Timbó

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Disambig grey.svg Nota: Para outros significados para "Timbó", veja Timbó (desambiguação).
Timbó-de-mata, timbó-rana (Derris elliptica) Heizer, 1986

Os termos timbó e tingui designam um conjunto de plantas das famílias das leguminosas e sapindáceas que são tradicionalmente usadas para atordoar os peixes e ajudar na sua pesca.[1]

As diversas espécies das famílias das leguminosas e das sapindáceas, geralmente as com casca e/ou raízes que possuem uma seiva tóxica, são utilizadas pelos nativos para tinguijar (regionalismo usado na Região Norte do Brasil e na Região Nordeste do Brasil para o ato de intoxicar peixes jogando pedaços de timbó ou tingui esmagados na água). Os peixes começam a boiar e podem ser facilmente apanhados à mão. Deixados na água, recuperam-se, podendo ser consumidos sem inconveniente.

Segundo Robert F. Heizer,[2] o uso de venenos vegetais de pesca é provavelmente um velho e arraigado hábito cultural. Seu uso estende-se para algumas regiões da América Central até o norte do México e em algumas regiões da América do Norte (Leste do Mississípi e Califórnia). Estima-se que, no mundo, cerca de 140 espécies são utilizadas como veneno de pesca, com aproximadamente 340 nomes. Entre a lista de dezenas de plantas que são conhecidas como Timbó, incluem-se:

O termo pode ainda remeter mais especificamente à árvore Piscidia erythrina, da subfamília papilionoídea, nativa da Martinica, face a o nome do gênero Piscidia originar-se nas palavras latinas piscis, que significa "peixe", e caedo, que significa "matar".[8] Essa espécie também possui casca utilizada para tinguijar, além de flores brancas com pintas purpúreas e vagens lineares.

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Segundo o Dicionário Aurélio, "timbó" é palavra de origem tupi que significa, nesse idioma, "o que tem cor branca ou cinzenta"; "vapor, exalação, fumaça".[9] Já "tingui" se origina do termo tupi antigo tingy, que significa literalmente "líquido de enjoo".[10]

Emprego do timbó pelos indígenas das Américas[editar | editar código-fonte]

Os princípios ativos das plantas conhecidas como "timbó" são a rotenona, os saponáceos, os glucosídios cardíacos, os alcaloides, os taninos, os compostos cianogênicos e o ictiotereol. Embora o timbó atordoe e chegue a matar os peixes, eles podem ser ingeridos sem problemas pelos índios, mas a água contaminada pode causar diarreias e irritações nos olhos.[11]

Folhas e flores de puikama e raiz de sika eram amassados no pilão pelos Kaxinawá do Acre e Peru. Bolas com cerca de 1 quilograma eram feitas e colocadas em cestos ou bolsas impermeabilizadas com borracha. Em pequenos igarapés, a pesca era praticada por mulheres e crianças utilizando a puikama. Em lagos, a pesca era feita pelos homens usando a sika.[11]

Índios colocando timbó na água

Os Marubo do Amazonas faziam buracos no chão e, neles, esmagavam um tipo de planta por eles cultivada, misturando-a com barro. Faziam bolas, jogando-as em igarapés para atordoar os peixes. Os índios do Rio Uaupés do Brasil e Colômbia utilizavam a polpa do piqui para atordoar os peixes e alegavam que era mais potente do que o timbó.[11]

Os mesmos índios do Rio Uaupés desenvolveram técnica engenhosa para pescar com o timbó. Cevavam com cupins, pupunha, frutos, farinha, massa de beiju e outros alimentos o local onde fariam a pesca. Depois de alguns dias, fechavam o local com o pari, uma esteira de varas verticais e finas da palmeira paxiúba, deixando uma pequena abertura, para que os peixes tivessem acesso ao local da ceva. Continuavam a alimentar os peixes até a noite anterior ao dia da pesca, quando fechavam a abertura e colocavam timbó na água. No dia seguinte, iam ao local e apanhavam os peixes pequenos, mortos, com o puçá, uma pequena rede afunilada, com peneira ou com as mãos. Peixes maiores, estonteados eram abatidos com flechadas ou azagaia. Os peixes grandes, pouco afetados pelo timbó, tentavam pular o pari, mas caíam em uma rede colocada ao longo do mesmo.[12]

Apresentando uma gama variada de técnica pesqueira com substâncias ictiotóxicas, os índios do Rio Uaupés atingiam peixes que ficavam no fundo com bolotas de barro onde tinha sido adicionado o sumo do timbó. Faziam também bolotas com folhas e sementes piladas de cunambi misturadas com farinha, cinza de cana brava, pimenta e japurá[13]. Na pesca em rios a quantidade de timbó tinha de ser maior, devido à correnteza. Para evitar rápida dispersão do veneno, ele era misturado com barro, colocado em cestos, que eram posicionados na montante do curso de água. Barragens feitas com pari na jusante bloqueavam a fuga dos peixes, que eram capturados. Na pesca em lagos, suas entradas eram bloqueadas e canoas arrastando cestos com timbó estonteavam os peixes, que eram recolhidos[14]

Alinhadas à barragem, indígenas do Alto Rio Xingu colocavam canoas onde os peixes que saltavam a barragem nelas caíam.[13]. No vale do Rio Orinoco, na Venezuela, construíam, com varas, uma barragem de uma margem à outra no igarapé, que deixava passar a água, mas não os peixes. Jogavam o timbó e iam recolhendo os peixes menores, mais susceptíveis ao veneno. Peixes médios tentavam fugir, mas eram impedidos pela barragem e voltavam, sendo expostos ao veneno. Os grandes peixes nadavam velozmente e saltavam a barragem, mas encontravam outra, muito mais alta, e ficavam presos entre as duas, sendo, então, abatidos[15].

