Plano de Ayala

O Plano de Ayala (em espanhol, Plan de Ayala) foi um documento manifesto criado pelo líder revolucionário mexicano Emiliano Zapata, promulgado em 28 de novembro de 1911[1] no contexto da Revolução Mexicana. Nele, Zapata denunciava o então Presidente Francisco I. Madero (outrora um dos principais desencadeadores iniciais do processo revolucionário) como um traidor dos ideais que o próprio Madero havia defendido em seu Plano de San Luis Potosí, além de estabelecer a visão de Zapata para um processo de reforma agrária para todo o México.
Redigido por Zapata e pelo professor e também revolucionário Otilio Montaño, inicialmente publicado no periódico Diario del Hogar do município de Ayala, Morelos e posteriormente editado em 19 de junho de 1914,[2] o Plano tornou-se um documento-chave durante a Revolução e influenciou noções mexicanas de reforma agrária durante todo o século XX em diante, se transformando no texto fundamental do movimento zapatista.[3]

Antecedentes
[editar | editar código]Uma das tensões principais das quais resultou a derrocada do Porfiriato e a ascensão de Madero ao poder no México foi a situação em que se encontrava o campesinato mexicano na virada do século, já que a maior parte da terra estava sob controle de grandes proprietários nas chamadas haciendas, não sendo incomum a expropriação violenta dos ejidos, terras de uso coletivo utilizadas por camponeses pobres e comunidades indígenas.[4] Um caso ilustrativo é o do distrito de Papantla, de economia dependente do plantio de baunilha, onde se denunciou através de carta publicada no jornal El Monitor a situação precária dos cidadãos que, além de terem que pagar taxas exorbitantes de acesso à terra, pagavam também um imposto mensal de acesso à educação apesar da ausência de escolas no interior do distrito, além de taxas a que era sujeita a população indígena Totonaca para a emissão de documentos essenciais, população esta que também tinha suas vestes tradicionais restringidas por lei.[4] O emaranhado de precariedades vivido pela população campesina era, portanto, intimamente ligado à questão da terra, tornando o impulso pela reforma agrária uma das forças motrizes do apoio popular à Revolução Mexicana.
No Plano de San Luis, Madero havia prometido restituições aos camponeses que haviam tido suas terras expropriadas por fazendeiros sob o pretexto da Lei de Terrenos Baldios de 1894[5] além de se comprometer com a luta contínua pela dignidade campesina. Em 8 de junho de 1911, Zapata e Madero se encontraram para discutir a prospectiva de reforma agrária, e Madero exigiu que Zapata dissipasse seu exército rebelde como precondição para que fosse discutida a reforma. Zapata negou a exigência e, em 6 de novembro daquele ano, Madero foi eleito presidente. Agora no poder, Madero declarou Zapata um criminoso por recusar o desarmamento, e em 28 de novembro, menos de três semanas após a posse de Madero, Zapata e Montaño Sánchez proclamaram o Plano de Ayala.
Conteúdo do Plano
[editar | editar código]O Plano contém quinze pontos, aqui sumarizados:
- Zapata denuncia Madero como sendo incapaz de governar o México, chamando-o traidor da Revolução por não cumprir com as promessas do Plano de San Luis, manter a supraestrutura do governo do Porfiriato intacta e suprimir a oposição com violência. Clama para que o povo mexicano continue a Revolução.
- Zapata declara oficialmente que não reconhece mais Madero como Presidente e que os zapatistas tentarão derrubá-lo.
- Nomeia-se Pascual Orozco como Chefe da Revolução e, caso ele não aceite, Zapata nomeia a si mesmo.
- A Junta Militar do Estado de Morelos declara seu apoio ao Plano de Ayala como uma adição ao Plano de San Luis, e se compromete em defendê-lo.
- A Junta Militar do Estado de Morelos reafirma que tentará, junto dos zapatistas, derrubar Madero.
- Promete-se que as terras expropriadas serão devolvidas aos cidadãos, com tribunais especiais a serem estabelecidos após a Revolução para determinar seus verdadeiros donos.
- Um terço das propriedades dos monopólios mexicanos deve ser redistribuído para vilarejos e indivíduos sem terra.
- Donos de monopólios que se opuserem ao ponto anterior devem perder o restante de suas propriedades, que servirão de reparações para as vítimas da Revolução.
- As leis de nacionalização então vigentes serão utilizadas para executar os dois pontos anteriores.
- Revolucionários que apoiaram o Plano de San Luis mas não apoiarem o Plano de Ayala serão considerados traidores da Revolução.
- Os gastos da guerra serão tomados de acordo com o Plano de San Luis.
- Após a vitória da Revolução, a Junta de Chefes da Revolução irá apontar um Presidente Interino, que irá imediatamente iniciar um novo processo eleitoral para eleger um Presidente.
- Após a vitória da Revolução, os Chefes da Revolução de cada estado apontarão um Governador Interino para seu respectivo estado, que irá iniciar um novo processo eleitoral para eleger um Governador.
