Sacarrabos

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Gravura de von Schreber

Gravura de von Schreber
Estado de conservação
Status iucn2.3 LC pt.svg
Pouco preocupante
Classificação científica
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Carnívora
Família: Herpestidae
Género: Herpestes
Espécie: H. ichneumon
Nome binomial
Herpestes ichneumon
Linnaeus, 1758

O sacarrabos (Herpestes ichneumon) é um mamífero carnívoro pertencente à família dos mangustos, Herpestidae.

Descrição física[editar | editar código-fonte]

O sacarrabos possui um porte médio, corpo alargado e tem uma coloração escura, mesclada e bastante uniforme. Os seus pêlos caracterizam-se por estarem alternados entre a cor creme claro e o pardo castanho-escuro, podendo apresentar uma tonalidade cinzenta nas pontas, o que torna o animal mais claro. No Verão, a pelagem é mais curta, escassa e mais acastanhada. A cauda é comprida e vai-se tornando pontiaguda, terminando num conspícuo pincel de pêlos pretos (Barros, 2009; Palomares e Delibes, 1998). O peso médio ronda os 3,1 kg nos machos e os 2,8 kg nas fêmeas, podendo esta espécie atingir um comprimento total de quase um metro. A cabeça é afunilada e o focinho termina num nariz escuro e nu (Palomo e Gisbert, 2002). O dimorfismo sexual não é muito evidente apesar dos machos serem maiores que as fêmeas e terem maiores medidas cranianas (Palomares, 1993). Estes animais podem atingir 20 anos em cativeiro e 12 anos em estado selvagem (Bies, 2002). O número de cromossomas é 2n=43 nos machos e 2n=44 nas fêmeas (Palomo e Gisbert 2002).

Distribuição geográfica[editar | editar código-fonte]

O sacarrabos encontra-se distribuído na África subsariana, desde o Senegal e a Gambia até Moçambique. Está presente também no nordeste da Namíbia, Botswana, Zimbabwe e ao longo de toda a costa sul-africana. No norte de África, a espécie ocorre no Egipto, Sudão e na Mauritânia (Cavallini e Palomares, 2008). Historicamente é considerada como espécie introduzida na Europa, com base na zoogeografia (Delibes, 1999), estando presente apenas na Península Ibérica. No entanto, estudos moleculares recentes, apontam que esta espécie dispersou para a Península Ibérica durante as flutuações do nível do mar no final do Pleistoceno (Gaubert et al., 2011).Em Portugal, o sacarrabos ocupa mais de metade da totalidade do território português, tendo-se expandido rapidamente de Sul para Norte durante as últimas décadas. A evolução da sua distribuição é notória, principalmente entre 2000 e 2010. Esta situação pode estar relacionada com inúmeros fatores, como as recentes modificações de habitat e usos do solo, a ausência de predadores e a grande adaptabilidade trófica e ecológica desta espécie (Barros, 2009).

Ecologia e comportamento[editar | editar código-fonte]

O sacarrabos ocorre em locais com uma densa cobertura vegetal, sendo o seu principal biótopo o maquis mediterrânico, com lentiscos (Pistacia lentiscus), estevas (Cistus sp.), sargaço (Halimium sp.) e medronheiros (Arbutus unedo). Apresenta também uma preferência por zonas próximas de linhas de água e zonas húmidas com uma vegetação densa (Blanco, 1998). Em Israel, os sacarrabos vivem nos arredores das cidades e das populações e na maior parte do território africano, o seu habitat típico é a savana (Barros, 2009; Blanco 1998). Como os sacarrabos são diurnos e podem ser predados por cães (Canis familiaris), linces-ibéricos (Lynx pardinus) e aves de rapina, a utilização de zonas com vegetação densa rasteira protege-os durante a sua fase de actividade contra estes potenciais predadores e contra perturbações causadas pelo Homem (Palomares e Delibes, 1993). Para repousarem durante a noite, os sacarrabos utilizam, principalmente, tocas subterrâneas, buracos nas árvores, fendas nas rochas e raramente, ramos das árvores. Em determinadas alturas, os locais de descanso nocturno podem ser partilhados por vários sacarrabos, mas estes possuem relações familiares (Barros, 2009; Blanco, 1998). A estratégia espacial é diferente nos dois sexos: as fêmeas distribuem-se de acordo com a distribuição dos recursos tróficos, enquanto os machos distribuem-se de acordo com a distribuição das fêmeas (Palomares, 1994). O sacarrabos é um carnívoro com um espectro alimentar muito amplo. Num estudo recente, concluiu-se que na área de estudo (centro e sul de Portugal), as fêmeas consomem principalmente répteis (51%) e mamíferos (38%), enquanto os machos consomem quase exclusivamente mamíferos (75%). O estudo refere que esta diferença na dieta poderá ser consequência da existência de dimorfismo sexual na espécie em que os machos, de maiores dimensões que as fêmeas, procuram alimentar-se de presas que lhes conferem maior energia para defenderem e vigiarem os seus territórios, e as fêmeas alimentam-se de presas que lhes proporcionem um menor esforço ao consumi-las, com o objectivo de compensar a perda de energias gasta durante a reprodução (Rosalino et al., 2009).

