2I/Borisov
| Descoberta | |
|---|---|
| Descoberto por | Gennadiy Borisov |
| Data | 30 de agosto de 2019 |
| Outros nomes | C/2019 Q4 (Borisov) |
| Informações orbitais | |
| Excentricidade (e) | 3,36 |
| Semieixo maior (a) | −0,85 UA |
| Periélio (q) | 2,006 UA |
| Afélio (Q) | N/A (hiperbólica) |
| Período orbital (P) | N/A |
| Inclinação (i) | 44° |
| Último periélio | 8 de dezembro de 2019 |
| Próximo periélio | N/A |
| Propriedades físicas | |
| Dimensões | < 0,5 km (limite superior) |
2I/Borisov, originalmente designado C/2019 Q4 (Borisov), é o primeiro cometa interestelar confirmado e o segundo objeto interestelar identificado no Sistema Solar, após o 1I/ʻOumuamua e antes do 3I/ATLAS.[1][2] Descoberto em 30 de agosto de 2019 pelo astrônomo amador e construtor de telescópios Gennadiy Borisov na Crimeia, o cometa possui excentricidade orbital de 3,36, confirmando que não está gravitacionalmente ligado ao Sol. Atingiu o periélio em 8 de dezembro de 2019 a cerca de 2 UA do Sol, e fez sua aproximação mais próxima da Terra em 28 de dezembro de 2019, a 1,9 UA (aproximadamente 284 milhões de quilômetros).[3]
Descoberta
[editar | editar código]2I/Borisov foi descoberto em 30 de agosto de 2019 (horário local da Crimeia; 29 de agosto em UTC) pelo técnico de telescópios e astrônomo amador Gennadiy Vladimirovich Borisov, com um instrumento de 65 centímetros de abertura construído por ele mesmo, no Observatório MARGO, em Nauchnyi, na Crimeia.[2][1] Ao fotografar o objeto, Borisov atribuiu-lhe a designação temporária interna gb00234.
Com base nas primeiras observações, soluções orbitais calculadas pelo NASA/JPL apontaram excentricidade entre 2,9 e 4,5, sugerindo origem interestelar.[2] Em 11 de setembro de 2019, após análise de 151 observações ao longo de doze dias, o Centro de Planetas Menores (MPC) oficializou a descoberta e atribuiu ao objeto a designação provisória C/2019 Q4 (Borisov). A natureza interestelar foi confirmada independentemente por diversos astrônomos, incluindo Davide Farnocchia (JPL/NASA), Bill Gray e David Tholen.[1]
Nomenclatura e designação
[editar | editar código]O nome 2I/Borisov foi conferido pela União Astronômica Internacional (UAI) em 24 de setembro de 2019.[1] O prefixo 2I designa o segundo objeto interestelar (I de interstellar) identificado no Sistema Solar, na sequência iniciada com o 1I/ʻOumuamua.[1] O sobrenome Borisov segue a tradição de denominar cometas em homenagem ao seu descobridor, sendo esta sua oitava descoberta de cometa.
Antes da designação definitiva, o objeto recebeu os seguintes nomes temporários: gb00234 (código atribuído pelo próprio descobridor e registrado no NEOCP), C/2019 Q4 (Borisov) (designação oficial do MPC) e, informalmente, Cometa Borisov na imprensa popular.
Trajetória
[editar | editar código]2I/Borisov entrou no Sistema Solar proveniente da direção da constelação de Cassiopeia, próximo à divisa com Perseus, o que indica que sua origem está no plano galáctico da Via Láctea, e não no halo galáctico.[2] O cometa cruzou o plano da eclíptica em 26 de outubro de 2019, próximo à estrela Régulo, e o equador celeste em 13 de novembro de 2019, passando a ser visível no hemisfério sul do céu.
