Aldo Leopold

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Aldo Leopold
Aldo Leopold (à esquerda) e Olaus Murie durante a reunião anual da The Wilderness Society em 1946.
Nascimento 11 de janeiro de 1887
Burlington
Morte 21 de abril de 1948
Baraboo
Nacionalidade norte-americano
Ocupação Silvicultor, acadêmico, conservacionista e filósofo.
Influenciados
Principais trabalhos A Sand County Almanac

Aldo Leopold (Burlington11 de janeiro de 1887 - Baraboo21 de abril de 1948) foi um silvicultor, acadêmico, filósofo ambiental e conservacionista estadounidense, que, por seu extenso trabalho sobre a conservação da vida selvagem e dos espaços naturais, é considerado uma figura importante na história do conservacionismo[1] e o fundador da ciência da conservação nos Estados Unidos.[2]

Pioneiro na elaboração de formulações éticas que buscam levar em consideração a comunidade biótica da Terra, Leopold influenciou profundamente o desenvolvimento da ética ambiental presente no movimento conservacionista.[3] Após ter participado da fundação da The Wilderness Society, em 1935 adquiriu terras no interior do Wisconsin, nas quais pôs em prática suas inovadoras ideias sobre a restauração ecológica.[4] Essas experiências seriam postumamente reunidas em sua obra mais importante, A Sand County Almanac.[5]

Biografia[editar | editar código-fonte]

O aluno Leopold no Yale Sheffield Scientific School Yearbook de 1908, da Universidade Yale.

Aldo Leopold nasceu em Burlington, filho de Clara (nascida Starker) e Carl Adolph Leopold, um empresário do ramo de mobília.[6] O menino Leopold cresceu ao ar livre e em contacto com a natureza, e essas experiências foram reforçadas repetidas vezes em sua juventude, durante as férias de verão que costumeiramente sua família passava nas ilhas Cheneaux, em Michigan.[6]

Estudou na Lawrenceville School, em Nova Jérsia, e depois na escola florestal da Universidade de Yale, onde em 1909 recebeu o grau de mestre em ciências florestais.[7] Durante essa época, Leopold desenvolveu uma apreciação pela natureza em termos de ecologia, mas que manteve diversos aspectos de sua apreciação juvenil, principalmente caracterizando-a como uma fonte de recursos naturais e fonte de prazer estético e valor místico. Sua visão da natureza, mesclando elementos pragmáticos e técnicos com outros emocionais e espirituais, mais tarde serviria de inspiração e motivação para repetidas gerações de conservacionistas.[7][8]

Serviu por dezenove anos no Serviço Florestal dos Estados Unidos, inicialmente na seção sudoeste, responsável por Novo México e Arizona, e a partir de 1924 no laboratório de produtos florestais da mesma instituição, em Madison, Wisconsin.[9] Em 1928 deixou o Serviço Florestal e passou a trabalhar de maneira independente.[8]

A casa de Leopoldo, atualmente tombada pelo National Register of Historic Places dos Estados Unidos.

Em 1933 tornou-se professor do departamento de Agricultura Econômica da Universidade de Wisconsin-Madison. Ensinou na universidade até o fim da vida, vivendo dentro do campus em uma modesta casa de dois cômodos, com sua esposa e filhos.[10] Hoje sua casa é protegida com o estatuto de National Historic Landmark e constitui uma destinação turística.[11]

Como defensor da preservação da vida e das áreas selvagens, Leopold fundou a The Wilderness Society em 1935.[4] Morreu de um ataque cardíaco em 1948, enquanto combatia um incêndio em uma propriedade vizinha à sua.[8] Criada por proposta sua e nomeada em sua honra, a área protegida Aldo Leopold Wilderness faz limite com a Gila National Forest no Novo México.[12]

Deixou cinco filhos, todos eles notados em seus respectivos campos de atuação. Luna Bergere Leopold tornou-se um famoso professor de hidrología e geologia na Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley); Aldo Starker Leopold foi um conhecido biólogo e zoologista, também professor da UC Berkeley; Nina Leopold (depois Bradley) destacou-se como conservacionista; Aldo Carl Leopold foi professor de fisiologia vegetal das universidades de Purdue e do Nebraska; e Estela Leopold foi pesquisadora do Serviço Geológico dos Estados Unidos, na área de paleobotânica.[10]

