Hipótese da savana

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A hipótese da savana, em paleoantropologia, foi uma das principais hipóteses sobre como o ser humano evoluiu à sua conformação atual, sobretudo pelo andar ereto (bipedalismo), partindo de indivíduos ancestrais do meio de vida arbóreo em transição para o ambiente de savana.

Ideia bem mais difundida e aceita que as demais hipóteses que tratam do tema, sobretudo a hipótese do macaco aquático e outra que defende a escolha de parceiros saudáveis em razão de parasitas,[1] ela contudo veio sofrendo um declínio em sua comprovação a partir da década de 1990.

Segundo esta hipótese, entre cinco e dois milhões de anos atrás os hominídeos partiram das florestas onde se desenvolveram entre seis e cinco milhões de anos, e se adaptaram a um novo habitat primeiro aprendendo a ficar em pé e, a seguir, a andar ereto.[2]

Argumentos[editar | editar código-fonte]

Pinturas de paisagens com campos abertos e poucas árvores seriam um comprovador da hipótese.
Andreas Edvard Disen.

Esta hipótese estava intimamente relacionada com aquela que fala da evolução para a nodopedalia (caminhar sobre os nós dos dedos), sob alegação de que os primeiros ancestrais humanos caminhavam de quatro quando partiram inicialmente para as savanas; tal fato se baseava na observação das características morfológicas encontradas em exemplares de Australopithecus anamensis e Australopithecus afarensis, e postulava que o andar sobre os dedos seria um exemplo de evolução convergente em chimpanzés e gorilas, que mais tarde desapareceu no gênero Homo.[3] P. E. Wheeler sugeriu que outra vantagem estava na redução da quantidade de pele exposta ao sol, o que ajudava a regular a temperatura do corpo.[4]

Os paleoantropólogos adeptos desta hipótese também postularam que a postura ereta teria sido vantajosa para os hominídeos que habitavam savanas também porque lhes permitia espreitar os predadores ou presas sobre a grama alta.[5]

Segundo a hipótese a preferência dos ancestrais pela savana fez-se refletir no homem moderno, que manteve a predileção por paisagens abertas e com poucas árvores (onde, conjectura, seria mais fácil a coleta de vegetais e seguir os animais que caçava), o que pode ser verificado com a presença desse tipo de paisagem desde nas pinturas clássicas aos atuais parques urbanos; acresce, ainda, que testes realizados com fotografias de vários ambientes naturais apresentadas a voluntários, aquelas que exibiam imagens das savanas foram consideradas as mais atraentes; o fato de o homem não ser um animal de floresta se refletiria no atual comportamento avesso a elas, e portanto predatório: poucos os povos se estabeleceram em ambientes florestais, e seu desenvolvimento tecnológico ali restou prejudicado pois as matas impossibilitam aquilo que levou à civilização mais complexa: a agricultura e a criação de animais.[6]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Embora as ideias fundamentais por trás da hipótese remontem a Darwin,[7] ganhou proeminência com a descoberta do Australopithecus africanus por Raymond Dart em 1924. No artigo sobre a descoberta, publicado na revista Nature, Dart escreveu:[8]

"Para a produção do homem era necessário um aprendizado diferente para aguçar o raciocínio e acelerar as manifestações mais elevadas do intelecto - um espaço físico mais aberto, onde a competição era maior entre a rapidez e a discrição, e onde a perspicácia do pensamento e do movimento desempenharia um papel preponderante na vida. Darwin disse, "nenhum lugar do mundo é mais rico em animais perigosos do que a África Austral" e, na minha opinião, a África Austral, fornecendo um vasto campo aberto com cinturas florestais ocasionais e uma relativa escassez de água, juntamente com uma feroz e amarga competição de mamíferos, forneceu um laboratório que era essencial para esta penúltima fase da evolução humana".[nota 1]
Original (em inglês): Australopithecus africanus: The Man-Ape of South Africa
— Raymond Dart (em inglês)

