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Clarjécia

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Tao-Clarjécia no século X

Clarjécia ou Clarjeti[1] (em georgiano: კლარჯეთი; romaniz.: Klarjeti) era uma província da Geórgia antiga e medieval e que atualmente é parte da província de Artvim, no nordeste da Turquia. Clarjécia, a vizinha Tao e diversos outros distritos menores eram partes constituintes de uma região mais ampla que compartilha de uma mesma história e cultura conhecida como Tao-Clarjécia.

Originalmente a região era referida em fontes do Reino de Urartu como Catarza (Katarza), Catlarza (Katlarza) e Cuturza, de onde derivariam as formas gregas Colarzena (Χολαρζηνή, Cholarzēnḗ) e Catarzena (Καταρζηνή, Catarzēnḗ), que ocorrem como Corzena (Χορζηνή, Chorzēnē) e Corzoném (Χορζoνέν, Chorzonén) na versão grega de Agatângelo.[2] Destas, o topônimo transformar-se-ia em armênio para *Culárjia (Կուղառյք, Kułarjk’) e Clárjia (Կղարջք, Klarjk’) antes de ser georgianizado como Clarjécia (კლარჯეთი, Klarjeti).[3] O nome Clarjécia, por conseguinte, também tem relação com os clárjios, que provavelmente se assentaram na região por volta do século II, cruzando as montanhas do curso inferior do rio Choruque.[4]

História

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Com base na Geografia de Ananias de Siracena, sabe-se que no século VII o Ducado de Clarjécia foi incorporado ao vitaxado de Gogarena.[5]

Clarjécia, cortada pelo rio Choruque, se estendia da cordilheira Arsiani no oeste, na direção do Mar Negro, e estava centrada na importante cidade comercial fortificada de Artanuji (moderna Ardanuç). Fazia fronteira com Xavexécia e o vale Nigali para o norte e Tao para o sul. Uma das províncias mais a sudoeste do Reino de Cártlia, Clarjécia era conhecida pelos autores greco-romanos como "Ibéria", um estado que já existia no mapa político do Cáucaso no século III a.C. e era governado — segundo as crônicas georgianas medievais — pela dinastia farnabázida. Do século II a.C. até o III d.C., Clarjécia foi, juntamente com alguns territórios vizinhos, disputada pelo Reino da Ibéria e o Reino da Armênia, trocando de mãos muitas vezes[6]. Na divisão da Ibéria na década de 370 entre o Império Romano do Oriente e o Império Sassânida, Clarjécia passou para o primeiro, mas não se sabe se num status de província ou de vassalo. O casamento do rei cosroida Vactangue I (r. 447–522) com a princesa Helena parece ter dado condições aos ibéricos de reconquistarem a província por volta de 485. Daí em diante, Clarjécia permaneceu um domínio dos filhos mais jovens de Vactangue e seus descendentes de ascendência romana deram origem à dinastia guarâmida, que permaneceu em Clarjécia e Javaquécia até 786, quando as possessões guarâmidas foram tomadas pelos seus primos em renovada ascensão, a família Bagrationi[7].

Domínio bagrátida

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A dinastia Bagrationi governou a região durante um período de prosperidade econômica e cultural. Os impostos coletados em Artanuji foram preponderantes para o fortalecimento do poder dos Bagrationi. Depois de ter sido praticamente desertada durante uma invasão árabe, Clarjécia foi reassentada e se transformou num poderoso centro da cultura cristã, principalmente por conta de um extensivo movimento monástico iniciado pelo monge georgiano Gregório de Khandzta (759–861)[8].

Por volta de 870, Clarjécia tornou-se um feudo hereditário de um do três principais ramos da dinastia Bagrationi. Esta linhagem — conhecida nas fontes georgianas como "soberanos de Clarjécia" (კლარჯნი ხელმწიფენი) — foi finalmente despoliada pelo primo, Pancrácio III, o primeiro rei da Geórgia unificada em 1008. Clarjécia jamais se recuperou completamente de uma série de ataques seljúcidas no século XI e a crise se aprofundou ainda mais depois das invasões mongóis e timúridas nos séculos XIII e XIV. Depois da desintegração do Reino da Geórgia no século XV, Clarjécia passou para o controle dos príncipes de Misqueta, que perderam a região para o Império Otomano em 1551.

Referências

  1. Pagnoni, F. (1857). Geografia storica moderna universale corografica, politica, statistica, industriale e commerciale scritta sulle tracce di Adriano Balbi ... [et al.]: 3, Volume 1. [S.l.: s.n.] p. 276 
  2. Toumanoff 1963, p. 442, nota 22.
  3. Toumanoff 1963, p. 142, 442, nota 24.
  4. Hewsen 1992, p. 113.
  5. Toumanoff 1963, p. 186.
  6. Redgate, Anne Elizabeth (2000),The Armenians, pp. 73, 79, 101. Wiley-Blackwell, ISBN 0-631-22037-2
  7. Suny, Ronald Grigor (1994), The Making of the Georgian Nation, pp. 25, 29. Indiana University Press, ISBN 0-253-20915-3
  8. Rapp, Stephen H. (2003), Studies in Medieval Georgian Historiography: Early Texts And Eurasian Contexts, passim. Peeters Publishers, ISBN 90-429-1318-5

Bibliografia

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  • Hewsen, Robert H. (1992). The Geography of Ananias of Širak. The Long and Short Recensions. Introduction, Translation and Commentary. Wiesbaden: Dr. Ludwig Reichert Verlag 
  • Toumanoff, Cyril (1963). Studies in Christian Caucasian History. Washington: Georgetown University Press