Ir para o conteúdo

Interculturalismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

O interculturalismo, ou interculturalidade, refere-se ao apoio à interação do diálogo intercultural e às tendências de autossegregação desafiadoras dentro das culturas.[1] O interculturalismo envolve também ir além da mera aceitação passiva de um facto multicultural de múltiplas culturas efectivamente existentes numa sociedade e, em vez disso, promove o diálogo e a interacção entre as culturas.[2]

A expressão também define um movimento que tem como ponto de partida o respeito pelas outras culturas, superando as falhas de relativismo cultural, ao defender o encontro, em pé de igualdade, entre todas elas.

O interculturalismo propõem-se a promover os seguintes objetivos:

  • Compreender a natureza pluralista da nossa sociedade e do nosso mundo;
  • Promover o diálogo entre as culturas;
  • Compreender a complexidade e riqueza das relações entre diferentes culturas, tanto no plano individual como no comunitário;
  • Colaborar na busca de respostas aos problemas mundiais que se colocam nos âmbitos sociais, económicos, políticos e ecológicos.

Dado que não se pode considerar que qualquer cultura tenha atingido o seu total desenvolvimento, o diálogo entre os povos de diferentes culturas é o meio de possibilitar o enriquecimento mútuo de todas elas. O interculturalismo propõe, assim, que se aprenda a conviver num mundo pluralista e se respeite e defenda a humanidade no seu conjunto.

É necessário a existência de valores interculturais para podermos viver em conjunto, isto é, chegarmos a consenso e a um conjunto de valores universalmente respeitados, tais como a tolerância, a aceitação e o respeito mútuos.

Seus opositores defendem que, quando adotado na prática, o interculturalismo pode ser danoso às sociedades e particularmente nocivo às culturas nativas.

Origem do termo

[editar | editar código]

O conceito de interculturalidade, ou interculturalismo, surge a partir do campo das ciências sociais, sendo derivado de outro conceito, o de cultura. O conceito é criado por antropólogos pós segunda guerra, no contexto do processo de descolonização dos continentes africano e asiático, e do reconhecimento da diversidade cultural advinda dos processos migratórios dos países de independência recente para a Europa, provocando assim uma transformação demográfica e cultural.

No contexto da América Latina, o termo interculturalidade passa a ser utilizado a partir da década de 1960 para se referir a miscigenação das culturas europeias colonizadoras aos traços culturais dos povos originários que sobreviveram ao processo de colonização, criando assim uma relação complexa e de tensão entre diferentes expressões culturais e visões de mundo. No contexto latino-americano, Luis Enrique López, sociolinguista peruano, se coloca como uma das principais referências sobre o tema, discutindo questões como a educação bilíngue para os povos originários, e as relações entre os diferentes povos e culturas que formaram a região.

Fundamentação teórica e significado aprofundado

[editar | editar código]

O Interculturalismo é uma abordagem que busca ativamente a interação, o diálogo e a construção mútua entre diferentes culturas, valorizando a diversidade e promovendo a transformação e enriquecimento recíproco das culturas envolvidas.

Os valores centrais da Interculturalidade variam dependendo da abordagem, seja funcional ou crítica. No entanto, a perspectiva da interculturalidade crítica, defendida por Catherine Walsh, se apoia em um conjunto de valores que visam a transformação social e a justiça.[3]

Os valores centrais da interculturalidade crítica de Catherine Walsh são:

I. Justiça Epistêmica e Reconhecimento

O valor central é o reconhecimento de que todos os conhecimentos (saberes indígenas, ancestrais, populares) são válidos e devem ter paridade com o conhecimento ocidental.

  • Anticolonialidade do Saber: Combate a ideia de que o conhecimento europeu ou ocidental é o único universal e legítimo.
  • Diálogo de Saberes: Não se trata apenas de "tolerar" a existência de outros saberes, mas de colocá-los em diálogo horizontal e igualitário, para que possam contribuir na resolução de problemas e na construção de um conhecimento mais plural e complexo.[3]

II. Transformação Estrutural e Descolonização

A Interculturalidade Crítica baseia-se no valor da transformação social, buscando erradicar as raízes históricas da desigualdade.

