Conservacionismo (movimento)

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Gifford Pinchot é uma das figuras centrais do movimento conservacionista moderno.

O movimento conservacionista, também chamado movimento de conservação da natureza, é um movimento político, ambiental e social que se interessa pela conservação da natureza.[1][2]

Inicialmente o conservacionismo incluía interesses relacionados à pesca, à gestão da vida animal, à água, à conservação dos solos e à exploração sustentável de florestas. O conservacionismo contemporâneo difere-se por concentrar-se e dar ênfase nas questões do uso sustentável dos recursos naturais e na preservação da diversidade biológica, e o seu instrumento preferencial são as chamadas áreas protegidas.[1]

Para alguns, trata-se de uma parte do movimento mais amplo e diverso intitulado ambientalismo, enquanto outros afirmam tratarem-se movimento distintos, haja vista possuírem fundamentações ideológicas e abordagens práticas marcadamente diferentes. Nos Estados Unidos, particularmente, ambos movimentos são considerados distintos.[1] Além disso, originalmente o termo conservacionismo designava uma corrente específica do movimento de conservação na natureza, e que se contrapunha à corrente preservacionista do mesmo. Com o passar do tempo, contudo, o termo passou a designar o conjunto de correntes do movimento de conservação na natureza, tornando-se sinônimo do mesmo.[3]

História[editar | editar código-fonte]

Mapa do Parque Nacional de Yellowstone (F. V. Hayden, 1871), uma das primeiras áreas protegidas.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

Em uma perspectiva distante, o movimento conservacionista pode ser traçado até John Evelyn e seu trabalho Sylva, apresentado à Royal Society em 1662. Publicado como livro dois anos depois, esse foi um dos mais influentes trabalhos sobre gestão florestal jamais publicado.[4] Recursos madeireiros estavam tornando-se perigosamente raros na Inglaterra dessa época, e Evelyn argumentava em sua obra sobre a importância de se conservar florestas, através da gestão dos volumes de madeira retirados das florestas, que deveriam manter-se dentro da sua capacidade de regeneração.

Esse campo desenvolveu-se profundamente ao longo do século XVIII, especialmente na Prússia e na França, e métodos científicos cada vez mais avançados foram sendo desenvolvidos. Mais tarde, no século XIX, diversos outros países europeus criariam as primeiras reservas de gestão florestal em suas colônias, e o Reino Unido utilizaria amplamente esses métodos na Índia, onde a produção de erva de chá exigiria um controle mais apurado da exploração florestal.

John Muir foi o grande líder dos primeiros preservacionistas.

Origens do movimento conservacionista[editar | editar código-fonte]

