Leo Lynce

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Leo Lince
Nome completo Cileneu Marques de Araújo Vale
Pseudônimo(s) Leo Lince
Nascimento 29 de junho de 1884
Piracanjuba,  Goiás
Morte 7 de julho de 1954 (70 anos)
Goiânia,  Goiás
Nacionalidade brasileiro
Ocupação Poeta

Leo Lynce, pseudônimo de Cyllenêo Marques de Araujo Valle, natural de Pouso Alto, atual Piracanjuba, Goiás, nascido a 29 de junho de 1884, e falecido em Goiânia, a 7 de julho de 1954, foi um poeta brasileiro. É considerado um dos precursores do Modernismo.[1] "com a sua obra, 'Ontem' (1928), considera-se iniciado o período modernista nas letras goianas. Desde 1906, em colaboração na Folha do Sul, adotou o nome literário pelo qual entrou para a lit. No livro de estreia, mostra-se de um ecletismo característico da lit. 'anterior a 22', misto de naturalismo, parnasianismo, simbolismo e tendências modernizantes, que afinal foi dominando, para adquirir uma feição pessoal, em que surgem preocupações nacionalistas e inovações estéticas, temáticas e linguísticas. Desta forma, consagrou-se, tornando-se o Príncipe dos Poetas Goianos". O livro dele se chama 'Ontem', mas bem merece o título de 'Hoje'. Tal qual atestou o grande polígrafo da Academia Brasileira de Letras, João Ribeiro, 'Jornal do Brasil', quarta-feira, 12 de dezembro de 1928, página 8: "Enfim, o livro de Leo Lynce chama-se 'Ontem', mas merece o título de 'Hoje', é moderno, novo, engraçado e digno do nosso tempo de indecisões". Traduza-se esse 'tempo de indecisões', a que o acadêmico João Ribeiro alude, pela fase sincrética ou sintética, que marcou, no início, a poesia dos poetas novos. Meio que indecisos entre soluções parnasianas, simbolistas e modernas.

Por conseguinte, Leo Lynce abre uma nova página no Estado de Goiás, uma das unidades mais isoladas do Brasil de então, uma página chamada modernidade. Face à adoção de feições nacionalísticas e novas concepções temáticas. Antes até de 1922, ocasião da célebre Semana de Arte Moderna, o poeta goiano vinha tomando conhecimento das ideias que iriam engrossar a corrente revolucionária das artes e letras, encabeçada que foi por Oswald e Mário de Andrade. Numa crônica intitulada 'Pela raça', publicada no 'Jornal de Goyaz', ano V, número 228, a 13 de maio de 1920, página 1, o poeta confessa-se leitor do jornal 'Correio Paulistano' cujas páginas realizaram a mais audaz campanha revolucionária. Não demorou até que compusesse, a '5/5/22', como diz num dos versos, o seu poema 'Goyaz'.Leia-o, na ortografia da época: "Terra moça e cheirosa,/ de vestido verde e touca azul doirada,/ entre todas gentil!/ Ninho dos soffredores/ corações dos pastores cantadores!/ - Coração do Brasil!// Quando se vem de fóra e salta o Paranahyba,/ o trem de ferro tem um ruido differente,/ uma sonora vibração de 'jazz'/ a enternecer a alma da gente...// Nome bonito - Goyaz!/ Que prazer experimento/ sempre que o leio/ nos vagões em movimento,/ com aquelle Y no meio!// O fordinho e o chevrolet,/ rasgando campos, furando mattas,/ vão, a trancos e barrancos,/ rumo ás cidades pacatas/ que brotaram no sertão.// Os poemas escriptos a carvão/ nas porteiras das estradas boiadeiras/ ou nas paredes caiadas dos alpendres:/ 'Lindaura Mendes - Cabo Assumpção...'/ e, sob dois corações entrelaçados:/ 'Sôdade do Rio dos Boi.'/ '5/5/22. Françisco'.../ Nas pautas musicaes/ do arame dos mangueiros,/ que genio virá compôr/ os motivos dos curraes/ os desafios brejeiros/ e as cantilenas de amor?// Goyaz! recendente jardim,/ feito para a volupia dos sentidos!/ Quem vive neste ambiente,/ sorvendo o perfume de seiva/ que erra no ar;/ quem nasceu numa terra assim,/ porque não há de cantar?"

