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Jesús Maria Corona

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Jesús Maria Corona
Nome completoJesús Maria Corona Alonso-Astúlez
Nascimento
Morte
NacionalidadeEspanha Espanhol
OcupaçãoArquiteto e escultor

Jesús Maria Corona Alonso-Astúlez (Cudón, distrito de Miengo, 18 de janeiro de 1871Barcelona, 1 de novembro de 1938)[1] foi um arquiteto e escultor espanhol ativo também em Porto Alegre, no estado brasileiro do Rio Grande do Sul, onde destacou-se como um dos principais artistas da oficina de decoração predial de João Vicente Friedrichs, além de realizar outras obras independentes.

Biografia

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Descendente de uma antiga família fidalga de Bárcena de Cudón,[2][3] filho de Dom Eduardo Corona y Rumoroso, arquiteto-construtor e um dos mestres ativos nas obras de restauração da Catedral de León,[4] Jesús Maria nasceu em Cudón em 18 de janeiro de 1871 e aparentemente recebeu sua iniciação profissional no canteiro das obras, pois seu filho Fernando Corona disse que ele estudou escultura e arquitetura em León,[5] e Jesús de fato aparece nos anais da Catedral já entre 1887 e 1889 numa lista de escultores e canteiros ativos no restauro, também trazendo o título de Dom. Mas não é muito claro em que tarefas se ocupou, ao que parece foi na talha de pedra.[4]

Brasão Corona de Bárcena de Cudón: em campo azul, cinco pães de ouro em aspa, e sobre estes, uma coroa de ouro[6]

Em torno de 1892 construiu a torre da igreja de Balmaseda e fundou uma escola de artes em Durango. Aperfeiçoou-se em arquitetura em Madri, recebendo a graduação em 1895, e em seguida partiu para a França.[5] Voltando à Espanha, em 1897 aparece novamente em León como construtor e membro de uma loja maçônica. Neste período os maçons leoneses buscavam difundir ideias democráticas e defender os direitos dos cidadãos, opondo-se à ideologia teocrática e conservadora dos jesuítas, dos seminários católicos e dos líderes políticos tradicionais. Na crise de 1898 os maçons foram acusados de provocar a emancipação das últimas colônias espanholas. Segundo Pedro Víctor Fernández, isso levou a invasões de lojas, perseguições e obstáculos legais, desmantelando o movimento.[7] Depois trabalhou por alguns anos como arquiteto em San Sebastian, até ser contratado para colaborar na decoração da cripta da Catedral de Vitoria, além de presidir a Associação de Escultores e Canteiros da Catedral.[5][8] Casou-se com Antônia Cabello.[9]

Em novembro de 1909 participou de uma revolta republicana e por isso foi obrigado a se exilar em Buenos Aires, onde fez parte da equipe do Atelier Trinchero e executou figuras de mármore para o Palácio do Congresso.[5] Na cidade encontrou-se com João Vicente Friedrichs, que buscava novos artistas para sua oficina de decoração predial. Seguindo para Porto Alegre, trabalhou para Friedrichs de 1910 a 1913.[10] Em 1912 seu filho Fernando Corona veio da Espanha para buscar o pai, mas também ele acabou ficando, e tornou-se distinguido professor, arquiteto e escultor.[11]

Corona elaborou esculturas e relevos ornamentais para diversos edifícios, como os Correios e Telégrafos, atlantes reclinados na fachada do Banco da Província, atlantes ajoelhados na Casa Victor, uma alegoria da Fortuna na residência dos Mariante e Noronha, figuras femininas no Petit Cassino, uma cariátide no Edifício Varejão,[12] estatuária no Cinema Guarani e na Delegacia Fiscal,[8] e o brasão do Rio Grande do Sul para a fachada do Palácio Piratini.[13] Segundo Arnoldo Doberstein, Corona foi um dos principais artistas da oficina Friedrichs e "o escultor que mais se aproximou do expressionismo figurativo entre nós", em algumas obras desenhando a anatomia com distorções. Em outras seguiu um estilo mais convencional, e certas figuras femininas têm um claro apelo erótico. As mulheres do Petit Cassino foram depois removidas por serem consideradas escandalosas.[12]

Deixou também esculturas independentes, como um busto do Barão de Rio Branco para o Clube de Oficiais da Guarda Nacional, "trabalho de incontestável perfeição",[14] um busto de gesso de Pinheiro Machado para suas exéquias na sede da Intendência, "belo trabalho, reproduzindo com felicidade a efígie do excelso morto",[15] um "magnífico busto" em bronze de Bento Gonçalves para o Grêmio Gaúcho,[16] que teve uma cópia levada para a Praça da Matriz de Bagé, e um busto de si mesmo, hoje no acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo.[12] Em abril de 1915 fez uma exposição individual na sede da Escola Artística em Porto Alegre,[17] e em novembro do mesmo ano outra em Santa Maria, apenas com bustos, "a qual tem sido muito apreciada".[18]

O projeto da Catedral

Em 15 de fevereiro de 1916 inscreveu-se no concurso para o projeto da Catedral Metropolitana de Porto Alegre, do qual participaram 19 candidatos. Enquanto aguardava o resultado, em 1 de janeiro de 1917 foi preso por provocar desordens, sendo liberado no mesmo dia, e em 1 de março de 1917 foi anunciado como vencedor do concurso.[19] Seu projeto previa uma vasta catedral neogótica com cinco naves e torres de 72 m de altura, com uma cripta em estilo manuelino. O projeto encontrou críticas de todos os lados, especialmente da Escola de Engenharia, o que levou ao seu abandono. Possivelmente influiu o fato de seu autor ter fama de anarquista. O Arcebispo remeteu os projetos para Roma e solicitou ao arquiteto da Cúria Romana, Giovanni Battista Giovenale, que os revisasse e elaborasse um projeto definitivo.[20]