  • Questionamento do Poder: Valoriza a crítica radical às estruturas sociais, políticas e econômicas que perpetuam a racialização e a subalternização de grupos, como os povos indígenas.
  • In-surgir e Re-existir: Enfatiza o valor da ação política e da resistência ativa (o "in-surgir") contra a ordem estabelecida, afirmando o direito dos povos de re-existir com suas próprias identidades e projetos de vida.[3]

III. Paridade de Participação e Equidade Social

Este valor está ligado à inclusão política e social, garantindo que a diferença cultural não seja uma causa de desigualdade.

  • Inclusão Genuína: Promove a participação plena de todos os grupos culturais na tomada de decisões e na esfera pública, eliminando as assimetrias de poder.
  • Equidade: Vai além da mera igualdade formal perante a lei, buscando corrigir as desigualdades históricas e estruturais para que todos tenham condições reais de desenvolver-se.[3]

IV. Bem-Viver (Viver Bem)

Este é um valor fundamental, particularmente na perspectiva Andina (e explorado por Walsh), que se apresenta como uma alternativa civilizatória ao modelo capitalista.

  • Harmonia: Valoriza o equilíbrio e a harmonia entre os seres humanos e entre os seres humanos e a natureza (Mãe Terra/Pachamama).
  • Comunidade: Contrapõe o individualismo ocidental com o valor da vida comunitária, da solidariedade e da responsabilidade mútua.[3]
Interculturalismo como Processo Ativo: A Perspectiva Crítica
[editar | editar código]

O Interculturalismo é um processo ativo em três dimensões principais:

  1. Processo de Negociação e Conflito (Inter-relação)

A Interculturalidade ativa não pressupõe harmonia imediata; ela reconhece que o encontro cultural em sociedades marcadas pela colonialidade gera conflito e tensão.

  • Diálogo com Conflito: O processo ativo envolve o diálogo constante entre diferentes grupos, mas um diálogo que deve ser capaz de lidar com as diferenças de poder e as desigualdades. O conflito é visto como necessário para expor as assimetrias históricas.
  • Luta pela Hegemonia: É a disputa pela definição das regras de convivência. É um processo ativo porque exige que os grupos subalternizados (como os povos indígenas) lutem ativamente para que suas culturas e cosmovisões sejam reconhecidas em pé de igualdade, em vez de serem meramente toleradas.

2. Processo de Transformação Estrutural (Político)

O Interculturalismo ativo é uma ferramenta para desmantelar o que Walsh chama de colonialidade do poder, do saber e do ser.

  • Não é Funcional: Se fosse passivo (Funcional), o processo se resumiria a adicionar a diversidade ao modelo existente (como uma política de cotas que não questiona o currículo eurocêntrico).
  • Decolonial: O processo ativo é decolonial porque exige uma ação política radical voltada para a transformação das estruturas. Ele busca refundar as instituições, o Estado e os sistemas de conhecimento (Walsh, 2009).
  • Pedagogia Ativa: A educação, nesse contexto, torna-se uma Pedagogia Decolonial – um ato político-pedagógico contínuo de "in-surgir, re-existir e re-viver", que desafia o status quo e constrói novos conhecimentos.[3]

3. Processo de Construção de um "Lugar Outro" (Epistêmico)

O Interculturalismo ativo é um processo contínuo de criação de novas perspectivas e saberes.

