Ir para o conteúdo

Infecção hospitalar

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Infecção relacionada a assistência à saúde (IRAS), também conhecida como Infeção hospitalar (português europeu) ou infecção hospitalar (português brasileiro) (AO 1990: infecção ou infeção)

é qualquer tipo de infecção adquirida após o paciente ser submetido a um procedimento de assistência à saúde (atendimento ambulatorial, cirurgia, exame, administração de medicamentos, home care, etc.) ou a uma internação, que possa ser relacionada a estes eventos. A definição mais atualizada não estabelece tempo limite universal para a definição de IRAS, devendo-se sempre avaliar os patógenos envolvidos e seus mecanismos fisiopatológicos. Caso o período de incubação do microrganismo envolvido for desconhecido e não houver evidência clínica ou dado laboratorial de infecção no momento da internação ou intervenção de saúde, as IRAS são definidas como aquelas iniciadas a qualquer momento após procedimentos, estando o paciente internado ou não. No caso de pacientes internados com infecção por patógeno de tempo de incubação desconhecido, considera-se IRAS aquelas infecções ocorridas a partir do terceiro dia de internação.[1]

Definição

[editar | editar código]

As infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) são aquelas adquiridas pelo paciente enquanto este se encontra em tratamento em qualquer tipo de estabelecimento de saúde e pode manifestar-se enquanto o paciente encontra-se sob os cuidados da equipe de saúde ou após sua alta[2]. São consideradas como infecções hospitalares (nosocomiais) as que são adquiridas em ambiente hospitalar, excluindo as infecções pré-existentes ou que estivessem em período de incubação na admissão do paciente[3].

Os microrganismos que causam infecções hospitalares em grande maioria não apresentam risco a pessoas sadias, porém em pacientes imunossuprimidos podem provocar doenças graves e até letais[4]. Podem estar presentes no ambiente, como também podem ser levados de um paciente a outro por profissionais de saúde quando não há higienização correta das mãos e instrumentais utilizados no atendimento. Alguns fatores contribuem para que isso ocorra como a suscetibilidade do organismo do paciente, manipulação inadequada de substâncias especificas, como o uso indiscriminado de antissépticos e antimicrobianos, entre outras situações que facilitam a introdução dos patógenos no organismo do paciente[5].

Além de comprometer a segurança do paciente, um grande problema relacionado às Infecções Hospitalares é o impacto financeiro nos sistemas de saúde público e para o paciente, devido ao tempo prolongado de internação necessária para o tratamento. Considera-se também como um problema de saúde pública, pois em muitos casos pode-se observar o aumento da resistência antimicrobiana, aumento da mortalidade e deixar o paciente incapacitado por um longo período[6].

Os prejuízos decorrentes da infecção hospitalar podem ser classificados como diretos, onerando o hospital ou o paciente, os indiretos como a descontinuidade de atividade de produção do indivíduo afetado e os intangíveis que são aqueles relacionados a problemas psicológicos, emocionais e físicos, como dor crônica, sequelas, entre outros[4].

As taxas de infecção hospitalar relatadas em um estudo de 2025[7] são de 8% a 10% e estão relacionadas a problemas de infraestrutura, superlotação e sobrecarga dos profissionais de saúde. Entre os principais tipos de infecção relatados estão as de gastrointestinais, as do trato urinário (ITU), as pneumonias associadas a ventilação mecânica (PAV) e as relacionadas a feridas cirúrgicas.

Prevenção

[editar | editar código]

A prevenção de infecções hospitalares por todo o mundo depende muito mais da instituição hospitalar e de seus trabalhadores do que dos pacientes, já que ninguém se interna com intenção de contrair doenças dentro do hospital.

Os cuidados para não ocorrer elevado número de infecções e sua prevenção e controle envolvem medidas de qualificação da assistência hospitalar, de vigilância sanitária e outras, tomadas no âmbito do município e estado e também do antigo e simples costume de lavar as mãos, já que grande parte das pessoas não o fazem nos hospitais.

Desde que no século XIX se pôde observar os seres microscópicos que produzem doenças, cientistas e médicos buscaram a forma de destruí-los e evitar a invasão de novos microorganismos.

