Pastoreio Racional Voisin

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O gado bovino é um dos animais produzidos no PRV

Pastoreio Racional Voisin ou Pastoreio Rotativo Racional, também conhecido pela sigla PRV é uma técnica empregada na produção animal, idealizada pelo bioquímico francês André Voisin. Os conhecimentos gerados por Voisin foram validos para regiões de clima temperado, para a primeira metade do século 20. Alguma coisa foi válida num período que pouca informação havia sobre a realidade tropical. O Brasil é um país com clima tropical, com forrageiras que apresentam características morfológicas e fisiológicas distintas. Para essas forrageiras as universidades brasileiras, a Embrapa e outras instituições de pesquisa geraram conhecimentos a respeito do manejo de pastagem, não fazendo mais sentido apegar-se a informações ultrapassadas como o PRV. Se constitui também em uma alternativa agroecológica para a criação de animais, porém preconiza a adubação química. No Brasil essa técnica foi muito difundida pelo Sr. Nilo Romero e pelos professores Luís Carlos Pinheiro Machado, Humberto Sório e Jurandir Melado. Embora Voisin tenha recomendado a adubação de pastagem em suas obras, seus difusores tem recomendado o PRV sem uso de fertilizante. Lembrando que a maior parte dos solos brasileiros se originaram numa condição de elevadas precipitações, sendo extremamente pobres em nutrientes, situação muito diferente da França, onde os solos se originaram em leito oceânico com acúmulo de seres vivos. Para Machado (2003) no PRV há estimulo a atividade microbiana, favorecendo o surgimento de reações subatômicas que determina a transmutação de certos elementos químicos no solo, o que é explicado por ele a razão para o aumento na concentração de alguns nutrientes no solo.

O PRV[editar | editar código-fonte]

Sistema Rotacionado[editar | editar código-fonte]

O insumo base do sistema Voisin é a energia solar, focando no potencial fotossintético das pastagens. Uma premissa básica do sistema PRV é a divisão das pastagens em piquetes, fazendo com que enquanto um deles está em uso, outros fiquem em descanso, favorecendo assim a fotossíntese, através do acúmulo das reservas tanto energéticas quanto protéicas nas raízes das plantas. É chamado racional, pois apesar do sistema ser rotacionado, não segue uma ordem pré-estabelecida. A troca de pastos segue uma análise fisiológica das pastagens de cada piquete.

Água[editar | editar código-fonte]

Outro ponto importante do PRV é a garantia de que haja água à vontade nos piquetes onde os animais se encontram. Um ponto chave é a utilização de bebedouros, que ficam a céu aberto à disposição dos animais. A utilização de bebedouros ao invés dos açudes, aumenta o nível sanitário do rebanho, pois nos bebedouros a àgua é sempre fresca e ciclada, ao contrário dos açudes, onde os animais, em especial os últimos a beberem água com urina e dejetos fecais.

Comportamento, Produtividade e Fertilidade[editar | editar código-fonte]

Também foi constatado nas criações em PRV que os animais dentro do sistema ficam mais dóceis, graças à abundância de água e alimento que tem à disposição. A ação das fezes e da urina que os animais depositam no piquete ao longo do dia também colabora para a manutenção da fertilidade das pastagens e também favorecem o surgimento de uma micro-fauna nos piquetes, como besouros, minhocas e centopéias. Essa premissa contradiz diversas pesquisas a respeito da dinâmica de nutrientes em áreas de pastagem. Os animais não contribuem para melhoria do teor de nutrientes no solo, pelo contrário há exportação de pequena quantidade de nutrientes, como também a grandes perdas de nutrientes, principalmente os mais móveis como o nitrogênio. Os animais consomem bortações mais novas, ricas em nitrogênio, e ao urinarem depositam esse nutriente em pequenas áreas. Nessa a concentração de nitrogênio equivale de 400 a 1200 kg/ha de nitrogênio, quantidade muito superior a capacidade de extração das plantas. Com isso, o nitrogênio é perdido por volatilização nos períodos mais secos e por lixiviação e escoamento superficial nos períodos chuvosos (Boddey et al., 2000). Esta é a razão da acentuada falta de nitrogênio nas pastagens. Além desse nutriente, em menor proporção o potássio também pode ser perdido dessa maneira. Os solos brasileiros são, na grande maioria, muito pobres em fósforo, ou o mesmo não está disponível para as plantas. Em áreas que nunca receberam fósforo, é normal em análises teores de P de 1 a 3 mg dm-3 de solo. O uso das áreas em pastejo altera pouco a disponibilidade de fósforo já que a extração é muito baixa. Quando as pastagens são adubadas com esse nutriente, existem perdas consideráveis de fósforo por fixação às argilas e há redução do seu teor com o passar dos anos. Surpreendentemente, Machado (2003) obteve a elevação do teor de fósforo para próximo a 30 mg dm-3 de solo, com algumas décadas de pastoreio Voisin em sua propriedade. Segundo o autor, essas alterações ocorreram a partir de reações "subatômicas" que provocaram a "transmutação" de certos elementos. Isso ocorre quando o SPV é conduzido corretamente. Esse é um resultado revolucionário e contraria toda a ciência do solo. Será que eles estão errados? Transmutação Embora no Brasil os fanáticos por pastoreio racional ignorem o uso da adubação em pastagem, Voisin era favorável a utilização de fertilizantes químicos e apresentou resultados de pesquisa com adubação nitrogenada em um de seus livros (Voisin, 1981).

