Harra
Harra (em árabe: حَرَّة; romaniz.: ḥarra; plural: em árabe: حَرَّات; romaniz.: ḥarrāt) é o termo árabe empregado para designar extensos campos vulcânicos constituídos por lava basáltica solidificada, caracterizados por planícies e elevações cobertas por rochas negras fragmentadas. Essas formações distribuem-se principalmente pela porção ocidental da península Arábica, estendendo-se desde o Haurã até a região de Medina, onde se concentram algumas das harras mais conhecidas. As harras constituem um dos elementos geológicos mais característicos da paisagem da Arábia. Formadas pelo resfriamento de antigos derrames de lava, muitas delas preservam importantes reservas subterrâneas de água, circunstância que favoreceu a ocupação humana desde a Antiguidade. Diversas formações tornaram-se conhecidas por acontecimentos históricos nelas ocorridos ou pelas tribos que as habitavam, dando origem a topônimos de uso local e regional. As harras ocupam lugar de destaque na tradição islâmica e na geografia histórica da Arábia. Vários episódios da vida de Maomé, da Hégira, das primeiras conquistas muçulmanas e da história posterior do Califado ocorreram nesses campos vulcânicos, destacando-se a Harra de Uaquime, cenário da Batalha de Harra em 683, cujo renome fez com que fosse frequentemente designada nas fontes simplesmente como "Harra".
Geologia
[editar | editar código]Harra é o termo árabe empregado para designar extensos campos de lava basáltica formados por antigos derrames vulcânicos. As fontes geográficas clássicas descrevem uma harra como uma região coberta por pedras negras e fragmentadas, cuja aparência lembra uma superfície que teria sido consumida pelo fogo.[1] O vocábulo laba (lava) é empregado como sinônimo de harra. Essas formações resultam do resfriamento e da solidificação da lava expelida durante erupções vulcânicas, que se espalha por amplas extensões do terreno. A presença desses campos de basalto constitui uma das características geológicas mais marcantes da península Arábica, onde grande parte das elevações e dos vales possui origem vulcânica. A formação de uma harra é um processo lento. Ao longo do tempo, fragmentos desprendidos das elevações vulcânicas acumulam-se em suas encostas e, cessada a atividade geológica, essas áreas transformam-se gradualmente em regiões desérticas. Alguns estudiosos identificaram nesse processo uma possível correspondência com a descrição das terras áridas presente no Livro de Jeremias (17:6). As fontes árabes registram diversos episódios de atividade vulcânica na península. Poetas pré-islâmicos, entre eles Antara ibne Xadade, já faziam referência a erupções vulcânicas. Durante o califado de Omar (r. 634–644) ocorreu uma erupção em Harra de Alaila no ano 19 A.H. (640), enquanto no governo de Otomão (r. 644–656) foi observado um vulcão fumegante nas proximidades de Medina. A erupção historicamente mais importante ocorreu em 28 de junho de 1256, a leste de Medina. A atividade prolongou-se por várias semanas, sendo acompanhada de frequentes terremotos, e os fluxos de lava alcançaram Harra de Alaride. Apesar da magnitude do fenômeno, Medina não sofreu danos significativos. Desde então, não há registro de novas erupções na península Arábica, embora se considere que seus vulcões permaneçam potencialmente ativos.[2]
Distribuição geográfica
[editar | editar código]Os campos vulcânicos conhecidos como harras distribuem-se principalmente pela porção central e ocidental da península Arábica, estendendo-se até o leste do Haurã. A maior concentração dessas formações situa-se entre Damasco e Medina, formando uma extensa faixa de terrenos vulcânicos que atravessa o noroeste da península Arábica.