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Igreja de São Sebastião da Pedreira

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Igreja matriz de São Sebastião da Pedreira
Apresentação
Tipo
Religião
Estatuto patrimonial
Localização
Localização
Coordenadas
Mapa

A Igreja de São Sebastião da Pedreira é um templo católico situado no Largo de São Sebastião da Pedreira, na atual freguesia de Avenidas Novas, em Lisboa.[1]

Igreja de construção seiscentista, tendo sido inaugurada em 1652, foi fundada no tempo do rei D. João IV, no sítio da Pedreira, sendo uma das raras sobreviventes do terramoto de 1755. Foi dedicada ao mártir cristão São Sebastião, cuja vida é retratada no teto e nos painéis de azulejos que forram as paredes.

Esta igreja foi classificada como IIP - Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 39 521, DG, I Série, n.º 21, de 30-01-1954.[2][1]

História

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No local onde hoje se implanta a igreja, existia já nos primórdios da nação uma ermida detida pelos carpinteiros (ou caixoteiros) residentes na Rua das Arcas, inserida nas freguesias de Santa Justa e, mais tarde, de São Nicolau. A veneração a São Sebastião, protector contra a peste, oficializou-se aquando dos graves surtos epidémicos que assolaram Lisboa no século XVI, nomeadamente a Peste Grande de 1569, que alcançou o seu pico no Verão e vitimou cerca de 50 mil pessoas; seguir-se-iam décadas depois outros surtos que, em 1579-1598, mataram outras dezenas de milhares.[3][4][5] Consequentemente, a comunidade comprometeu-se a assegurar a deslocação dominical de um sacerdote à ermida, instituindo ainda festividades anuais a 20 de Janeiro. As celebrações incluíam a exposição do sagrado Lausperene, com a duração de 40 horas, e uma procissão de véspera que partia da Igreja de São Nicolau acompanhada por uma comunidade religiosa, uma irmandade e uma relíquia do Santo Lenho transportada sob um pálio, além dos andores de São Sebastião e do Menino Jesus. Esta tradição manteve-se ininterrupta até ao sismo de 1755.[3][6][4][7][5]

Paralelamente, a Coroa portuguesa já manifestara interesse em erguer um novo templo dedicado ao mesmo mártir. Em 1527, o imperador Carlos V havia oferecido a D. João III um braço do santo, furtado de uma igreja italiana pelos seus soldados, sendo a relíquia depositada no Mosteiro de São Vicente de Fora. Motivados por esta presença, os artilheiros da guarnição de Lisboa já haviam formado uma irmandade na Mouraria em 1505. Posteriormente, no contexto da epidemia de 1569, o rei D. Sebastião determinou a edificação de uma igreja no Terreiro do Paço. Contudo, após o início dos trabalhos em 1571 e a posterior aclamação de Filipe I, os monges de São Vicente de Fora contestaram a localização, argumentando que a obra deveria ocorrer no seu mosteiro, que era detentor da relíquia. Consequentemente, as construções no Terreiro do Paço foram demolidas, iniciando-se uma nova igreja na colina de São Vicente em 1582, a qual acabou por ser dedicada não apenas a São Sebastião, mas também a São Vicente e Santo Agostinho.[6]

Entretanto, no sítio da Pedreira, o Patriarca das Índias e de Alexandria, D. João Bermudes, instalara-se junto à ermida aquando do seu regresso a Portugal em 1559, durante a regência de D. Catarina. O prelado doou ao templo uma imagem de Nossa Senhora da Saúde que trouxera de Roma, sendo aí sepultado após a sua morte em 1570. Quanto à instituição canónica da paróquia de São Sebastião, esta resultou da desanexação do território de Santa Justa. Embora o padre João Baptista de Castro, no Mappa de Portugal, aponte a sua criação para 1652, e Frei Nicolau de Oliveira a mencione na obra Grandezas de Lisboa em 1620, o primeiro registo baptismal data de 18 de Novembro de 1601. O arcebispo D. Miguel de Castro conferiu a António Vaz o cargo de cura e, mais tarde, vigário, recompensando-o pela coragem na administração dos sacramentos aos empestados. Dada a ausência de referência no alvará camarário de 25 de Dezembro de 1608, presume-se que a freguesia tenha sido formalmente instituída entre os anos de 1601 e 1620.[3][4][5]

