Quilombo do Ambrósio
Quilombo do Ambrósio
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| Mapa de todo o Campo Grande, cabeceiras do rio de São Francisco e Goiazes | |
| Tipo | quilombo |
| Geografia | |
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| Localização | Ibiá - Brasil |
| Patrimônio | bem tombado pelo IPHAN |
O Quilombo do Ambrósio foi a capital[nota 1] da confederação[nota 2] Quilombo do Campo Grande,[nota 3] composta por 27 quilombos localizados em pontos do território das atuais regiões Centro, Centro-Sul, Centro-Oeste, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. Liderada pelo Rei Ambrósio, um negro brasileiro nascido de ventre livre, essa confederação resistiu, entre 1726 e 1760, a diversas investidas de tropas mercenárias enviadas pelo então governador da Capitania, Gomes Freire de Andrade.[1]
Durante muitos anos, acreditou-se que a confederação se limitava ao quilombo localizado na divisa entre Ibiá e Campos Altos. Em seus estudos, o pesquisador Tarcísio José Martins demonstrou que o Quilombo do Ambrósio, noticiado desde 1726 e atacado em 1746, situava-se em Cristais e teria sido o maior e mais duradouro quilombo de Minas Gerais.[1]
O mapa do Campo Grande, feito pelo Capitão França
[editar | editar código]O pesquisador Tarcísio José Martins, por indicação de Hélio Gravatá, do Arquivo Público Mineiro, localizou e fotografou os originais do Mapa de Todo Campo Grande, Tanto da Parte da Conquista, que Parte com a Campanha do Rio Verde, e São Paulo, como de Piumhi, Cabeceiras do Rio São Francisco e Goiases, pertencente à Coleção da Família Almeida Prado, do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Desde então, Martins dedica-se ao estudo sistemático desse documento, processo iniciado há mais de trinta anos.[1]
Segundo o pesquisador, historiadores anteriores teriam analisado o mapa invertido, com o norte voltado para baixo, circunstância que não teria sido percebida até então. A partir dessa constatação, Martins concluiu que o mapa foi elaborado a partir da sobreposição de diversos outros, representando os roteiros das expedições militares contra os quilombos do Campo Grande entre 1743 e 1760. Essas expedições teriam sido coordenadas pelo português Antônio Francisco França, responsável pelos comboios de mulas que abasteciam as tropas nas batalhas de 1758 e 1759, incluindo o ataque final ao Quilombo do Cascalho, em 1760.[1]
Ainda de acordo com essa interpretação, a versão inicial do mapa teria sido elaborada a pedido de Gomes Freire de Andrade em 1760, enquanto a versão final, solicitada por Luiz Diogo Lobo da Silva, teria sido concluída em 1763. O documento cartográfico detalha os quilombos em cada uma das rotas de ataque, indicando, inclusive, o número de casas existentes em cada povoação no momento de sua destruição. Além disso, registra a presença de dois núcleos denominados Ambrósio: um identificado como “Primeira Povoação do Ambrósio – Despovoado” e outro como “Quilombo do Ambrósio – Despovoado”.[1]
Histórico
[editar | editar código]Primeira povoação do Ambrósio – Atacada em 1746
[editar | editar código]De acordo com o pesquisador Tarcísio José Martins, a Primeira Povoação do Ambrósio foi atacada, mas não destruída, em 1746, por ordem do então governador Gomes Freire de Andrade, em expedição comandada pelo capitão Antônio João de Oliveira. Segundo essa interpretação, o núcleo localizava-se ao norte do atual território do município de Cristais.[1]
Martins afirma ter chegado a essa conclusão a partir da comparação entre o Mapa do Campo Grande, sucessivas cartas topográficas da região e diversos documentos administrativos e militares do período colonial. Entre os indícios apresentados, destaca-se a identificação, por meio de cartografia histórica e imagens de satélite, do local denominado Sítio dos Curtumes, onde teriam se acantonado as tropas de Oliveira. Segundo o autor, esse ponto é mencionado em carta de Gomes Freire ao rei, datada de 8 de agosto de 1746, na qual se afirma ser necessário que a tropa marchasse “mais de cinquenta léguas até fim de setembro”. Para Martins, a distância entre esse sítio e a área onde posteriormente se localizou o quilombo de Ibiá ultrapassaria setenta e cinco léguas apenas no percurso de ida, o que tornaria essa hipótese improvável.[1]