Existem muitos dados contraditórios sobre a produtividade do SPV. Uma das primeiras publicações no Brasil tratava da transcrição de palestra ministrada pelo Sr. Nilo Romero a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (Romero, 1970), segundo o autor é possível produzir na pecuária tradicional 25 kg/ha/ano, "o fazendeiro não resiste ao que produz 800 ou 1000 quilos "(página 36). Mais adiante o produtor fala de "1.000 kg de carne por ha/ano que corresponde a 1.600 por hectare vivo”. Anos depois, Romero (1994) afirma que na mesma fazenda Conquista eram obtidos 400 kg/ha/ano. Alguma coisa aconteceu, porque a produtividade relatada pelo autor diminuiu, passados mais de 20 anos. Se for feita uma busca da produtividade pastagem na região de Bagé encontra-se produtividade de 400 kg/ha em áreas com trevo, cornichão e azevém, adubada, mas não em pastagem nativa.

Esses e outros micro-organismos ajudam a manter o solo em boas condições. A implementação do PRV resulta em um grande salto de produtividade das áreas de pastagens através da introdução de espécies de forragem leguminosas, que tem alto valor protéico e se utilizam do Nitrogênio disponível no ar.

Pastoreio rotacionado x contínuo[editar | editar código-fonte]

Plantas com habito de crescimento prostrado, estolonífero e rizomatoso são mais adaptadas ao pastoreio contínuo e não respondem a intervalos de descanso (Mislevy et al., 1981). Já plantas com hábito de crescimento cespitoso/ereto são beneficiadas com o descanso e torna-se mais fácil realizar o manejo desse tipo de pastagem (Machado, 1999). Numa pastagem formada por plantas cespitosas e estoloníferas, o pastoreio rotacionado favorece a primeira. Já numa pastagem nativa do Rio Grande do Sul, com grama forquilha (Paspalum notatum) que ocorrem espécies grosseiras como a barba-de-bode, o capim-caninha e capim-limão, o pastoreio contínuo, por determinado tempo, pode ser vantajoso para o controle das espécies indesejáveis, já que essas são cespitosas/eretas (Machado, 1999).

Quanto aos ganhos obtidos com este sistema são muito claros. No pastoreio rotacionado, embora os animais iniciem o pastejo com grande disponibilidade de massa, a pastagem ficou vedada por certo período e, portanto, as folhas são mais velhas do que aquelas consumidas pelos animais em pastoreio contínuo e, portanto, tem qualidade um pouco inferior. É por isso que Lenzi (2003) obteve o que era esperado, maior ganho por animal no pastoreio contínuo e maior ganho por área no pastoreio rotacionado. Além da diferença quanto a idade da folha, no pastoreio contínuo há menor competição e é dada aos animais maior possibilidade de realização de pastejo seletivo, o que permite o consumo de dieta com melhor qualidade. No pastoreio contínuo os animais permanecem continuamente na mesma área, o que não quer dizer que as plantas são diariamente consumidas. Gonçalves (2002) obteve frequência média de desfolha de 13, 15, 15, 18 dias em pastagem de capim Marandu submetida ao pastoreio contínuo nas alturas médias de pastejo de 10, 20, 30, e 40 cm, respectivamente. Ou seja, em média os animais não consomem diariamente a mesma touceira, porque o fator mais importante é a quantidade de forragem ingerida e para essa tarefa o animal dispõe de 8 a 10 horas, no restante do dia ele precisa se deslocar, ruminar e descansar.

