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Registro bibliográfico

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Registro bibliográfico da primeira edição de Os Miseráveis de Victor Hugo, publicado na revista Bibliographie de la France em 19 de abril de 1862

Um registro bibliográfico é um conjunto de dados ou palavras relacionadas, tratadas como um todo em termos lógicos ou físicos que servem para identificar um documento. São as informações bibliográficas tradicionalmente constantes dos índices bibliográficos ou catálogos de biblioteca. Um registro bibliográfico contém os elementos de dados necessários para ajudar os usuários a identificar e recuperar um recurso específico, bem como informações adicionais de apoio, apresentadas em um formato bibliográfico formalizado. Essas informações adicionais podem dar suporte a funções específicas de bases de dados, como busca ou navegação (por exemplo, por palavras-chave), ou podem fornecer uma apresentação mais completa do item de conteúdo (por exemplo, o resumo de um artigo).

Os registros bibliográficos geralmente podem ser recuperados a partir de índices bibliográficos (por exemplo, bases de dados bibliográficas contemporâneas) por autor, título, termo de indexação ou palavra-chave.[1] Os registros bibliográficos também abrangem metadados[2] e podem representar uma ampla variedade de conteúdos publicados, incluindo publicações tradicionais em papel, digitalizadas ou nato-digitais. O processo de criação, intercâmbio e preservação de registros bibliográficos faz parte de um processo mais amplo, denominado controle bibliográfico.

História

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Os registros bibliográficos mais antigos conhecidos provêm de catálogos (escritos em escrita cuneiforme em tábuas de argila) de textos religiosos de cerca de 2000 a.C., que foram identificados através do que parecem ser palavras-chave em sumério.[3] Na Grécia Antiga, Calímaco anotou registros bibliográficos em 120 rolos em um sistema chamado Pínakes [en].[4]

No período colonial estadunidense, os primeiros catálogos de bibliotecas eram normalmente disponibilizados em forma de livro, manuscritos ou impressos. Sua composição baseia-se nos catálogos das bibliotecas inglesas do século XVII, como o da Biblioteca Bodleiana.[5]

No Brasil, um dos marcos iniciais do registro bibliográfico nacional se estabelece com a publicação do Boletim das aquisições mais importantes feitas pela Biblioteca Nacional por João Saldanha da Gama, então bibliotecário da Biblioteca Nacional. O periódico, publicado inicialmente em 1886, registrava aquisições relevantes ao acervo da instituição classificando-as conforme as três seções da instituição: Impressos, Manuscritos e Estampas e Numismática.[6][7] O controle bibliográfico moderno teve seu início nas décadas de 1950-60, graças aos esforços do então Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (atual IBICT). Anteriormente, as pesquisas da área baseavam-se em repertórios gerais publicados no país. À medida que os recursos aumentaram, percebeu-se a necessidade de coletar mais informações para diferenciá-los e regras mais atualizadas, em constante evolução, são introduzidas gradativamente.[8]

Os formatos atuais de registros bibliográficos têm origem na época das bibliotecas tradicionais isoladas baseadas em papel, com suas coleções autocontidas e seus correspondentes sistemas de catalogação [en].[9] Os formatos modernos, embora reflitam essa herança em sua estrutura, são dados legíveis por máquina e, na maioria das vezes, estão em conformidade com os padrões MARC.[10]

As bases de dados bibliográficas temáticas, como Chemical Abstracts, Medline, PsycInfo ou Web of Science, não utilizam os mesmos padrões bibliográficos da comunidade bibliotecária. Nesse contexto, o Common Communication Format (lit. "Formato de comunicação comum") é o padrão mais conhecido.[11]

Em 2011, a Biblioteca do Congresso dos EUA iniciou o desenvolvimento do BIBFRAME [en], um esquema RDF para expressar dados bibliográficos como sucessor do MARC 21.[12][13] O BIBFRAME foi atualizado para a versão 2.0 em 2016 e servirá como base da catalogação na transição da Biblioteca do Congresso de seu sistema ILS Voyager para o FOLIO.[14] O sistema começou a ser implementado em outubro de 2025.[15] Seguindo o exemplo, o BIBFRAME será adotado por muitos outros sistemas de bibliotecas, como as Bibliotecas da Universidade Columbia, as Bibliotecas da Universidade Stanford, a Biblioteca da Universidade Cornell, a Biblioteca da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, a Biblioteca Nacional da Hungria e a Biblioteca do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Engenharia do Corpo de Engenharia do Exército dos Estados Unidos.[16][17] O BIBFRAME chama atenção por descrever recursos usando várias entidades e relações diferentes, ao contrário dos registros bibliotecários padrão, que agregam muitos tipos de informações em um único registro compreensível de forma independente.[13]