  • Conhecimento em Movimento: o processo questiona a validade universal do conhecimento ocidental e exige que o conhecimento seja sempre contextualizado e plural.
  • Reafirmação do Ser: É um processo ativo porque implica a reafirmação constante da identidade dos grupos oprimidos, recuperando a dignidade e a humanidade que foram negadas pela colonialidade do ser.
Detalhamento das Diferenças
[editar | editar código]

Interculturalismo vs. Multiculturalismo:

O filósofo e teórico cultural esloveno Slavoj Žižek tem uma postura crítica em relação ao Multiculturalismo. Ele não critica a diversidade em si, mas sim o modo como o Multiculturalismo funciona como uma ideologia que sustenta e mascara as relações de poder do capitalismo global[4]

Em suma, a crítica de Žižek não é contra a diversidade, mas contra a ideologia multiculturalista que, segundo ele, é a forma perversa pela qual o neoliberalismo administra as diferenças para manter o status quo de dominação política e econômica. Ele concorda, implicitamente, com a Interculturalidade Crítica de Catherine Walsh ao exigir que o foco esteja na transformação radical das estruturas de poder (colonialidade/capitalismo), e não na mera celebração da superfície cultural.[4]

Interculturalismo vs. Transculturalismo:

O filósofo alemão Wolfgang Welsch é o nome mais proeminente na teorização do conceito de Transculturalidade.[5]

Welsch defende que a forma contemporânea das culturas não é mais a de esferas claramente delimitadas (como pressupõem o multiculturalismo e, em certa medida, o interculturalismo). Ele argumenta que, devido à globalização, à migração e às mídias de massa, as culturas de hoje estão profundamente interligadas e interpenetradas, gerando novas formas que são inerentemente híbridas e que transcendem as fronteiras nacionais e étnicas. Para ele, a transculturalidade descreve o estado atual das culturas, onde as linhas internas e externas estão borradas, e a identidade é composta por múltiplos elementos de diversas origens.[5]

Interculturalismo vs. Intraculturalismo:

O autor que popularizou a distinção e o contraste entre Intraculturalismo e Interculturalismo (ou Interculturalidade), é o intelectual indiano Rustom Bharucha.[6]

Bharucha, é frequentemente citado por definir os dois termos com base nas fronteiras e contextos em que as interações culturais ocorrem:

  • Interculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais entre as fronteiras dos Estados-nação.
  • Intraculturalismo: Preocupa-se com a negociação de diferenças culturais dentro das fronteiras dos Estados-nação ou dentro de uma mesma região geográfica maior. Bharucha começou a usar esse termo ao trabalhar em projetos na Índia, percebendo que as diferenças entre, por exemplo, Calcutá, Bombaim e Madras (cidades indianas) eram tão profundas e significativas quanto as diferenças entre países. O termo foca, portanto, nas diversidades e conflitos internos de uma nação ou de um grupo maior.[6]
Conceito Foco Principal Natureza Autor(es) Chave
Interculturalismo Interação e Diálogo (o "Inter") Projeto Político/Crítico que visa a transformação estrutural (Walsh). Catherine Walsh
Multiculturalismo Coexistência e Reconhecimento (o "Multi") Ideologia Funcional/Liberal que mascara a exploração econômica e a desigualdade. Slavoj Žižek (Crítico)
Transculturalismo Fusão, Hibridização e Permeação (o "Trans") Descrição da Realidade das culturas interconectadas na globalização. Wolfgang Welsch
Intraculturalismo Diferenças e Conflitos Internos (o "Intra") Foco na Diversidade e negociação cultural dentro das fronteiras nacionais. Rustom Bharucha

Teóricos e Pesquisadores de Interculturalidade

[editar | editar código]

A interculturalidade é um assunto frequentemente discutido na literatura acadêmica, que tem ganhado interesse nacional e internacional à medida que o mundo se globaliza e os povos desejam compreender de que maneiras suas culturas se influenciaram no passado e como dialogam no presente.[7] Nesse cenário de intercâmbios de saberes, tradições, costumes etc., as discussões interculturais adquirem relevância, sobretudo em regiões com forte apelo multicultural e nas quais por razões sócio-históricas, ocorreu em alguma escala, processos etnocêntricos, com repressão de grupos minoritários. [8]