- Zapata demanda a resignação de Madero e demais elementos ditatoriais do governo, ameaçando-os de morte caso não o façam.
- Zapata demanda ação direta do povo mexicano, e mais uma vez denuncia a incapacidade de Madero de governar o país.[6]
Em 19 de junho de 1914, o Plano foi atualizado após Pascual Orozco se alinhar a Victoriano Huerta contra Zapata, forçando a alteração do ponto 3. Passa então a exigir a continuação do conflito até a derrubada de Huerta, que naquela altura já havia sido o mandatário do assassinato de Madero.[3] O restante do texto manteve-se o mesmo.
Legado e consequências
[editar | editar código]Zapata utilizou-se do Plano de Ayala como fator de mobilização e união de diversas rebeliões menores sob a égide da reforma agrária, aumentando o contingente total de seu exército.[7] Serviu também para medir as lealdades a Zapata no contexto revolucionário, como na proposta de aliança com Pascual Orozco, que se provou infrutífera e resultou nas alterações de 1914. No mesmo ano, Zapata se une a forças rebeldes do norte lideradas por Venustiano Carranza e Pancho Villa, derrotando Huerta e fuzilando Orozco. Porém, discordâncias sobre a reforma agrária como proposta no Plano de Ayala causariam mais um racha, dessa vez entre Carranza e Zapata: daquele conflito resultaria a morte de Zapata, e dali em diante os zapatistas não recuperariam sua força prévia.[8] Apesar disso, o movimento consegue negociar sua reforma em certa medida, ainda que somente no estado de Morelos, já na altura do governo Obregón.[2]
A influência do Plano e das ideias de Zapata continuaram para além do período revolucionário. Em 1983, fundou-se o Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) no estado de Chiapas, um grupo de guerrilha cujos objetivos principais são a reforma agrária e a redistribuição de recursos para as populações nativas, inspirado na ideologia de Zapata. A rebelião armada do grupo começou como reação às reformas econômicas operadas no México em preparação à adesão do país ao NAFTA e, desde 1994, os zapatistas de Chiapas seguem nominalmente em guerra com o Estado mexicano.[9]
O lema "Tierra y Libertad!" ("Terra e liberdade!") presente no Plano tornou-se também muito popular, sendo utilizado por diversos movimentos políticos, como o EZLN e o Partido Liberal Mexicano.[10]
Ver também
[editar | editar código]- Plano de San Luis de Potosí
- Movimento zapatista
Referências
- ↑ «Versiones del plan de Ayala - Memórica». memoricamexico.gob.mx (em espanhol). Consultado em 21 de junho de 2025. Cópia arquivada em 15 de janeiro de 2025
- ↑ a b Womack, John (1969). «Zapata and the Mexican Revolution»: p. 60. ISSN 0002-8762. doi:10.2307/1854679
- ↑ a b «What Was the Plan of Ayala?». ThoughtCo (em inglês). Consultado em 21 de junho de 2025
- ↑ a b Wasserman, Mark (2018). The Mexican Revolution: a brief history with documents. Col: The Bedford series in history and culture. Boston: Bedford/St.Martins. ISBN 1319242812
- ↑ «Memoria Política de México». memoriapoliticademexico.org. Consultado em 22 de junho de 2025
- ↑ «Plan de Ayala». users.pop.umn.edu. Consultado em 22 de junho de 2025
- ↑ Brunk, Samuel (2008). The Posthumous Career of Emiliano Zapata: Myth, Memory, and Mexico's Twentieth Century. Austin: University of Texas Press. p. 275-276. ISBN 0292717806
- ↑ Ulloa Ortiz, Berta (2009). Cosío Villegas, Daniel, ed. Historia general de México. Ciudad de México: El Colegio de México. p. 757-821. ISBN 968-12-0969-9
- ↑ Romero, Raúl. «A brief history of the Zapatista Army of National Liberation». ROAR Magazine (em inglês). Consultado em 22 de junho de 2025
- ↑ Moguel Flores, Josefina (2006). El Magonismo en Coahuila. Introducción y compilación. Coahuila: Gobierno del Estado de Coahuila. p. 15. ISBN 9689077031
Bibliografia
[editar | editar código]- BRUNK, Samuel. The Posthumous Career of Emiliano Zapata. Austin: University of Texas Press, 2008.
- MOGUEL FLORES, Josefina. El Magonismo en Coahuila. Introducción y compilación. Coahuila: Gobierno del Estado de Coahuila, 2006.
- ULLOA ORTIZ, Berta. La lucha armada. In: COSÍO VILLEGAS, D. et al (eds.). Historia general de México. Cidade do México: El Colegio de México, 2009.
- WASSERMAN, Mark. The Mexican Revolution: a brief history with documents. Boston: Bedford/St. Martins, 2018.
- WOMACK, John. Zapata and the Mexican Revolution. Nova York: Knopf, 1969.