Actante

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Barón von Munchhausen (1862).

Actante é um termo frequentemente utilizado na Semiótica e que se desenvolve no Círculo Linguístico de Praga. Originalmente foi utilizado pelo linguista francês Lucien Tesnière (1893-1954) para denotar as principais funções sintáticas (sujeito, objeto direto e objeto indireto) que dependem do verbo na sintaxe. Posteriormente o linguista lituano Algirdas Julien Greimas (1917-1992) o utilizará para determinar os participantes ativos (pessoas, animais ou coisas) em qualquer forma narrativa, seja um texto, uma imagem, um som (Greimas, A. J. y Courtes, J., 1990). Actante. In: Semiótica. Diccionario Razonado de la Teoria del Lenguaje. Madrid: Gredos, pg.23-24).

David Herman et alii (2007), na Enciclopédia da Teoria Narrativa, no verbete situações dramáticas, afirmam que as fontes utilizadas por Greimas para definir o conceito de actante foram, em primeiro lugar, os trabalhos de Vladimir Propp sobre os contos tradicionais russos de 1928 (Forense, 2006). Propp utilizara o termo funções e a análise das situações dramáticas no teatro propostas por E. Souriou em 1950 (Ática, 1993).

Actante, Ator e Personagem na Semiótica[editar | editar código-fonte]

Para a Semiótica, todo texto (visual, sonoro, escrito) é dotado de uma estrutura interna, organizada como uma narrativa. A narrativa não é apenas uma descrição de fatos em uma sequência, mas uma mudança de estado sofrida ou executada por sujeitos ou, em termos semióticos, actantes, aqueles que executam ou sofrem a ação, que estão inscritos no texto, sujeitos das funções da narrativa. Chamam-se actantes às relações gramaticais e/ou funcionais que existem entre os atores (aqueles que atuam ou recebem a ação) em uma determinada narrativa).

Segundo ainda a Semiótica, "ator" é um conceito mais amplo que o de "personagem", pode ser figurativo (seres divinos ou humanos, animais, objetos) ou noológico (amor, ódio, virtude etc). De acordo com as funções actanciais que exerce, o ator é investido de um papel temático, isto é, tem uma missão a executar. Exemplos: o herói, o defensor dos valores sociais; o vilão, o rebelde; o conselheiro, aquele que sabe; o pescador, quem conhece os segredos do mar, o ajudante, um computador, um vírus etc.

Esclarecendo o assunto: Greimas e seus influenciadores[editar | editar código-fonte]

Greimas, o grande nome quando se fala em atuantes, construiu seus conceitos a partir do que Vladimir Propp e Étienne Souriau já haviam escrito e estudado a respeito do assunto. A discussão sobre os actantes gira em torno da definição dos personagens/papéis por meio de suas ações. A partir daí podemos enxergar semelhanças entre praticamente todas as narrativas, sejam elas reais ou fictícias. Uma vez definidos por suas ações, o personagem deixa de ser importante, o que importa é sua ação.

Wladimir Propp classificou os personagens do conto popular russo nos seguintes sete atuantes (papéis ou personagens fixos): o herói; o antagonista (ou agressor); o doador; o auxiliar, a princesa (ou seu pai), o mandante e o falso herói (Morfologia do Conto Maravilhoso [1928]).

E. Souriau foi mais enigmático quando nomeou os seis atuantes (funções dramáticas) no teatro seguindo os elementos da astrologia: Leão - força temática orientada; Sol - representante do bem desejado; Terra - para quem o leão trabalha; Marte - o oponente; Balança - o árbitro que atribui o bem; Lua - o auxílio (in Duzentas Mil Situações Dramáticas [1950].[1] Estas funções podem ser combinadas na mesma personagem.

Um modelo mais amplo[editar | editar código-fonte]

A partir destas definições, Greimas chega à conclusão de que há um número restrito de atuantes ou actantes. Toda narrativa terá, independentemente de quais sejam seus personagens, o mesmo grupo de actantes. Ele acredita que nos dois modelos (de Propp e Sourriau) é possível visualizar a relação entre “sujeito” (aquele que pratica a ação) e “objeto” (aquele que sofre a ação), relação que é norteada pelo “desejo” e pela “procura”. Além de sujeito versus objeto, Greimas também observou a relação do destinador (aquele que anuncia, proporciona a ação) versus o destinatário (aquele a quem a ação será dirigida) e a do adjuvante (o que facilita a ação) versus o oponente (o que a dificulta). Este modelo é considerado mais abrangente, uma vez que pode ser aplicado em qualquer narrativa e não apenas ao conto popular russo ou ao teatro.[2]

Para um melhor entendimento, é preciso tratar de alguns exemplos:

Actantes no Conto Literário[editar | editar código-fonte]

“CONTO NATAL NA BARCA” de Lygia Fagundes Telles

 Neste conto, publicado em "Antes do Baile Verde", podemos definir as personagens da seguinte forma:

DESTINADOR: Narradora

OBJETO: Fé e Esperança

DESTINATÁRIO: Narradora

ADJUVANTE: Mulher

SUJEITO: Narradora

OPONENTE: Criança e bêbado

Na literatura, a aplicação da análise estrutural desenvolvida por Greimas e Propp trouxe contribuições significativas para esta linha de pesquisa, visto que eles buscaram verificar elementos comuns entre as narrativas e a partir disso formular suas teorias. Ao adotar a teoria de análise proposta por Greimas, verificou-se que a estrutura proposta por ele no que diz respeito aos actantes da narrativa aplicou-se perfeitamente no conto selecionado.

