Sombra (psicologia)

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Conceitos Junguianos[editar | editar código-fonte]

Carl Gustav Jung foi um dos maiores estudiosos da vida interior do homem e tomou a si mesmo como matéria prima de suas descobertas - suas experiências e suas emoções estão descritas no livro "Memórias, Sonhos e Reflexões"

Jung realizou um avanço teórico quando resolveu se dedicar a descrever a psique de um ponto de vista mais dinâmico e menos estrutural. Na segunda década do século XX, desenvolveu o conceito de energia psíquica e passou a focalizar funções e processos, sendo o mais importante deles o de individuação. Sua ênfase recaiu, sobretudo, sobre a relação, sempre presente e muito dinâmica, entre a consciência e o inconsciente. A consciência é definida de uma forma em que o aspecto dinâmico e relacional passou a ser o central: “A consciência pode até ser igualada à relação entre o eu e os conteúdos psíquicos”. Para Jung, o inconsciente é a matriz psíquica básica que oferece a cada ser humano um manancial de possibilidades para constituição de sua personalidade, na medida em que embasa suas maneiras de apercepção das situações que vive na relação com a mãe, a família, o meio social, suas características físicas, elementos da cultura e, também, com suas próprias ideias e emoções.

O inconsciente coletivo pode ser visto como a “mãe” da consciência, que a gesta e deixa nascer depois de um processo em que o ego, seu centro, vai se formando pouco a pouco durante a infância, a partir das experiências sendo vividas, no meio em que se desenvolve a criança. O próprio ego, centro da consciência, é definido por Jung como um complexo, dada sua maneira de se constituir, que é a mesma de todos os complexos. Tem de específico o fato de ter como arquétipo embasador o próprio self, isto é, o arquétipo da totalidade psíquica, o que faz com que ele assuma um senso de identidade pessoal e, uma vez constituído, possa dispor de certo livre-arbítrio, na medida em que tem para si uma parcela própria de energia psíquica.

Paralelamente à constituição do campo da consciência e do complexo do ego, vai-se formando o inconsciente pessoal, fruto do recalque de conteúdos incompatíveis com a consciência que está sendo desenvolvida. O inconsciente pessoal corresponde ao que Jung posteriormente passa a chamar de sombra pessoal

Sombra[editar | editar código-fonte]

A sombra abarca além dos complexos, conteúdos esparsos que correspondem a percepções subliminares, isto é, aqueles que compõem as situações vividas mas de maneira que não atingem o patamar mínimo para serem assimilados pela consciência. A sombra é a companheira inevitável da consciência, a qual é equiparada com a luz que ilumina e permite discriminações mais acuradas. A sombra dá conta daquilo que o ego não assimila nas vivências pessoais, e mantém tais conteúdos a uma certa distância dele, mas com a possibilidade de virem a se tornar conscientes no futuro. Enquanto instância psíquica, ela é fundamental, em si um arquétipo, coadjuvante a todo momento do funcionamento da consciência que é, inerentemente, limitado. Pode-se considerar, também, uma sombra arquetípica, responsável pelos conteúdos humanos gerais, que a cultura não consegue assimilar à consciência coletiva. Cada um de nós tem conteúdos que dificilmente alcançarão o limiar da consciência. Além disso, a relação da sombra com o ego é intensamente dinâmica e presente ao longo da vida. Embora ele não possa considerá-la de maneira a reconhecer seus conteúdos, ela se mantém presente e operante o tempo todo.

Persona[editar | editar código-fonte]

Construída em paralelo ao ego e à sombra desde o início da vida, a persona é a instância psíquica responsável pela interação com os outros e com o meio de maneira geral. O termo persona refere-se à máscara usada no teatro grego antigo, através da qual o ator fazia sua voz amplificar-se e espalhar-se pelo ambiente. Manifesta-se nos papéis que desempenhamos na vida, abrangendo também nossas maneiras de fazê-lo. É um recorte que consiste, segundo Jung, num segmento mais ou menos arbitrário da psique coletiva, mas havendo nele algo de pessoal. A persona é a estrutura que tem o compromisso de expressar algo de nossa individualidade num contexto pautado por códigos sociais e por variáveis das outras pessoas. Forma-se inicialmente por meio da imitação dos mais próximos, de maneira inconsciente, podendo e sendo desejável que vá, pouco a pouco, sendo conscientizada no maior número possível de seus aspectos, para que se torne flexível e adequada, fruto também da escolha egoica, e sirva a cada momento às demandas do processo de individuação. Nossos papéis sociais ilustram aspectos da persona. Cada profissão tem sua persona, pois a cultura define, em grande medida, o que se espera dela enquanto maneira de ser e de interagir. A persona consiste numa estrutura arquetípica, cuja principal função é possibilitar a interação do indivíduo com os outros, atendendo, por um lado, a papéis socialmente estabelecidos, e, por outro, assumindo uma expressão pessoal ao fazê-lo. Ela é dinâmica e constantemente requer atualizações.

Individuação[editar | editar código-fonte]

O que Jung descreve como processo de individuação frequentemente refere-se à possibilidade de personificar elementos do inconsciente que se apresentam para facilitar o estabelecimento de uma relação dialógica e dialética entre eles e a consciência. Por isso ele valorizava tanto os símbolos que se configuravam nas vivências, e, também, a própria imaginação como faculdade psíquica, em prol da individuação. Um caminho que leva a uma diferenciação crescente da personalidade e ao desenvolvimento da dimensão pessoal de forma mais consistente.

Nesse caminho, a ideia de Jung é que a pessoa se torna mais completa, o que não significa ser mais perfeita; mais ela mesma e autêntica, o que não significa ser mais egoísta; mais participante de maneira ética, compromissada, singular e significativa em seu contexto e relações, o que não significa ser mais conformada. Para percorrer esse caminho é preciso ego e self, determinação da vontade e deliberação da consciência e, também, consideração pelo imponderável, irracional e imprevisível. É preciso que ambos se ponham em uma relação criativa, de reconhecimento e interação.

O self, como concebido por Jung, tem intrinsecamente a função de constituir um centro e promover a autorregulação psíquica. O ego, por sua vez, precisa, antes de mais nada, ser formado, o que se dá paulatinamente ao longo da infância, para depois continuar se transformando ao longo da vida, no sentido de desempenhar o papel de importante referência psíquica, na medida em que se abre às vivências simbólicas e busca formas de incluí-las, discriminá-las e assimilá-las. A relação entre as duas instâncias torna-se o foco de atenção do terapeuta e de apoio ontológico e existencial da pessoa. E ao ego resta, ainda, o desafio do sacrifício de si próprio em alguns aspectos, sempre que esta se apresentar como a solução para a totalidade em processo de individuação.

Referências[editar | editar código-fonte]

De Freitas, L.V - Albertini, P. Fundamentos de Psicologia, Jung e Reich. Articulando conceitos e Práticas. EDITORA GUANABARA KOOGAN S.A. 2009

O Eu e o Inconsciente (JUNG, 1982), que compõe metade do volume 7 das Obras Completas de Jung

JUNG, C.G. A Energia Psíquica (1928). Volume 8/1. Petró- polis: Vozes, 1983.

JUNG, C.G. A Psicologia da Transferência (1946). Volume 16. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 1999.

JUNG, C.G. Consciência, Inconsciente e Individuação (1939). Volume 9i. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petró-

polis: Vozes, 2000c.

JUNG, C.G. O Eu e o Inconsciente (1916/1934). Volume 7/2. Petrópolis: Vozes, 1982.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos (1921). Volume 6. Petrópolis: Vozes, 1991a.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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