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Património cultural

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Ruínas de São Miguel das Missões na fronteira entre o Rio Grande do Sul com a Argentina
Cante Alentejano, Beja, Portugal

O Património (português europeu) ou patrimônio (português brasileiro) cultural corresponde ao conjunto de bens, materiais e imateriais, que, pelo seu reconhecido valor cultural, histórico, artístico, científico ou social, são considerados relevantes para a identidade e memória coletiva de uma comunidade.[1] Segundo a Carta da Unesco de 1972, cabe a cada estado identificar e delimitar os bens situados no seu território que possam ou não ser considerados património cultural.[2]

Dimensões do património cultural

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Elementos do património cultural

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Do património cultural fazem parte bens imóveis, como castelos, igrejas, casas, praças e conjuntos urbanos, bem como locais com valor relevante para a história, a arqueologia, a paleontologia e a ciência em geral. Nos bens móveis incluem-se, por exemplo, pinturas, esculturas e objetos de artesanato. Já o património imaterial abrange manifestações como a literatura, a música, o folclore, a língua e os costumes.[3]

Alguns bens que integram o património cultural podem ser reconhecidos internacionalmente como património mundial, quando apresentam um valor universal excecional do ponto de vista cultural ou natural. Um local classificado como património mundial é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) como tendo importância à escala global para a preservação do património cultural e natural. Até à 30.ª sessão do Comité do Património Mundial, em julho de 2006, existiam 13 sítios ou conjuntos de sítios classificados como património mundial em Portugal e 19 no Brasil.[4]

Importância social e cultural

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O património cultural desempenha um papel fundamental na vida das sociedades, ao constituir um legado transmitido entre gerações e um elemento essencial para a identidade coletiva. A sua preservação permite manter viva a memória histórica e cultural dos povos, o que reforça o sentimento de pertença e continuidade. Neste contexto, o património cultural possui um valor universal, cuja proteção contribui para o diálogo entre culturas e para a promoção da paz.[5]

Para além da sua dimensão simbólica, o património cultural contribui para a coesão social e para a valorização da diversidade cultural, sendo a participação ativa das comunidades na preservação e transmissão de práticas, tradições e conhecimentos algo que reforça laços sociais. Este envolvimento comunitário é considerado essencial para garantir a sustentabilidade do património e para assegurar que este permanece relevante no contexto contemporâneo.[6]

Existe também uma vertente económica e criativa, que funciona como um motor de desenvolvimento sustentável, que para além de enriquecer a vida dos cidadãos, contribui para o crescimento das indústrias culturais e criativas, para a criação de emprego e para a revitalização de territórios, nomeadamente através do turismo cultural e, desta maneira, há uma promoção de inovação enquanto ao mesmo tempo se articula a tradição e modernidade.[7]

Adicionalmente, o património cultural desempenha uma função educativa, ao fazer possível com que aconteça uma transmissão de conhecimentos, valores e práticas entre gerações. Através da educação patrimonial e do contacto com diversas manifestações culturais, promove-se uma maior consciência histórica e cultural, incentivando assim o respeito pela diversidade e pela salvaguarda destes bens.[8]

Memória histórica

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Ao reunir bens e práticas que permitem às sociedades estabelecer uma ligação com o passado e preservar experiências coletivas, o património cultural permite a construção da memória histórica. [9]

A memória associada ao património não corresponde a uma reprodução fiel do passado, sendo antes uma construção social baseada em processos de seleção e interpretação e, por esta razão, o património cultural é constantemente reinterpretado, ao refletir diferentes perspetivas e contextos ao longo do tempo.[9] Um exemplo desta reinterpretação são os debates em torno da preservação, remoção ou recontextualização de monumentos associados ao colonialismo, cuja interpretação se tem alterado em função de mudanças sociais e políticas. [10]

História do conceito

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O conceito de património cultural teve origem na Europa, remontando ao século XV, quando surgiram em Itália as primeiras preocupações com a preservação de monumentos da Antiguidade Clássica. No entanto, foi apenas no final do século XVIII, na sequência da Revolução Francesa, que o conceito se consolidou e ficou associado à ideia de "monumento histórico" e à criação de políticas públicas de conservação. Durante o século XIX e início do século XX, o património foi definido com base em critérios como monumentalidade, valor artístico e testemunho histórico.[11]