O templo seiscentista

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A necessidade de substituir a velha ermida culminou num projecto de construção aprovado em torno de 1603 e 1604, durante a administração filipina. Para financiar as obras, o Provedor das Capelas impôs aos fregueses uma finta, fixando-se uma taxa fixa de 5% sobre foros de casas, alugueres, propriedades rústicas e hortas, encargo que abrangeu até mesmo isentos, desembargadores e fidalgos. Os escalões de contribuição variavam, determinando-se que os paroquianos "pagarão a cem e a sessenta, trinta e vinte a soldo a libra" para fintas taxadas até aos 300 réis, a partir do limite máximo de 235 000 réis. Foram estabelecidas coimas severas de 100 cruzados para quem desviasse materiais ou obstaculizasse a empreitada, sendo o montante dividido equitativamente entre as obras e os cativos. A fiscalização coube aos juízes superintendentes Lourenço da Costa e Francisco Esteves, utilizando-se um cofre provido de três chaves, confiadas ao Provedor, ao Escrivão e ao Tesoureiro.[6]

A nova matriz começou a ser edificada em 1652, sob a égide de D. João IV, mediante os esforços económicos da população e algumas esmolas do monarca, ocorrendo a sua inauguração em 1654. Para o novo edifício transitaram as imagens de pedra de São Sebastião e da referida Nossa Senhora da Saúde. No dia 16 de Outubro de 1653, por determinação da sua sobrinha D. Filipa de Távora, os restos mortais de D. João Bermudes foram trasladados para o cruzeiro da nova igreja, depositados numa sepultura rasa brasonada com a inscrição "Sepultura do Patriarca da Lexandria Dom João Bermudes".[8][9][3][4][7][5]

Em 1670 e 1671, o pintor Marcos da Cruz executou uma representação da Ceia para a tribuna do retábulo principal, obra actualmente desaparecida. No ano de 1718, decorreu uma extensa intervenção que incluiu a aplicação de talha dourada no coro e na superfície murária, além de novas telas na nave e no camarim do altar-mor. Em 1740, Jerónimo da Silva e António da Silva enriqueceram o sub-coro com novos quadros. Sendo um dos poucos edifícios religiosos que escapou sem danos graves ao sismo de 1 de Novembro de 1755, a igreja preservou grande parte do seu espólio.[9][3][4]

A igreja setecentista

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Conforme detalhado nas Memórias Paroquiais de 9 de Janeiro de 1760, assinadas pelo pároco José de Melo Pinto da Silva, o pároco reitor auferia um rendimento de 350 mil réis. Existiam diversas irmandades activas, detentoras de uma casa do despacho e de um acervo de paramentos para o culto. A Irmandade do Santíssimo Sacramento congregava cerca de 400 membros, sustentando três capelas vinculadas e pagando 60 mil réis anuais a um capelão para missa quotidiana, dispondo ainda de um coval exclusivo para inumação dos seus confrades. A Irmandade de São Miguel e Almas, com cerca de 300 inscritos, administrava oito capelas e remunerava dez capelães com valores entre os 50 mil e os 60 mil réis. Por seu turno, a Irmandade de São Sebastião possuía 200 associados, festejando o orago a 21 de Janeiro para evitar sobreposições com a antiga celebração da Rua das Arcas. Mencionam-se igualmente a Irmandade do Senhor Jesus da Via-Sacra, que geria um oratório autónomo nas imediações, e outra dedicada ao Senhor Jesus Crucificado.[3][4][5]

