Relativismo cultural

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O relativismo cultural - é um método de se observar sistemas culturais, sem uma visão etnocêntrica da sociedade vigente, ou seja, realizar a observação sem usar nenhum meio ou parâmetro pré concebido pela cultura ocidental e, assim, realizar um estudo e/ou observação do sistema cultural sem nenhum pré conceito. Com isso, realizar a avaliação sem privilegiar os valores de um só ponto de vista, e estruturar o corpo social a partir de suas próprias características. Adquirem, assim, seus próprios sistemas de valores e sua própria integridade cultural.

Definição[editar | editar código-fonte]

O relativismo cultural parte do pressuposto que cada cultura se expressa de forma diferente. Dessa forma, trata-se de pregar que a atividade humana individual deve ser interpretada em contexto, nos termos de sua própria cultura. Esse princípio foi estabelecido como axiomático na pesquisa de Franz Boas, nas primeiras décadas do século XX e, mais tarde, popularizado pelos seus alunos. Porém, o relativismo não é mero axioma (algo que não precisa ser provado ou um ponto de partida a priori), mas antes parte das conclusões que são produzidas da observação e da convivência com outros grupos e com suas convicções. Conforme um dos alunos de Boas, Melville Herskovits:

O princípio do relativismo cultural decorre de um vasto conjunto de fatos, obtidos ao se aplicar nos estudos etnológicos as técnicas que nos permitiram penetrar no sistema de valores subjazcentes às diferentes sociedades .

A ideia foi articulada por Boas em 1887:

...civilização não é algo absoluto, mas (...) é relativa e nossas ideias e concepções são verdadeiras apenas na medida de nossa civilização. 1

Contudo, Boas nunca usou o termo relativismo cultural, que - em seus caráter axiomático - acabou ficando comum entre os antropólogos depois da sua morte, em 1942. O termo usado pela primeira vez, em 1948, na revista American Anthropologist, representava as ideias de Boas, conforme a síntese de seus alunos a respeito dos princípios ensinados por ele.

Boas desenvolve o método, tendo por base o relativismo cultural em contra posição às ideias evolucionistas vigentes de sua época. Crítica arduamente o método desenvolvido por autores como Morgan, que consiste em elucidar a evolução de todos os processos culturais em razão da sociedade mais evoluída, nesse caso a sociedade Européia. Ou seja, todas as culturas estariam em um estado, em menor ou maior grau, de aproximação do que seria a sociedade mais evoluída, e com isso criando o método comparativo que permeia as justificativas do evolucionismo, onde pode-se citar Darwin como progenitor desse conceito através das ciências biológicas. Boas, debate de forma concreta e lógica o Evolucionismo com suas idéias relativas, provando que as sociedades precisam ser estudadas através de seus próprios conceitos, e assim destrói o discurso evolucionista vigente até então.

Antes, as ideias de F. Boas parecem coincidir com os postulados de Albert Einstein em sua teoria da relatividade. Para Einstein, baseando-se em Galileu, dois observadores podem observar o mesmo fenômeno de formas distintas. O que não significa relativismo absoluto, mas que simplesmente nos convida a procurar formas de diálogo. Na física é a velocidade da luz que permite tal intercâmbio de perspectivas; já nas ciências sociais, tal possibilidade de troca seria ainda mais complexa,mas não inexistente, como reflete a noção boasiana de Herzenbildung (a cultura do coração), que envolve a vontade e a capacidade que os indivíduos em suas culturas tem de conferir oportunidade aos outros. Especialmente oportunidades concernentes a abrigo, comida e outras necessidades básicas. 2 .

Contraste com o Relativismo Moral[editar | editar código-fonte]

Já o relativismo moral defende que o bem e o mal, o certo e o errado, entre outras categorias de valores, são relativos a cada cultura. O "bem" coincide com o que é "socialmente aprovado" e o mal coincide com o que é socialmente desaprovado numa dada cultura. Os princípios morais, na realidade, descrevem convenções sociais e devem ser baseados nas experiências e normas compartilhadas pela sociedade analisada. Além disso, o relativismo cultural envolve declarações em epistemologia e metodologia. Se tais afirmações necessitam ou não de uma postura ética, é um argumento a ser debatido.

Por tudo isso, é importante que esse princípio não seja confundido com relativismo moral 3 .

Origens epistemológicas do relativismo cultural[editar | editar código-fonte]

Kant, quer na gnoseologia, ao apresentar o homem como dotado de conceitos puros a priori, as doze categorias; quer na ética, por meio da boa vontade (racional e formal), faz depender o conhecimento e a ação humana de categorias ou formulação universal. Por isso, Kant não apresenta um pensamento de relativismo cultural. Ele defende, sim, a subjetividade - a subjetividade do sujeito epistêmico ou do homem que decide de forma autónoma, obedecendo ao (seu) imperativo categórico4 . Aplica, com isso, um aspecto bem interessante da psicologia.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Franz Boas, 1887. Museums of Ethnology and their claissification. Science 9: 589
  2. Conferir o material produzido na primeira viagem de campo de Boas, em 1883
  3. a confusão é tamanha que, mesmo com esta nota, ambos são tidos como sinônimo aqui na Wikipédia
  4. Immanuel Kant. Crítica da razão pura; crítica da razão prática; fundamentação metafísica dos costumes