O periélio ocorreu em 8 de dezembro de 2019, quando o cometa se encontrava a pouco mais de 2 UA do Sol, próximo à borda interna do cinturão de asteroides.[2] Em 28 de dezembro de 2019, fez sua aproximação mais próxima da Terra, a 1,9 UA (cerca de 284 milhões de quilômetros). A inclinação orbital de 44° impediu qualquer encontro próximo significativo com os planetas do Sistema Solar.[2]
Com excentricidade de 3,36, a trajetória de 2I/Borisov é fortemente hiperbólica: a gravidade solar alterou sua trajetória em apenas 34°, e o cometa passou pelo Sistema Solar em uma única visita, atingindo velocidade de cerca de 177 000 km/h.[3] Em meados de 2020, o cometa retornou ao espaço interestelar, em direção à constelação do Telescópio, onde poderá derivar por milhões de anos antes de eventualmente se aproximar de outro sistema estelar.[2]
Características físicas
[editar | editar código]Núcleo e coma
[editar | editar código]Ao contrário do 1I/ʻOumuamua, de aparência asteroidal, 2I/Borisov desenvolveu uma coma — nuvem de gás e poeira ao redor do núcleo — ao se aproximar do Sol.[2] Imagens obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble em outubro e dezembro de 2019 revelaram concentração de poeira em torno do núcleo, mas o núcleo em si era pequeno demais para ser resolvido diretamente. O limite superior do seu tamanho, derivado da amplitude das acelerações não gravitacionais, é de cerca de 0,4 km, consistente com o limite superior de 0,5 km estimado pelo Hubble.[2]
Em novembro de 2019, astrônomos da Universidade Yale estimaram que a cauda do cometa se estendia por um comprimento equivalente a 14 vezes o diâmetro da Terra. Em março de 2020, observações do Hubble indicaram que um fragmento havia se desprendido do núcleo.[2]
Composição
[editar | editar código]Uma das descobertas mais notáveis sobre 2I/Borisov foi sua composição química incomum. Observações com o radiotelescópio ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array), no Chile, realizadas em 15 e 16 de dezembro de 2019 por equipe liderada por Martin Cordiner e Stefanie Milam, do Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, revelaram que o cometa liberava monóxido de carbono (CO) em concentração de 9 a 26 vezes superior à média dos cometas do Sistema Solar observados a distância similar do Sol.[4]
Observações complementares com o Espectrôgrafo de Origens Cósmicas (COS) do Hubble confirmaram que a quantidade de CO superava a de água (H₂O) na coma do cometa.[5] O monóxido de carbono é extremamente volátil: em condições típicas, sublima a distâncias muito grandes do Sol (acima de 17 bilhões de km), mas no núcleo de 2I/Borisov estava preservado nas camadas internas, sendo liberado apenas quando o calor solar removeu as camadas externas de gelo de água.[5]
Origem provável
[editar | editar código]A direção de entrada no Sistema Solar, a partir de Cassiopeia, sugere que 2I/Borisov tem origem no plano galáctico da Via Láctea, e não no halo estelar difuso.[2] A alta concentração de monóxido de carbono indica que o cometa se formou em um ambiente muito frio, compatível com o disco circumstelar de uma anã vermelha — cujos discos protoplanetários são suficientemente frios para que o CO se mantenha no estado sólido.[4] Pesquisadores propõem que um planeta de grande massa, semelhante a Júpiter, pode ter ejetado o cometa de seu sistema de origem rumo ao espaço interestelar.[5]
Rastreamentos da trajetória passada identificaram ao menos catorze estrelas que se aproximaram a menos de 1 parsec de 2I/Borisov, incluindo Kruger 60, que passou a 1,74 parsecs há cerca de 1 milhão de anos. No entanto, nenhuma pôde ser conclusivamente apontada como sistema de origem.[2]
Referências
[editar | editar código]- 1 2 3 4 5 «Naming of New Interstellar Visitor: 2I/Borisov» (em inglês). União Astronômica Internacional. 24 de setembro de 2019. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 «Comet 2I/Borisov» (em inglês). NASA Science. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 Grossman, Lisa (12 de setembro de 2019). «Astronomers have spotted a second interstellar object» (em inglês). Science News. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 «NASA peeks inside first interstellar comet, 2I/Borisov, revealing its alien composition» (em inglês). NASA Science. 20 de abril de 2020. Consultado em 17 de janeiro de 2026
- 1 2 3 «Hubble Probes Alien Comet's Chemical Makeup» (em inglês). NASA Science. Consultado em 17 de janeiro de 2026
Ligações externas
[editar | editar código]- «2I/Borisov — NASA Science» (em inglês)
- «Naming of New Interstellar Visitor: 2I/Borisov — UAI» (em inglês)
- «2I/Borisov — JPL Small Body Database» (em inglês)
- «Composição química de 2I/Borisov — NASA/ALMA» (em inglês)