O movimento conservacionista que se difundiria internacionalmente a partir da primeira metade do século XX teve uma importante influência do movimento conservacionista americano. Esse, recebeu sua influência dos movimentos artísticos do século XIX que exaltavam o valor inato da natureza e estabeleciam uma divisão clara entre o humano e o natural selvagem, principalmente o transcendentalismo e o romantismo. A obra de Henry David Thoreau (1817-1862) teve um papel fundamental na construção da ética conservacionista americana, fundamentada na ideia de wilderness, uma natureza completamente selvagem e prístina. Thoreau interessava-se pela relação entre o homem e a natureza, e relatou suas experiências no livro Walden, no qual a natureza possui um valor estético e espiritual inato, argumentando que as pessoas para serem felizes devem viver de forma simples e ter contato com a natureza. Não por acaso, tornou-se um grande amigo e colaborador de John Muir, o fundador do Sierra Club e ativista responsável pela criação do Parque Nacional de Yosemite, que se tornaria uma figura fundamental da vertente preservacionista (Preservationnist) do movimento conservacionista. As ideias de Dietrich Brandis, William P.D. Schlich e Carl A. Schenck também foram muito influentes, assim as do primeiro chefe do Serviço Florestal dos Estados Unidos, Gifford Pinchot,[5] um ícone da corrente conservacionista (Conservationnist) do movimento conservacionista.[1][3][6] Junto com outros setores da sociedade, conservacionistas e preservacionistas participaram de muitos debates ao longo da chamada Progressive Era americana (primeiras décadas do século XX), durante a qual as discussões se concentravam em três posições: os grandes proprietários e grandes corporações de exploração mineral e florestal defendiam a posição chamada de laissez-faire, ou seja, que o direito de propriedade deveria ser respeitado literalmente, e que portanto em propriedades privadas a exploração dos recursos naturais deveria ser completamente livre e à critério do dono.[7][8] Os conservacionistas, liderados por Theodore Roosevelt e Gifford Pinchot, eram motivados pelo desperdício de recursos que se assistia (principalmente caça e madeira), e tinham como objetivo tira-los das mãos de corporações e grupos econômicos específicos, como forma de que fossem geridos no interesse da coletividade.[9] Já nessa época, a política do laissez-faire havia levado um numero importante de espécies à beira da extinção, e a região leste dos Estados Unidos, antes coberta por florestas, já apresentava muito poucas. Roosevelt reconheceu que essa abordagem era ineficiente e dispendiosa, e como a maior parte das terras à oeste dos EUA pertenciam ao Estado, a melhor linha de ação seria a elaboração de um plano de longo prazo e a organização de um serviço público encarregado de maximizar os benefícios a longo prazo dos recursos naturais. Preservacionistas, liderados por John Muir, argumentavam que as políticas de conservação não eram suficientemente fortes para proteger os interesses dos mundo natural, uma vez que elas continuavam a focar no mundo natural como fonte de produção econômica.

O debate entre conservacionistas e preservacionistas atingiu seu pico durante a questão da Barragem de Hitch Hetchy, no Parque de Yosemite, que era proposta com o objetivo de suprir água à cidade de São Francisco. Muir, liderando o Sierra Club, declarava que o vale de Hetch Hetchy deveria ser protegido por conta de sua beleza, pois "nenhum templo mais sagrado foi jamais consagrado pelo coração do homem". Apesar de mais romântica do que prática, o deslumbramento de Muir com a natureza serviu e continua a servir de inspiração a sucessivas gerações de conservacionistas, e sua visão de como a conservação deveria ser feita estava em linha, na época, com o que os britânicos, alemães, belgas e franceses faziam em diversas de suas colônias, principalmente na África. Não por acaso, o preservacionismo teria grande influência em todo o mundo.

Roosevelt foi um líder da conservação, lutando para pôr fim ao desperdício de recursos naturais.

A politização da questão da conservação, no entanto, deve muito a Roosevelt, que foi quem efetivamente colocou a questão na agenda política americana, e quem posteriormente deu importantes contribuições para que ela se difundisse em outros países.  

Sozinho, Roosevelt destinou mais terras à criação de áreas protegidas do que todos seus predecessores combinados. Além disso, criou o Serviço Florestal dos Estados Unidos, reforçou a legislação dos parques nacionais, e promulgou o Antiquities Act de 1906. Também criou 51 reservas de avifauna, quatro preserves de fauna selvagem, e 150 florestas nacionais. Em seu governo, a superfície coberta por áreas protegidas atingiu cerca de 930.000 km2

Em 1903 Roosevelt visitou o Yosemite Valley com John Muir, mesmo tendo uma visão de conservação muito diferente da dele. Através da pressão exercida pelo Sierra Club, Muit consegui em 1905 que o Congresso americano transferisse o Mariposa Grove e o Yosemite Valley ao governo federal.[10]

Esse seria outro ponto de embate entre as correntes conservacionista e preservacionista, pois enquanto Muit queria a natureza protegida por conta de seu valor espiritual, e portanto intocada por qualquer uso, Roosevelt era partidário da fórmula de Pinchot de que era necessário "fazer as florestas produzirem a maior quantidade e a melhor qualidade possível de serviços e produtos úteis ao homem, e mantê-las produzindo esses produtos e serviços por sucessivas gerações de homens e árvores"[11]

Em 1908, Roosevelt organizou a Conference of Governors na Casa Branca, com foco nos recursos naturais e em seu uso eficiente. Seu discurso marcou época e consagrou a conservação como tema político: "A conservação como um dever nacional". Além disso, comunicou-se intensamente com outros chefes de Estado e buscou influencia-los a conservar seu patrimônio natural.