Conforme a referida enciclopédia de literatura (COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Goiás. In: Enciclopédia de Literatura Brasileira. Global Editora, São Paulo, 2a. edição, Volume I, 2001, p. 771) "é certo que já em 1917 houve um Hugo de Carvalho Ramos, cuja "Tropas e boiadas" se tornou voz de significação brasileira. Mas pela sua formação e talento, esse autor pouco ou nenhum compromisso teve diretamente com a vida intelectual goiana, constituindo um caso à parte, uma daquelas vozes isoladas que só fazem é enriquecer e glorificar a terra onde nasceram. Isto na prosa, porque na poesia, apesar de um Félix de Bulhões, de um Joaquim Bonifácio e de um Érico Curado, somente depois de 1928 tivemos com o livro "Ontem", de Leo Lince, a afirmação mais positiva de um poeta goiano. Data dessa época o início da atualização ou da poesia moderna em Goiás. A partir, portanto, de 1930, com repercussão concreta depois de 1942, toma a lit. goiana um sentido de autoafirmação, produzindo obras de poesia, conto, romance, teatro e crítica, procurando assim uma positivação regional na lit. brasileira". Bem a propósito de 1930, a 13 de agosto desse ano, o seu poema "Bordando" foi lido na íntegra na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", proferida na Faculdade de Letras de Coimbra pelo professor da Cadeira de Estudos Brasileiros, Manoel de Souza Pinto, e apontado como uma das expressões de nossa modernidade brasileira (revista BIBLOS - Faculdade de Letras de Coimbra - Volume VI, n. 9-10, Coimbra, Setembro e Outubro de 1930, pp. 538–558).

Cumpre acrescentar na biografia de Leo Lynce ter sido ele, a 31 de janeiro de 1999, eleito, pelo seu livro de poemas Ontem (1928), por um seleto júri organizado pelo jornal mais influente do Estado de Goiás, O Popular, edição número 16.476, página 4 do Caderno 2, Goiânia, que escolheu os cânones da literatura local, autor da melhor poesia brasileira produzida em Goiás. Basta dizer ter Leo Lynce e Hugo de Carvalho Ramos obtido 10 menções por parte do júri. Ademais, Leo Lynce foi alvo de outra homenagem quando o ex-governador de Goiás, Onofre Quinan, sancionou a Lei 9.663, de 27 de dezembro de 1984 (ano do seu centenário), conferindo à rodovia que liga a BR-153 a Piracanjuba, o nome de 'Rodovia Leo Lynce'. Sugestão do ex-vice-governador, acadêmico e então Presidente da Academia Goiana de Letras, Ursulino Tavares Leão.

Mas foi justamente o atual Príncipe dos Poetas Goianos e Intelectual do Ano de 2002 (Prêmio Juca Pato), Gilberto Mendonça Teles, quem exprime esta alusão verdadeiramente consagradora sobre o grande poeta goiano, em seu opúsculo "Goiás e Literatura - A poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado", Edição E.T.G. - Goiânia, 1964, páginas 21-22:

"Ora, de todos os livros de autores goianos, é através da obra de Cyllenêo Marques de Araujo Valle (nome que a partir de 1906 ele simplificou, substituindo-o pelo anagrama Leo Lynce) que o pesquisador pode facilmente, e pela primeira vez em Goiás, rastrear as contribuições assinaladas, embora elas muitas vezes se apresentem ou imaturas, ou vacilantes, revelando por isto mesmo tratar-se de técnicas inusitadas, raramente trabalhadas pelo poeta." As contribuições, a que Gilberto se refere, são as do Modernismo brasileiro.

"O livro de Leo Lynce, publicado em 1928 e constituído de poemas na sua maior parte escritos 'a partir de 1911', não se apresenta inteiramente como um brado de revolta, como é costume supor-se.", torna o poeta e ensaísta Gilberto Mendonça Teles, agora na sua obra "A Poesia em Goiás", Imprensa Universitária da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO., 1964, página 122. "Aliás, o que o caracteriza é, como acontecia em todo o Brasil no primeiro quartel do século XX, um certo ecletismo, através do qual se misturavam influências parnasianas, naturalistas, simbolistas e modernas, o que bem prova a grande inquietação do artista, sempre em busca de uma expressão definitiva, assim como um Manuel Bandeira ou um Cassiano Ricardo na literatura nacional. Entretanto, e é este o aspecto que o glorifica, ao lado dessas influências, desse múltiplo reflexo de escolas literárias, Leo Lynce vai pouco e pouco adquirindo, como assinalou A.G. Ramos Jubé, 'uma liberdade espiritual e expressional pouco comum em seu tempo'". Curiosamente, Gilberto, desde 11 de março de 1962, é o terceiro ocupante da cadeira de número 11 da Academia Goiana de Letras, que pertencera originalmente ao poeta do "Ontem"; cujo segundo ocupante o maior poeta simbolista de Goiás, Érico Curado.