O conceito de interculturalidade, por ser abordado a partir de diferentes pontos de vista e regiões geográficas, origina diferentes perspectivas teóricas.[9] Abordagens comuns do assunto, incluem as perspectivas relacional, funcional e a crítica, que variam na maneira de fundamentar e interpretar a interculturalidade. [10]

A interculturalidade relacional é aquela que enfoca, sobretudo, o intercâmbio e contato de saberes, práticas, visões de mundo, entre pessoas de diferentes culturas, muitas vezes, analisando-os a nível individual. Já a abordagem funcional, refere-se àquela que enfatiza a diversidade e diferenças culturais, visando o diálogo, convivência e tolerância, e muitas vezes, a inclusão das culturas minoritárias à estrutura social estabelecida. Por fim, temos a interpretação crítica da interculturalidade, presente principalmente entre autores do Sul global, que afirma que as duas anteriores (relacional e funcional) não tocam as raízes da desigualdade, produzindo leituras assimilacionistas de outros povos, e que busca analisar sobretudo o problema estrutural-colonial-racial. [11]

Pessoas citadas regularmente na literatura sobre interculturalidade incluem Kwok Pui-lan, Wendy Wen Li, Yoshio Sugimoto, Achille Mbembe, Kabengele Munanga, Paulin J. Hountondji, Catherine Walsh, Fidel Tubino, Vera Maria Candau, Martine Abdallah-Pretceille, Fred Dervin e Adalberto Dias de Carvalho.

Educação e Interculturalismo

[editar | editar código]

O interculturalismo é uma ferramenta essencial para a construção de uma educação emancipadora e inclusiva, que reconhece o outro não como diferente a ser tolerado, mas como sujeito de direitos e produtor de saberes. Na educação, o interculturalismo orienta práticas pedagógicas voltadas à inclusão e valorização da diversidade cultural e epistemológica presente nas salas de aula. Isso exige currículos que incorporem diferentes visões de mundo e formações docentes sensíveis às realidades socioculturais dos estudantes. O professor, nesse contexto, torna-se mediador de saberes, facilitando o diálogo entre o conhecimento científico e os saberes comunitários e tradicionais. A formação intercultural docente, portanto, não se limita ao domínio de conteúdos, mas envolve a construção de uma postura ética e reflexiva diante das diferenças, combatendo o racismo, o etnocentrismo e as desigualdades educacionais.

A construção das identidades de sujeitos silenciados na sociedade atual é necessária no sentido de melhor compreender e possibilitar a promoção da igualdade de oportunidades e a integração dos diferentes sujeitos socioculturais na sociedade e não há melhor lugar senão o espaço escolar, onde várias realidades convivem.[12]

Críticas e controvérsias

[editar | editar código]

Embora o interculturalismo seja visto como uma proposta mais dinâmica que o multiculturalismo, ele recebe críticas importantes. Alguns autores afirmam que o conceito pode ser idealista, pois pressupõe que todas as culturas dialogarão em condições de igualdade. Na prática, o diálogo não ocorre de forma horizontal quando há desigualdade social, racismo e relações de poder já estabelecidas. Walsh e Tubino explicam que, quando o interculturalismo não enfrenta essas estruturas, ele se torna apenas funcional, isto é, promove o diálogo e a tolerância sem tocar nas causas da assimetria social e cultural .[13]

Outra crítica vem de povos indígenas e grupos minoritários, que alertam para o risco de uma assimilação disfarçada. Em muitos contextos, o Estado e instituições usam o discurso da interculturalidade apenas para incluir diferenças dentro da mesma lógica dominante, neoliberal e colonial, sem realmente transformá-la . Assim, valores e práticas da cultura hegemônica continuam sendo priorizados, enquanto identidades locais são enfraquecidas.[14]

