Ir para o conteúdo

Fototerapia

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Cabine de fototerapia usada em tratamento dermatológico
Equipamento médico empregado em fototerapia com radiação ultravioleta

A fototerapia é o uso terapêutico de determinados tipos de luz, natural ou artificial, para produzir efeitos biológicos controlados em tecidos ou moléculas-alvo.[1] Em sentido amplo, o termo abrange modalidades distintas, como a exposição controlada à radiação ultravioleta em doenças da pele, o uso de luz visível no tratamento da icterícia neonatal e a aplicação de laseres ou diodos emissores de luz em técnicas de fotobiomodulação.[1][2]

A técnica não corresponde a um único tratamento, mas a um conjunto de procedimentos cuja indicação depende do comprimento de onda, da dose, da irradiância, do tempo de exposição, da área tratada e da condição clínica. Na prática médica, a fototerapia é usada principalmente em dermatologia e neonatologia, além de aparecer em áreas como odontologia, fisioterapia e cuidados de suporte, conforme protocolos específicos e supervisão profissional.[2][3][4]

Histórico

[editar | editar código]

O uso terapêutico da luz tem antecedentes antigos, especialmente na exposição solar controlada, também chamada de helioterapia. A fototerapia moderna, porém, passou a ser associada ao desenvolvimento de fontes artificiais de luz e à investigação dos efeitos da radiação sobre tecidos biológicos. Em 1903, Niels Ryberg Finsen recebeu o Nobel de Fisiologia ou Medicina por seu trabalho com radiação luminosa concentrada no tratamento do lúpus vulgar, uma forma cutânea de tuberculose.[5]

Ao longo do século XX, a fototerapia consolidou-se na dermatologia com o uso de radiação ultravioleta A (UVA), radiação ultravioleta B (UVB), PUVA e, posteriormente, UVB de banda estreita. Em neonatologia, equipamentos com luz azul passaram a ser usados para reduzir níveis elevados de bilirrubina em recém-nascidos com hiperbilirrubinemia indireta.[2][3]

Mecanismos gerais

[editar | editar código]

Os efeitos da fototerapia dependem da interação entre os fótons e os componentes biológicos capazes de absorver luz, chamados cromóforos. A absorção varia conforme o comprimento de onda e a composição do tecido; por isso, diferentes modalidades de fototerapia têm alvos, profundidade de penetração e efeitos clínicos distintos.[2]

Na dermatologia, a radiação ultravioleta pode produzir efeitos anti-inflamatórios, imunomoduladores e antiproliferativos, o que explica seu uso em dermatoses inflamatórias e imunomediadas. Entre os mecanismos descritos estão alterações na apresentação de antígenos, efeitos sobre células de Langerhans e indução de apoptose de linfócitos T e queratinócitos em determinadas condições.[2]

Na icterícia neonatal, a luz atua sobre a bilirrubina presente na pele e no tecido subcutâneo, promovendo reações fotoquímicas que originam produtos mais facilmente eliminados pela bile e pela urina. A Sociedade Brasileira de Pediatria aponta que a eficácia do tratamento depende de fatores como idade gestacional, idade pós-natal, nível inicial de bilirrubina, tipo de luz, superfície corporal exposta e irradiância espectral.[3]

Na fotobiomodulação, geralmente são usados lasers ou LEDs de baixa potência, sobretudo nas faixas do vermelho e do infravermelho próximo. Uma das hipóteses mais estudadas envolve a absorção da luz por componentes mitocondriais, especialmente a citocromo c oxidase, com alterações em vias celulares relacionadas à produção de energia, sinalização redox e resposta inflamatória.[6][7]

Modalidades

[editar | editar código]

Fototerapia ultravioleta

[editar | editar código]

A fototerapia ultravioleta utiliza radiação UVA, UVA-1 ou UVB em doses controladas. O UVB pode ser empregado em banda larga ou em banda estreita, sendo esta última geralmente situada em torno de 311 a 313 nanômetros.[2] Entre as modalidades dermatológicas estão o UVB de banda estreita, o PUVA, o banho-PUVA e técnicas direcionadas a áreas específicas da pele.[2]

