava o inimigo e quanto mais pressão exercia. As dificuldades em movimentar os carros da artilharia provocaram um congestionamento na ponte e obrigaram os batalhões britânicos a empenharem-se de forma muito intensa para conseguirem passar também a ponte. Foi necessário, aliás, lançar um contra-ataque que surpreendeu as forças francesas para socorrer cinco companhias do 52nd Foot que tinham ficado para trás.[17]

As forças anglo-lusas atravessaram a ponte e perderam 333 homens, sendo 36 mortos, 214 feridos e 83 desaparecidos, provavelmente capturados pelos franceses.[18] Assim que atravessaram a ponte, os Caçadores foram colocados em posição para apoiarem a retirada dos batalhões britânicos e enfrentarem qualquer tentativa por parte dos franceses de tentarem passar igualmente o rio Côa. Na verdade, Ney realizou três tentativas de se apoderar da ponte mas foram infrutíferas e custaram pesadas baixas. É difícil saber exactamente quais as baixas sofridas pelas tropas francesas porque os relatórios nem sempre correspondiam à verdade e procurava-se dar a conhecer números sempre favoráveis. Ney menciona 530 baixas francesas, feridos e mortos.[19] Numa das tentativas que foram feitas para se apoderar da ponte, utilizando uma unidade de elite com pouco mais de 300 homens - os Chasseurs de Siège, formados pelos melhores atiradores de todos os regimentos do VI CE - sofreram 90 mortos e 147 feridos na tentativa de se apoderarem da ponte.[20] Da análise de diversos autores conclui-se que os franceses tiveram 7 oficiais mortos e 17 feridos, 110 praças (soldados ou sargentos) mortos e 397 feridos.[21]

Craufurd conseguiu salvar a sua Divisão Ligeira da situação difícil em que se tinha encontrado. Realizou uma acção retardadora com sucesso que podieria ter tido consequências muito más porque Craufurd demorou muito a dar a ordem de retirada. O planalto onde se encontrava a praça de Almeida estava agora na posse de Massena. Esperava-se que o cerco de Almeida fosse o mais demorado possível para que se criassem maiores dificuldades logísticas aos franceses, com a correspondente desmoralização das tropas, mas também para que se aprontassem o melhor possível as Linhas de Torres Vedras.

Referências

  1. CHARTRAND, pag. 13
  2. WELLER, pag. 119
  3. CHARTRAND, pag. 15
  4. CHARTRAND, pag. 17
  5. a b CHARTRAND, pag. 32
  6. OMAN, pag 544 e 546. Os números apresentados resultam do somatório das forças presentes no Buçaco (pag. 546) com as baixas registadas no Combate do Côa (pag. 544).
  7. As unidades com a designação Rifles eram as que utilizavam uma espeingarda já com o cano estriado que permitia executar tiro com maior precisão.
  8. 1º Regimento de Hussares da King's German Legion
  9. OMAN, pag. 540 a 543.
  10. Ver Caçador (militar).
  11. Esta brigada aparece nas ordens de batalha referidas em CHARTRAND, pag. 92, e em OMAN, pag. 543, como comandada pelo General Ornano porque o General Gardenne, após a tomada de Almeida, recebeu a missão de, com 5 esquadrões de Dragões, manter a ligação entre aquela praça e Ciudad Rodrigo (OMAN, pag. 344).
  12. OMAN, pag. 257
  13. Charles Oman refere na obra indicada, pág. 258, que Junca se situa a cerca de 1 milha (aproximadamente 1.600 m) das portas de Almeida. Uma consulta nos mapas mais actualizados ou no Google maps permite verificar a distância de 6,5 Km.
  14. OMAN, pag. 258
  15. OMAN, pag. 259
  16. OMAN, pag. 260
  17. OMAN, pag. 261
  18. OMAN, pag. 544
  19. CHARTRAND, pag. 42.
  20. OMAN, pag. 263
  21. SMITH, pag. 344

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

GLOVER, Michael, The Peninsular War 1807-1814, A Concise Military History, Penguin Books, United Kingdom, 2001.

OMAN, Sir Charles Chadwick, A History of the Peninsular War, volume III, Greenhillbooks, 2004, United Kingdom.

SIMMONS, Lieutenant George, A British Rifleman: Journals and Correspondence During the Peninsular War and the Campaign of Wellington, 1899.

SMITH, Digby, The Greenhill Napoleonic Wars Data Book, Greenhill Books, London, 1998.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências

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