Sambenito

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Condenado pela Inquisição espanhola com um sambenito e uma coroça num auto de fé (Goya)

O sambenito era uma peça de vestuário utilizada originalmente pelos penitentes católicos para mostrar público arrependimento por seus pecados, e mais tarde pela Inquisição espanhola para assinalar aos condenados pelo tribunal, pelo que se converteu em símbolo da infâmia.

História[editar | editar código-fonte]

Símbolo e prova da infamia[editar | editar código-fonte]

Originariamente tratava-se de um saco de lã abençoado pelo cura, de onde vem o nome de saco bendito que dá lugar a sambenito por assimilação fonética castelhana com San Benito.[1]

O sambenito já foi usado pela inquisição pontifícia medieval. No Manual de Inquisidores (1378) Nicholas Eymerich descreve-o como uma túnica formada por dois saiões de pano, um na frente e outro atrás em forma de escapulário, sobre a que iam costuradas umas cruzes vermelhas.[2]

O sambenito usado pela Inquisição espanhola era uma espécie de grande escapulário com forma de poncho. Estava feito com um pano retangular com um buraco para passar a cabeça, que uma vez posta lhe chegava ao condenado até pouco mais abaixo da cintura pela frente e pelas costas.

Condenado pela Inquisição vestido com um sambenito que leva a cruz de Santo Andrés (Francisco de Goya).

Os sambenitos variavam segundo o delito e a sentença. Os condenados a morte (os relaxados ao braço secular) levavam um sambenito negro com lumes e às vezes demônios, dragões ou serpentes, símbolos do inferno, além de uma coroça vermelha. Os reconciliados com a Igreja católica porque tinham reconhecido sua heresia e tinham-se arrependido levavam um sambenito amarelo com duas cruzes vermelhas de Santiago (segundo Henry Kamen, eram uma ou duas cruzes diagonais pintadas sobre ele)[3] e lumes orientados para abaixo, o que simbolizava que se tinham livrado da fogueira. Os sentenciados a receber chicotadas, como os impostores ou os bígamos, levavam atada uma corda ao pescoço com nós, que indicavam as centenas de chicotadas que deviam receber.[2]

Os diferentes sambenitos e coroças podem ser encontrados no seguinte relato da procissão da Cruz Branca que iniciou o auto de fé celebrado em Madri em 1680:[4]

Tras ellos vinieron doce hombres y mujeres, con cuerdas alrededor de sus cuellos y velas en las manos, con caperuzas de cartón de tres pies de altura, en las cuales se habían escrito sus delitos, o representados de diversas maneras. Iban seguidos por otros 50, que también llevaban velas en sus manos, vestidos con un sambenito amarillo o una casaca verde sin mangas, con una gran cruz roja de San Andrés delante y otra detrás. Estos eran delincuentes; quienes (por haber sido ésta la primera vez que eran encarcelados), se habían arrepentido de sus delitos; son condenados generalmente a algunos años de cárcel o a llevar el sambenito, al que se tiene como la desgracia mayor que puede caer sobre una familia. Cada uno de estos delincuentes era llevado por dos familiares de la Inquisición. Seguidamente, venían veinte delincuentes más, de ambos sexos, que habían reincidido tres veces en sus anteriores errores y que eran condenados a las llamas. Los que habían dado muestras de arrepentimiento serían estrangulados antes de ser quemados; los restantes, por haber persistido obstinadamente en sus errores, iban a ser quemados vivos. Estos llevaban sambenitos de tela, en los que había pintados demonios y llamas, así como en sus caperuzas. Cinco o seis de ellos, que eran más obstinados que el resto, iban amordazados para impedir que profieran frases de doctrinas blasfemas. Los condenados a morir iban rodeados, además de los dos familiares, de cuatro o cinco frailes, que los preparaban para la muerte conforme iban andando.

Muitas vezes levavam escrito o nome do condenado, como no caso dos famosos sambenitos da igreja de Santo Domingo de Palma de Maiorca, que originaram o assunto dos chuetas (pessoas marginalizadas por ser familiares dos condenados).[5] Os réus eram passeados pela cidade descalços, vestindo o sambenito e com um grande círio na mão.

Perpetuar a infâmia: os sambenitos pendurados das igrejas[editar | editar código-fonte]

Os reconciliados estavam obrigados a levar o sambenito sempre durante o tempo todo que durasse a condenação como sinal de seu infâmia e só podiam lho tirar dentro de sua casa. Cumprida a sentença eram pendurados na igreja paroquial ad perpetuam rei memoriam[3] para que não se esquecesse seu crime, bem como os sambenitos dos queimados na fogueira. A Inquisição considerava que tinha que perpetuar a lembrança da infâmia de um herege, infâmia que se projetava sobre suas famílias e descendentes.[2] Este costume de pendurar os sambenitos uma vez finalizada a condenação começou a princípios do século XVI e fez-se obrigatória a partir das Instruções de 1561 do inquisidor-geral Fernando de Valdés, nas que se dizia:[6]

todos los sambenitos de los condenados vivos y difuntos, presentes o ausentes, se ponen en las iglesias donde fueron vezinos... porque siempre aya memoria de la infamia de los hereges y de su descendencia

Este propósito de perpetuar a infâmia dos condenados de geração em geração e pelo que famílias inteiras foram castigadas pelos pecados de seus antepassados, chegou ao extremo de que quando os sambenitos se caíam a pedaços por velhos eram substituídos por outros novos nos que figuravam os nomes dos hereges. A obrigação de pendurar os sambenitos foi contestada não só pelos familiares, que por culpa deles estavam incapacitados para ocupar cargos públicos, mas também pelos feligreses e os reitores das igrejas onde se penduravam, às que se transladava a infâmia. Mas a Inquisição não mudou de parecer e manteve esta disposição até finais do século XVIII.[7]

Emilio A Parra e María Anjos Casado situam em meados do século XVIII o desaparecimento do costume de colocar nas igrejas os sambenitos dos condenados..[8]

O sambenito na atualidade[editar | editar código-fonte]

Na atualidade utilizam-se expressões como "levar um sambenito" (llevar un sambenito), "te penduram um sambenito" (te cuelgan un sambenito) ou "carregar a alguém um sambenito" (cargar a alguien un sambenito) com o significado de carregar com uma culpa imerecida ou perder a reputação e ser desprezado por alguma discriminação.

Referências

  1. Américo Castro, Revista de Filología Española, XV, 179-80. Quoted in santo, Diccionario Crítico Etimológico Castellano e Hispánico, volume 5, page 155, Joan Corominas and José A. Pascual, Editorial Gredos, 1991, ISBN 84-249-0879-1.
  2. a b c Pérez 2012, p. 147.
  3. a b Kamen 2011, p. 195.
  4. Kamen 2011, p. 203.
  5. José Amador de los Ríos, Historia de los judíos de España y Portugal, t. III, p. 489.
  6. Kamen 2011, p. 235.
  7. Kamen 2011, p. 236.
  8. La Parra López & Casado 2013, pp. 31-32.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Kamen, Henry (2011) [1999]. A Inquisición Espanhola. Uma revisão histórica (3ª edição). Barcelona: Crítica. ISBN 978-84-9892-198-4. 
  • A Parra López, Emilio; Casado, María Anjos (2013). A Inquisición em Espanha. Agonia e abolição. Madri: Os Livros da Catarata. ISBN 978-84-8319-793-6. 
  • Pérez, Joseph (2012) [2009]. Breve História da Inquisición em Espanha. Barcelona: Crítica. ISBN 978-84-08-00695-4.