Produção colaborativa baseada em recursos comuns

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Visão Geral[editar | editar código-fonte]

Produção colaborativa baseada em recursos comuns é um modelo de produção socio-econômica elaborado por um grande número de pessoas, ocorrendo geralmente através da internet. O artigo  "Coase 's Penguin or Linux and the Nature of the Firm”, escrito por Yochai Benkler da Harvard Law School em 2002, foi onde o termo produção colaborativa baseada em recursos comuns foi utilizado pela primeira vez. No artigo Eben Morgen é citado como a primeira pessoa a ter utilizado o termo.

Em 2003, o termo foi definido como “um tipo particular de arranjo institucional que governa o uso e a disposição de recursos, sua principal característica, que os define de forma distinta da propriedade, é que nenhuma pessoa tem o controle exclusivo do uso e da disposição de qualquer recurso particular. Pelo contrário, os recursos governados pela comunidade podem ser utilizados e dispostos por qualquer um entre um dado número de pessoas[1].”

Na produção colaborativa os contribuidores compartilham seus conhecimentos e ideias livremente. Isso possibilita outros contribuidores de acrescentarem naquele conhecimento e de modificarem as ideias de acordo com seus interesses e necessidades locais, em seguida compartilhando o conhecimento criado novamente. Isso cria um ciclo infinito de criação de conhecimento que é constantemente compartilhado e reestruturado.[2]

D’Andréa (2013) utiliza a tradução “produção de bens comuns em pares em rede”, afirmando que esse modelo de produção é viável através das redes informacionais pelos quais eles são conduzidos de forma articulada entre indivíduos com interesses comuns. O resultado é uma produção descentralizada de informação, conhecimento e cultura, como o desenvolvimento de softwares, notícias e enciclopédias. Os produtos gerados não são propriedade de um indivíduo ou de um grupo, mas sim bens comuns que podem ser utilizados e reapropriados pelos envolvidos e por outros interessados[1].

Nem toda produção colaborativa é baseada em recursos comuns; Em produção colaborativa, os contribuidores desenvolvem e avançam um produto livremente ao deixarem seu conhecimento disponível para outros contribuidores. A produção colaborativa é diferente da forma convencional de produção por ser baseada em redes de conhecimento e, através da internet, em recursos comuns de conhecimento digital, onde os contribuidores compartilham seus conhecimento

os livremente para inventar e desenvolver produtos. O diferencial da produção colaborativa baseada em recursos comuns é que nesse caso o conhecimento criado não é patenteado para gerar lucro[3], sendo, ao invés, disponibilizado livremente como um recurso comum[4].

Um exemplo representativo de bens comuns são os softwares de código aberto (ou softwares livres). Uma de suas principais características é a disponibilização, a qualquer pessoa interessada, do código-fonte sobre o qual o programa funciona. Este código é distribuído de forma que qualquer interessado tenha permissão para executar, copiar, distribuir, avaliar, modificar e/ou aperfeiçoar seu conteúdo[1].

O termo é frequentemente usado de forma intercambiável com o termo a produção social.


Princípios[editar | editar código-fonte]

A produção colaborativa quando efetuada por pares deve seguir três princípios chave:

1- Modularidade , segundo Kostakis os objetivos da produção devem ser divisíveis em componentes ou módulos tangíveis que podem ser produzidos de forma independente e onde os participantes podem trabalhar de forma assíncrona sem ser necessário esperar que um termine a sua tarefa ou uma coordenação em pessoa[5].

2- Granularidade, ou seja o grau até onde um objecto está dividido em partes menores que devem ser pequenas o suficiente de forma a permitir que um número grande de contribuidores consiga contribuir em diferentes áreas e com níveis de esforço que não demandem muito deles[2]

3- Integração a Baixo Custo, ou seja os mecanismo nos quais os módulos são integrados no produto final assim como controle de qualidade e defesa de contribuições maliciosas ou erradas visto que comunidades digitais dependem de auto-identificação das contribuições que podem ser feitas por determinadas pessoas[2].