A partir da segunda metade do século XX, este modelo começou a ser questionado. O processo de descolonização e a participação de novos países no debate internacional levaram à necessidade de uma revisão dos critérios tradicionais e à ampliação do conceito de património. A UNESCO desempenhou um papel central e promoveu instrumentos como a Convenção do Património Mundial de 1972, que abriu um caminho para novas abordagens.[11]

A partir da década de 1980, o conceito de património cultural passou a integrar uma perspectiva mais ampla e antropológica, incluindo práticas, tradições, e modos de vida. A Declaração do México sobre Políticas Culturais de 1982 e, posteriormente, a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial de 2003 consolidaram esta mudança, reconhecendo tanto as dimensões materiais como imateriais do património e o papel que as comunidades desempenham na sua definição. Desde 2022, o património cultural é entendido de forma plural, abrangente, e dinâmica.[11]

A História do património cultural em Portugal

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Antigo Regime
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Citação
(...)«Hey por bem que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em todo, nem em parte, qualquer edifício que mostre ser daqueles tempos,[antigos] ainda que em parte esteja arruinado, e da mesma sorte as estátuas, mármores e cipos» (...)«lâminas ou chapas»(...)«medalhas ou moedas»
Decreto Régio de D. João V (1721)[12]

O sistema português de proteção do patrimônio remonta a D. João V quando este determinou, em alvará régio de 20 de Agosto de 1721, atribuir "à Academia Real da História Portuguesa Eclesiástica, e Secular a providência para se conservarem os monumentos antigos, que podem servir para ilustrar, e certificar a verdade da mesma história".[12]

Através do alvará de 1721, D. João V atribuiu ao diretor e aos censores da Academia Real da História a missão de zelar pela proteção dos vestígios materiais do passado, designados como "monumentos antigos". Esta era uma categoria aplicada a: "edifícios, mármores, cipos, lâminas, medalhas, moedas e outros artefactos" que comprovassem "notícias da venerável antiguidade [...] e conhecimento dos Séculos passados".[13]

O conceito de monumento do passado fixado pelo alvará joanino é, assim, "extremamente aberto" e até "próximo do conceito actual de património histórico", uma vez que categoriza uma "pluralidade tipológica e cronológica de objectos semelhante às realidades patrimoniais actuais".[13] No entanto, e apesar de atribuir verbas para a proteção do património, a assinatura deste alvará deve ser enquadrada no programa político do monarca português: o da consolidação do Absolutismo régio em Portugal e do reforço da legitimidade da dinastia de Bragança. Daí o ênfase dado à necessidade de proteger os bens associados à "glória da da Nação Portugueza" e à ideia de que o património em Portugal é régio.[13]

Sob a regência do príncipe herdeiro, o futuro D.João VI, o alvará de D. João V foi republicado a 4 de Fevereiro de 1802, com o objetivo de transferir a função de representante do rei na proteção dos monumentos antigos para a figura do bibliotecário-mor da Real Biblioteca de Lisboa. Com a extinção da Academia Real da História na década de 1780, a proteção do património cultural móvel passava assim a estar a cargo da Real Biblioteca de Lisboa, criada por alvará a 29 de Fevereiro de 1796. É, no entanto, necessário sublinhar que durante o Antigo Regime o património era considerado régio, sendo, por isso, o seu acesso "um privilégio conferido pela Coroa e não a constituição de um direito", como escreveu Paulo Simões Rodrigues.[13]

Monarquia Constitucional (1820-1910)
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Com a Revolução Liberal assistiu-se em Portugal ao fim do absolutismo régio e à instauração de um regime liberal, no qual a soberania residia na Nação. A ideia central de Nação refletiu-se na preocupação do liberalismo pela proteção do património, que passou a ser identificado com a identidade nacional. Entre os principais defensores desta ideia destacavam-se nomes da elite intelectual portuguesa como: Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Possidónio da Silva e Ramalho Ortigão, entre outros.[14]

Depois de extinguir as ordens religiosas em Portugal (1834), nacionalizando os seus bens e pondo-os em hasta pública, o vintismo exceptou por Carta de Lei de 15 de Abril de 1835 as obras e os edifícios "de notável antiguidade" que merecessem ser conservados como "primores de arte, como Monumentos históricos de grandes feitos ou de épocas Nacionais"[14]. De facto, o liberalismo português adaptou a noção de monumento aos seus princípios ideológicos, colocando-os ao serviço da regeneração nacional [14] Este objetivo operacionalizava-se através da institucionalização e da classificação.