Obra central[editar | editar código-fonte]

Os escritos de Leopold sobre a natureza são notáveis por sua singeleza e clareza.[13] Seus retratos das paisagens naturais onde viveu, ou que conheceu a fundo, falam com intimidade sobre o que ocorre e o que existe na natureza. Também apresentam críticas contundentes à cultura e à sociedade que têm se apropriado da Terra, eclipsando o sentido de comunidade com a natureza da qual o ser humano faz parte.[13] Ele afirmava que a segurança e a prosperidade que as tecnologias oferecem ao homem, lhes dá também o tempo para refletir sobre a riqueza da natureza e o seu funcionamento.[2][14]

Seu livro A Sand County Almanac ("Um almanaque do Sand County) foi publicado postumamente em 1949[15] e junto com Primavera silenciosa, de Rachel Carson, é considerado o livro mais influente dentro do movimento conservacionista norte-americano e um dos mais influentes em todo o mundo.[16][17] Trata-se de uma combinação de história natural, literatura naturalista e filosofia. É muito conhecido por diversas de suas passagens, como aquela em que definiria a ética da terra: "Uma coisa está bem enquanto tende a preservar a integridade, estabilidade e a beleza da comunidade biótica. Está mal, se tende a fazer o contrário".[18]

Conservação[editar | editar código-fonte]

Em The Ecological Conscience, uma seção The Land Ethic, por sua vez um capítulo de A Sand County Almanac, Leopold trata em maior detalhe da questão dos métodos em larga escala da conservação. Ele escreve que "a conservação é um estado de harmonia entre o homem e a terra" e completa dizendo ser necessária uma educação conservacionista mais forte.[19] Segundo Leopold, a educação ambiental existente até então, em fins dos anos 1940, resumia-se à fórmula "obedeça a lei, vote direito, una-se a algumas associações e pratique o tipo de conservação que for rentável em suas próprias terras: o governo fará o resto".[20] Leopold era crítico desse tipo de fórmulas, que para ele elas eram exclusivamente utilitaristas e evitavam questões éticas relevantes.[21] Isso o fez chegar à conclusão de que as obrigações não significam nada se a população não está conscientizada, e de que o problema central era estender a todas as pessoas a consciência sobre a terra.[20][21] Quando escrevia, mostrava-se seguro de que, sem contribuições da filosofia e da religião, a conservação estava condenada a ser um esforço insuficiente.[19]

Com a esperança de abordar questões éticas e de enfrentar desafios educacionais, Leopold apresentou o exemplo da capa superficial do solo de Wisconsin, que se movia lentamente para o mar.[22] A partir de 1933 ofereceu assistência técnica durante 5 anos aos agricultores que desejassem adotar práticas corretivas, e sua oferta obteve aceitação relativamente grande.[22] Uma vez transcorrido o período de 5 anos, contudo, os agricultores deram continuidade às práticas que haviam se mostrado economicamente rentáveis, deixando de lado as práticas que eram de interesse exclusivamente comunitário. Isso se acentuaria nos anos seguintes, e em 1937 a Legislatura de Wisconsin aprovou a Lei de Conservação de Solos do Distrito, que permitiu aos agricultores regular por eles mesmos o uso de suas terras.[22] Com os incentivos adicionais de aconselhamento técnico gratuito e a disponibilidade de empréstimos para a compra de maquinário especializado, os princípios defendidos por Leopold continuaram sendo ignorados.[22][23]

Legado[editar | editar código-fonte]

Aldo Leopold Wilderness Research Institute, na Universidade de Montana.