De fato, acredita-se que a pesquisa sobre análise estrutural das narrativas provoca mudanças significativas na forma como as pessoas compreendem a formação destes textos. Uma vez que ao estudá-la tem-se o conhecimento não só do superficial, mas uma visão mais ampla de sua estrutura, entendendo, pois, o porquê de cada personagem desempenhar um papel e não outro dentro do enredo.

Actantes no Cinema[editar | editar código-fonte]

As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa

No filme “As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa” podemos definir os personagens da seguinte forma:

Sujeito- Os quatro irmãos: Lúcia, Susana, Pedro e Edmundo.

Objeto- A paz em Nárnia (ligada ao fim do inverno)

Destinador- Aslan, o leão.

Destinatário: Nárnia

Adjuvante: esquilos, fauno, árvores

Oponente: A Feiticeira Branca.

Quem quer ser um milionário

Em “Quem quer ser um milionário” (Slumdog millionaire) a localização dos atuantes não é tão simples. Podemos identificar facilmente Jamal como Sujeito e o prêmio em dinheiro como o Objeto. No entanto, não se pode esquecer que a história de amor entre Jamal e Latika chega a ser mais importante que o programa “Who wants to be a millionaire”, do qual Jamal participa apenas pela chance de que Latika o veja.

Em uma história banal de amor, Greimas diz que o homem cumpre o papel de Sujeito + Destinatário (o que pratica a ação e quem se beneficiará através dela) e a mulher cumpre o de Objeto + Destinador (o que sofre a ação e ao mesmo tempo a motivação para que o sujeito busque o objeto). Ao aplicarmos isto na história de Jamal e Latika, porém, temos que nos lembrar que o grande destinador sugerido pelo filme inteiro é o próprio destino, ela é quem dá condições para que tudo aconteça. Sendo assim ficaremos com a seguinte classificação.[3][4]

Sujeito/Destinatário- Jamal

Objeto - Latika

Destinador- O próprio destino (“estava escrito”)

E incluindo agora os outros atuantes:


Adjuvante- a versão indiana do programa “Who wants to be a millionaire”, por meio do qual ao final os dois se encontram.

Oponente- Salim, que, exceto no final da história, impede o romance dos dois.

Quadro de Agentes da Narrativa segundo Propp, Étienne Souriau, Greimas[editar | editar código-fonte]

Propp
Souriau
Greimas
Força temática orientada
Sujeito
Ser amado ou desejado
Representante do bem desejado
Objeto
Doador ou provedor
Árbitro atribuidor do bem
Destinador
atribuidor
Conquistador virtual do bem
Destinatário
Ajudante
Auxílio, reduplicação de uma das forças
Ajudante
Vilão ou agressor
Oponente
Oponente
Traidor ou falso herói
***
Oponente
  1. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  2. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  3. GREIMAS, A. J. Semântica estrutural: pesquisa de método. São Paulo: Cultrix, 1973, p.225-250
  4. Pogozelski, Rita de Cássia de Oliveira. Ressignificação do sujeito : um olhar autopoiético disparado pelas narrativas. Santa Cruz do Sul, setembro de 2010.

Referências[editar | editar código-fonte]

  • Bal, Mieke. Teoría de la Narrativa. Ed. Cátedra. Madrid, 1990.
  • Beristáin, H. (1985). Actante. En: Diccionario de retórica y poética. México: Porrúa.
  • Greimas, A. J. y Courtes, J. (1990). Actante. In: Semiótica. Diccionario razonado de la teoría del lenguaje. Madrid: Gredos.
  • Herman, David (2007). Routledge Encyclopedia of Narrative Theory. NY: Routledge. ISBN 0415775124.
  • Igor Mel’cuk. Actants in Semantics and Syntax I. Actants in Semantics. Universidade de Montreal
  • Lazard, Gilbert (1994). L'actance. Paris, Presses Universitaires de France,coll. « Linguistique nouvelle »,(ISBN 2-13-045775-4). Versão em inglês. Actancy. Walter de Gruyter Eds: ISBN 3110156709.
  • Prince, Gerald (1989). Dictionary of Narratology. Lincoln: Univ of Nebraska.
  • Propp, Vladimir (2003). As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso. SP: Martins, ISBN 8533617216.
  • SILVA, Vítor Manuel de Aguiar e, Teoria da literatura 8º edição, 1939.
  • Tesnière, Lucien (1959). Éléments de syntaxe structural. Klincksieck, Paris, 2nd ed. 1966. ISBN 2-252-01861-5.
  • TELLES, Lygia Fagundes. Antes do baile verde. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Outros livros[editar | editar código-fonte]

  • Algirdas Julien Greimas, Semantica Estrutural. Gredos: Madri, 1987 (1966).
  • ---. 1973. "Actants, Actors, and Figures." On Meaning: Selected Writings in Semiotic Theory. Trans. Paul J. Perron and Frank H, Collins. Theory and History of Literature, 38. Minneapolis: U of Minnesota P, 1987. 106-120.
  • Étienne Souriau, Duzentas Mil Situações Dramáticas. São Paulo: Ática, 1993 (Francês, 1950).
  • Georges Polti, Les XXXVI situations dramatiques. Éditions d’aujourd’hui, 1980 (1895).
  • Julia Kristeva, O Texto do Romance, Horizonte Universitário: São Paulo, 1984 (1967).
  • Lucien Tesnière, Elementos de Sintaxe Estrutural. Gredos, Madri, 1994 (1959).
  • Vladimir Propp, Morfologia do Conto Maravilhoso. São Paulo: Forense, 2006 (Rússia, 1928).

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Ícone de esboço Este artigo sobre linguística ou um linguista é um esboço relacionado ao Projeto Ciências Sociais. Você pode ajudar a Wikipédia expandindo-o.