Desde os anos 1970[editar | editar código-fonte]

Ao longo do século XX outras figuras importantes ajudaram a moldar o movimento conservacionista de nossos dias, destacando-se Aldo Leopold e Julian Huxley. A partir dos anos 1970 o conservacionismo ganhou um novo significado e uma nova dimensão, principalmente em razão da crise ambiental a que se tem assistido. A partir dos anos 1970 a qualidade do meio ambiente deixa de ser assunto tratado em mesas de políticos e em escritórios de ONG, para se tratar um assunto de toda a sociedade. Isso teve profundo impacto no conservacionismo, que tem buscado adaptar-se à necessidade do desenvolvimento sustentável.[3]

Grandes documentos das políticas públicas de conservação[editar | editar código-fonte]

Enquanto movimento estruturado e com significativa representação política, uma série de documentos políticos vêm sendo elaborados, notadamente após os anos 1960, com o objetivo definir e difundir conceitos e os objetivos relacionados à conservação da natureza. Esses documentos apresentam os consensos técnicos e políticos de cada época, e têm a conservação da natureza como tema central ou transversal, como no caso de documentos relacionados ao desenvolvimento sustentável.

Dentre esses documentos destacam-se principalmente a Declaração final da Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente humano de Estocolomo 1972, o relatório Nosso Futuro Comum de 1987, o Relatório final da Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e o desenvolvimento de Rio de Janeiro 1992, o Relatório da Cúpula Mundial sobre o desenvolvimento sustentável de Joanesburgo 2002, o Relatório da Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento sustentável, e a série de relatórios do Congresso Mundial de Parques da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Referências

  1. a b c d Callicott, J. Baird; Frodeman, Robert (2009). Encyclopedia of Environmental Ethics and Philosophy (em inglês). Detroit: Macmillan. ISBN 0028661370 
  2. Snow, Donald (Ed.) (1992). Voices from the Environmental Movement: Perspectives for a New Era (em inglês). Washington, Covelo: Island Press. 249 páginas. ISBN 9781559631334 
  3. a b c McCormick, John (1995). Reclaiming paradise: The global environmental movement (em inglês) 2 ed. Chichester: Wiley. ISBN 9780471949404 
  4. Evelyn, John (1908). Sylva, Or A Discourse of Forest Trees ... with an Essay on the Life and Works of the Author by John Nisbet (em inglês). I 4 ed. London: Doubleday & Co. p. lxv 
  5. «Conservation Movement». New Hampshire Public Television (em inglês). Wildlife Journal Junior. Consultado em 7 de julho de 2017 
  6. Rawat, Ajay Singh (1993). Man and forests: the Khatta and Gujjar settlements of sub-Himalayan Tarai (em inglês). New Delhi: Indus Pub. Co. ISBN 8185182973 
  7. Hays, Samuel P. (1999). Conservation and the gospel of efficiency : the progressive conservation movement, 1890-1920 (em inglês). Pittsburgh: University of Pittsburgh Press. ISBN 0585043914 
  8. Taylor, Dorceta E. (2016). The rise of the American conservation movement : power, privilege, and environmental protection (em inglês). Durham: Duke University Press. ISBN 9780822361817 
  9. Redekop, Benjamin W. (2014). «Embodying the Story: Theodore Roosevelt's Conservation Leadership». Leadership (em inglês). 12 (2): 159-185 
  10. "U.S. Statutes at Large, Vol. 26, Chap. 1263, pp. 650-52.
  11. Pinchot, Gifford; Miller, Char; Sample, V. Alaric (1998). Breaking new ground (em inglês) comemorativa ed. Washington: Island Press. p. 32. ISBN 1559636696