Tuna

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Tradições académicas
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Uma Tuna é um agrupamento musical, caracterizado por ser constituído por cordofones. O termo Tuna designa e circunscreve, aliás, o tipo de agrupamento segundo o leque instrumental que utiliza. Pode apresentar-se como mero agrupamento instrumental (a sua primeira origem), bem como na versão canto e instrumento (actualmente em voga). A tuna pode ser de natureza popular ou de natureza estudantil (derivando da estudantinas do século XIX e inícios do XX), tocando sentada ou de pé (ou num misto dos dois, conforme fez escola nos agrupamentos canários, por exemplo).

As Tunas de feição estudantil são apelidadas de Tunas Académicas, ou Universitárias quando agrupam estudantes ligados a uma Universidade). A tuna académica, pode ainda dizer respeito às formações compostas por estudantes do liceu (formações muito numerosas no século XIX e de que há registo até aos anos 60-70 do século XX).

Origem[editar | editar código-fonte]

A Estudantina de Coimbra, fundada em Maio de 1888, que deu origem à atual Tuna Académica da Universidade de Coimbra.

A origem destes agrupamentos encontram-se a partir da 2.ª metade do século XIX, embora haja indícios de existirem formações do género no foro popular, um pouco antes.

Já a pretensa ligação aos Goliardos é comprovadamente mais uma colagem romântica do que um facto histórico - tese defendida por alguns, a propósito da suposta herança goliardesca nas tunas, mas logo repudiada em "QVID TUNAE?"[1], onde também a tese dos sopistas, jograis, trovadores, menestréis e afins, como antepassados dos Tunos e das Tunas, é pronta e documentalmente descartada.

A Tuna Académica é um agrupamento constituído por estudantes essencialmente do ensino superior (embora nas primeiras décadas do século XX tenham sido comuns as tunas compostas por alunos de liceu, entre outros). O repertório musical das tunas é extremamente variado, indo desde adaptações de temas de autor, passando pela música erudita, até composições originais cuja temática incide essencialmente na vida boémia estudantil, na celebração do amor, mantendo afinidades temáticas com o fado e um certo estilo de música muito em voga em meados do século XX, de cariz humorístico e brejeiro - picaresco, portanto. Envergam usualmente o traje académico da instituição que representam, sem prejuízo de em certos casos serem criados trajes especificamente para o efeito - inspirados, em todo o caso, quer em trajes estudantis antigos, quer com adaptações de elementos etnográficos da região a que pertence.

As tunas preservam uma tradição secular, com raízes na vizinha Espanha.

A Tuna Portuense (fundada em 1888), também apelidada de Estudantina Portuense (entre outras designações), em 1897.

As tunas "chegaram", a Portugal no século XIX, havendo já registos das mesmas (com o nome Tuna ou Estudantina - termos sinónimos) desde antes da década de 1870 (embora no foro popular), sendo que a visita da Tuna de Santiago de Compostela, em 1888 e, depois a de Salamanca à Universidade de Coimbra, marcam os primeiros passos da institucionalização da Tuna. Mais ou menos na mesma altura (1888) nasce a Estudantina Portuense e a Estudantina de Coimbra, seguindo-se outras (Viseu, Figueira da Foz, Lisboa.....) quer nas escolas superiores da época ou a nível liceal (o actual ensino secundário), das quais subsiste apenas, actualmente, a Tuna Académica do Liceu de Évora (1902).

De notar que a tradição das estudantinas já era bem conhecida no nosso país, antes de 1888, com a existência de tunas de estudantes em Lisboa e Braga, por exemplo, na já referida década de 1870, segundo nos conta o "QVID TUNAE?".[1]

O fenómeno "Tuna" não se fixou apenas no contexto académico. De facto, foi fora do contexto universitário que este tipo de agrupamentos conheceu maior pujança ao longo de todo o século XX, um pouco por todo o país. Estes agrupamentos de cariz popular receberam outro tipo de designações, além do de tuna: orquestra popular, orquestra típica, conjunto típico, entre outras. Segundo uma definição que contém tanto de simplista como de verdadeira, no parecer de Ernesto Veiga de Oliveira, uma tuna seria "Um grupo de pessoas que não sabe música e que toca música para aqueles que a sabem", numa alusão ao carácter assumidamente amador e voluntarista deste tipo de agrupamentos (embora essa afirmação nada tenha de científico ou real). Ainda assim, a Tuna diferenciava-se das orquestras e tocatas pelo elenco dos instrumentos utilizados. A Tuna era apenas cordofones. A orquestra, essa, já incluía outros instrumentos.