Também há debates sobre se o interculturalismo realmente supera o multiculturalismo ou se apenas o reformula com nova linguagem. Enquanto o multiculturalismo enfatiza o respeito à coexistência de diferentes culturas, o interculturalismo propõe o diálogo e a interação entre elas, mas críticos alertam que esse diálogo pode ocorrer de forma assimétrica, favorecendo quem já tem mais poder social e político.[15]

Parte das críticas ao interculturalismo levou ao desenvolvimento de distinções conceituais dentro do próprio campo. Autores como Catherine Walsh e Fidel Tubino diferenciam o chamado interculturalismo funcional da interculturalidade crítica. O interculturalismo funcional refere-se a abordagens que promovem o diálogo cultural e a tolerância sem questionar as estruturas históricas de poder, como o colonialismo, o racismo estrutural e as desigualdades sociais. Nessa perspectiva, a diversidade é incorporada de forma limitada, muitas vezes como estratégia de gestão da diferença, sem promover transformações profundas nas relações sociais.[16]

Já a interculturalidade crítica propõe uma abordagem emancipatória, que reconhece os conflitos, as assimetrias e as disputas de poder entre diferentes grupos culturais. Essa perspectiva busca não apenas o diálogo entre culturas, mas também a transformação das estruturas que produzem exclusão e subalternização, valorizando os saberes de povos indígenas, comunidades quilombolas e outros grupos historicamente marginalizados. Assim, a interculturalidade crítica é frequentemente associada a projetos políticos e pedagógicos voltados à justiça social, à descolonização do conhecimento e à ampliação dos direitos coletivos.[17]

Interculturalidade no Brasil e Perspectivas Comparadas

[editar | editar código]

A interculturalidade é definida como o processo de diálogo, negociação e aprendizagem mútua entre diferentes grupos culturais. Diferencia-se do multiculturalismo descritivo por propor uma interação dinâmica e a transformação das relações sociais, visando superar a mera tolerância em direção a uma construção coletiva de direitos e cidadania.[18]

Contexto Brasileiro e Educação

No Brasil, o debate intercultural é indissociável do histórico de colonização e da crítica ao mito da democracia racial. A perspectiva da interculturalidade crítica aponta que as desigualdades raciais e sociais são estruturais, exigindo políticas que vão além da celebração de datas comemorativas.[18][19]

As políticas interculturais brasileiras focam em:

  • Reforma Curricular: Inclusão das histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas (conforme as Leis 10.639/03 e 11.645/08).[18]
  • Ações Afirmativas: Políticas de reserva de vagas e modalidades de ensino específicas para populações historicamente marginalizadas.[19]
  • Perspectivas Comparadas

A aplicação do conceito varia conforme as urgências geopolíticas de cada região:

  • América Latina: Caracteriza-se por um viés descolonial. Na Bolívia, a Lei Avelino Siñani-Elizardo Pérez (2010) institucionalizou a educação plurilíngue, integrando saberes ancestrais ao sistema formal de ensino.[20]
  • Europa: O foco recai na gestão de fluxos migratórios. Na Catalunha, o modelo prioriza a integração linguística e a coesão social em contextos de diversidade urbana.[19]
  • Canadá: Coexistem o multiculturalismo federal e o interculturalismo de Quebec, que enfatiza a integração à cultura francófona enquanto reconhece os direitos das minorias e dos povos originários.[19]
  • Austrália: As políticas interculturais concentram-se na reconciliação histórica com os povos aborígenes e das Ilhas do Estreito de Torres, além da gestão da imigração de massa.[18]


A interculturalidade não é apenas uma política ou um conceito acadêmico, é um projeto de convivência. No Brasil, ela carrega o peso e a urgência de reparar séculos de exclusão, olhando para a escola como um espaço onde podemos finalmente tirar do papel o diálogo entre culturas.[18]

Ao comparar diferentes países, percebemos que cada lugar constrói sua própria história e estratégia, mas um ponto é comum: a interculturalidade é um caminho para transformar não só a educação, mas também as relações humanas.[19]

Desafios e perspectivas futuras

[editar | editar código]