O espaço sagrado distribuía-se por diversas capelas, contando a igreja com um portal axial e duas portas travessas, além de uma torre sineira com dois sinos. O retábulo-mor acolhia o sacrário e dois nichos com a escultura pétrea do padroeiro e a de Nossa Senhora da Saúde. No lado da Epístola, situavam-se os altares das Almas, abrigando São Pedro e São Brás, e o do Senhor Jesus do Bom Nome, ou Crucificado, o qual exibia as figuras de São José, do Menino Jesus e da Senhora da Soledade. No lado do Evangelho, encontrava-se o altar de Santo António, ladeado por São João Baptista, Santa Luzia, Santa Rosa de Lima e Santa Catarina do Monte Sinai. Existia também o altar de Santo Amaro, que guardava a imagem da Senhora do Resgate, a de São Gonçalo de Amarante e uma figura de Cristo Crucificado, mais tarde transferida por ordem arquiepiscopal.[3][4]

Contemporaneidade

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Construiu-se em 1949 uma capela mortuária anexada à fachada Sul como prolongamento do cartório paroquial. Procedeu-se em 1994 à reabilitação do tecto da nave em 1994, e em 1997 ao restauro de todo o espaço interior.[9]

Descrição

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Fachada principal
Fachada principal e escadaria
Fachada lateral direita
Vista em perspectiva
Vistas da igreja: 1. fachada principal; 2. fachada principal/escadaria; 3. fachada lateral direita; 4. perspectiva geral.

Apresentando uma linguagem arquitectónica severa, característica do denominado estilo chão, o templo combina elementos maneiristas e barrocos. A sua implantação faz-se num local elevado, nas imediações das antigas portas da cidade e dos acessos a Palhavã e às Laranjeiras. A estrutura é de planta longitudinal composta pela justaposição de dois rectângulos, que correspondem à nave única e à capela-mor, aos quais se adossam vários corpos de cota inferior, como a sacristia, o escritório, a residência paroquial, o centro social e as capelas mortuárias. A cobertura do núcleo principal faz-se em telhado de duas águas.[8][9][4][5]

O alçado principal, orientado a Poente, é flanqueado por cunhais de cantaria e dividido em três panos por meio de quatro pilastras. Para vencer o desnível do terreno em relação ao adro, o acesso faz-se através de uma escadaria lateral de dois lanços convergentes, antecedida por um pequeno átrio delimitado por dois portões e respectivo gradeamento. No eixo do paramento central rasga-se o pórtico principal, de verga recta e emolduramento de cantaria, encimado por um entablamento e um frontão triangular interrompido. No interior deste tímpano exibe-se um medalhão em baixo-relevo com o emblema de São Sebastião, figurando uma coroa aberta atravessada por três setas, sendo o conjunto rematado por um pináculo paralelepipédico terminado em bola e por uma pequena cruz. Acima deste portal, ao nível do coro, rasgam-se duas janelas de verga ligeiramente curva, com molduras de cantaria e frontões em arco segmentar.[8][9][3][6][4][7][5]

Uma cornija saliente percorre toda a largura da fachada, sobre a qual assenta uma empena triangular vazada por um óculo redondo, cuja cruz de pedra original foi substituída por uma de ferro em 1947, sublinhando-se o remate superior com duas molduras em cantaria. Ladeando o corpo central erguem-se duas torres sineiras de secção quadrada, rasgadas nos seus diversos paramentos por três frestas dispostas na mesma prumada. O coroamento destas estruturas faz-se através de coruchéus piramidais encimados por cruzes, notando-se na torre direita a presença de pequenos acrotérios esféricos. Os alçados laterais, recuados em relação às torres, possuem três janelas simples que despontam acima das coberturas dos anexos, existindo ainda duas portas de acesso secundárias orientadas a Norte e a Sul. Os edifícios adjacentes, que se desenvolvem em dois pisos ao longo destas fachadas, são pontuados por portas flanqueadas por óculos com emolduramentos de cantaria recortada e esculturada, bem como por janelas de verga recta e curva, apresentando-se algumas destas sob a forma de sacada.[8][3][6][4][7][5]

Coro alto
Coro alto (outra vista)
Tecto da nave
Pormenor do tecto da nave
Parede esquerda da nave
Perspectiva da parede esquerda da nave
Pormenor dos azulejos da parede esquerda
Parede direita da nave
Púlpito lateral
1. e 2. Coro alto; 3. tecto da nave; 4. pormenor da pintura do tecto; 5. parede esquerda; 6. perspectiva da parede esquerda; 7. pormenor dos azulejos da parede esquerda; 8. parede direita; 9. púlpito lateral.