Reprodução[editar | editar código-fonte]

Nesta espécie, as cortes e cópulas ocorrem entre Março e Abril e os partos entre Maio e Julho (Palomares e Delibes, 1992b). Em cativeiro, a cópula pode ser observada em Janeiro, Março, Abril, Maio, Junho e Outubro (Palomo e Gisbert, 2002). O período de gestação oscila entre os setenta e dois e os oitenta e oito dias (Palomares, 1993) e a fêmea dá à luz dentro da toca (Barros, 2009). O número de crias ronda as três por ninhada (Palomares, 1993). Estas pesam aproximadamente 70g e apresentam pelagem por todo o corpo, excepto no abdómen. As crias recém-nascidas têm os olhos e os ouvidos fechados (Palomares e Delibes, 1993).

Parasitas[editar | editar código-fonte]

O sacarrabos é frequentemente parasitado pelo malófago Felicola inaequalis, céstodes do género Mesocestoides e Dipylidinium canidium e pelo cocídio Eimera vulpis (Soler-Cruz et al., 1989). Em Espanha, foram encontrados no sacarrabos anticorpos de Toxoplasma gondii (Sobrino et al., 2007).

Fatores de Ameaça[editar | editar código-fonte]

Não existem grandes ameaças a esta espécie em toda a sua distribuição geográfica, apesar de em pequenas regiões onde ocorre, o sacarrabos poderá estar em risco de ameaças locais (Cavallini e Palomares, 2008). Em Portugal, a espécie é vista pelos caçadores como um dos carnívoros que mais impacto causa noutras espécies de caça menor, como a perdiz-vermelha (Alectoris rufa), o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) e a cordorniz (Coturnix coturnix), sendo muitas vezes morto por caçadores (Rosalino et al., 2009; Barros, 2009). Outra das ameaças a que o sacarrabos está sujeito na Península Ibérica é o envenenamento acidental ou propositado, através do uso de raticidas. Também, através dos pêlos desta espécie, podem ser fabricados pincéis que são apreciados na pintura a óleo (Palomo e Gisbert, 2002).

Conservação[editar | editar código-fonte]

Segundo a IUCN, a espécie encontra-se classificada como “Pouco Preocupante” (LC) ou seja, é uma espécie que não se encontra ameaçada, possui uma taxa de distribuição ampla e é abundante no território nacional (Cavallini e Palomares, 2008). O sacarrabos encontra-se listado no Anexo III da Convenção de Berna e no Anexo V da Directiva Habitats da UE e da Directiva Species (Delibes, 1999). Esta espécie está presente em muitas áreas protegidas em toda a sua distribuição geográfica. A conservação e permanência do sacarrabos passa pela existência do seu habitat típico, o maquis mediterrâneo (Palomares, 1993). Também, a implementação do controlo de predadores pode ser uma medida eficaz e frequentemente utilizada para controlo da densidade de sacarrabos (Rosalino et al., 2009). No norte da África, esta espécie é muitas vezes protegida pela população local, pois é visto como um predador de cobras (Cavallini e Palomares, 2008; Barros, 2009).

Importância cultural e económica[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, o sacarrabos é uma espécie cinegética de caça menor (conforme consta no Anexo I do Decreto-Lei n.º 202/2004, de 18 de Agosto de 2004, com a nova redacção conferida pelo Decreto-Lei n.º 201/2005, de 24 de Novembro de 2005), que pode ser caçado de salto, espera ou em batida. Também, esta espécie pode ser abatida no âmbito de programas de controlo de predadores (Barros, 2009).

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Barros T. S. Q. (2009). Estatuto e distribuiçao do Sacarrabos (Herpestes ichneumon) em Portugal. Dissertação de Mestrado, Universidade de Aveiro, Portugal.
  • Bies L (2002) Herpestes ichneumon, Animal Diversity Web. Em: http://animaldiversity.ummz.umich.edu/site/accounts/information/Herpestes_ichneumon.html. Acedido a 05 de Abril de 2014
  • Blanco JC (1998) Mamíferos de España I - Insectívoros, Quirópteros, Primatas y Carnívoros de la Península Ibérica, Baleares y Canarias. Editorial Planeta
  • Cavallini, P. & Palomares, F. (2008). Herpestes ichneumon. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.2. Em <www.iucnredlist.org>. Acedido a 05 April 2014.
  • Delibes, M. (1999). Herpestes ichneumon. In: A. J. Mitchell-Jones, G. Amori, W. Bogdanowicz, B. Kryštufek, P. J. H. Reijnders, F. * Spitzenberger, M. Stubbe, J. B. M. Thissen, V. Vohralík, and J. Zima (eds), The Atlas of European Mammals, Academic Press, London, UK.
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