Técnica pesqueira refinada foi desenvolvida pelos índios Deni, da família linguística Arawá, para pescar o peixe Piau. Bolinhas contendo farinha de mandioca, larvas de vespa e um tipo de timbó eram atirados na água e engolidos pelos peixes, que ficavam atordoados, vinham à tona e eram capturados pelos índios.[16] Na Venezuela do século XVII, os índios adotavam técnica semelhante, mas, ao invés de farinha de mandioca, empregavam o milho cozido e moído[11].

No Mato Grosso e Rondônia, os índios Cinta-larga pegavam os pexes afetados pelo timbó com a mão ou a flechadas. Os Jihauí do Amazonas faziam a pesca com o timbó na época da seca em pequenos lagos formados na cheia anterior ou em igarapés. No Mato Grosso, os homens Paresi represavam o curso d'água e as mulheres maceravam o timbó, cujo suco era jogado na água. A coleta dos peixes afetados era feita por todos os habitantes da aldeia.[11]

Algumas comunidades indígenas amazônicas barravam trechos do igarapé para impedir que o timbó se espalhasse demais e se diluísse[17]. Quando queriam fazer uma rápida pescaria, barravam a parte mais estreita do igarapé, jogavam o timbó e, logo, estavam coletando: primeiro, os peixes menores; e depois os maiores, mais resistentes.[18]

As técnicas pesqueiras com o timbó não variavam muito entre os indígenas das Américas. Para pescar à noite, os peixes eram atraídos com tochas e logo sucumbiam sob a ação do timbó. Nos rios que desaguavam no mar e eram usados pelos peixes para a desova, na piracema, os índios barravam, na maré vazante, os peixes com redes de até 3 metros de altura e 40 de comprimento, atordoavam-nos com timbó e os recolhiam[11].

O timbó misturado à água ou outro líquido era também usado por índios para eliminar desafetos[19].

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 1 676.
  2. Heizer, Robert F. . Venenos de pesca in: Ribeiro Darcy (Ed.) Suma etnológica brasileira, Edição atualizada do Handbook of South American indians (3 v) Vol. 1 Etnobiologia. RJ, Vozes, FINEP, 1986
  3. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo. São Paulo. Global. 2013. p. 477.
  4. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo. São Paulo. Global. 2013. p. 477.
  5. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo. São Paulo. Global. 2013. p. 477.
  6. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo. São Paulo. Global. 2013. p. 477.
  7. Plantamed - plantas_suspeitas
  8. Austin, Daniel F. (2004). Florida Ethnobotany. CRC Press. pp. 514–515. ISBN 978-0-8493-2332-4.
  9. O Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa corresponde (3ª. edição) SP, Editora Positivo, 2004
  10. NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo. São Paulo. Global. 2013. p. 478.
  11. a b c d e f CAVALCANTE, Messias Soares. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364
  12. SILVA, Alcionilio Bruzzi Alves da 1901-1987. A civilização indígena dos Uaupés. São Paulo, Linográfica Editora 1962, 496 p.
  13. a b REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. O pão da selva. p. 14-20. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1976, ano I, nº 1, 64p.
  14. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL. Piscicultura indígena no alto rio Negro. Pesca. Métodos de pesca. s/data. Disponível em file:///C:/Documents%20and%20Settings/user/Meus%20documentos/Downloads/pesca%20no%20alto%20rio%20negro.htm Consulta em 29/08/2012
  15. GUMILLA, Joseph 1686-1750. El Orinoco ilustrado, y defendido, historia natural, civil y geographica de este gran rio, y sus caudalosas vertientes, govierno, usos y costumes de los índios sus habitadores. Madrid, Manuel Fernandez. 1745, Tomo Segundo, Segunda Impressión. 428 p.
  16. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (S/DATA). Deni. Atividades produtivas. Disponível em http://pib.socioambiental.org/pt/povo/deni/478 Consulta em 28/08/2012.
  17. PEREIRA, Manuel Nunes 1892-1985. Moronguêtá: um Decameron indígena. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira 1980, 2ª Ed.; vol. 1. P. 1-434.
  18. PEREIRA, Nunes 1892-1985. Panorama da alimentação indígena: Comidas, bebidas & tóxicos na amazônia brasileira.Rio de Janeiro, Livraria São José 1974. 412 p.
  19. DANIEL, João 1722-1776. Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. 2004, Vol. 1, 600 p. Rio de Janeiro, Contraponto