Outro argumento apresentado diz respeito à própria designação territorial de “Campo Grande”. Segundo Martins, esse topônimo deslocava-se progressivamente de leste para oeste, acompanhando o movimento das povoações quilombolas. Em 1746, o termo abrangeria apenas a região situada entre o Rio do Peixe e o Rio Piumhi, sem ultrapassar o Rio São Francisco e sem alcançar os chamados Goiases, área onde posteriormente se estabeleceria o quilombo de Ibiá.[1]
O autor também sustenta que Gomes Freire teria proibido referências oficiais aos ataques realizados em 1746. Em carta de 1757, seu irmão José Antônio de Freire de Andrade mencionaria o “Quilombo Grande, junto ao do Ambrósio, que da outra vez foi destruído”. Em 1758, em correspondência à Câmara de São João del-Rei, teria sido registrado o pedido de vinte canoas feito por Diogo Bueno para uma expedição ao Campo Grande, o que, segundo Martins, seria incompatível com um ataque ao quilombo de Ibiá, dada a distância e as condições geográficas do percurso.[1]
Ainda segundo essa reconstrução, no final de 1758 ou início de 1759, Diogo Bueno teria recebido ordens para atacar as chamadas “relíquias do Quilombo do Ambrósio”, expressão registrada em carta da Câmara de Tamanduá, datada de 1793. Essas relíquias estariam localizadas no atual território de Aguanil, ao sudeste de Cristais. O ataque, no entanto, teria sido adiado, e apenas em 1760 Diogo Bueno teria utilizado as vinte canoas para navegar pelo Rio Grande até a Serra das Esperanças, também conhecida como Serra da Boa Esperança, nas proximidades da Primeira Povoação do Ambrósio.[1]
Após o término da campanha de 1759 e do ataque final ao Quilombo do Cascalho, em 1760, Diogo Bueno, seu primo Bartolomeu Bueno do Prado e outros capitães teriam se reunido em local identificado como “Boa Vista”. Em ata datada de 2 de outubro de 1760, o escrivão de Diogo Bueno relataria a passagem pela “paragem chamada Boa Vista, defronte do quilombo já destruído, chamado Quilombo Queimado”. Para Martins, essa referência ao “Quilombo Queimado”, presente também no Mapa do Campo Grande, corresponderia à Primeira Povoação do Ambrósio.[1]
O autor menciona ainda a carta da Câmara de Tamanduá, datada de 1793, a qual, embora considere tendenciosa, documentaria a expedição de Diogo e Bartolomeu em 1760 e a destruição do Quilombo do Cascalho. Nela, afirma-se que os expedicionários “abriram estradas e fizeram pontes e picadas até as vertentes do Rio Sapucaí, defronte do destruído Quilombo do Ambrósio”.[1]
Segundo Martins, parte dessa documentação teria sido ignorada por parcela da historiografia. Entre os registros citados, encontram-se documentos da Capela de Nossa Senhora da Ajuda dos Cristais (Livro TP-39, Arquivo Público Mineiro), nos quais constariam menções ao Quilombo do Ambrósio ainda em 1856. Um exemplo apresentado é o testamento de Jerônima Fernandes de Carvalho, lavrado em 1795 na Fazenda do Quilombo do Ambrósio.[1]
O capitão Antônio João de Oliveira teria recebido sesmarias em 1747 na área indicada no mapa do capitão França como Primeira Povoação do Ambrósio, correspondente ao atual território de Cristais. Bartolomeu Bueno do Prado, por sua vez, teria obtido nova carta de sesmaria sobre a mesma área em 1760. Posteriormente, em 1765, Constantino Barbosa da Cunha teria adquirido parte dessas terras, cuja posse foi homologada como “Sítio do Quilombo do Ambrósio”.[1]
Martins também registra a existência de tradição oral[nota 4] coletada por José Gomide Borges, no município de Candeias, que preservaria a memória de uma guerra ocorrida no local em 1746, transmitida por descendentes de pessoas escravizadas da região.[1]
De acordo com essa interpretação, a Primeira Povoação do Ambrósio situava-se ao norte de Cristais, em área que preserva topônimos como Morro Meia Laranja, Morro do Quilombo e Ribeirão do Paiol, o que, segundo o autor, confirmaria a leitura do Mapa do Campo Grande, datado de 1763. As chamadas “relíquias” do quilombo estariam localizadas no atual município de Aguanil, nas nascentes do Ribeirão Aguanil, afluente do Rio Grande.[1]
Segundo Quilombo do Ambrósio – Atacado em 1759