Implantação[editar | editar código-fonte]

O primeiro e crucial passo é o que tem que ser dado pelo dono ou administrador da propriedade. Se ele não tiver certeza de que quer partir para um sistema de bases holísticas, que mudará profundamente a atividade da fazenda, então não deve ousar fazê-lo, pois as consequências serão negativas. O veterinário não conhece, o agrônomo vai falar que isto não existe e os funcionários da fazenda vão boicotar o sistema caso o responsável não deixe claro que este é um caminho sem volta e reflete a decisão e interesse da fazenda. O gado passa a ser manejado a pé, o peão na frente, definindo o ritmo, sem nenhum instrumento que represente ameaça ao gado que vem atrás.. este já é um dilema cultural para o peão que aprendeu a tratar o gado à base do chicote no lombo, de cima de um cavalo e aos gritos, para mostrar quem manda, mesmo que isto não garanta o controle das rezes. Os animais mesmo tendo sido mal tratados desde o nascimento, após passarem por um treino num piquete junto ao curral, por de 1 a 3 dias, transformam-se em animais extremamente dóceis e obedientes. Em uma semana de manejo, o lote inteiro já está se comportando de forma surpreendente, se aproximando do manejador ao invés de fugir deste. Se comportam ao sair do piquete, que pode ter 1 hectare ou menos, e seguem de forma ordenada, atrás e no ritmo do manejador, até o próximo piquete. O tamanho dos lotes é definido por observaçao, a partir da definiçao do tamanho dos piquetes e tempo de permanência, além da observaçao do tipo do capim e estaçao de chuvas. Caso defina-se, por exemplo, piquetes de 100 X 100mts, manejo diário e que o capim comporta uma altura mínima de 40 cm, coloca-se uma quantidade qualquer de animais e vai-se ajustando a carga, diariamente, até que se chegue à carga exata para que sobre, ao fim do dia, 40 cm de altura de pastagem. A quantidade de piquetes também obedece o mesmo processo. A quantidade de piquetes deve ser igual à quantidade de dias que aquele piquete necessita para retornar à altura que estava antes do último corte. Se aquele pasto necessita de 40 dias para voltar à altura inicial, então precisamos de 40 piquetes de igual tamanho, para serem colhidos ao ritmo de 1 por dia.

Beneficios Indiretos[editar | editar código-fonte]

Devido ao respeito que é dado ao capim, da adubaçao natural concentrada, do corte parelho que permite que todas as folhas recebam a luz solar, existem algumas consequências indiretas fantásticas, à nivel de microbiologia: As falhas de plantio do capim são preenchidas, As plantas invasoras são controladas e passam a fazer parte da dieta dos animais, O solo , antes seco pelo pisoteio excessivo, passa a ser descompactado e volta a ser permeável, A cigarrinha perde as toçeiras de que precisa para incubar as suas larvas, Insetos especializados em processar e enterrar o esterco do gado surgem por todos os cantos, Pequenos cursos de água que foram extintos pelo rebaixamento do lençol por pisoteio voltam a brotar, Diminuem a ocorrencia de zoonoses, Dimunue a ocorrência da mosca-do-chifre, Entre tantas outras. Ocorre uma revoluçao na micro-fauna e flora da terra, e reaçoes quimicas começam a ocorrer e estimular a transformaçao e assimilaçao dos nutrientes.