Assim, foi criado o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria (1852), integrando a Direcção das Obras Públicas e Minas, que tutelava a reparação e a conservação dos monumentos. Em 1870, foi nomeada uma Comissão dos Monumentos Nacionais, ano em que a tutela da conservação patrimonial foi transferida para o Ministério dos Negócios e da Instrução Pública. Em 1894, passou, porém, a estar novamente sob a alçada do Ministério das Obras Públicas, alternância que refletia a dificuldade do estado liberal em teorizar e em executar a proteção do património. Em 1898, foi criado o Conselho Superior dos Monumentos Nacionais e em 1901 foram aprovadas as bases para a classificação dos imóveis que deveriam ser considerados monumentos nacionais. Em 1906, foi decretada pelo Ministério das Obras Públicas a primeira classificação de um monumento nacional - o castelo de Elvas - e em 1910 foi decretada a classificação de monumentos nacionais, agora, de forma sistemática segundo tipologias[15].

I República (1910-1926)
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Instaurada a 5 de Outubro de 1910, a I República colocou também o património ao serviço dos seus ideias, desde logo, o da democratização do país. A necessidade de educar culturalmente a população, de forma a que ela pudesse participar de forma consciente na vida política nacional, refletiu-se na madeira como a República encarou o património. Para ela, o património cultural correspondia a um poderoso instrumento da formação das populações, porque permitia um conhecimento sobre a história e os valores nacionais. A aposta republicana passava assim por inculcar uma maior consciencialização patrimonial, fomentando a capacidade de reconhecer e identificar o património nacional. Com este objetivo, levou a cabo uma intensa obra legislativa, criando "um primeiro sistema coerente de protecção, salvaguarda, conservação e transmissão da herança cultural portuguesa" [16]

Logo a 19 de Novembro de 1910, é decretada uma providência que evitava a deterioração e a saída para o estrangeiro de objetos de valor artístico e histórico. Através da Lei da Separação do Estado e das Igrejas, o património do clero secular é declarado pertença do Estado, que passa a zelar por ele[17].

Em 1911, é decretada uma importante reorganização dos serviços artísticos e arqueológicos e das Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto. São criadas três circunscrições - Lisboa, Porto e Coimbra - e em cada uma delas é constituído um poder consultivo, deliberativo e executivo: os Conselhos de Arte e Arqueologia (CAA)[18]. Representando o Estado em matéria de salvaguarda e valorização do património cultural, os CAA tinham ao seu serviço um grande número de intelectuais. Assim, apostou-se na organização de exposições e conferências, procedendo-se uma divulgação artística e patrimonial que espelhava a preocupação pedagógica republicana[19] . Em 1920, é aprovada a orgânica da Administração Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, junto do Ministério do Comércio e Comunicação, e em 1924 são reorganizados os serviços de Belas-Artes[20].

A par da preocupação com a proteção, a I República deu também igual importância à salvaguarda, à conservação e ao restauro patrimoniais. A este respeito, destacou-se a ação de Miguel Ventura Terra, nomeado Inspetor dos Monumentos Nacionais em 1912, e do arquiteto Arnaldo Adães Bermudes. Foram, assim, alvo de intervenção, por exemplo: o Mosteiro de Alcobaça, o castelo de Santa Maria da Feira, o castelo de Leiria, a torre da charola do Convento de Cristo e as abóbadas da Igreja do Mosteiro dos Jerónimos[21].

Estado Novo (1926-1974)
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Durante o período da ditadura militar, embora se assistisse a uma aparente continuidade das políticas republicanas, as orientações relativas ao património foram-se alterando, tendo sido oficialmente extintas as Circunscrições e as CAA em 1932[22]. Com a oficial mudança de regime, consagrada na Constituição de 1933, as políticas patrimoniais mudaram decididamente de rumo. Durante o período em que vigorou de forma ditatorial, o Estado Novo utilizou o património essencialmente como instrumento de propaganda. Este foi o seu principal objetivo, ainda que tenha procurado uma aproximação às cartas internacionais, como a Carta de Atenas e, mais tarde, a Carta de Veneza. Instrumentalizando o passado para legitimar o presente, o regime fez uso do património para exaltar a identidade nacional. A supervisionar a propaganda ideológica estava o Secretariado Nacional de Informação (SNI), chefiado por António Ferro[23].