Alternativa ao Capitalismo[editar | editar código-fonte]

A motivação para fazer parte de uma produção colaborativa costuma estar relacionada a motivos intrínsecos e sociais ao invés de motivos materialistas ou incentivos financeiros[4]. É uma forma de inovação que não é estimulada unicamente por lucro.

Baseado na construção do comum proposta por Hardt e Negri, Silveira (2011) propõe que a produção colaborativa leva a uma espiral de relações com vista a superação do capitalismo como sistema.[6]

Normalmente alguma pessoa ou grandes companhias controlam fluxos vitais do processo de colaboração. Porém, mudanças na natureza da tecnologia, da demografia e da economia estão possibilitando o surgimento de modelos de produção que são baseados na comunidade, na colaboração e na auto-organização, e que entregam resultados ainda melhores do que em modelos hierárquicos[6].

Esta conexão entre o meio digital, comunicação, e liberdade provoca um questionamento à ideia do homo-economicus, que tem como foco principal a racionalidade do mercado. Nesse caso, a liberdade está colaborando para ampliar o não-proprietário e o espaço fora do mercado, ao invés de ampliar a propriedade privada.Consolidando a colaboração e a solidariedade ao invés de aumentar a competição. Dessa forma, os commons não surgem do autoritarismo, ou do Estado como coordenador dos espaços e esferas comuns, eles nascem exatamente do contrário, da auto-organização, emergindo a partir de processos bottom-up.[6]

Porém, a capacidade dos recursos digitais comuns de estimular economias alternativas ao capitalismo não é um consenso[7], mas recursos digitais comuns não devem ser considerados intrinsecamente como os catalisadores dessa transformação, e sim como uma plataforma que pode possibilitar essa mudança. Uma questão importante é, então, como o modelo organizacional de produção colaborativa baseada em recursos comuns é utilizado. Ao mesmo tempo que, se incorporada em modelos tradicionais de negócios, a produção colaborativa pode gerar acumulação de capital e crescimento econômico, a produção colaborativa baseada em recursos comuns pode ser utilizada como um modo de transformar o sistema econômico vigente, dependendo das medidas adotadas na sua operacionalização[3]. Os commons são cada vez mais percebidos como terreno para a constituição de sistemas emergentes. Sistemas estes que são bottom-up, e não, top-down. Criando conhecimentos a partir de baixo, se tratam de complexos sistemas adaptativos que mostram comportamento emergente[6]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Processos colaborativos peer-to-peer

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c D'Andrea, Carlos (10 de outubro de 2013). «COLABORAÇÃO POR PARES EM REDE: CONCEITOS, MODELOS, DESAFIOS» (PDF). Simpósio em Tecnologias Digitais e Sociabilidade - UFBA. Consultado em 29 de abril de 2021 
  2. a b c Benkler, Yochai; Nissenbaum, Helen (2006). «Commons-based peer production and virtue» (PDF). The Journal of Political Philosophy: 394-419. Consultado em 29 de abril de 2021 
  3. a b Robra, Ben; Heikkurinen, Pasi; Nesterova, Iana (2020). «Commons-based peer production for degrowth? - The case for eco-sufficiency in economic organisations» (PDF). Sustainable Futures. Consultado em 29 de abril de 2021  line feed character character in |titulo= at position 59 (ajuda)
  4. a b Benkler, Yochai (2017). «Peer Production, the Commons, and the Future of the Firm» (PDF). Harvard Library. Consultado em 29 de abril de 2021  line feed character character in |titulo= at position 30 (ajuda)
  5. Kostakis, Vasilis (2019). «How to Reap the Benefits of the "Digital Revolution"? Modularity and the Commons». Halduskultuur: The Estonian Journal of Administrative Culture and Digital Governance. Consultado em 29 de abril de 2021 
  6. a b c d Amadeu da Silveira, Sérgio (2011). «O conceito de commons e a cibercultura» (PDF). Crítica y Emancipación. Consultado em 29 de abril de 2021 
  7. Ossewaarde, Marinus; Reijers, Wessel (21 de agosto de 2017). «The illusion of the digital commons: 'False consciousness' in online alternative economies». Sage Journal. Organization: 609-628. Consultado em 29 de abril de 2021