Na idade média, desconhecendo a causa, queimavam os móveis e utensílios e o cadáver da pessoa que morria nas epidemias de cólera ou de peste, intuindo que havia algum elemento causador da doença que passava de uma pessoa doente ou de seus objetos para outras pessoas.

Louis Pasteur (1822-1895) descobriu algumas das bactérias causadoras de doença e que muitas delas morriam se aquecidas acima de certa temperatura. A “pasteurização” do leite consiste em aquecê-lo durante meia hora a 60 graus; isso mata as bactérias patogênicas e evita a transmissão de algumas enfermidades.

Antes de Pasteur, um medico que trabalhou em Viena e em Budapeste, Ignácio Semmelweis (1818-1865) obrigava todos a lavarem as mãos com água e sabão ou aplicar em si próprios hipoclorito de cálcico antes de atenderem as parturientes, o que determinou uma diminuição na mortalidade por febre puerperal de 18% para 2%.

Nessa época, um cirurgião inglês, Joseph Lister (1827-1912), fez com que os cirurgiões se lavasssem com solução de fenol e aplicou pomadas de ácido fênico nas feridas, reduzindo o número de infecções.

A importância de Lister é grande, porque implantou os princípios de assepsia, isto é, manter livre de germes os centros cirúrgicos.

O costume de manter o ambiente limpo e de trabalhar com os doentes nas condições mais assépticas possíveis foi pouco a pouco assumido por todas as pessoas dedicadas a atender enfermos. A partir dessa época, novos descobrimentos se fizeram, como o uso de luvas de borracha, a esterilização por vapor de água e o emprego de anti-sépticos cada vez mais eficazes. Parte desses descobrimentos continuam sendo usados, porém o grande avanço de nossa época é o uso de material descartável e os métodos industriais de esterilização, que significaram grande progresso no controle das infecções.

Ao mesmo tempo em que se progredia no estudo dos compostos capazes de destruir os germes patogênicos sobre os materiais e sobre a pele, começou-se a buscar substâncias que destruíssem os germes no interior do organismo, sem prejuízo para as células das pessoas. No principio do século XX, foram descobertas as sulfamidas, que matavam alguns micróbios, mais o avanço mais importante supõe-se ter sido a obtenção, em 1929, do primeiro antibiótico (a penicilina) a partir de um tipo de fungo, Alexander Fleming (1881-1955), embora a sua produção e comercialização só ocorressem nos anos 40. Desde então, até a atualidade, foram descobertos e produzidos outros antibióticos cada vez mais eficazes no tratamento de muitas doenças infecciosas.

Não devem ser esquecidos também os estudos sobre as defesas do próprio organismo contra as infecções e o descobrimento das vacinas no final do século XIX. A partir daí, o uso generalizado e sistemático das vacinações fez diminuir a incidência de algumas doenças e desaparecer outras, como a varíola, que nos séculos passados produzia grande número de mortes.

Em 2010, pesquisadores escoceses desenvolveram, na Universidade de Strathclyde, um método chamado de descontaminação denominado Sistema de Descontaminação Ambiental de Luz (High-Intensity Narrow-Spectrum) que utiliza luz de alta intensidade.[8] O método tem 60% mais eficácia que os métodos tradicionais de eliminação de bactérias e fungos.[9]

Controle de infecção hospitalar em hospitais brasileiros

[editar | editar código]

A história do controle de infecção hospitalar no Brasil se entrelaça com o desenvolvimento da vigilância epidemiológica e com o reconhecimento das infecções associadas à assistência à saúde (IRAS) como um problema coletivo. A compreensão da necessidade de prevenir essas infecções surgiu ainda no século XIX, com a valorização da higiene hospitalar e dos cuidados com o ambiente assistencial. No país, as primeiras iniciativas de controle ocorreram nas décadas de 1960 e 1970, mas só nos anos 1980 o tema passou a integrar políticas públicas estruturadas. Esse movimento foi impulsionado por programas de capacitação e por um debate mais amplo sobre a segurança dos pacientes nos serviços de saúde[10][11].

A institucionalização do controle ocorreu com a criação das Comissões de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e do Programa de Controle de Infecção Hospitalar (PCIH), formalizados por normas do Ministério da Saúde e posteriormente vinculados à Anvisa. Essas estruturas tornaram obrigatória a implementação de programas de prevenção em todos os hospitais, com o objetivo de reduzir a ocorrência e a gravidade das infecções relacionadas à assistência. Além de padronizar procedimentos, o PCIH promove a integração entre diferentes setores hospitalares e estimula a adoção de práticas baseadas em evidências, fortalecendo a segurança do paciente e a qualidade da atenção[12][3].