[editar | editar código]Ao contrário do que ocorre com a Primeira Povoação do Ambrósio, atacada em 1746 na região do atual município de Cristais, não há, segundo Tarcísio José Martins, documentação primária[nota 5] que comprove que o Quilombo Grande, localizado na atual Ibiá e atacado apenas em 1759, fosse efetivamente denominado Quilombo do Ambrósio. De acordo com o autor, essa identificação baseia-se sobretudo em fontes cartográficas e em documentação secundária.[1]
Entre essas fontes, Martins destaca: (1) um mapa-roteiro[nota 6] e um croqui anexados por Inácio Correia Pamplona ao relatório enviado ao então governador Conde de Valadares, referente à sua suposta entrada em 1769; (2) o Mapa do Campo Grande, elaborado pelo capitão Antônio Francisco França, responsável pelo trem bélico na campanha de 1759 e participante da guerra de 1760 contra o Quilombo do Cascalho; e (3) o Livro de Registro de Terras de Araxá, Notação TP-1-011 (1855–1857), pertencente ao Arquivo Público Mineiro, o qual, segundo o pesquisador, constitui fonte probatória inédita nesse debate.[1]
Segundo essa interpretação, o sítio quilombola indicado por Pamplona em 1769 e também referido na obra de Álvaro da Silveira, publicada em 1924, localizar-se-ia entre Ibiá e Campos Altos, mas corresponderia apenas ao paiol ou às trincheiras (denominadas quipaca) do chamado Segundo Quilombo do Ambrósio. O núcleo principal do quilombo, por sua vez, abrangeria uma área muito mais extensa, estendendo-se do norte e nordeste desse ponto até as nascentes do Córrego do Quilombo, conforme indicado no mapa do capitão França, datado de 1763, e em mapas municipais de Ibiá e São Gotardo, assinados em 1939 pelo engenheiro Benedito Quintino dos Santos, então chefe do Serviço Geográfico de Minas Gerais, e pelos respectivos prefeitos.[1]
Martins também critica o processo de tombamento promovido pelo Ministério da Cultura durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, o qual, segundo ele, teria sido influenciado por interpretações de historiadores ligados à UFMG e ao IPHAN. Para o autor, esse processo teria se baseado em documentação referente aos ataques de 1746, atribuindo-os equivocadamente à região de Ibiá, quando, em sua leitura, esses confrontos teriam ocorrido na área de Cristais e Formiga.[1]
Entre os equívocos apontados por Martins, estariam: (1) a restrição do tombamento apenas ao município de Ibiá, quando o sítio histórico se estenderia também por Campos Altos; e (2) a delimitação da área tombada ao espaço correspondente apenas ao paiol ou quipaca, em vez de abranger todo o território que, segundo ele, teria sido ocupado pelo quilombo principal atacado em 1759.[1]
Na segunda edição de sua obra Quilombo do Campo Grande, publicada em agosto de 2008, Martins detalha os principais pontos que, em sua interpretação, comporiam o sítio histórico do Segundo Quilombo do Ambrósio. Entre eles estariam: o Alto do Quilombo, onde se localizariam a capela de Santa Rosa de Lima e a atual Escola Municipal Quilombo do Ambrósio; a Fazenda Samambaia, associada às nascentes do córrego homônimo; as Fazendas do Quilombo I, II e III, situadas ao longo do Ribeirão do Quilombo e do Córrego do Quilombo do Ambrósio; o Paiol ou Quipaca, indicado no croqui de Pamplona; o Morro da Espia, registrado em cartografia posterior; a foz do Córrego das Guaritas no Misericórdia, na divisa entre Ibiá e Campos Altos; e a Fazenda Santo Antônio do Quilombo, localizada a oeste de Tobati.[2]
O pesquisador também afirma ter localizado o documento nº 82129, datado de 16 de dezembro de 1759, no Centro de Memória Digital da Universidade de Brasília, no qual se registraria a morte do líder do Quilombo do Ambrósio durante os confrontos de 1759 contra os quilombos do Alto Paranaíba, do Triângulo e do Sudoeste de Minas. Segundo esse documento, cinquenta líderes quilombolas teriam sido enviados como prisioneiros-galés ao Rio de Janeiro, onde teriam sido empregados por Gomes Freire de Andrade nas obras de reconstrução da Fortaleza de São Francisco Xavier da Ilha de Villegagnon.[1]
A violência no caminho de Goiás e o Quilombo do Ambrósio
[editar | editar código]Segundo Tarcísio José Martins, teriam circulado ao longo do tempo diversas narrativas imprecisas ou falsas sobre os quilombos do Campo Grande e, em particular, sobre o Quilombo do Ambrósio, muitas das quais teriam sido propagadas por agentes vinculados à administração colonial e, posteriormente, reproduzidas por parte da historiografia.[3]