[1] Os geógrafos árabes medievais registraram numerosas harras individuais entre a Síria e o Iêmem, das quais atualmente se conhecem treze. As mais célebres localizam-se nos arredores de Medina. Entre as maiores destacam-se as harras de Caibar e Aluairide. Muitos desses campos vulcânicos tornaram-se conhecidos por acontecimentos históricos ocorridos em seu interior ou pelas tribos que os habitavam, razão pela qual a maioria de seus topônimos possui caráter local. Nas estepes do Hejaz, cada tribo possuía tradicionalmente sua própria harra, utilizada como área de acampamento e de pastoreio para os camelos conhecidos como harrī. Apesar das dificuldades impostas pelo terreno pedregoso, numerosas harras foram ocupadas permanentemente em virtude da abundância de água subterrânea armazenada sob as camadas de basalto. Essas reservas alimentavam importantes nascentes, muitas das quais continuam abastecendo Medina na atualidade. As harras também constituíam importantes áreas de extração mineral desde a Antiguidade, sobretudo de basalto destinado à fabricação de mós, enquanto Harra de Anar, situada entre Uádi Alcura e Temá, permaneceu conhecida pela riqueza de seus depósitos de bórax.[2]
História
[editar | editar código]As harras desempenharam papel importante na história do islã, especialmente as situadas nos arredores de Medina. Segundo um hádice, antes da Hégira Maomé descreveu o local para onde seus seguidores emigrariam como "uma cidade de tamareiras situada entre duas harra". Essa tradição tornou-se célebre na literatura islâmica e figura, entre outras obras, nos relatos sobre a conversão de Salmã, o Persa. Após a chegada a Medina, Maomé delimitou os limites do harame de Medina como a área compreendida entre a Harra de Uaquime e a de Aluabara. Segundo a tradição, antes de sua chegada definitiva à cidade, os habitantes de Medina costumavam esperar diariamente por ele em Harra de Aluabara até o calor do meio-dia, sendo nesse local que finalmente o encontraram quando da Hégira. Diversos acontecimentos dos primeiros tempos do islã estiveram ligados às harras medinenses. Maomé determinou que Rifa ibne Zaíde e seus companheiros da delegação do Hadramaute fossem hospedados em Harra de Arrájela. Segundo a tradição, também era nas harras de Medina que se executavam determinadas penas impostas aos apóstatas e aos condenados por lapidação. Antes mesmo da Hégira, a primeira oração comunitária de sexta-feira realizada em Medina teria ocorrido em Harra de Bani Baiada.[3]
As harras também serviram de cenário para importantes acontecimentos militares. Durante a Campanha de Tabuque, Maomé acampou na harra de Tabuque. Em 683, a Batalha de Harra foi travada em Harra Uaquime, episódio que tornou essa formação tão célebre que passou a ser conhecida simplesmente como "Harra".[4] Mais tarde, em 844, o comandante turco Buga, o Velho, enviado pelo califa abássida Aluatique (r. 842–847), derrotou rebeldes da tribo dos soleimitas em Harra de Bani Soleime, onde estes mantinham suas fortalezas. O interesse pelas harras refletiu-se também na literatura geográfica islâmica. Ibne Anadim menciona diversos tratados dedicados exclusivamente a essas formações, entre eles o Kitāb al-Ḥarrāt de Abu Ubaida Mamar ibne Almutana, o Kitāb al-Ḥarra wa al-Umma de Ali ibne Daúde, o Kitāb Ḥarrat Wāqim de Almadaini e outra obra intitulada Kitāb al-Ḥarra, de Algalabi. Um livro homônimo atribuído a Aluaquidi não sobreviveu de forma independente, mas parte de seu conteúdo foi preservada nas obras de Açamudi e Abu Alárabe.[3]
Referências
- 1 2 Lewis et al. 1986, p. 226.
- 1 2 Küçükaşcı 1997, p. 244.
- 1 2 Küçükaşcı 1997, p. 245.
- ↑ Vaglieri 1986, p. 226.
Bibliografia
[editar | editar código]- Küçükaşcı, Mustafa Sabri (1997). «Harre». In: Çağrıcı, Mustafa; Yavuz, Yusuf Şevki; Sezen, Ramazan. TDV İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. TDV İslâm Ansiklopedisi. 16. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 244–245. Cópia arquivada em 15 de dezembro de 2025
- Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. (1986). «Ḥarra». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, New Edition. III: H–Iram. Leida: E.J. Brill. 226 páginas. ISBN 90-04-08118-6
- Vaglieri, L. Veccia (1986). «al-Ḥarra». In: Lewis, B.; Ménage, V. L.; Pellat, Ch.; Schacht, J. The Encyclopedia of Islam, New Edition. III: H–Iram. Leida: E.J. Brill. 226 páginas. ISBN 90-04-08118-6