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Hábito (biologia)

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Esta cultivar de ácer-japonês tem um hábito em forma de cúpula.
Hábito de uma margarida (Leucanthemum vulgare).

Hábito (do latim: habere; «ter» ou «carregar consigo») é um termo usado em biologia, com particular incidência na botânica, para designar a aparência externa de um organismo, ou seja, o conjunto de todas as características essenciais e típicas visíveis de um animal, uma planta ou um fungo, bem como as suas relações e proporções corporais. Estas características permitem frequentemente determinar a família, género ou espécie a que pertence um ser vivo sem utilizar uma chave de identificação detalhada (identificação pelo habitus). O termo é equivalente a habitus em algumas aplicações em biologia, podendo, de forma mais lata, ser aplicado a vários aspectos do comportamento (etologia) ou da estrutura de um organismo.

Descrição

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Na sua aplicação em biologia o termo hábito tem abrangência diferente quando aplicado no campo da botânica e da zoologia:

  • Em botânica, o hábito das plantas é a forma caraterística com que uma determinada espécie de plantas cresce.[1]
  • Em zoologia (particularmente em etologia), hábito refere-se geralmente a aspectos de um comportamento mais ou menos previsível, instintivo ou não, embora também tenha uma aplicação mais ampla, podendo incluir a descrição do plano corporal do organismo, sendo nesse caso preferida a variante habitus para referir a forma ou morfologia caraterística de uma espécie.

O conceito é utilizado na descrição dos organismos e na sua identificação expedita. Como exemplo, pode-se citar a margarida, cuja pertença à família das Asteraceae é visível pelas características típicas das numerosas flores tubulares agrupadas em inflorescências redondas e rodeadas por flores liguladas.

O hábito (ou no caso da zoologia, o habitus) pode variar dentro de uma espécie (dimorfismo) ou diferir entre os sexos (dimorfismo sexual) ou variar num indivíduo de acordo com as estações do ano (dimorfismo sazonal), ao longo do seu ciclo de vida, de acordo com as condições ambientais (determinação do sexo pela temperatura) ou em consequência de doenças ou estado nutricional (obesidade, metabolismo da fome).[2] As alterações no hábito são mais frequentemente iniciadas por alterações epigenéticas.[2][3][4]

O comportamento habitual observável também pode ser designado como hábito.[5] O comportamento aprendido pode ser chamado de habituação.

Existe alguma sobreposição entre as classificações das plantas de acordo com o seu hábito e a sua forma de vida. Outros termos em biologia referem-se de forma semelhante a vários taxa, por exemplo:

  • Os fungos são descritos pelos seus padrões de crescimento: bolores, fermentos, cogumelos e fungos dimórficos.
  • A estrutura dos líquenes é descrita pela sua forma de crescimento: foliosa, crustosa, fruticosa ou gelatinosa.
  • A estrutura dos briófitos é descrita como foliosa ou talosa.
  • A estrutura de uma determinada espécie de alga é referida como o seu tipo ou nível de organização.
  • As bactérias são descritas pela sua morfologia ou forma.
  • A estrutura dos animais é descrita pelo seu plano corporal, que inclui a simetria do corpo, o tipo de camadas germinativas e de cavidades corporais.

Aplicação em botânica

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Em botânica, o hábito (não confundir com habitat) refere-se à forma geral de uma planta, tendo em conta vários fatores como a duração do caule, o padrão de ramificação, o desenvolvimento e a textura. A maioria das plantas pode ser designada como erva, trepadeira, liana, arbusto ou árvore (com algumas subcategorias), ainda que algumas espécies sejam de difícil categorização.[6] As plantas podem ser lenhosas ou herbáceas. Os principais tipos de plantas lenhosas são as árvores, arbustos e lianas. As plantas trepadeiras (lianas) podem ser lenhosas (lianas) ou herbáceas (lianas não lenhosas). As plantas também podem ser classificadas em termos do seu hábito como subarbustos (arbusto anão, arbusto), planta em almofada e suculentas.[7]

Assim, em botânica, hábito é a aparência geral, forma de crescimento ou arquitetura. Por exemplo:

