Bem (filosofia)

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Pintura "Inocência" (1893), de Bouguereau. Em muitas culturas, a inocência está relacionada ao bem.

O bem (do termo latino bene) é a qualidade de excelência ética atribuída a ações que estejam relacionadas a sentimentos de aprovação e dever.[1]

Conceituação de Bem e Mal[editar | editar código-fonte]

Em religião, ética e filosofia, o bem e o mal referem-se à avaliação de objetos, desejos e comportamentos através de um espectro dualístico, onde, numa dada direção, estão aqueles aspectos considerados moralmente positivos e, na outra, os moralmente negativos. O bem é, por vezes, visto como algo que implica a reverência pela vida, continuidade, felicidade ou desenvolvimento humano, enquanto o mal é considerado o recipiente dos contrários. Por definição, "bem" e "mal" são absolutos porque qualquer enunciado moral é válido, independentemente de quem o faz, e independentemente de qualquer objeto ao qual o enunciado se refira. Por exemploː "assassinato é moralmente errado" é um enunciado objetivo visto que não é um declaração sobre o sujeito que afirma. O enunciado também é absoluto porque implica que "assassinato" é mau em geral, por contraste com assassinato ser moralmente errado para uma pessoa que o cometa e não para outra.

Não há consenso se o bem ou o mal são intrínsecos à natureza humana. A natureza da bondade tem recebido muitos tratamentos; em um deles, o bem é baseado no amor natural, vínculos e afetos que se desenvolvem nos primeiros estágios do desenvolvimento pessoal. Outro tratamento para o termo afirma que a bondade é um produto do conhecimento da verdade. Existem diferentes pontos de vista sobre o porquê do surgimento do mal. Muitas religiões e tradições filosóficas concordam que o comportamento malévolo é, em si mesmo, uma aberração que resulta da condição humana imperfeita (a queda do homem). Por vezes, o mal é atribuído à existência do livre-arbítrio e da agência humana. Alguns argumentam que o mal em si baseia-se finalmente na ignorância da verdade (isto é, valor humano, santidade, divindade). Alguns pensadores do iluminismo alegaram o oposto, sugerindo que o mal é aprendido como consequência de uma estrutura social tirânica.

Teorias da bondade moral investigam quais tipos de coisas são boas e o que a palavra "bom" realmente significa abstratamente. Como um conceito filosófico, a bondade pode representar a esperança de que o amor natural seja contínuo, expansivo e abrangente. Num contexto religioso monoteísta, é desta esperança que deriva um importante conceito de Deus — como uma infinita projeção de amor, manifesta como bondade na vida das pessoas. Em outros contextos, o bem é visto como algo que produz as melhores consequências na vida das pessoas, especialmente em relação a seus estados de bem-estar.

Origem do conceito[editar | editar código-fonte]

Embora todas as linguagens possuam uma palavra expressando bem no sentido de "ter a qualidade certa ou desejável" (ἀρετή) e mal no sentido de "indesejável", a noção de "bem e mal" num sentido moral ou religioso absoluto não é antigo, e surge das noções de purificação ritual e impureza. Os significados básicos de κακός e ἀγαθός são "ruim, covardemente" e "bom, bravo, capaz" e seus significados absolutos surgem somente por volta de 400 a.C., com a filosofia pré-socrática, Demócrito em particular.[2] A moralidade em seu sentido absoluto solidifica-se nos diálogos de Platão, juntamente com a emergência do pensamento monoteísta (principalmente em Eutifro, o qual pondera o conceito de piedade, τὸ ὅσιον, como um absoluto moral). A ideia é, posteriormente, desenvolvida na Antiguidade tardia, no neoplatonismo, gnosticismo e pelos Pais da Igreja. Este desenvolvimento do relativo ou habitual para o absoluto é, também, evidente nos termos ética e moralidade, ambos sendo derivados de termos para "costume regional" (em latim, ήθος e, em latim, mores, respectivamente).

Campos Descritivo, Metaético e Normativo[editar | editar código-fonte]

É possível tratar as teorias essenciais de valor pelo uso de uma abordagem filosófica e acadêmica. Ao analisar devidamente teorias de valor, as crenças cotidianas não são apenas cuidadosamente catalogadas e descritas, mas também analisadas e julgadas com rigor.

Existem pelo menos duas maneiras básicas de apresentar uma teoria de valor, baseada em dois tipos diferentes de perguntas que as pessoas fazem:

  • O que as pessoas consideram bom, e o que desprezam?
  • O que é realmente bom e o que é realmente mau?

As duas perguntas são sutilmente diferentes. Alguém poderia responder a primeira questão pesquisando o mundo através das ciências sociais, e examinando as preferências que as pessoas declaram. Todavia, alguém poderia responder a segunda pergunta pelo uso do raciocínio, introspecção, prescrição e generalização. O primeiro método de análise é denominado "descritivo", porque tenta descrever o que as pessoas realmente veem como bem ou mal; enquanto o segundo é denominado "normativo", porque tenta, ativamente, proibir o mal e valorizar o bem. Estas abordagens descritiva e normativa podem ser complementares. Por exemplo, seguir o declínio da popularidade da escravidão através das culturas é trabalho da ética descritiva, enquanto informar que a escravidão deve ser evitada é normativo.

A metaética é o estudo das questões fundamentais a respeito da natureza e origens do bom e do odioso, incluindo a investigação da natureza do bem e do mal, assim como o significado da linguagem avaliativa. A este respeito, a metaética não está necessariamente presa às investigações do que os outros veem como bom, ou que declaram que é bom.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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Referências

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 246.
  2. Charles H. Kahn. Democritus and the Origins of Moral Psychology. "The American Journal of Philology" (1985)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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