Com este fim, apostou num programa de restauro e de valorização dos monumentos nacionais, que ficou desde 1929 sobretudo a cargo da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). Ao seu serviço trabalharam nomes como António do Couto Abreu, Baltazar da Silva Castro, Raul Lino, Humberto Reis, Luís Benavente e João Vaz Martins. Entre os critérios das intervenções praticadas, destacavam-se a reintegração arquitetónica e a "unidade de estilo"[24].

O Estado Novo viu nas comemorações centenárias um dos principais meios de propaganda ideológica. Assim, em 1940, no âmbito das comemorações do Nascimento de Portugal e da Restauração da Independência, foram alvo de intervenções o castelo, a capela de S. Miguel e o Paço dos Duques, em Guimarães, e o palácio e o castelo de Vila Viçosa, espaços associados às origens nacionais e à casa de Bragança[25] O regime investiu também no restauro de castelos e catedrais medievais, evocando assim o que seria, segundo os valores salazaristas, uma correspondência entre a identidade nacional e o catolicismo[25]. Por trás da política interventiva do regime, esteve também o objetivo de reutilizar alguns imóveis para turismo e lazer, assim como para fins assistenciais, sociais e sanitários. Exemplos destas intervenções são o Palácio de Seteais, o Forte de Catalazete, o Forte da Berlenga, o Mosteiro do Lorvão, entre outros[26].

Quanto à legislação do Estado Novo relativa ao património, ela resume-se da seguinte forma: em 1936 é aprovado regimento da Junta Nacional de Educação (JNE) e, a partir da Lei nº 2.032 de 11 de Junho de 1949, as câmaras municipais passam a poder promover a classificação patrimonial nos seus concelhos, criando-se a categoria de "valores concelhios". Em 1965, é de novo aprovado o regimento da JNE e em 1971 é promulgada a lei orgânica do Ministério da Educação Nacional[27].

A gestão do património hoje

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Em Portugal

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A Constituição da República Portuguesa determina no seu Artigo 78.º que "1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural" e que cabe ao Estado, entre outras tarefas, "c) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum."[28]

As funções até 2024 assumidas pela Direção Geral do Património Cultural (DGPC), estão neste momento descentralizadas em duas novas entidades: Património Cultural, I.P.[29], e Museus e Monumentos de Portugal, E.P.E..[30]

Compete ao Instituto Público Património Cultural gerir a salvaguarda, conservação e preservação do património cultural em Portugal continental. A sua atividade baseia-se em três eixos fundamentais: o conhecimento, o inventário, a salvaguarda, a conservação, a valorização e a divulgação do Património Cultural arquitetónico, arqueológico, móvel e imaterial; a abertura ao público dos monumentos e sítios arqueológicos sob sua gestão direta; a articulação permanente com outras entidades, públicas e privadas, nacionais e internacionais, nos domínios normativo e da fiscalização, da investigação científica, da ação educativa e formativa e da administração do território.[31]

Já à empresa pública Museus e Monumentos de Portugal foi dada a missão de conservação, restauro, proteção, valorização e divulgação das coleções nacionais e do património cultural móvel, da gestão dos museus, monumentos e palácios nacionais e da execução da política museológica nacional. Estão na sua alçada quase 40 museus ou monumentos nacionais.[32]

Em Angola

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A gestão do património cultural angolano está sob a alçada o Ministério da Cultura, o "MINCULT". São atribuições suas, entre outras, "dirigir e coordenar as áreas de património cultural (...), dos arquivos, das bibliotecas (...), bem como das indústrias culturais e criativas;", "valorizar e divulgar a identidade e diversidade cultural nacional (...), preservando a memória histórica e cultural do povo angolano e respeitando o pluralismo de expressões e manifestações culturais e artísticas" e "propor medidas legislativas e zelar pela defesa e conservação do património histórico nacional do País (...)".[33]

O MINCULT criou, em 1977, o Instituto Nacional do Património Cultural, para permitir um acompanhamento mais próximo da implementação das medidas "no domínio da investigação, documentação, conservação, preservação, gestão e promoção do património cultural, histórico cultural e nacional, bem como desenvolver e executar a política museológica nacional". A sua missão é "assegurar o levantamento, identificação, classificação, gestão, salvaguarda, valorização, conservação e restauro dos bens que integrem o património cultural material e imaterial, móvel e imóvel do País, bem como desenvolver e executar a política museológica nacional."[34]