A concretização da Interculturalidade exige um esforço contínuo de desconstrução. É crucial desnaturalizar e confrontar os estereótipos e preconceitos que se encontram profundamente enraizados nas interações sociais. Esse processo demanda que seja explicitado as redes de discriminação que, muitas vezes moldam o imaginário social sobre os diversos grupos socioculturais. Em paralelo, a educação e suas políticas devem contestar o etnocentrismo, rejeitando a ideia de uma cultura escolar homogênea. É fundamental desestruturar a falsa universalidade dos currículos para reconhecer e validar a multiplicidade de saberes, práticas e valores culturais.[21]

Além disso, um desafio central é uma articulação que possibilite o reconhecimento e a valorização das diversidades culturais. Os processos pedagógicos e as diretrizes educacionais precisam valorizar as distintas identidades culturais e seus conhecimentos. O conceito de "comum" deve ser reconstruído de forma inclusiva, garantindo que todas as pessoas inseridas num contexto cultural se sintam representadas, de modo que a igualdade se manifeste nas diferenças e não apesar delas.[21]

A perspetiva intercultural também propõe a criação de espaços de interação sistemática entre diferentes grupos, superando o isolamento ou a realização de eventos esporádicos. Esta proposta deve transformar a estrutura das instituições de ensino, desde a seleção dos conteúdos até às práticas didáticas e à relação com a comunidade externa. A prática educativa permite que os indivíduos relativizam as suas próprias visões de mundo através do contato profundo com o "outro", promovendo uma convivência que não ignora os conflitos, mas que os utiliza como base para o diálogo e para a construção de projetos coletivos.[21]

Além disso, é fundamental promover o "empoderamento" de grupos historicamente marginalizados, fortalecendo sua autonomia e participação nas decisões sociais. Estratégias como as ações afirmativas são ferramentas essenciais para corrigir desigualdades estruturais e combater o racismo. O objetivo é formar uma cidadania interativa que reconheça assimetrias de poder e promova transformações sociais baseadas na solidariedade e na dignidade humana.[21]

Por fim, essa educação constitui uma proposta contra hegemônica que utiliza a "hermenêutica diatópica", abordagem desenvolvida por Boaventura de Souza Santos, para ampliar o diálogo entre culturas, reconhecendo a incompletude de cada uma. A interculturalidade orienta-se para a construção de uma sociedade democrática e plural, capaz de unir políticas de igualdade social ao reconhecimento das identidades culturais de forma indissociável.[21]