Manejo de pastagem tropical[editar | editar código-fonte]

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Quando o pastoreio rotacionado racional foi escrito, a pastagem precisava descansar e o pastejo era realizado com "eficiência", de tal modo que os animais deveriam consumir o máximo de forragem que conseguissem, deixando apenas os colmos (talos). O manejo de pastagem evoluiu muito nas últimas décadas e hoje sabemos da importância da área foliar residual para a rebrota das plantas. Com mais folhas as plantas conseguem realizar mais fotossíntese, o que resulta em menor tempo de rebrota. Dessa forma, o manejo passou a ser orientado pela interceptação da radiação solar pelas folhas. O momento de início do pastejo corresponde a aproximadamente 95% de interceptação da radiação. É o momento em que a planta dispõe da maior área foliar. A partir desse ponto folhas inferiores morrem por falta de radiação e os colmos se alongam na disputa por radiação solar entre perfilhos. O ponto de entrada pode ser traduzido por altura, no caso do capim Mombaça corresponde a 90 cm, aproximadamente (Carnevalli et al., 2006).

O momento de retirada dos animais do piquete evoluiu e, na última década, foi determinado o momento ideal. Nos primeiros momentos (ou dias) em que os animais entram num piquete há o consumo máximo de forragem, com o passar do tempo a disponibilidade de folhas diminui e taxa de ingestão é reduzida, proporcionalmente. Por isso, os animais devem ser trocados de piquete quando a taxa de ingestão começar a cair, que corresponde de 50 a 60 % da altura de entrada, ou seja os animais devem ser removidos quando consumirem, no máximo 40 a 50% do topo das plantas, que é onde se concentram a maioria das folhas (Carvalho, 2013).

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BODDEY, R. M.; ALVES. B. J. R.; OLIVEIRA, O. C. de; URQUIAGA, S. Degradação das pastagens e o ciclo do nitrogênio. In: WORKSHOP NITROGÊNIO NA SUSTENTABILIDADE DE SISTEMAS INTENSIVOS DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA, Dourados, 2000. Anais... Embrapa Agropecuária Oeste e Agrobiologia, 2000. p.110-124.
  • CARNEVALLI, R.A.; SILVA, S.C.; OLIVEIRA, A.A. et al. Herbage production and grazing losses in Panicum maximum cv. Mombaça pastures under four grazing managements. Tropical Grasslands, v.40, n.3, p.165-176, 2006.
  • CARVALHO, P. C. F. Can grazing behavior support innovations in grassland management? In: Proceedings of the 22nd International Grassland Congress, 2013. p. 1134-1148.  
  • GONÇALVES, A. de C. Características morfogênicas e padrões de desfolha em pastos de capim Marandu submetidos a regimes de lotação contínua. ESALQ, 2002. 124p. (Dissertação, Mestre em Agronomia)
  • LENZI, A. Desempenho animal e produção de forragem em dois sistemas de uso de pastagem: Pastejo contínuo e Pastejo Rotacional Voisin. Universidade Federal de Santa Catarina, 2003. 122p. (Dissertação, Mestre em Agroecossistemas)
  • MACHADO, L.A. Z. Manejo de pastagem nativa. Gráfica e Editora Agropecuária, 1999. 156p.
  • MACHADO, L. C. P. . Ruminantes e Agroecologia. In: 40 Reunião Anual da SBZ, 2003, Santa Maria - RS. Anais do 40 Reunião Anual da SBZ, 2003.
  • MACHADO, Luiz Carlos Pinheiro. Pastoreio Racional Voisin: tecnologia agroecológica para o terceiro milênio. Porto Alegre: Cinco continentes, 2004. XXXi, 310 p.: il.
  • MISLEVY, D.; MOTT, G.O.; MARTIN, F.G. Screening perennial forages by mob-grazing technique. In: SMITH, J.A; HAYS, V.W. Proc. XIV International Grassland Congress, 14, Lexingon, Kentucky, 1981. Boulder, Westview Press, p. 516-519, 1981.
  • ROMERO, N. Sistema André Voisin: Experiência no RGS. Transcrição de palestra. Porto Alegre, Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, 1970. 60 p.
  • ROMERO, N. Alimente seus pastos com seus animais. Gráfica e Editora Agropecuária, 1994. 106p.
  • VOISIN, André. Dinâmica das pastagens: devemos lavras nossas pastagens para reformá-las? Trad. Prof. Luiz Carlos Pinheiro Machado. 2º ed. São Paulo. Mestre Jou, 1979
  • VOISIN, André. Produtividade do Pasto.: Trad. Norma B. Pinheiro Machado, revisão prof. Luiz Carlos Pinheiro Machado. 2º ed. São Paulo. Mestre Jou, 1981

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Grupo de Pastoreio Voisin - UFSC

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