De acordo com o autor, um dos principais eixos dessas narrativas diz respeito à chamada “Picada de Goiás”, rota reaberta oficialmente em 1736–1737, que atravessava a região do Campo Grande. Nesse contexto, os quilombos passaram a ser descritos como os principais responsáveis pela violência atribuída à circulação de pessoas e mercadorias nessa estrada.[3]
Essa representação aparece, por exemplo, na obra História de Oliveira, de Luiz Gonzaga da Fonseca, publicada em edição comemorativa em 1961. Nela, o autor descreve o que considera o caos provocado pelos quilombolas na região do Caminho de Goiás, atribuindo-lhes assaltos, mortes e ataques a comboios.[4] Segundo Martins, entretanto, essa narrativa não apresenta referências a fontes primárias e teria sido fortemente influenciada pela chamada “Carta da Câmara de Tamanduá à Rainha”, datada de 1793, documento que ele classifica como ideologicamente falso.[5]
Martins também observa que o termo “Canalho”, utilizado por Fonseca para se referir a um dos quilombos, reforçaria a hipótese de que sua principal fonte teria sido essa carta, na qual os quilombolas são descritos de forma altamente pejorativa. Segundo o autor, essa caracterização teria sido construída para justificar campanhas militares e políticas de expropriação territorial.[6]
A Picada de Goiás, conforme reconstrução de Martins, atravessava uma região que, até meados do século XVIII, era designada genericamente como Campo Grande. Ele propõe dividir a história desse território em duas fases: a primeira, até 1746, quando os limites da Comarca do Rio das Mortes, sediada em São João del-Rei, estender-se-iam apenas até a Capela da Laje (atual Resende Costa), e a segunda, entre 1750 e 1759, quando a designação “Campo Grande” teria passado a incluir também áreas situadas à margem esquerda do rio São Francisco, abrangendo o atual Triângulo Mineiro.[1]
O autor argumenta que a instituição do imposto da Capitação, em 1735, teria provocado o esvaziamento de vilas e arraiais oficiais, incentivando a migração de brancos pobres, libertos e pessoas escravizadas em fuga para o sertão do Campo Grande, o que teria frustrado os planos arrecadatórios da Coroa.[7]
Ainda segundo essa leitura, o governador Gomes Freire de Andrade teria ampliado deliberadamente o conceito de quilombo, passando a criminalizar qualquer ajuntamento de negros. Em suas correspondências oficiais, difundiu-se a imagem dos quilombolas como grupos perigosos, ainda que outras fontes contemporâneas relatassem poucos episódios de violência direta.[8] Em contrapartida, câmaras municipais teriam denunciado a brutalidade das tropas encarregadas de cobrar a Capitação, acusando-as de esvaziar vilas e condenar a população à miséria.[9]
Com a morte de João V e a ascensão de José I, sob a orientação do Marquês de Pombal, o sistema da Capitação foi abolido a partir de 1750. Segundo Martins, esse processo teria contribuído para que o Campo Grande se tornasse um refúgio quase exclusivo de pessoas escravizadas em fuga, que passaram a se deslocar para além do rio São Francisco.[10]
Em 1759, Bartolomeu Bueno do Prado liderou novas campanhas militares contra os quilombos do Campo Grande, as quais, segundo a documentação oficial, teriam resultado na destruição das principais povoações. Martins sustenta, no entanto, que parte dessas narrativas teria sido amplificada ou distorcida por agentes coloniais e por cronistas posteriores.[1]
Relatórios como o de Inácio Correia Pamplona, de 1769, e textos publicados na Revista do Arquivo Público Mineiro entre 1897 e 1910 teriam contribuído para a disseminação de imagens negativas dos quilombolas, encobrindo, segundo Martins, os efeitos da política fiscal e das campanhas militares sobre essas populações.[1]
Pamplona chegou a declarar, em relatório enviado ao Conde de Valadares, que o Quilombo do Ambrósio era “não afamado[nota 7] nestas minas como prejudicial aos moradores delas”. Essa passagem é citada por Martins como evidência de que, ao menos nesse documento, o quilombo não era caracterizado como violento.[11] As chamadas Cartas Chilenas, escritas no final do século XVIII, também mencionariam o quilombo de Ambrósio sem atribuir-lhe caráter violento.[12]