As estratégias de controle envolvem vigilância epidemiológica contínua, monitoramento de indicadores, uso racional de antibióticos e adesão rigorosa às normas de higiene. A higienização das mãos permanece como a medida mais eficaz e de menor custo, complementada pelo isolamento de pacientes infectados e pela educação permanente das equipes de saúde. A atuação interdisciplinar é essencial, especialmente em unidades de terapia intensiva, onde o uso de dispositivos invasivos e o tempo prolongado de internação elevam o risco de contaminação[2][3].

Mesmo com avanços legais e técnicos, os desafios persistem. Muitos hospitais brasileiros enfrentam limitações estruturais, carência de profissionais capacitados e sobrecarga de trabalho, fatores que dificultam a implementação plena das ações de controle. Além disso, há desigualdade entre as regiões do país quanto à capacidade de vigilância e à infraestrutura disponível, o que compromete a uniformidade das práticas e dos resultados esperados[12][4].

Superar essas barreiras exige ampliar o investimento em formação profissional, fortalecer as políticas públicas e incentivar a integração entre os diferentes níveis de gestão do sistema de saúde. O controle efetivo das infecções hospitalares depende tanto do compromisso institucional quanto da conscientização dos profissionais sobre o impacto de suas práticas cotidianas. Somente com essa combinação será possível consolidar uma cultura de segurança e qualidade que reduza as infecções e seus impactos na saúde da população brasileira[10][11].

Arquitetura na prevenção de infecção hospitalar

[editar | editar código]

A arquitetura hospitalar é um elemento essencial na promoção da segurança e da qualidade assistencial, pois o ambiente físico influencia diretamente a saúde dos pacientes e o trabalho das equipes. Ao planejar e construir hospitais, a arquitetura deve ser pensada como parte integrante do cuidado, criando barreiras físicas e funcionais que dificultem a disseminação de microrganismos. A concepção de espaços adequados de circulação, ventilação e iluminação, assim como a escolha de materiais que facilitem a limpeza e a desinfecção, contribui para reduzir o risco de infecções associadas à assistência à saúde[13][5].

No Brasil, a principal normativa que orienta o planejamento e a construção de estabelecimentos de saúde é a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 50/2002 da Anvisa. Essa norma define critérios técnicos para o desenho e a execução de projetos hospitalares, incluindo requisitos de biossegurança e controle de infecção. Além dela, portarias e legislações complementares de esferas estaduais e municipais reforçam padrões mínimos de funcionamento e manutenção, contemplando desde a ventilação e a disposição dos fluxos até o uso de materiais laváveis e resistentes a desinfetantes. Cumprir essas regulamentações é indispensável para garantir ambientes adequados às práticas assistenciais e seguros para pacientes e profissionais[5].

A arquitetura pode contribuir significativamente para a prevenção e o controle de infecções hospitalares ao definir fluxos separados para pacientes, profissionais e materiais limpos e contaminados, evitando cruzamentos e contaminações cruzadas. O uso de superfícies lisas, sem frestas e de fácil higienização, aliado ao correto dimensionamento das áreas críticas e semicríticas, são medidas arquitetônicas de impacto direto. Ambientes bem ventilados, com pressão negativa em locais específicos e iluminação natural adequada, favorecem a assepsia e reduzem a presença de microrganismos no ar. Assim, um projeto hospitalar bem elaborado é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de gestão da saúde e uma medida preventiva essencial para o controle das infecções[13][4].

Potencial de contaminação da incisão cirúrgica

[editar | editar código]

O número de microrganismo presentes no tecido a ser operado determinará o potencial de contaminação da ferida cirúrgica. De acordo com a Portaria n° 2.616/98, de 12 de maio de 1998, do Ministério da Saúde, as cirurgias são classificadas em:

Limpas: realizadas em tecidos estéreis ou de fácil descontaminação, na ausência de processo infeccioso local, sem penetração nos tratos digestório, respiratório ou urinário, em condições ideais de sala de cirurgia. Exemplo: cirurgia de ovário;

Potencialmente contaminadas: realizadas em tecidos de difícil descontaminação, na ausência de supuração local, com penetração nos tratos digestório, respiratório ou urinário sem contaminação significativa. Exemplo: redução de fratura exposta;

Contaminadas: realizadas em tecidos recentemente traumatizados e abertos, de difícil descontaminação, com processo inflamatório mas sem supuração. Exemplo: apendicite supurada;

Infectadas: realizadas em tecido com supuração local, tecido necrótico, feridas traumáticas sujas.