O interior do templo é estruturado em nave única sem cruzeiro, com capacidade para 400 fiéis. O espaço materializa o conceito de arte total desenvolvido durante os séculos XVII e XVIII, combinando trabalhos em estuque, azulejaria e talha com painéis pictóricos, numa profusão decorativa de matriz barroca.

Coro alto

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Na transição do átrio para a nave, ergue-se um coro alto dotado de varanda delimitada por uma balaustrada de contornos curvos e contracurvos. Esta estrutura assenta sobre duas finas colunas salomónicas em pedra acinzentada, cuja elegância remete para influências berniniescas. O acesso principal é resguardado por um guardavento concebido em madeira e vidros policromados. No passado, por baixo do óculo do coro, exibia-se a tela Triunfo da Sagrada Eucaristia. Sob o piso lajeado deste sector de entrada, identificam-se dezasseis sepulturas distribuídas por duas filas, escapadas ao revestimento em pavimentos de tacos de madeira aplicado em 1954.[8][9][3][4][7]

Os paramentos da nave ostentam, no seu terço inferior, um revestimento justaposto formado por grandes painéis de azulejaria datáveis de cerca de 1718. Estas composições cerâmicas retratam episódios da vida, do martírio e da glorificação de São Sebastião, organizando-se em molduras animadas por atlantes, anjos e grinaldas florais, acompanhadas de cartelas com inscrições latinas alusivas à dita narrativa. Adicionalmente, as zonas do confessionário e do baptistério contêm azulejos, aplicados nos anos de 1945 e 1947. Quanto às restantes paredes, algumas encontram-se pintadas a branco cal sobre um fundo de tonalidade azul anil, enquanto outras são revestidas a talha branca e dourada, com motivos de volutas, conchas, cabeças de anjos, atlantes e ramagens florais. A ornamentação mural é complementada por douramentos em frisos e capitéis, bem como por duas cimalhas marmoreadas a cor de vinho instaladas no topo e a dois terços da altura. Uma faixa avermelhada sobrepuja as quatro portas de vão rectangular, que se distribuem duas a duas nas paredes laterais. O espaço integra ainda dois púlpitos ladeados por dosséis trabalhados em talha dourada.[8][3][6][4]

Capela-mor e capelas colaterais em perspectiva
Arco triunfal da capela-mor
Capela-mor
Retábulo-mor
Tela da Última Ceia no retábulo-mor
Quadro da Última Ceia por Cirilo Volkmar Machado
1. Vista em perspectiva da capela-mor e capelas colaterais; 2. arco triunfal; 3. capela-mor; 4. retábulo-mor; 5. pormenor do retábulo com a tela de A Última Ceia; 6. pintura de A Última Ceia(1814) de Cirilo Volkmar Machado.

Nas paredes, encontram-se expostos 28 óleos sobre tela, todos inseridos em pesadas molduras de talha. Destes, 23 integram o corpo principal da igreja, figurando cenas retiradas do Novo Testamento, martírios de diversos santos e, de forma destacada, 12 quadros alusivos aos Apóstolos acompanhados das suas respectivas insígnias. A concepção desta série pictórica, especialmente as telas integradas no sub-coro datadas de 1740 e focadas na iconografia do padroeiro, é atribuída a Jerónimo da Silva, pintor de figura amplamente reconhecido na época joanina.[8][9][3][6][4][5]