Segundo a matéria intitulada "Visceral ligação com o jornalismo", subtítulo 'Poesia faz transição para o modernismo em Goiás', estampada no jornal O Popular, de Goiânia, Caderno 2, domingo, 6 de agosto de 2000, página 5, elaborada especialmente pela ensaísta e poetisa Darcy França Denófrio, Leo Lynce "... abriu caminho para que, 20 anos depois de sua obra de estreia, pudesse florescer a poesia verdadeiramente moderna de José Godoy Garcia, aquela de 'Rio do Sono', de 1948. E aqui, novamente, o anacronismo citado: o Modernismo brasileiro já se encontrava em sua terceira fase, a chamada geração de 45, quando se publica, entre nós, o primeiro livro de poesia considerado moderno. Isso poderia talvez significar que, 'durante 26 anos após a Semana de Arte Moderna, o discurso poético de Leo Lynce ainda era o que havia de mais moderno em Goiás'. E o sincronismo, em relação à produção nacional, só vai acontecer mesmo no limiar da década de 60. Mas qual teria sido, de fato, a contribuição de Leo Lynce ao Modernismo goiano? O introdutor do Modernismo em Goiás incorporou os elementos da nova estética, sobretudo por meio dos jornais e, possivelmente, lendo obras modernistas, como "Pauliceia Desvairada". Lynce demonstra claramente que conhecia a poética de Mário de Andrade, especialmente aquela expressa num artigo bem-humorado que publicou no jornal 'Novo Horizonte', de Catalão, em 1926. Em tom de blague, faz um jogo com as conhecidas afirmações de Mário, '- sou passadista, confesso' e 'Não sou futurista (de Marinetti)', dirigindo-as a amigos contemporâneos, como Americano do Brasil e Zoroastro Artiaga, entre outros".

Agora, na mesma matéria de 'O Popular', mais propriamente no subtítulo 'Inovador também na fusão de palavras', lê-se que a obra de Leo Lynce pode também reclamar co-autoria com Cassiano Ricardo e os concretistas, no que tange ao processo de montagem de palavras. "Ela registra um exemplo sem data, muito antigo, a montagem 'milfuraram-me a pele', num poema satírico, 'Pro...pagando', de sua obra póstuma, Romagem Sentimental. Na segunda edição de 'Ontem', preparada pelo menos oito anos antes do aparecimento dos concretistas, o poeta goiano realiza, no poema 'Estrada de Hugo', a primeira montagem publicada na poesia goiana, ou seja, fala em 'matas densumbrosas', fundindo dois vocábulos - 'densa' e 'umbrosa'- e criando, sobre duas matrizes preexistentes, esta nova: densumbrosa".

Todavia, compulsando a prosa inédita e esparsa de Leo Lynce, constata-se que o exemplo invocado é bem mais antigo. Em uma das crônicas do poeta, intitulada bucolicamente de 'No Campo', publicada no jornal "Folha do Sul", ano 1, número 32, página 1, Bela Vista, 9 de setembro de 1905, lê-se: "Solitário e mudo, ouvindo o monótono murmúrio do regato que serpeia preguiçosamente por entre a 'densumbrosa folhagem' e respirando o ar puríssimo, embalsamado pelo grato aroma das flores campestres, eu sinto um bem-estar indizível, um prazer imenso". Vinte anos depois, em outra crônica, "Vida fútil", estampada no jornal 'O Democrata', ano VIII, número 396, cidade de Goiás, 20 fevereiro de 1925, escrita ao ensejo do Carnaval, lê-se: "Porque há festas tristes. O mundo é cheio de 'confreístes'. Digam todos os poetas se há coisa mais linda do que um triste olhar". Em que o cronista, ao que nos parece, funde as matrizes 'confete' e 'triste'.

O poeta foi ainda capaz de subverter a mais arraigada tradição poética. Referimo-nos à forma peculiar de um dos sonetos dele, 'Clotilde' (1930). Este apresenta uma estrutura invertida: tercetos antes dos quartetos. O vate compôs tais versos sob o impacto da morte de sua filha mais velha, Clotilde ou Clotildinha. Por conseguinte, o soneto invertido reflete, na sua própria estrutura, o desespero que corria n'alma do poeta. Parece que se trata de uma tentativa, já em 1930, de realizar aquilo que os concretistas denominarão mais tarde de poema visual. Assim como poema visual deve ser considerado "Lumen in Coelo". No qual, dispõe os versos em forma de cruz. Tal poema foi composto por ocasião da inauguração da cruz do Ateneu Dom Bosco de Goiânia.