Defesas contra as infecções

[editar | editar código]

Sabemos que existem micróbios patogênicos no ar, nos objetos e sobre a pele, porém normalmente estes não produzem infecções porque existe uma série de barreiras naturais que protegem as possíveis portas de entrada dos germes. Finalmente, nós, seres humanos, somos parte da natureza e nela há uma ininterrupta batalha entre os seres vivos e outros, que às vezes se mantêm em equilíbrio e às vezes se destroem.

A barreira mais importante contra os germes ambientais é a pele. A capa superficial da pele é formada por células mortas com grande quantidade de queratina – a mesma substância que forma as unhas. Esta faz com que a pele seja impermeável e, com a secreção gordurosa e o suor, evite que os micróbios penetrem no organismo. Se a pele se rompe ou se altera, as bactérias que normalmente nela vivem podem introduzir-se no organismo, produzindo infecção.

Outra via importante para a entrada de germes é a respiratória. Aqui, entre células que recobrem a faringe e a traquéia, existem células que segregam mucosidade para reter os elementos estranhos, e além disso tem cílios que se movem continuamente para expulsá-los para o exterior. Esse epitélio fica alterado nos fumantes e drogados, por isso eles têm mais infecções respiratórias do que os não-fumantes.

A entrada de germes pelo aparelho digestivo esta protegida pela saliva e sucos gástricos, que têm capacidade de destruir alguns micróbios. O rim e a via urinária são protegidos pelo esfíncter de saída e o esvaziamento periódico da urina.

Também a vagina e os olhos têm secreções protetoras das infecções. São o fluxo vaginal e a lágrimas. A alteração dessas secreções facilita o surgimento de infecções.

Ver também

[editar | editar código]

Referências

  1. ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (2021). Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS) 2021 a 2025 (PDF). [S.l.]: Ministério da Saúde 
  2. a b «Três anos de avaliação das taxas de infecção nosocomial em UTI» 
  3. a b c «Prevenção e controle de infecção em unidade de terapia intensiva neonatal.» 
  4. a b c d «A infecção hospitalar em Mato Grosso: desafios e perspectivas para a enfermagem.» 
  5. a b c Hinrichsen (2023). Biossegurança e controle de infecções: risco sanitário hospitalar. Rio de Janeiro: [s.n.] 
  6. Carrara (2016). Controle de infecção: a prática no terceiro milênio. Rio de Janeiro: [s.n.] 
  7. «Infecções hospitalares na rede pública do Ceará: fatores determinantes e estratégias inovadoras de controle» 
  8. Anderson, John. Strathclyde Institute of Pharmacy and Biomedical Sciences. University of Strathclyde, acesso em 28 de dezembro
  9. Lighting. (18 de novembro de 2010). LED technology wipes out superbugs Arquivado em 27 de janeiro de 2011, no Wayback Machine., acesso em 28 de dezembro de 2010
  10. a b «Caracterização dos sistemas de vigilância epidemiológica das infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) no mundo e desafios para o Brasil.» 
  11. a b «Infecções relacionadas à assistência à saúde: desafios para a saúde pública no Brasil» 
  12. a b «A. Qualidade das práticas de profissionais dos programas de controle de infecção no Brasil: estudo transversal.» 
  13. a b «Arquitetura na prevenção da infecção hospitalar» (PDF) 

Bibliografia

[editar | editar código]
  • OLIVEIRA, Adriana Cristina (Org.). "Infecção Hospitalar, epidemiologia, prevenção e controle". 1 ed. Rio Janeiro: MEDSI/Guanabara Koogan, 2005.
  • FERNANDES, A. T. (Org.); FERNANDES, M. O. V. (Org.); RIBEIRO FILHO, N. (Org.). "Infecção Hospitalar e suas Interfaces na Área da Saúde". São Paulo: Atheneu, 2000.