Segundo Martins, as representações exageradas da violência quilombola no século XVIII derivariam majoritariamente de fontes oficiais comprometidas com os interesses da administração colonial, argumento que o autor desenvolve em suas obras e em artigos publicados no site MG Quilombo.[1]
Os dois Quilombos do Ambrósio
[editar | editar código]Segundo Tarcísio José Martins, haveria atualmente muito mais documentação referente à localização da chamada Primeira Povoação do Ambrósio e de suas “relíquias”, situadas nas regiões dos atuais municípios de Cristais, Formiga e Aguanil, do que sobre o denominado Segundo Quilombo do Ambrósio, localizado entre Ibiá e Campos Altos.[1]
O autor sustenta que, ao longo do tempo, agentes do poder colonial e, posteriormente, parte da historiografia teriam contribuído para deslocar a memória da Primeira Povoação para o interior do atual Triângulo Mineiro, difundindo a narrativa, que ele considera equivocada, de que o líder Ambrósio teria sido morto durante o ataque de 1746. Para Martins, esse deslocamento simbólico teria como efeito o apagamento da localização original do quilombo e de sua importância histórica.[1]
Martins observa que o então governador das Minas, conde de Bobadela, não incluiu o ataque de 1746 à Primeira Povoação do Ambrósio entre os feitos que costumava registrar em suas correspondências oficiais. Da mesma forma, autores ligados ao seu círculo, como Cláudio Manuel da Costa e Basílio da Gama, não teriam atribuído a ele esse episódio. Em contraste, as Cartas Chilenas, escritas no final do século XVIII, referem-se ao “afamado Quilombo em que viveu o Pai Ambrósio”, sugerindo uma reputação que não corresponderia à imagem construída posteriormente por fontes administrativas.[1]
Ainda segundo essa interpretação, as campanhas militares de 1759–1760 teriam sido atribuídas formalmente a José Antônio Freire de Andrade, irmão e substituto de Gomes Freire no governo da Capitania. Martins, contudo, sustenta que José Antônio teria atuado sob o comando indireto do irmão, sem exercer governo autônomo, o que teria permitido a posterior reorganização das narrativas sobre os eventos.[1]
No que se refere ao Quilombo de Ibiá, Martins cita o registro do escrivão de Inácio Correia Pamplona, no qual se afirma que aquele quilombo era “não afamado nestas minas como prejudicial aos moradores delas”. Para o autor, a confirmação da palavra “não” em documentos recentes reforçaria a tese de que o Ambrósio de Ibiá não teria desfrutado da mesma projeção histórica e simbólica atribuída ao quilombo original.[3]
Martins também critica a chamada Carta da Câmara de Tamanduá, enviada à rainha em 1793, a qual classifica como ideologicamente falsa. Segundo ele, esse documento teria sido utilizado para sustentar o antigo projeto político de Gomes Freire e Alexandre de Gusmão de anexar o então Sertão da Farinha Podre — correspondente ao atual Triângulo Mineiro — à Capitania de Minas Gerais. Essa narrativa teria sido posteriormente reforçada por parte da historiografia e por obras literárias e pseudo-históricas.[1]
Entre essas obras, Martins menciona o conto Quilombolas – Lenda Mineira Inédita, publicado na Revista do Arquivo Público Mineiro em 1904, no qual se misturam elementos ficcionais e históricos. Segundo o autor, esse tipo de produção teria contribuído para consolidar uma versão romantizada e distorcida dos quilombos do Campo Grande, obscurecendo os dados documentais disponíveis.[1]
Ainda de acordo com Martins, essas narrativas teriam contribuído para apagar a memória popular do rei Ambrósio, descrito por ele como um negro livre nascido no Brasil, que não teria sido escravizado nem possuiria origem africana, em contraste com versões literárias que lhe atribuíram uma origem fictícia.[3]
Patrimonialização, memória e disputas contemporâneas
[editar | editar código]A partir do final do século XX, o Quilombo do Ambrósio passou a ocupar lugar de destaque em iniciativas de valorização da memória afro-brasileira em Minas Gerais. Esse processo está inserido em um movimento mais amplo de reconhecimento dos quilombos como patrimônio histórico e cultural, impulsionado por políticas públicas, pesquisas acadêmicas e reivindicações de movimentos sociais.[13]