Outra bela menção ao grande vate do "Ontem", é a seguinte de João Goyaz, pseudônimo do igualmente grande historiador, poeta e folclorista Antônio Americano do Brasil, estampada no jornal "Araguary", Araguari, MG, a 9 de dezembro de 1928, sob a epígrafe "Ontem, de Leo Lynce", coluna "Folhas que passam..." (XI), página 3. Leia-a na íntegra:

"Nesta adorável terra de crepúsculos suaves, de catadupas fragorosas, de paisagens verde-gaio, onde a dolência do entardecer se esvai na apoteose das penumbras inspiradoras, têm minguado estros de renome, sensibilidades artísticas, poetas em uma palavra, os divinos confeccionadores dos peplos dourados da harmonia, tecidos com as canções bárbaras do vento e as perspectivas arrebatadoras das tardes de rosa e anil; quadro sonoro de Mancini e Velasques, sem pintores! tela maravilhosa de Chardin, sem coortes admiradoras! panoramas inéditos para o lirismo pictural de Carot! raros e privilegiados espíritos de pensadores, tecelões do ouro da língua,têm sonhado nestes quadros supernos, embriagando-se com as músicas silenciosas das solidões, em eflúvios suavíssimos caindo do próprio coração o monocórdio ininterrupto da grande orquestra da vida; a vida e a harmonia; a natureza é a delatora desses acordes; a dor é a Ariadne dos veios polifônicos; o silêncio e a soledade são os palácios encantados do grande concerto; o coração é o único espectador; as rosas da sagração?

O olvido! atraente como o sono de Mucenilha das tumbas; o louro único, a vitória invejada que não desonra a fronte dos verdadeiros poetas...

Onde, sob um céu de "Zaratrusta", azul como o em que Nietzche encetou seu livro soberbo, correm as calmas águas anestesiadas de um grande rio, parecendo que a alma casta de todos os cisnes longínquos fizeram poiso nas anfractuosidades do leito, dominando os rumores da corrente com a suavidade das carícias de suas brancas penas batendo de mansinho a linfa profunda? na melancólica terra da "Mãe-do-Ouro"; no rio de Castelneau; nas ribanceiras de Couto de Magalhães; no majestoso Araguaia que abre, em curvas encantadoras e animadas, as entranhas da terra, desvirginando-a cariciosamente... osculando-a... para não perturbar o silêncio musical das selvas.

Onde, sob um céu de louras pepitas, nas tonalidades do entardecer, se distende, como um crotalo verde ondulante, a balsâmica floresta de Alencar, a clórea arassoia das páginas da "Nefla de Anhanguera", morrendo nas serranias do Congo, frondeando orgulhosa, imitando a clâmide de um deus pagão apaixonado pela clorofila das selvas seculares, imitando uma imensa melipônida esverdeada com os tentáculos cravados no coração de uma rosa aberta?

Na "Goyania" de Carvalho Ramos; no coração do Brasil do cinzelador do "Itinerário"; na terra da melastomata de Pohl, repousando como um focídeo sonolento na estria do Espigão Mestre e bebericando nas rumorosas águas do Rio Pardo.

Onde, sob um céu de carbonato hialino, no desmaio de uma tarde empalidecida, já se ouviu os queixumes nostálgicos da soturna ventania traduzir as mais encantadoras liturgias do ermo, resumindo as partituras dolorosas do colossal Órgão da Natureza, significando suas músicas o canto de cisne da tarde que escabuja no ocaso vermelho, como mariposa bêbeda de luz que queima as asas nas chamas de uma fogueira? no rincão do autor de "Tropas e boiadas", o mágico rival de Afonso Arinos.

Onde, no silêncio enigmático de uma paisagem de buritis silvestres, perdendo-se ao longe como ânforas pagãs dos festins de Delfos, onde a fina tela desses poentes coloridos de nossa terra, espetáculo panteísta para o pincel de um Vecelli Tiziano, parecendo a tarde uma noiva de olhos lacrimosos, beijada pelo sol já frio, simbolizando uma grande rosa de apoteose lírica que entrasse para além na taça do mistério?

Na festiva terra do burilador das "Poesias", o poeta morto, o cantor das virtudes cívica do grande aedo José Bonifácio.