O PUVA combina psoralenos, substâncias que aumentam a sensibilidade da pele à luz, com radiação UVA. Segundo a Sociedade Brasileira de Dermatologia, essa modalidade é usada em tratamentos dermatológicos selecionados, enquanto a fototerapia UVB de banda estreita é empregada em diversas dermatoses, conforme indicação médica.[8]

Fototerapia neonatal

[editar | editar código]

Na neonatologia, a fototerapia é uma das principais modalidades de tratamento da hiperbilirrubinemia indireta do recém-nascido. O objetivo é reduzir a bilirrubina sérica e prevenir complicações neurológicas associadas à hiperbilirrubinemia grave.[3][9]

A luz azul é particularmente relevante porque a bilirrubina apresenta maior absorção em faixas próximas desse espectro. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, a efetividade do tratamento exige controle da irradiância, exposição adequada da superfície corporal e avaliação clínica contínua do recém-nascido.[3]

Fotobiomodulação

[editar | editar código]

A fotobiomodulação é uma modalidade que utiliza luz não ionizante, geralmente emitida por laser de baixa intensidade ou LED, com o objetivo de modular processos biológicos sem produzir aquecimento destrutivo do tecido. Ela é estudada em áreas como dor, inflamação, reparo tecidual e saúde oral, mas suas indicações dependem do tipo de condição, dos parâmetros usados e da qualidade da evidência disponível.[4][10]

A World Association for Photobiomodulation Therapy publica recomendações de dose para determinadas aplicações, mas a dosimetria deve ser interpretada de acordo com o quadro clínico, o equipamento utilizado e as normas profissionais aplicáveis.[10]

Terapia fotodinâmica

[editar | editar código]

A terapia fotodinâmica é uma técnica relacionada, mas distinta, na qual uma substância fotossensibilizante é ativada por luz em comprimento de onda específico, gerando reações que podem destruir células-alvo. É usada em determinadas condições dermatológicas e oncológicas, conforme indicação especializada.[1]

Aplicações clínicas

[editar | editar código]

Dermatologia

[editar | editar código]

A fototerapia é usada em várias doenças dermatológicas, especialmente quando há indicação de controle inflamatório, imunomodulação ou redução da proliferação celular. Entre as condições tratadas com modalidades de radiação ultravioleta estão psoríase, vitiligo, dermatite atópica, parapsoríase, pruridos crônicos, algumas fotodermatoses e formas iniciais de linfoma cutâneo de células T.[2][11]

O tratamento costuma ser realizado em cabines, painéis ou equipamentos localizados, com protocolos que definem dose inicial, progressão de dose, frequência de sessões, proteção ocular e critérios de interrupção. A escolha entre UVB de banda estreita, PUVA ou outras modalidades depende do diagnóstico, da extensão da doença, do fototipo, das contraindicações e de tratamentos prévios.[2][8]

Neonatologia

[editar | editar código]

Em recém-nascidos, a fototerapia é indicada quando os níveis de bilirrubina atingem limiares definidos por idade em horas de vida, idade gestacional e fatores de risco. O tratamento é monitorado por dosagens de bilirrubina e pela avaliação clínica do recém-nascido.[3][9]

A eficácia depende da irradiância emitida, da distância entre a fonte luminosa e o paciente, da área de pele exposta e do tipo de equipamento. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda monitorização regular da irradiância dos aparelhos, pois a fototerapia sem avaliação adequada da dose luminosa pode se tornar uma forma não controlada de tratamento.[3]

Odontologia e reabilitação

[editar | editar código]

Na odontologia e em áreas de reabilitação, lasers e LEDs de baixa potência são estudados e empregados em protocolos de fotobiomodulação para modular dor, inflamação e reparo tecidual em situações específicas. A American Dental Association reconhece a fotobiomodulação como uma forma de tratamento com luz de baixa dose no contexto de saúde oral, embora destaque a necessidade de protocolos adequados e avaliação contínua da evidência para diferentes indicações.[4]