Nas décadas seguintes à descoberta de Dart, mais fósseis de hominídeos foram encontrados na África Oriental e Austral, o que levou as pesquisas a concluírem que esses também eram moradores da savana. Grande parte da discussão acadêmica da época deu como certo que a transição para as savanas era responsável pelo surgimento do bipedalismo e, assim, se concentrou em determinar os mecanismos específicos pelos quais isso aconteceu.[7]

Declínio[editar | editar código-fonte]

Nos últimos anos do século XX novas evidências fósseis começaram a surgir, colocando em cheque a hipótese da savana. Esses remanescentes recém-descobertos mostraram indícios de que os hominídeos estavam bem adaptados para subir em árvores, mesmo antes de já terem começado a andar em pé.[9] Tanto os humanoides quanto os chimpanzés tende a ficar eretos quando se movem ao longo dos galhos das árvores, aumentando assim o seu alcance.[10] Tanto Lucy , o famoso Australopithecus afarensis, como "Little Foot", a coleção de ossos do pé de Australopithecus africanus, demonstram características consistentes com o arvorismo e a marcha ereta; o primeiro caso por possuir dedos curvos, e o segundo através de um dedo grande divergente. Além disso, o pólen antigo encontrado no solo perto de onde esses fósseis foram descobertos sugere que a área costumava estar muito mais molhada e coberta de vegetação espessa, só recentemente se tornando o deserto árido que é agora.[7]

Notas

  1. Livre tradução de: "For the production of man a different apprenticeship was needed to sharpen the wits and quicken the higher manifestations of intellect – a more open veldt country where competition was keener between swiftness and stealth, and where adroitness of thinking and movement played a preponderating role in the preservation of the species. Darwin has said, "no country in the world abounds in a greater degree with dangerous beasts than Southern Africa." and, in my opinion, Southern Africa, by providing a vast open country with occasional wooded belts and a relative scarcity of water, together with a fierce and bitter mammalian competition, furnished a laboratory such as was essential to this penultimate phase of human evolution."[8]

Referências

  1. Mark Pagel, Walter Bodmer (2003). «A naked ape would have fewer parasites». Proc. R. Soc. Lond. B (Suppl.) 270, pp, 117–119 (The Royal Society). Consultado em 22 de abril de 2016. Cópia arquivada em 30 de dezembro de 2017 
  2. Redação super (Janeiro de 2012). «Como nosso corpo é». Revista Superinteressante, nº 300a. Consultado em 21 de abril de 2016. Cópia arquivada em 4 de maio de 2016 
  3. Brian Richmond; David Strait (23 de março de 2000). «Evidence that humans evolved from a knuckle-walking ancestor». Nature, volume 404, pág. 382–385. Consultado em 26 de setembro de 2017 
  4. P. E. Wheeler (1 de janeiro de 1984). «The evolution of bipedality and loss of functional body hair in hominids». Journal of Human Evolution, volume 13, nº 1, pág. 91–98. Consultado em 26 de setembro de 2017 
  5. Dean Falk (2000). W. W. Norton & Company, ed. Primate Diversity 2 ed. [S.l.: s.n.] ISBN 0393974286. Consultado em 26 de setembro de 2017 
  6. Silvio Marchini (27 de março de 2011). «O brasileiro e as florestas» (PDF). Consultado em 28 de fevereiro de 2019. Cópia arquivada em 28 de fevereiro de 2019 
  7. a b c James Shreeve (1 de julho de 1996). «Sunset on the Savanna». Discover, volume 17, nº 7. Consultado em 26 de setembro de 2017 
  8. a b Raymond Dart (7 de fevereiro de 1925). «Australopithecus africanus: The Man-Ape of South Africa» (PDF). Nature, volume 115, nº 2884, pág. 195–199. Consultado em 26 de setembro de 2017 
  9. Green, Alemseged; David, Zeresenay (2017). «Australopithecus afarensis Scapular Ontogeny, Function, and the Role of Climbing in Human Evolution». Science. 338 (6106): 514–517 
  10. S. K. Thorpe; R. L. Holder; R. H. Crompton (2007). «Origin of human bipedalism as an adaptation for locomotion on flexible branches». Science. 316: 1328–31. PMID 17540902. doi:10.1126/science.1140799 

Ver também[editar | editar código-fonte]