  • Muitas espécies de urze têm um hábito arbustivo e podem formar sebes em vez de árvores.
  • Certas plantas alpinas foram escolhidas para o cultivo devido ao seu hábito anão.
  • Uma erva (ou planta herbácea) é uma planta em que todos os caules e folhas acima da superfície do solo morrem no fim de uma estação e crescimento. Ainda que os caules possam ser anuais, a erva propriamente dita pode ser anual, bienal, ou perene, pois podem existir componentes vivos que ficam no solo, como rizomas ou bolbos.
  • Uma trepadeira é uma planta com caules alongados e débeis, geralmente sustentados por um substrato pelo qual trepam ou ao qual se enrolam, quer seja por meio de gavinhas, ou porque se agarram pelas raízes. As trepadeiras podem ser anuais ou perenes, herbáceas ou lenhosas.
  • Uma liana é uma trepadeira perene e lenhosa.
  • Um arbusto é uma planta lenhosa e perene com muitos caules principais que nascem à altura do solo.
  • Uma árvore é uma planta lenhosa, geralmente alta e perene, com um caule principal (o tronco) que nasce à altura do solo.

Aplicação em zoologia

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Em zoologia, hábito (não confundir com habitus, como descrito abaixo) refere-se geralmente a um padrão específico de comportamento, seja ele adotado, aprendido, patológico, inato, ou diretamente relacionado com a fisiologia. Por exemplo:

  • ...o [gato] tinha o hábito de saltar para cima da aldraba da porta para conseguir entrar...[8]
  • Se estes papagaios sensíveis forem mantidos em gaiolas, rapidamente adquirem o hábito de arrancar as penas.[9]
  • O macaco-aranha tem um hábito arbóreo e raramente se aventura no chão da floresta.
  • A estrela quebradiça tem o hábito de partir os braços como forma de defesa antipredador.

Modo de vida (ou estilo de vida, modus vivendi) é um conceito relacionado com hábito, e é por vezes referido como o hábito de um animal. Pode referir-se às capacidades locomotoras (como em hábito móvel, séssil, errante, sedentário), comportamento alimentar e mecanismos de nutrição (como em vida livre, parasítico, holozoico), período de atividade (diurno, noturno), tipos de interação ecológica, etc.

Os hábitos dos animais mudam frequentemente em resposta a alterações no seu ambiente. Por exemplo: se uma espécie desenvolve uma doença ou há uma mudança drástica do habitat ou do clima local, ou é removida para uma região diferente, então os hábitos normais podem mudar. Essas mudanças podem ser patológicas ou adaptativas.[10]

Uma vez que a distinção entre os conceitos de «modo de comportamento» e «forma morfológica» é significativa em zoologia, o termo habitus (do qual deriva a palavra hábito) é utilizado para descrever a forma como distinta do comportamento (hábito). O termo habitus também ocorre em textos botânicos, mas aí é usado quase indistintamente com hábito, porque o comportamento das plantas geralmente não corresponde de perto ao conceito de hábito no sentido zoológico.[11]

Referências

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  1. Jackson, Benjamin, Daydon; A Glossary of Botanic Terms with their Derivation and Accent; Published by Gerald Duckworth & Co. London, 4th ed 1928
  2. a b Megan Warin, Vivienne Moore, Michael Davies, Stanley Ulijaszek: Epigenetics and obesity: The reproduction of habitus through intracellular and social environments. In: Body & Society, Band 22, Nr. 4, 2016, S. 53–78 (PDF).
  3. Frank Lyko, Sylvain Foret, Robert Kucharski, Stephan Wolf, Cassandra Falckenhayn, Ryszard Maleszka: The honey bee epigenomes: Differential methylation of brain DNA in queens and workers. In: PLoS Biology, Band 8, November 2010, Artikel e1000506, doi:10.1371/journal.pbio.1000506 (PDF).
  4. Joshua C. Combs, Micah J. Hill, Alan H. Decherney: Polycystic ovarian syndrome genetics and epigenetics. In: Clinical Obstetrics and Gynecology, Band 64, Nr. 1, 2021, S. 20–25 (PDF).
  5. – Medizin-Lexikon Roche
  6. Simpson, Michael G. (2005). «Plant morphology». Plant Systematics. [S.l.]: Elsevier Inc. ISBN 0-12-644460-9 ISBN 978-0-12-644460-5 
  7. «growXpert» 
  8. William Chambers; Robert Chambers (1835). Chambers's Edinburgh Journal. [S.l.]: W. Orr. pp. 69– 
  9. Werner Lantermann; Matthew M. Vriends (1986). New Parrot Handbook. [S.l.]: Barron's Educational Series. pp. 110–. ISBN 978-0-8120-3729-6 
  10. Wynne, Parry (20 janeiro 2011). «Disease May Help Shape Animals' Migration Habits». Live Science. Consultado em 17 Maio 2013 
  11. «Biology-Online.org». 7 outubro 2019 

Ver também

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