O catálogo digital da Biblioteca Nacional da França destaca-se por suas notas sobre acesso e restrições, bem como a localização física de qualquer cópia em papel de cada título que existe em uma das bibliotecas associadas ao seu sistema de armazenamento.[18] Esse conjunto de metadados permite garantir a preservação digital de longo prazo e a disponibilidade do conteúdo.[19]

Ver também

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Referências

  1. Reitz, Joan M. (2004). «bibliographic database». Dictionary for Library and Information Science (em inglês). Westport, Connecticut: Libraries Unlimited. p. 70. ISBN 1-59158-075-7
  2. Joudrey, Daniel N.; Taylor, Arlene G. (2018). The Organization of Information (em inglês). Santa Barbara, California: Libraries Unlimited. p. 7. ISBN 9781598848588
  3. Carpenter, Michael (1994). «Catalogs and Cataloging». In: Wiegand, Wayne A.; Davis, Donald G. Jr. Encyclopedia of Library History (em inglês). Nova Iorque: Garland. pp. 107–108. ISBN 0-8240-5787-2
  4. Cowell, Stephanie (maio de 1998). «The legendary library at Alexandria». BIBLIO: The Magazine for Collectors of Books, Manuscripts, and Ephemera (em inglês). 16
  5. Clarke, Rachel Ivy (2014). «Breaking Records: The History of Bibliographic Records and Their Influence in Conceptualizing Bibliographic Data». Cataloging & Classification Quarterly (em inglês). 53 (3–4): 286–302. doi:10.1080/01639374.2014.960988
  6. Grings, Luciana; Pacheco, Stela (29 de novembro de 2010). «A Biblioteca Nacional e o Controle Bibliográfico Nacional: situação atual e perspectivas futuras». InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação (2): 80. ISSN 2178-2075. doi:10.11606/issn.2178-2075.v1i2p77-88. Consultado em 11 de fevereiro de 2026
  7. Juvêncio, Carlos Henrique (21 de dezembro de 2021). «Uma política bibliográfica brasileira? O percurso histórico e político da bibliografia nacional no Brasil». Bibliothecae.it (2): 122. ISSN 2283-9364. doi:10.6092/issn.2283-9364/14068. Consultado em 11 de fevereiro de 2026
  8. CALDEIRA, P. T. (1981). «O controle bibliográfico na área de biblioteconomia no Brasil.». Revista de Biblioteconomia de Brasília. 9 (2): 79-80
  9. Hagler, Ronald (1997). The Bibliographic Record and Information Technology (em inglês) 3ª ed. [S.l.]: American Library Association. p. 17. ISBN 0-8389-0707-5. Consultado em 9 de fevereiro de 2026
  10. Reitz, Joan M. (2004). «bibliographic record». Dictionary for Library and Information Science (em inglês). Westport, Connecticut: Libraries Unlimited. p. 71. ISBN 1-59158-075-7
  11. CCF/F: The Common Communication Format for Factual Information (em inglês). [S.l.]: Unesco : General Information Programme and UNISIST. 1992. p. 11. Consultado em 10 de fevereiro de 2026
  12. BIBFRAME 2.0, the Library of Congress Pilot & Next Steps (em inglês). Library of Congress. 12 de junho de 2018. Consultado em 9 de fevereiro de 2026
  13. 1 2 Miller, Eric (21 de novembro de 2012). Bibliographic Framework as a Web of Data: Linked Data Model and Supporting Services (PDF) (Relatório) (em inglês). Library of Congress
  14. Breeding, Marshall (1 de maio de 2023). «2023 Library Systems Report» (em inglês). American Libraries. Consultado em 9 de fevereiro de 2026
  15. «Cataloging, Acquisitions News - Cataloging and Acquisitions (Library of Congress)». www.loc.gov. Consultado em 10 de fevereiro de 2026
  16. Lovell, Abbey (17 de junho de 2024). «Columbia University Libraries Selects FOLIO as New Library Services Platform (LSP)» (em inglês). Columbia University Libraries. Consultado em 10 de junho de 2025
  17. Teel, Kay (5 de fevereiro de 2018). «A Day in the Life of the Transition to BIBFRAME 2.0 and Linked Data» (em inglês). Art Libraries Society of North America. Consultado em 10 de junho de 2025
  18. «Example of bibliographic record of the National Library of France» (em inglês). Consultado em 9 de fevereiro de 2026
  19. Mackay, Nancy (2016). Curating Oral Histories: From Interview to Archive (em inglês). [S.l.]: Routledge. p. 42. ISBN 9781315430799

Bibliografia

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  • Santos, Gildenir Carolino; Ribeiro, Célia Maria (2003). Acrônimos, siglas e termos técnicos: arquivística, biblioteconomia, documentação, informática. Campinas: Atomo. 277 páginas. ISBN 978-85-87585-45-5