A lei de bases do património de Angola foi aprovada em 2005, e assume que pretende estabelecer "as bases da política e do regime de proteção e valorização do património cultural considerado como de interesse relevante para a compreensão, permanência e construção da identidade angolana".[35]

No Brasil

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Emblema oficial do Patrimônio Cultural Brasileiro

Diz na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que é património brasileiro os bens que são "portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira".[36] O poder público, junto com as populações, é aqui também responsabilizado pela promoção e proteção do património.

O Decreto-Lei nº25, de 30 de novembro de 1937, acrescenta ainda que podemos considerar património cultural brasileiro bens associados a momentos "memoráveis da história do Brasil, quer por ser excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico".[37]

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, criado em 1937, é o responsável por garantir a preservação, proteção e promoção do patrimônio cultural brasileiro. Tem 27 Superintendências, em cada uma das Unidades Federativas, 37 Escritórios Técnicos e 6 Unidades Especiais.[38]

Há também outras entidades associadas ao património vinculadas ao Ministério da Cultura, como o IBRAM, a Fundação Cultural Palmares, entre outros.

Em Cabo Verde

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São obrigações do Estado Cabo Verdiano, previstas na Constituição, preservar, defender e valorizar o património cultural do seu povo.[39]

O Governo de Cabo Verde criou o Instituto do Património Cultural em 2020, com os objetivos de "identificar, inventariar, investigar, salvaguardar, defender e divulgar os valores da cultura, o património móvel e imóvel, material e imaterial do povo cabo-verdiano"[40].

O IPC pretende "fomentar a pesquisa e promover ações de salvaguarda do património histórico e cultural" e "fazer de cada cidadão um colaborador e parceiro comprometido com a preservação da memória e por conseguinte do património histórico e cultural de Cabo Verde"[40]

Na Guiné-Bissau

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Diz no artigo 7º da Constituição da República da Guiné-Bissau que "O Estado preserva e defende o património cultural do povo, cuja valorização deve servir o progresso e a salvaguarda da dignidade humana" e que o Estado deve " promover as condições favoráveis à preservação da identidade cultural (...)". [41]

A preservação e gestão do património cultural são da responsabilidade do Ministério da Juventude, Cultura e Desporto, que contribui para a implementação das leis nacionais e no acompanhamento do seguimento das Resoluções Internacionais sobre estas matérias[42].

Na Guiné Equatorial

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A Lei Fundamental da Guiné Equatorial, aprovada a 16 de fevereiro de 2012, diz que o Estado deve "fomentar e promover a cultura, a criação artística, a investigação científica e tecnológica e velar pela conservação da Natureza, o património cultural da riqueza artística e histórica da Nação".[43]

A Direção-Geral da Cultura e Belas Artes, do Ministério da Informação, Imprensa e Cultura da Guiné Equatorial "é responsável pelas artes, museus, história e cultura"[44] do país. Há uma reflexão sobre a cultura e o património que os coloca não só como essencial para "preservar nossas raízes e tradições"[44], como também para "contribuir com a necessária diversificação econômica por meio do turismo"[44].

Em Moçambique

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Na Constituição da República de Moçambique a ideia de "património cultural" está associada à de ação popular. No artigo 98º percebemos também que todo o património arqueológico é propriedade do Estado, que deve executar leis para "a sua gestão e conservação"[45]. As línguas nacionais são também compreendidas enquanto parte integral do património cultural do país.[45]

A entidade responsável pelo património cultural moçambicano é o Ministério da Cultura e Turismo, através da Direcção Nacional do Património Cultural e do Instituto de Investigação Sociocultural - ARPAC. Enquanto que a primeira deve ficar responsável pelo património material, a segunda deve tomar em atenção o património imaterial.[46]

Em São Tomé e Príncipe

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É na lei nº4/2003, denominada de "Lei do Património Histórico-Cultural Nacional", que podemos ver algumas das bases legislativas que dirigem a política patrimonial de São Tomé e Príncipe. O seu objetivo central, descrito no 1º artigo, é "a protecção dos bens culturais que constituem o património histórico-cultural contra a destruição, a transformação, a manipulação, a devastação, a alienação, a exportação e importação ilícitas, bem como a sua salvaguarda."[47]