Frustrado com a rejeição do seu projeto, viajou para Pelotas.[11] Em setembro de 1918 aparece novamente em Porto Alegre, realizando em seu escritório uma reunião da colônia espanhola, debatendo a programação de um festejo e a criação do Centro de União Ibero-Americana,[21] no mesmo ano foi para Alegrete a fim de apresentar um projeto num concurso para uma estátua de José de Freitas Vale, mas não foi o escolhido.[22] Participou de concursos para um panteão em memória de Bento Gonçalves e um monumento para o Barão de Rio Branco, também sem sucesso.[23][12] Depois, sem encontrar trabalho, empregou-se como croupier de um cassino em Rio Grande.[12]

Retornou para a Espanha em 1922 mais pobre do que tinha vindo.[24] Em 1936, no período da Guerra Civil Espanhola, foi fichado em Santander como destacado miliciano pela polícia de repressão política, e processado pelo Tribunal Especial para a Repressão da Maçonaria e do Comunismo.[25][26] Faleceu em Barcelona em 1 de novembro de 1938,[1] vítima de um bombardeio, sendo enterrado numa vala comum.[24]

Referências

  1. a b "Jesús María Corona Alonso-Astúlez". Fundació per a la Difusió del Patrimoni Monumental Català, consulta em 19 de agosto de 2025
  2. Blanco, Jesús Mercado; Benito, María Jesús Moya; Casado, Antonio Herrera. Historia de Sacedón: patrimonio y costumbres. Aache, 2003, pp. 160-161
  3. García, Juan Catalina. Biblioteca de escritores de la provincia de Guadalajara. Sucesores de Rivadereyna, 1899, pp. 697-698
  4. a b Ríos y Serrano, Demetrio de los. La Catedral de León, Volume 2. Imp. del D. Corazón de Jesús, 1895, p. 200
  5. a b c d Canez, Anna Paula. Fernando Corona e os caminhos da arquitetura moderna em Porto Alegre. Unidade Editorial, 1998, p. 31
  6. Echegaray, María del Carmen & De la Pedrosa, Conrado García. Diccionario de apellidos y escudos de Cantabria. Estvdio, 2001, p. 226
  7. Fernández, Pedro Víctor. "Cuando la masonería abrió sus logias en León (II)". Ileón, 15 de março de 2025
  8. a b "Corona, Jesus Maria". Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, consulta em 19 de agosto de 2025
  9. Martins, Ari. Escritores do Rio Grande do Sul. $Editora da UFRGS, 1978, p. 153
  10. Simões, Julia da Rosa. A sala Beethoven (1931-32): música e cultura em Porto Alegre. Porto Alegre, 2008
  11. a b Nicolaiewsky, Alfredo. "Fernando Corona e o Documentário fotográfico de esculturas executadas pelos alunos desde a fundação do curso de escultura". In: Valle, Arthur et al. (orgs.). Oitocentos: O Ateliê do Artista, tomo IV. CEFET/RJ, 2017, p. 22
  12. a b c d e Doberstein, Arnoldo Walter. Estatuários, catolicismo e gauchismo. EDIPUCRS, 2002, pp. 77-79
  13. Mansan, Jaime Valim. Os Expurgos na UFRGS: Afastamentos Sumários de Professores Durante a Ditadura Militar. Appris, 2023, s/pp.
  14. "Exposição". A Federação, 19 de março de 1912, p. 4
  15. "Busto do senador". A Federação, 17 de setembro de 1915, p. 2
  16. "Sob a presidência do nosso amigo coronel Ernesto Jaegger". A Federação, 16 de setembro de 1914, p. 3
  17. "Exposição de escultura". A Federação, 1 de abril de 1915, p. 5
  18. "Exposição de bustos". A Federação, 20 de novembro de 1915, p. 5
  19. Simon, Círio. "Fernando Corona". Estudos de Artes, 22 de abril de 2017
  20. Weimer, Günter. "Construtores Italianos no Rio Grande do Sul". In Dal Bó, Juventino; Iotti, Luiza Horn; Machado, Maria Beatriz Pinheiro (orgs). Imigração Italiana e Estudos Ítalo-Brasileiros: Anais do Simpósio Internacional sobre Imigração Italiana e IX Fórum de Estudos Ítalo-Brasileiros. EDUCS, 1999, p. 347
  21. "A festa da raça". A Federação, 27 de setembro de 1918, p. 7
  22. "Estátua ao coronel Freitas Valle". A Federação, 31 de agosto de 1918, p. 4
  23. Brum, Rosemary Fritsch. Tempos narrados: os espanhóis em Porto Alegre. Animal, 2013, p. 77
  24. a b Corona, Fernando. "50 Anos de Formas Plásticas e seus Autores". In: Enciclopédia Rio-Grandense. Porto Alegre, 1956.
  25. "Ficha de Jesus Maria Corona Alonso". Centro Documental de la Memoria Histórica
  26. "Ficha de encausado de Jesús Corona Alonso". Centro Documental de la Memoria Histórica

Ligações externas

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O Commons possui imagens e outros ficheiros sobre Jesús Maria Corona