Onde, sob um céu de turmalinas com equimoses de berilo, a colcha opalina dos campos relvosos já semelhou a finíssimo tapete oriental dos teares de Mossul, enfeitada com as florações do ermo?

Onde a curva suave das fitas de serra já empolgou mais a visão de um artista, parecendo bocados de um panorama que se erguesse à flor da terra ao encontro dos beijos do sol?

Onde, nas solidões dos baixios, já enterneceu mais agradavelmente o coração de um poeta o renque nemoroso das palmeiras esguias, simbolizando enormes taças da baixela de Adamastor, ou os perdidos centuriões guardados das selvas ameríndias?

Onde, sob o docel das aragens vespertinas, o scherzzo da folhagem poliforme já traduziu as comoventes sinfonias das devezas, significando a dolencia dos ritmos de Schubert?

Nos formosos prados de Delfos da formosa terra de Damiana...

Nos pitorescos panoramas helvéticos do pitoresco rincão de Félix de Bulhões...

em Goiás! O ánade selvagem de Ibsen adormecido em alcatifas de ouro e pedrarias...

a tela inédita de Carot vigiada pela constelação do Cruzeiro...

Leo Lynce, o cisne de "Ontem", meditou nestes maravilhosos panoramas, no êxtase contemplativo dos solitários espirituais e, na languidez da tarde, sonhou nos rosais soberanos com a beleza harmoniosa e a grandeza de seus poemas encantadores; nos palores de um ocaso cinéreo extraiu o dormente lirismo de seus cantos feitos com as músicas da garganta das cigarras e das paisagens bizarras de nossa terra; erra melancolicamente numa clareira de sonhos e de cinzas e depois se desvaira no risonho panteísmo das manhãs azuis, na sonolência dos lagos calmosos e das celagens fugidias; as harmonias de seu grande coração lírico dolorosamente se casam aos murmúrios das águas mansas, ou se exaltam na canção dementada das tormentas, contidas na luminosidade de um verso de cristal; o cantor de "Ontem", esquecendo por vezes o rigor dos hemistíquios de Bernay, entra suavemente no ritmo das "Odes e Baladas" de Paul Fort, produzindo soberbos versos livres, a elegante prosa rimada que destila a verve de Tagore e Vargas Villa; "Crepúsculo" assimila a agonia de um poente de cinzas e é doce a tristeza de "Tarde de dezembro", como se fosse um sonho de amor interrompido;

"Dança macabra" é uma página forte, onde baila a morte em um sorriso de ironia, na fantasmagoria de um cemitério literário;

Mas, do elegante solitário intelectual a melhor produção é "Canaã do amor", versos de lavor, satélites de "Primeiro beijo"; é um florilégio o livro deste poeta e será, na ampulheta do tempo e das harmonias, o rival de "Poesias" de Félix de Bulhões...

"Ontem" não é só um livro de sensações; é um livro de caráter, sem a nassa da maledicência por onde passa o impudor; Leo Lynce não sofreu a desgraça de desonrar a toga como muita gente que se afoga num desprezo inclemente e na maldição da posteridade a arguir os súcubos da razão;

"Ontem", na elegância da forma, para Goiás é a norma de um breviário de caráter; páginas de um crente; livro de um justiceiro; rosas de um jardineiro caprichoso, essas páginas têm a juventude da primavera eterna e das cigarras; canta nelas o alaúde da natureza; derramam nas paisagens de beleza de nossa alma as sonatas comovedoras; são as crisálidas da amorabilidade; reminiscências do Outono e da Saudade; são partituras de um coração entregues à profanação dos críticos e dos espectadores...

Há rumores no ambiente; o céu tem as sete cores espectrais; o ocaso é uma rosa de ouro; a tarde é uma noiva que volta dos esponsais; vibra nos poiais a voz das andorinhas; o momento é uma tela de Mancini; no crepúsculo baila um poema lírico;

"Ontem", o lindo opúsculo, foi lido nos desmaios de uma tarde assim de primavera e de saudade...

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DENÓFRIO, Darcy França. Léo Lynce: poesia quase completa (coordenação editorial, prefácio e notas críticas). Goiânia: Editora da UFG, 1997. Darcy Franca Denofrio
  • DENÓFRIO, Darcy França. Léo Lynce: prosa quase completa (prefácio). Goiânia: Editora da UFG, 2003.

Referências

  1. Segundo a "Enciclopédia de Literatura Brasileira" (COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Leo Lince. In: Enciclopédia de Literatura Brasileira. Global Editora, São Paulo, 2a. edição, Volume II, 2001, p. 933)
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