A primitiva cobertura da nave, executada em caixotões de brutesco em 1670, perdeu-se com o sismo de 1755. A actual abóbada de berço resulta de uma intervenção nos finais do século XIX, cuja feição pictórica central em estuque, desenhada por João Câncio de Sousa, retrata a Glória de São Sebastião. O painel ilustra a ascensão do mártir coroado por pequenos anjos portadores de símbolos de glorificação, ladeados por Santa Irene, exibindo esta última na mão as setas retiradas do corpo do santo. A composição global da cobertura divide-se em cinco faixas longitudinais separadas por jarrões, flores e cabeças angélicas, pontuada por medalhões elípticos onde figuram os quatro Doutores da Igreja Ocidental. As efígies de Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Gregório Magno e São Jerónimo alternam com imagens de um papa e dois bispos.[8][9][3][6][4][7]

Capelas laterais

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A estruturação capelar processa-se através de quatro altares enquadrados por arcos de volta perfeita, dispostos aos pares nas laterais e nos topos do corpo do templo. No lado do Evangelho encontra-se instalada a ampla Capela do Santíssimo Sacramento, espaço projectado sobre o local do antigo altar de Santo Amaro. A edificação deste anexo ocorreu a partir de 1812, reutilizando pedra do cemitério adjacente, segundo o risco de Tomás de Aquino e sob a coordenação do mestre João da Cruz na empreitada de decoração adjudicada em 1813. O financiamento da obra conjugou esmolas, um subsídio governamental de duas moedas de ouro do Patriarcado e o patrocínio do tesoureiro António José de Sequeira, que assegurou o trabalho das paredes e do pedreiro por sua conta. Também no lado do Evangelho venera-se uma imagem de Santa Rita de Cássia oriunda do hospício homónimo dos frades eremitas descalços de Santo Agostinho, a qual integrou a igreja em 1834. Do lado da Epístola, erguem-se um altar com o Senhor Crucificado e uma capela fronteira abrigando uma representação de elevadas proporções de São José.[3][4][5]

Para a Capela do Santíssimo Sacramento foi encomendada a tela A Última Ceia a Cirilo Volkmar Machado, cuja assinatura "1814 CVM" finaliza o painel pictórico. Documentam-se várias etapas do processo artístico que conduziu a esta pintura: o primeiro esboço e uma segunda variante, ambos de 1812 e conservados no Museu Nacional de Arte Antiga, onde Cristo surge sentado a ministrar a hóstia a São Pedro; e uma terceira abordagem de 1813, identificada em Madrid, que exibe reduções perspectivistas de feição quase maneirista e anotações do autor indicando a falta de uma glória celestial. A pintura final de 1814 resolve o estrangulamento da cena ao reintroduzir elementos estruturais no enquadramento esquerdo e uma coroação com a projectada Glória de Anjos na secção cimeira. Todavia, o acentuado desgaste e as consecutivas repinturas posteriores impedem uma leitura fiel das suas texturas e características cromáticas originais. É de se referir ainda que, no passado, existiu uma outra representação da Ceia do Senhor, concebida nos finais do século XVII por Marcos da Cruz para a boca da tribuna do retábulo-mor, encontrando-se a mesma presentemente desaparecida.[8][9][3][10][6][4][7]

Capela-mor

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A passagem para a capela-mor concretiza-se através de um amplo arco triunfal pleno. A parede fronteira ostenta, por cima da abertura, um medalhão de cariz escultórico representando um pelicano, símbolo teológico cristão de amor e caridade. Ao centro, o fecho do arco acolhe uma custódia emoldurada por uma cartela envolta em ramagens e ladeada por dois meninos nus a sustentá-la, constituindo o emblema de posse da Irmandade do Santíssimo Sacramento. O espaço interno da capela exibe uma planimetria rectangular, cobrindo-se com uma abóbada de aresta totalmente preenchida por traçados geométricos e quadrelas em talha dourada. As paredes laterais estão integralmente guarnecidas por trabalhos de entalhe em estilo nacional, executados por Manuel João da Fonseca em 1685, intercalados por dois grandes quadros de índole religiosa. O retábulo-mor, estruturado em torno de um camarim profundo que alberga o trono, apresenta suportes marcados por colunas torsas ornamentadas por videiras, folhas e frutos, acolhendo também a figuração em pedra de São Sebastião e relevos decorativos de cantaria. A composição chegou a incluir nichos envidraçados, retirados no século XX. A mesa de altar, erguida em mármore cor-de-rosa, adopta o formato de um caixão rasgado por três faixas verticais, justaposta a um silhar de fundo em mármore branco pontuado por uma placa vermelha e embrechados negros. À entrada do recinto deposita-se a sepultura rasa do patriarca D. João Bermudes, cujos restos foram ali deixados na sequência da transição do edifício da antiga ermida.[9][3][6][4][7][5]