Para além de caracterizar os vários tipos de património que encontramos no território santomense, podemos encontrar nesta lei as funções que são incumbidas ao Estado, às autarquias locais, mas também às populações, relativamente à salvaguarda do património.[47]

No que toca às responsabilidades do Estado, a instituição responsável é a Direção Geral de Cultura, que tem como missão "assegurar a gestão, salvaguarda, valorização, conservação e restauro dos bens que integrem o património cultural imóvel, móvel, material e imaterial do País, bem como desenvolver e executar a política cultural nacional".[48]

Em Timor-Leste

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Segundo o artigo 2º, alínea q), do decreto de lei nº22/2010, a "conservação, protecção, e valorização do património histórico e cultural diverso de Timor-Leste, designadamente o seu património arquitectónico, etnográfico, linguístico, literário, artesanal, os costumes e tradições e as artes em geral"[49]são tarefas do Ministério da Educação. Mesmo assim, podemos confirmar que também na Secretaria de Estado da Arte e Cultura há uma grande preocupação e "compromisso com a preservação do património cultural timorense"[50], desenvolvendo projeto em parceria com outros países ou instituições internacionais.

Ameaças e desafios

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A salvaguarda do património cultural enfrenta, na contemporaneidade, um cenário de ameaças multidimensionais que transcendem a mera degradação material. Embora a proteção e valorização do património sejam frequentemente consagradas como deveres fundamentais pelos Estados a nível global, a eficácia desta tutela é frequentemente posta à prova por pressões estruturais e dinâmicas transnacionais[51].

Umas das ameaças mais subtis, mas profundas, é o que Françoise Choay identifica como o "mal-estar" da patrimonialização. Na senda da autora, a obsessão das sociedades modernas em conservar o passado pode, paradoxalmente, transformar os monumentos vivos em meras "alegorias" ou cenários desprovidos do sentido social. Este processo de "museificação" urbana, frequentemente impulsionado pela pressão imobiliária e urbanística, tende a expulsar as populações locais, resultando na perda da "competência de edificar" e na transformação de centros históricos em espaços estáticos de consumo visual.[52]

O turismo cultural, embora reconhecido pela UNESCO e outras organizações internacionais como um um motor de desenvolvimento económico, representa igualmente um desafio crítico quando não regulado de forma sustentável. O fenómeno do excesso de turismo e a mercantilização dos bens culturais podem levar à sua descaracterização e ao desgaste físico. Na senda do geógrafo David Lowenthal o património é frequentemente "fabricado" ou simplificado para satisfazer as expectativas dos visitantes, sacrificando a complexidade e a verdade histórica em prol de uma narrativa de fácil consumo comercial.[53] A estes fatores somam-se as ameaças globais das alterações climáticas, reconhecidas pelo ICOMOS como um multiplicador de risco para o património [54], e a destruição deliberada em contextos de conflitos armados. Esta última visa frequentemente o "etnocídio cultural" através do apagamento da memória coletiva, como se verificou de forma trágica na destruição do Museu de Mossul e da antiga cidade de Palmira (atual Tadmor, Síria) entre 2015 e 2017, pelo autoproclamado Estado Islâmico, Daesh, atos amplamente condenados como crimes de guerra pela UNESCO, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e por diversas instâncias internacionais como crimes de guerra [55].

No plano internacional, a Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2003) sublinha a necessidade de proteger as práticas, representações, expressões e saberes transmitidos pelas comunidades, grupos e indivíduos, reconhecendo que a sua continuidade depende da participação ativa dos seus detentores[56]. Esta convenção é especialmente importante perante a fragilidade do património cultural, nomeadamente o imaterial, que pode ser afetado pela perda de transmissão intergeracional, pela descaracterização e pela mercantilização.

Problemáticas do património cultural

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A problemática do património refere-se aos debates teóricos e éticos sobre o que deve ser preservado, por quem e para que fins. Este campo é marcado por tensões entre diferentes valores, interpretações e poderes. Longe de ser um dado adquirido ou uma herança neutra, o património cultural é o resultado de um processo contínuo de seleção, onde a sociedade contemporânea decide quais os elementos do passado que são relevantes para o presente e para o futuro. Esta escolha levanta questões fundamentais sobre representatividade, justiça histórica e as dinâmicas de poder que moldam a memória coletiva[57].