Bibliografia

[editar | editar código]
  • Multiculturalism's Double-Bind: Creating Inclusivity Cosmopolitanism and Difference. Ashgate Publishing, Ltd., 2009. P. 169
  • Ibanez B. Penas, Ma. Carmen López Sáenz. Interculturalism: Between Identity and Diversity. Bern: Peter Lang AG, 2006. P. 15.
  • CANDAU, V. M., (2000). Cotidiano escolar e cultura(as): encontros e desencontros. In: ______, Reinventar a escola. Petrópolis: Vozes. p. 61-78.
  • SILVA, V. A. DA .; REBOLO, F.. A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*. Interações (Campo Grande), v. 18, n. 1, p. 179–190, jan. 2017.
  • REPETTO, Maxim. O CONCEITO DE INTERCULTURALIDADE: TRAJETÓRIAS E CONFLITOS DESDE AMÉRICA LATINA. TEXTOS E DEBATES, Boa Vista, n.33, p. 69-88, jul./dez. 2019. Disponível em: https://revista.ufrr.br/textosedebates/article/view/5986.
  • PACHECO, Natércia. Interculturalismo e Formação de Professores. In: SANTOS, M.; CARVALHO, A. (Dir.). Interacção cultural e aprendizagem. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.p. 45-51.
  • VASCONCELOS, Luciana Machado. Mas definições em trânsito: interculturalidade. Centro de estudos multidisciplinares em cultura, UFBA. Disponível em: *Microsoft Word - INTERCULTURALIDADE.doc
  • CANDAU, Vera Maria. Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 37, p. 45-56, jan./abr. 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/5szsvwMvGSVPkGnWc67BjtC/?format=html&lang=pt
  • LOPEZ, L. E. Interculturalidad, educación y política em América Latina: perspectivas desde el sur. Pistas para una investigación comprometida y dialogal. IN: Interculturalidad, Educación y Ciudadanía. Perspectivas latinoamericanas. LÓPEZ, L. E. (Ed.). Bolivia: FUNPROEIB Andes, 2009.
  • CANDAU, V. M.; RUSSO, K. Interculturalidade e educação na América Latina: uma construção plural, original e complexa. Revista Diálogo Educacional, v. 10, n. 29, p. 151–169, 2010. [22]
  • EUZEBIO, D. F. S. O projeto educacional intercultural do Estado Plurinacional da Bolívia. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Santa Catarina, 2018.
  • FILGUEIRAS, I. P.; MALDONADO, D. T. Educação Intercultural e Pós-Colonial na Bolívia. Revista Educação Popular, v. 20, n. 2, 2021.
  • RUSSO, K.; BORRI-ANADON, C. Interculturalidade e inclusão na educação no Brasil e no Quebec. Periferia, v. 11, n. 3, 2019.
  • SANTIAGO, M. C.; AKKARI, A.; MESQUIDA, P. Interculturalidade no Brasil: Entre Políticas, Exclusões e Resistências. Educ. Foco, Juiz de Fora, v. 25, n. 3, p. 231-252, 2020.
  • SILVA, V. A. DA .; REBOLO, F.. A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*. Interações (Campo Grande), v. 18, n. 1, p. 179–190, jan. 2017.
  • BOUCHARD, G.; TAYLOR, C. Fonder l'avenir, le temps de la conciliation. Québec: Commission de consultation sur les pratiques d'accommodement reliées aux différences culturelles, 2008.


Ver também

[editar | editar código]