A igreja acolhe ainda uma relíquia atestada como um osso do mártir São Sebastião proveniente de Roma, além de uma antiga escultura quinhentista de roca figurando Nossa Senhora da Saúde, elemento devocional que já pertencia à primitiva ermida. A infraestrutura eclesial foi enriquecida com a edificação de uma casa do despacho e de uma sacristia em 1740, cujos interiores são dignificados por silhares de azulejaria axadrezada e policroma, ostentando também uma imagem de Cristo crucificado numa das paredes. Posteriormente, em 1950, ampliou-se a volumetria posterior do monumento junto ao adro Sul, construindo-se um anexo de rés-do-chão e primeiro andar destinado à residência do coadjutor e a uma nova capela mortuária e sacristia. Esta remodelação arquitectónica implicou a transferência do altar de mármore que anteriormente integrava a velha sacristia anexa à dependência do Santíssimo Sacramento.[3][6][4][7][5]

  1. 1 2 Ficha na base de dados SIPA
  2. Decreto n.º 39 521, DG, I Série, n.º 21, de 30-01-1954
  3. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 Património Cultural, I.P. «Igreja matriz de São Sebastião da Pedreira». Pesquisa de Património Imóvel. Consultado em 30 de junho de 2026
  4. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Santana, Francisco; Sucena, Eduardo (1994). «S. SEBASTIÃO DA PEDREIRA (Igreja de)». Dicionário da História de Lisboa. Lisboa: Carlos Quintas & Associados. pp. 824–825
  5. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Alves, José da Felicidade (2022). «Igreja Paroquial de São Sebastião da Pedreira». In: Ribeiro, João Salvado; Cardoso, Abílio Tavares. Peregrinação pelas Igrejas de Lisboa. Tomo IV: As Igrejas de Lisboa desde 1580 a 1755. Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa (UCP-CEHR); Centro Nacional de Cultura. pp. 358–359. ISBN 978-989-53834-0-5. doi:10.34632/9789895383405
  6. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 FARIA, António Machado de (1963). «A Igreja de S. Sebastião da Pedreira» (PDF). Lisboa: Câmara Municipal de Lisboa. Revista Municipal de Lisboa (97): 7-25
  7. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Almeida, Álvaro Duarte de; Belo, Duarte (2008). Portugal Património: Guia-Inventário. VII (Lisboa). Conselho científico de José Mattoso, Paulo Pereira e Teresa Belo. Lisboa: Círculo de Leitores. p. 154
  8. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Câmara Municipal de Lisboa. «Igreja de São Sebastião da Pedreira». Diretório da Cidade. Consultado em 30 de junho de 2026
  9. 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Silva, João; Vale, Teresa; Gomes, Carlos; Cortesão, Luísa (1998). «Igreja Paroquial de São Sebastião da Pedreira / Igreja de São Sebastião». Sistema de Informação para o Património Arquitetónico (SIPA). Direção-Geral do Património Cultural. Consultado em 30 de junho de 2026
  10. Saldanha, Nuno (2010). «Variações para uma Ceia – A Última Ceia de Cirillo Volkmar Machado para S. Sebastião da Pedreira». Lisboa: Secretariado Nacional para os Bens da Igreja. Invenire – Revista de Bens Culturais da Igreja (1)
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Referências