Frases famosas[editar | editar código-fonte]

Leopold foi um grande inspirador do movimento conservacionista, tendo contribuído de maneira significativa para as definições éticas e técnicas que o caracterizam. Muitas de suas frases e pensamentos tornaram-se referências na área e vêm sendo frequentemente citados:[3]

"A Conservação está chegando a lugar nenhum porque é incompatível com nosso conceito abraâmico de terra. Nós abusamos das terras porque as vemos como objetos que nos pertencem. Quando virmos as terras como uma comunidade à qual pertencemos, talvez comecemos a usa-las com amor e respeito" ― Aldo Leopold, A Sand County Almanac.[24]

"A última palavra em ignorância é o homem que diz de um animal ou planta "o que há de bom nisso?". Se o mecanismo de funcionamento das terras é bom em seu conjunto, então cada uma de suas partes é boa, independentemente se o compreendemos ou não. Se a biota, ao longo das eras, construiu algo de que gostamos mas não compreendemos, então quem senão um tolo descartaria partes aparentemente inúteis? Conservar cada engrenagem e roda é a primeira precaução do mecânico inteligente" ― Aldo Leopold, Round River: From the Journals of Aldo Leopold.[25]

"Estou feliz que não terei que ser jovem em um futuro sem natureza selvagem que me permita ser jovem" ― Aldo Leopold, A Sand County Almanac.[24]

"Existem dois perigos espirituais em não se ter uma fazenda. Um é o perigo de se supor que o café da manhã vem da padaria, e o outro é achar que o aquecimento surge do aquecedor" ― Aldo Leopold, A Sand County Almanac.[24]

Obras, biografias e compilações de artigos[editar | editar código-fonte]

  • Callicott, J. Baird. 1987. Companion to A Sand County Almanac: Interpretive and Critical Essays. Madison: University of Wisconsin Press. ISBN 0299112306.
  • Flader, Susan L. 1974. Thinking like a Mountain: Aldo Leopold and the Evolution of an Ecological Attitude toward Deer, Wolves, and Forests. Columbia: University of Missouri Press. ISBN 0826201679.
  • Knight, Richard L. and Suzanne Riedel (ed). 2002. Aldo Leopold and the Ecological Conscience. Oxford, New York: Oxford University Press. ISBN 0195149440.
  • Lannoo, Michael J. 2010. Leopold's Shack and Ricketts's Lab: The Emergence of Environmentalism. Berkeley: University of Califórnia Press. ISBN 9780520264786.
  • Leopold, Aldo. 1933. Game Management. New York: Charles Scribner's & Sons.
  • Leopold, Aldo. 2000. A Sand County Almanac: And Sketches Here and There. Topeka: Topeka Bindery. ISBN 9780613924146.
  • Leopold, Aldo. 2010. Report on a game survey of the north central states. Charleston: Nabu Press. ISBN 9781176940048.
  • Leopold, Aldo; Brown, David E.; Carmony. Neil B. 1995. Aldo Leopold's Southwest. Albuquerque: University of New Mexico Press. ISBN 9780826315809.
  • Leopold, Aldo; Leopold, Luna B. 1993. Round River: from the journals of Aldo Leopold. Oxford, New York: Oxford University Press. ISBN 9780195015638.
  • Lorbiecki, Marybeth. 1996. A Fierce Green Fire: Aldo Leopold's Life and Legacy. Helena: Falcon Press. ISBN 1560444789.
  • McCabe, Robert A. 1987. Aldo Leopold, the professor. Madison: Rusty Rock Press. ISBN 9780910122986.
  • Meine, Curt. 1988. Aldo Leopold: His Life and Work. Madison: University of Wisconsin Press. ISBN 0299114902.
  • Newton, Julianne Lutz. 2006. Aldo Leopold's Odyssey. Washington: Island Press/Shearwater Books. ISBN 978-1-59726-045-9.
  • Steinhacker, Charles; Flader, Susan. 1973. The Sand country of Aldo Leopold. San Francisco: Sierra Club. ISBN 9780871560759.
  • Tanner, Thomas. 1987. Aldo Leopold: The Man and His Legacy. Ankeny: Soil Conservation Soc. of America. ISBN 9780935734133.