No entanto, a patrimonialização do sítio do Ambrósio tem sido marcada por controvérsias. Parte dessas disputas decorre das divergências historiográficas sobre sua localização, extensão territorial e organização social. Em alguns casos, interpretações específicas foram adotadas por órgãos de preservação e por projetos museográficos, sem que houvesse consenso entre os pesquisadores.[14]
A historiografia recente tem enfatizado que processos de tombamento, criação de memoriais e roteiros turísticos não são neutros, mas envolvem escolhas narrativas, seleções de fontes e enquadramentos simbólicos. Esses mecanismos tendem a privilegiar determinadas versões do passado, em detrimento de outras, o que pode gerar tensões entre historiadores, comunidades locais e instituições culturais.[15]
No caso do Quilombo do Ambrósio, essas disputas se manifestam sobretudo na definição de qual sítio deve ser reconhecido como o núcleo histórico principal. Algumas iniciativas concentram-se na região de Ibiá, enquanto outras defendem a primazia do sítio localizado na região de Cristais. Essa multiplicidade de interpretações tem sido apresentada por parte da literatura como reflexo da própria mobilidade histórica dos quilombos, mas também como resultado de lacunas documentais.[16]
Além do debate acadêmico, o Quilombo do Ambrósio tornou-se um símbolo de resistência negra e de luta contra a escravidão no imaginário público contemporâneo. Em atividades educativas, festivais culturais e produções audiovisuais, ele é frequentemente representado como um espaço de liberdade e autonomia, ainda que essas representações nem sempre correspondam com precisão às evidências históricas disponíveis.[17]
A historiografia tem ressaltado a importância de distinguir entre memória social, identidade política e reconstrução histórica. Embora essas dimensões se entrelacem, cada uma opera segundo lógicas próprias, e a confusão entre elas pode comprometer a análise crítica do passado.[18]
Notas e referências
Notas
- ↑ O uso do termo “capital” neste contexto não implica uma organização estatal formal, mas refere-se à centralidade política, simbólica e estratégica do Quilombo do Ambrósio dentro da rede de povoações que compunham a Confederação do Campo Grande, conforme a interpretação de Tarcísio José Martins.
- ↑ O termo “confederação” é empregado aqui no sentido analógico, para designar uma articulação entre múltiplos quilombos relativamente autônomos, ligados por alianças, rotas, parentesco e estratégias de defesa comuns, não correspondendo a uma entidade política formal nos moldes europeus do período.
- ↑ Topônimos coloniais nem sempre designavam áreas fixas. Em muitos casos, acompanhavam o deslocamento de populações, fronteiras de ocupação e interesses administrativos, o que dificulta sua correspondência direta com divisões territoriais contemporâneas.
- ↑ Tradições orais não devem ser confundidas com fontes documentais escritas, mas constituem formas legítimas de transmissão de memória social, especialmente em contextos marcados pela exclusão da escrita formal, como o das populações escravizadas e quilombolas.
- ↑ Grande parte da documentação disponível sobre os quilombos do Campo Grande foi produzida por autoridades coloniais, câmaras municipais ou cronistas ligados ao poder constituído. Não há, até o momento, registros escritos produzidos diretamente pelos próprios quilombolas, o que impõe limites metodológicos à reconstrução histórica desses grupos.
- ↑ Mapas coloniais frequentemente combinavam observação empírica, relatos indiretos e objetivos administrativos ou militares. Assim, não devem ser interpretados como representações neutras do território, mas como documentos situados, produzidos em contextos específicos de poder.
- ↑ A expressão “não afamado” aparece em documentos coloniais como forma de qualificar a notoriedade pública de um grupo ou local. Sua interpretação exige cautela, pois pode refletir tanto a ausência de registros administrativos quanto estratégias discursivas de minimização ou invisibilização.
Referências
- ↑ a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af Martins 2018.