O discurso oficial e institucional sobre o património, designado por Laurajane Smith como "Discurso Autorizado do Património" (AHD, na sigla em inglês), tende a privilegiar a monumentalidade, as grandes narrativas nacionais e os valores estéticos das classes dominantes.[58] Como consequência, as histórias, memórias e práticas de grupos subalternizados (como as classes trabalhadoras, minorias étnicas, populações indígenas e mulheres) são frequentemente invisibilizados ou marginalizados nos processos oficiais de patrimonialização. O desafio ético atual passa por democratizar as decisões patrimoniais, garantindo que as listas de bens classificados reflitam a verdadeira diversidade e pluralidade das sociedades contemporâneas, e não apenas a visão de quem detém o poder institucional.

O património não é universalmente consensual, frequentemente, o que constitui motivo de orgulho para um grupo pode representar dor, opressão ou trauma para o outro. Este fenómeno é designado por património dissonante (dissonant heritage), um conceito introduzido pelos geógrafos Tunbridge e Ashworth.[59] Esta dissonância manifesta-se de forma aguda em locais associados a "memórias difíceis", tais como antigos campos de concentração, prisões de regimes ditatoriais, rotas do comércio de pessoas escravizadas ou monumentos que celebram figuras ligadas ao colonialismo e à escravatura.

O debate ético em torno destes espaços e objetos é complexo: devem ser preservados como testemunhos históricos para evitar a repetição de atrocidades, ou a sua manutenção no espaço público (especialmente no caso de estátuas comemorativas) constitui uma perpetuação da violência simbólica contra os descendentes das vítimas. Na senda de Elsa Peralta, a violência racial, as heranças difíceis do colonialismo, são sistematicamente "atirados para debaixo do tapete da grande história nacional-imperial, empurradas para as caves poeirentas dos museus ou omitidas dos livros de história, na tentativa de expurgar as suas embaraçosas conotações com a violência colonial."[60] A recente vaga global de contestação e derrube de estátuas coloniais ilustra de forma clara como o património material é um campo de batalha ativo onde se disputam narrativas sobre o passado e se exigem reparações no presente.

Paralelamente ao debate sobre o espaço público, os museus e instituições de memória enfrentam pressões crescentes para a descolonização das suas coleções e narrativas. A restituição de bens culturais retirados no contexto da expansão colonial tem-se tornado uma questão central na diplomacia cultural e na ética museológica contemporânea. O influente relatório encomendado pelo governo francês aos académicos Felwine Sarr e Bénédicte Savoy (2018) marcou um ponto de viragem neste debate, argumentando que a restituição do património africano saqueado não é apenas uma devolução de objetos, mas uma necessidade para o restabelecimento de uma "nova ética relacional" e para o direito das sociedades pós-coloniais ao acesso à sua própria memória material.[61] Este movimento estende-se também ao debate sobre a propriedade intelectual, com organizações como a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) a procurar formas de proteger os conhecimentos tradicionais e as expressões culturais de povos indígenas contra a apropriação indevida e a mercantilização por terceiros.[62]

Por fim, a era digital introduziu novas problemáticas na salvaguarda patrimonial. Se, por um lado, a digitalização e a modelação 3D democratizam o acesso e preservam cópias de segurança de bens ameaçados, por outro, levantam questões éticas sobre a propriedade, o controlo e a autenticidade do património digitalizado. O Documento de Nara sobre a Autenticidade (1994) já alertava que o julgamento de valor e autenticidade não pode ser baseado em critérios fixos e universais, devendo respeitar o contexto cultural de cada comunidade.[63] No espaço digital, o desafio agudiza-se, sobretudo no que respeita à necessidade de garantir que as representações digitais de bens culturais materiais e imateriais permaneçam associadas às comunidades que lhes dão sentido, de modo a prevenir a transformação do património num repositório de dados alienado do seu contexto original e humano.

Ligações externas

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Ver também

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Referências

  1. «::: Lei n.º 107/2001, de 08 de Setembro». pgdlisboa.pt. Consultado em 4 de maio de 2026
  2. «Carta da UNESCO de 1972» (PDF)
  3. «Patrimônio». www.cultura.pe.gov.br. Consultado em 6 de maio de 2026. Cópia arquivada em 5 de fevereiro de 2007
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