Referências

  1. Marchini, Silvio (2012). «Manejo de fauna, manejo de gente». O Eco. Consultado em 23 de julho de 2017. 
  2. a b McCormick, John (1995). Reclaiming paradise: The global environmental movement (em inglês) 2 ed. Chichester: Wiley. ISBN 9780471949404 
  3. a b Callicott, J. Baird; Frodeman, Robert (2009). Encyclopedia of Environmental Ethics and Philosophy (em inglês). 1. Detroit: Macmillan. ISBN 0028661370 
  4. a b Meine, Curt D. (2010). Aldo Leopold: His Life and Work (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. p. 360. ISBN 9780299249038 
  5. Curt, Meine (2010). Aldo Leopold: His Life and Work (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. p. xxiv. ISBN 9780299249038 
  6. a b Meine, Curt D. (2010). «Aldo Leopold: His Life and Work». books.google.fr  (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. p. 12-32. ISBN 9780299249038
  7. a b Meine, Curt D. (2010). «Aldo Leopold: His Life and Work». books.google.fr  (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. p. 62-86. ISBN 9780299249038
  8. a b c «Leopold, Aldo, 1887-1948: Father of Wildlife Ecology». Wisconsin Historical Society (em inglês). Consultado em 23 de julho de 2017. 
  9. Meine, Curt D. (2010). «Aldo Leopold: His Life and Work». books.google.fr  (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. p. 87 e ss. ISBN 9780299249038
  10. a b Meine, Curt D. (2010). «Aldo Leopold: His Life and Work». books.google.fr  (em inglês). Madison, London: The University of Wisconsin Press. ISBN 9780299249038
  11. Aldo Leopold Foundation. «Tour the Aldo Leopold Shack and Farm, a National Historic Landmark» (em inglês). Travel Wisconsin. Consultado em 23 de julho de 2017. 
  12. Lorbiecki, Marybeth (1996). A Fierce Green Fire: Aldo Leopold's Life and Legacy (em inglês). Oxford: Oxford University Press. p. 159-160. ISBN 9780190460921 
  13. a b Kosek, Jake (2006). Understories: The Political Life of Forests in Northern New Mexico (em inglês). Durham: Duke University Press. p. 162 e ss. ISBN 0822338475 
  14. Qi Feng, Lin (2011). «The Historical Sense of Being in the Writings of Aldo Leopold». Minding Nature Journal (em inglês). Center for Humans & Nature. Consultado em 23 de julho de 2017. 
  15. Turgeon, Michael (2017). «Aldo Leopold». Santa Clara University (em inglês). Consultado em 24 de julho de 2017. 
  16. Sideris, Lisa; Moore, Kathleen Dean (2008). Rachel Carson: Legacy and Challenge (em inglês). Albany: State of New York University Press. p. 96 e ss. ISBN 9780791478233 
  17. Elder, John (2006). Pilgrimage to Vallombrosa: From Vermont to Italy in the Footsteps of George Perkins Marsh (em inglês). Richmond: University of Virginia Press. p. 125. ISBN 9780813927169 
  18. Meine, Curt D.; Knight, Richard L. (Eds.) (10 de outubro de 1999). The Essential Aldo Leopold: Quotations and Commentaries (em inglês). Madison, London: Univ of Wisconsin Press. p. xv. ISBN 9780299165536 
  19. a b Leopold, Aldo (1989). A Sand County Almanac, and Sketches Here and There (em inglês). New York, Oxford: Oxford University Press. p. 210 e ss. ISBN 9780195059281 
  20. a b Minteer, Ben A.; Manning, Robert (Eds.) (2015). Reconstructing Conservation: Finding Common Ground (em inglês). Washington: Island Press. ISBN 9781610917704 
  21. a b Meine, Curt D.; Knight, Richard L. (Eds.) (1999). The Essential Aldo Leopold: Quotations and Commentaries (em inglês). Madison, London: University of Wisconsin Press. p. 254-257. ISBN 9780299165505 
  22. a b c d Leopold, Aldo (1992). The River of the Mother of God: and other Essays by Aldo Leopold (em inglês). Madison, London: University of Wisconsin Press. p. 340-342. ISBN 9780299127633 
  23. Leopold, Estella B. (2016). Stories from the Leopold Shack: Sand County Revisited (em inglês). New York: Oxford University Press. p. 125 e ss. ISBN 9780190463236 
  24. a b c Leopold, Aldo (1989). A Sand County Almanac, and Sketches Here and There (em inglês). New York, Oxford: Oxford University Press. ISBN 9780195059281 
  25. Leopold, Aldo (1972). Round River: from the journals of Aldo Leopold (em inglês). London, New York: Oxford University Press. ISBN 9780199770649