- ↑ Martins 2008.
- ↑ a b c d Martins 2024.
- ↑ Fonseca 1961, p. 37.
- ↑ Martins 2018, p. 355–363.
- ↑ Martins 2022.
- ↑ Códice Costa Matoso, p. 482, 492–495.
- ↑ APM, Seção Colonial, SC 69.
- ↑ Códice Costa Matoso, p. 499.
- ↑ Martins 2018, p. 569–585.
- ↑ Anais da Biblioteca Nacional 1988, p. 101.
- ↑ Gonzaga 1788.
- ↑ Gomes 2005, p. 216–218.
- ↑ Reis & Gomes 1996, p. 67.
- ↑ Souza 1986, p. 221.
- ↑ Martins 2018, p. 130–135.
- ↑ Gomes 2005, p. 219.
- ↑ Reis & Gomes 1996, p. 69.
Bibliografia
[editar | editar código]- Fonseca, Luiz Gonzaga da (1961). História de Oliveira Edição do centenário ed. Oliveira: [s.n.]
- Gomes, Flávio dos Santos (2005). Histórias de quilombolas: mocambos e comunidades de senzala no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Companhia das Letras
- Martins, Tarcísio José (2008). Quilombo do Campo Grande: a história de Minas que se devolve ao povo. Contagem: Editora Santa Clara
- Martins, Tarcísio José (2018). Quilombo do Campo Grande: história de Minas que se devolve ao povo. São Paulo: Tejota Editor / MG Quilombo Editora
- Maxwell, Kenneth (1977). A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira – Brasil e Portugal 1750–1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra
- Reis, João José; Gomes, Flávio dos Santos (1996). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras
- Schwartz, Stuart B. (1996). Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia das Letras
- Souza, Laura de Mello e (1986). Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal
Fontes
[editar | editar código]- «APM, Seção Colonial, SC 69». Arquivo Público Mineiro
- «Anais da Biblioteca Nacional». Rio de Janeiro. 108. 1988
- «Códice Costa Matoso». Arquivo Público Mineiro
- Gonzaga, Tomás Antônio (1788). «Cartas Chilenas». Lisboa
Leituras complementares
[editar | editar código]Estudos específicos e regionais
[editar | editar código]- Brasileiro, Jeremias (2018). «Rei Ambrósio de Minas Gerais e o ofuscamento da história e da memória de um líder quilombola». Belo Horizonte. Temporalidades. 9 (3): 59–72
- Guimarães, Carlos Magno; Ana F. M. Santos; Betânia D. Gonçalves; Liliana de M. Porto (1990). «O Quilombo do Ambrósio: lenda, documentos e arqueologia». Estudos Ibero-Americanos. 16 (1–2)
- Amantino, Márcia (2001). Os moradores do sertão oeste de Minas Gerais no século XVIII (PDF) (Tese de doutorado). Universidade Federal do Rio de Janeiro
- Silva Filho, Edson; et al. «A contextualização histórica e geográfica dos quilombos: análise cartográfica do Quilombo do Ambrósio» (PDF) (Relatório/estudo acadêmico). Universidade Federal de Minas Gerais
Estudos internacionais e comparativos
[editar | editar código]- Linebaugh, Peter; Marcus Rediker (2000). The Many-Headed Hydra: Sailors, Slaves, Commoners, and the Hidden History of the Revolutionary Atlantic. Boston: Beacon Press
- Patterson, Orlando (1982). Slavery and Social Death. Cambridge: Harvard University Press
- Price, Richard (1996). Maroon Societies: Rebel Slave Communities in the Americas. Baltimore: Johns Hopkins University Press
- Scott, James C. (1985). Weapons of the Weak: Everyday Forms of Peasant Resistance. New Haven: Yale University Press
Ligações externas
[editar | editar código]- Quem foi o Rei Ambrósio do Campo Grande?
- Morro das Balas - Palanque do Quilombo do Ambrósio
- Primeiro Quilombo do Ambrósio – Sítio Histórico de Cristais .
- Filme Quilombo, do Campo Grande aos Martins.
- Segundo Quilombo do Ambrósio
- PM – Portal de Minas – Quilombo do Ambrósio
- Livro "História de Cristais: da Primeira Povoação do Ambrósio à Saga Lindeira do Município"
- - Memorial do Rei Ambrósio - Cristais, MG