Segurança e contraindicações

[editar | editar código]

A fototerapia deve ser diferenciada da exposição solar indiscriminada e do bronzeamento artificial. Em ambiente clínico, a dose, o comprimento de onda, a duração da exposição e as medidas de proteção são definidos conforme a indicação terapêutica. Na fototerapia ultravioleta, efeitos adversos agudos podem incluir eritema, queimadura, ressecamento, prurido e reativação de algumas infecções cutâneas; riscos cumulativos incluem fotoenvelhecimento e possível aumento de risco de neoplasias cutâneas, sobretudo em protocolos prolongados ou com PUVA.[2]

No Brasil, o uso de equipamentos de bronzeamento artificial com finalidade estética e baseados em radiação ultravioleta foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária por meio da Resolução RDC nº 56, de 9 de novembro de 2009.[12] A Anvisa também alerta que câmaras de bronzeamento artificial com lâmpadas ultravioleta podem causar câncer de pele, queimaduras, envelhecimento cutâneo e lesões oculares.[13]

Na fototerapia neonatal, os cuidados incluem proteção ocular, controle térmico, monitorização clínica e avaliação dos níveis de bilirrubina. A conduta deve observar protocolos neonatais, pois os limiares de tratamento variam conforme idade gestacional

contentReference[oaicite:4]{index=4}

, tempo de vida e fatores de risco.[3][9]

Ver também

[editar | editar código]

Referências

  1. 1 2 3 «Definition of light therapy» (em inglês). National Cancer Institute. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 11 de março de 2026
  2. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Rathod, D. G. (2023). «Phototherapy» (em inglês). StatPearls Publishing/NCBI Bookshelf. Consultado em 23 de maio de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 Departamento Científico de Neonatologia (2021). «Hiperbilirrubinemia indireta no período neonatal» (PDF). Sociedade Brasileira de Pediatria. Consultado em 23 de maio de 2026
  4. 1 2 3 «Photobiomodulation (PBM) in oral health» (PDF) (em inglês). American Dental Association. 2023. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada (PDF) em 16 de outubro de 2025
  5. «The Nobel Prize in Physiology or Medicine 1903» (em inglês). Nobel Prize Outreach. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 16 de junho de 2026
  6. Hamblin, Michael R. (2018). «Mechanisms and Mitochondrial Redox Signaling in Photobiomodulation». Photochemistry and Photobiology (em inglês). PMC 5844808Acessível livremente. Consultado em 23 de maio de 2026
  7. Dompe, Claudia (2020). «Photobiomodulation—Underlying Mechanism and Clinical Applications». Journal of Clinical Medicine (em inglês). Consultado em 23 de maio de 2026
  8. 1 2 «Conheça os tratamentos mais comuns». Sociedade Brasileira de Dermatologia. 29 de outubro de 2021. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 5 de dezembro de 2022
  9. 1 2 3 «Jaundice in newborn babies under 28 days» (em inglês). National Institute for Health and Care Excellence. 31 de outubro de 2023. Consultado em 23 de maio de 2026
  10. 1 2 «WALT recommendations» (em inglês). World Association for Photobiomodulation Therapy. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 11 de fevereiro de 2026
  11. Ibbotson, Sally H. (2018). «A Perspective on the Use of NB-UVB Phototherapy vs. PUVA Photochemotherapy». Frontiers in Medicine (em inglês). PMC 6036147Acessível livremente. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 12 de outubro de 2025
  12. «Resolução RDC nº 56, de 9 de novembro de 2009». Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 9 de novembro de 2009. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 8 de março de 2026
  13. «Anvisa alerta sobre os perigos na utilização de câmaras de bronzeamento artificial». Agência Nacional de Vigilância Sanitária. 3 de janeiro de 2025. Consultado em 23 de maio de 2026. Cópia arquivada em 11 de maio de 2026