Referências

[editar | editar código]
  1. ↑ Nagle, John (15 de abril de 2016). «Multiculturalism's Double-Bind». doi:10.4324/9781315596235. Consultado em 12 de janeiro de 2026
  2. ↑ Castillo Franco, Ignacio (1 de janeiro de 2007). «RESEÑA de: Penas Ibáñez, Beatriz, López Sáenz, Mari Carmen (eds.). Interculturalism : between identity and diversity. Berna : Peter Lang, 2006». Investigaciones Fenomenológicas (5). 299 páginas. ISSN 1885-1088. doi:10.5944/rif.5.2007.5471. Consultado em 12 de janeiro de 2026
  3. 1 2 3 4 5 6 WALSH, Catherine (2009). Interculturalidade Crítica e Pedagogia Decolonial: in-surgir, re-existir e re-viver. In: CANDAU, Vera Maria (Org.). Rio de Janeiro: 7Letras. p. 12-42
  4. 1 2 ŽIŽEK, Slavoj (27 de setembro de 2013). «Multiculturalismo ou a lógica cultural do capitalismo multinacional.». Estudos Culturais: Experiências e Projetos. Consultado em 12 de janeiro de 2026
  5. 1 2 WELSCH, Wolfgang (maio–agosto de 2007). «Mudança estrutural nas ciências humanas: diagnóstico e sugestões». Educação. Revistas Eletrônicas PUC-RS. 30 (n. 2 (62)): 197-212. Consultado em 12 jan 2026
  6. 1 2 BHARUCHA, Rustom (2017). «Viajando através do interculturalismo: do pós-colonial ao presente global.». ouvirOUver. 13 (n. 1): 12–23. Consultado em 12 jan. 2026
  7. ↑ Araújo de Almeida, Marilene (2023). «Interculturalidade: um debate bibliográfico acerca dos seus desafios e perspetivas no Ambiente Escolar (2015 a 2020)» (PDF). Consultado em 12 de janeiro de 2026
  8. ↑ «INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: A CONSTRUÇÃO DE UM CAMINHO PARA A COEXISTÊNCIA DIALOGANTE DE DUAS CULTURAS MINORITÁRIAS (QUILOMBOLAS E POMERANOS) NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO». INTERCULTURALIDADE E MULTICULTURALISMO: A CONSTRUÇÃO DE UM CAMINHO PARA A COEXISTÊNCIA DIALOGANTE DE DUAS CULTURAS MINORITÁRIAS (QUILOMBOLAS E POMERANOS) NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO. Consultado em 25 de dezembro de 2025
  9. ↑ Marin, José. «Interculturalidade e descolonização do saber:relações entre saber local e saber universal, no contexto da globalização». periodicos unoesc edu br. Consultado em 17 de novembro de 2025
  10. ↑ Walsh, Catherine (2009). «Interculturalidad crítica y educación intercultural» (PDF): 3. Consultado em 25 de dezembro de 2025
  11. ↑ Walsh, Catherine (2009). «Interculturalidad crítica y educación intercultural» (PDF). Interculturalidad crítica y educación intercultural: 3 e 4. Consultado em 25 de dezembro de 2025
  12. ↑ Silva, Vanilda Alves da; Rebolo, Flavinês (2017). «A educação intercultural e os desafios para a escola e para o professor*». Interações (Campo Grande): 179–190. ISSN 1518-7012. doi:10.20435/1984-042X-2017-v.18-n.1(14). Consultado em 12 de janeiro de 2026
  13. ↑ WALSH, Catherine (2009). «Interculturalidad, Estado, sociedad: luchas (de)coloniales de nuestra época.». Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador. Consultado em 12 jan 2026
  14. ↑ TUBINO, Fidel (2005). La interculturalidad crítica como proyecto ético-político. (PDF). [S.l.: s.n.]
  15. ↑ WALSH, Catherine (2007). «Interculturalidad y colonialidad del poder.» (PDF). Consultado em 12 jan 2026
  16. ↑ HALL, Stuart (2006). «A identidade cultural na pós-modernidade.» (PDF). Consultado em 12 jan 2026
  17. ↑ WALSH, Catherine (2010). «Interculturalidad crítica y educación intercultural». Consultado em 12 jan 2026
  18. 1 2 3 4 5 6 CANDAU (2010). «INTERCULTURALIDADE E EDUCAÇÃO NA AMÉRICA LATINA: uma construção plural, original e complexa» (PDF)
  19. 1 2 3 4 5 RUSSO (2019). «INTERCULTURALIDADE E INCLUSÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL E NO QUEBEC: diferentes concepções, semelhantes desafios»
  20. ↑ EUZEBIO (2018). «O projeto educacional intercultural do estado plurinacional da Bolívia: análise da lei de educação 070 "avelino siñani y elizardo pérez" (2010) e os impactos de seu processo de implementação»
  21. 1 2 3 4 5 Candau, Vera Maria (2008). «Direitos humanos, educação e interculturalidade: as tensões entre igualdade e diferença». Revista Brasileira de Educação: 45–56. ISSN 1413-2478. doi:10.1590/S1413-24782008000100005. Consultado em 12 de janeiro de 2026
  22. ↑ Gava, Orlando, Eduardo (28 de julho de 2017). «AVALIAÇÃO DO FENÔMENO DA CARGA DE LAVAGEM NA ÁREA DE CONTRIBUIÇÃO DE UMA VALA DE INFILTRAÇÃO LOCALIZADA NO DISTRITO DO CAMPECHE (FLORIANÓPOLIS/SC)». Consultado em 12 de janeiro de 2026

Ligações externas

[editar | editar código]
  • Entreculturas (consultado em 28 de Junho de 2008)
  • Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (consultado em 28 de Junho de 2008)
  • Conceitos de educação intercultural (consultado em 28 de Junho de 2008)