Tuna Académica do Liceu de Évora, ca. 1940

A definição para este tipo de agrupamento, segundo o "QVID TUNAE?", será a seguinte:

Tuna/Estudantina - Tendo surgido inicialmente em Espanha em meados/finais do século XIX com a designação de estudiantinas, as tunas são agrupamentos musicais tanto de âmbito popular (urbano e rural) como estudantil. São constituídos essencialmente por instrumentos de cordas (cordofones) plectrados, dedilhados e friccionados, acompanhados de acordeão, flautas e percussão ligeira. Nos agrupamentos de cariz estudantil, a pandeireta é ícone histórico indispensável.As tunas podem apresentar se em palco tanto sentadas (em disposição orquestral clássica) como de pé. Interpretam um repertório eclético, do erudito ao popular, acompanhando a execução instrumental com canto (a solo ou em coro), característica mais visível nos agrupamentos estudantis.As tunas de cariz estudantil, e em especial as do foro universitário, envergam o traje da academia em que se integram ou indumentária própria (usualmente baseado na tradição das tunas do país vizinho e/ou evocativo do património cultural local). São normalmente constituídas por estudantes e antigos estudantes, recebendo a designação de «tunas de veteranos» ou «quarentunas» quando são exclusivamente compostas por estes últimos.[1]

Na sua visita a Portugal em 1888, a Estudantina Compostelana - e na época, tal como hoje, Estudantina e Tuna eram dois termos que definiam o mesmo conceito - serviu de inspiração à fundação da Estudantina Portuense, em Março, e da Estudantina de Coimbra, em Maio.

Em 1889, nasce a Estudantina Viseense (uma outra descoberta recente dos citados autores do "QVID", posterior ao livro) e temos registo de uma Tuna Compostela do Funchal (ilha da Madeira), a imitar a original, e, em 1890,a Estudantina da Escola Médica de Lisboa e a Estudantina da Figueira da Foz. Em 1891 regista-se também a existência da Tuna Académica Lamecense. São os mais antigos exemplos (sem contar com as fugazes formações da década de 1870 que ocorrem em épocas de carnaval) da institucionalização da Tuna em Portugal (seguindo dezenas de fundações nos anos seguintes). Em 1895, será fundada a TAL (Tuna Académica de Lisboa) e a Tuna Académica Vilarealense.

A Estudantina Espanhola que fez enorme sucesso no Carnaval de Paris em 1878.

Em finais do Século XIX, inícios do de XX, o fenómeno das Estudiantinas popularizou-se em Espanha e fora dela com particular destaque para a Estudiantina Espanhola (a qual, em 1878 fará grande digressão a Paris), a Estudiantina Pignatelli e, obviamente, a mais conhecida e importante de todas: Estudiantina Figaro, composta de músicos profissionais, que influenciou sobremaneira a formação de agrupamentos deste género um pouco por toda a Europa, para lá da América Central e do Sul, a qual esteve em Lisboa em Julho de 1878.

De salientar que a "Fígaro" foi quem "desenhou" a Tuna. No que diz respeito ao traje, o qual não é traje estudantil nenhum, mas uma mescla de roupagens da época do "siglo de Oro", que desencantaram no guarda-roupa de um teatro Madrileno e inspiraram, assim, os trajes dos grupos que se viriam a formar, tendo em conta que o traje estudantil, em Espanha, fora abolido há muito.

Em termos de repertório, a influência da Estudiantina Espanhola de 1878, e da Fígaro, vão definir o modelo: repertório erudito, clássico, com incursões ao popular.

Muitas estudiantinas não eram, pois, compostas exclusivamente por estudantes universitários e, em alguns casos, nem ligadas à Universidade eram, sequer.

Foi por causa da apropriação do termo "estudiantina", pelo foro civil e popular que os estudantes reabilitam o termo "Tuna", no intuito de distinguirem as Estudiantinas de Estudantes, de facto, das que o não eram.

Em Portugal, tal não resultou (havia estudantinas e tunas quer de estudantes quer de civis) pelo que, a partir de determinada altura, se sentiu a necessidade de acrescentar a designação "Académica"[2].

A crescente popularidade das Estudiantinas como a Figaro ou a Pignatelli, p.ex - finais Século XIX e inícios do de XX - guindou este modelo para patamares de elevado sucesso social e até politicamente utilizadas, desviando-se ou mesmo ignorando de todo o hábito de antanho do "correr a Tuna" característico do estudante pobre de tempos anteriores. O formato Estudiantina vence também pela força da comparsa carnavalesca tão em voga naqueles tempos - a Estudiantina de Salamanca esteve presente no Carnaval do Porto organizado pelo Clube Fenianos, havendo relatos da sua participação em 1890 e anos posteriores; em 1905, por exemplo, foi distinguida com o 2.º prémio do cortejo (mesmo apresentando-se fora de concurso), bem como existe constância neste mesmo evento e ano da Estudiantina de Córdoba.[1]

A Tuna, contrariamente ao mito propalado, apenas surge no século XIX, derivando das estudantinas carnavalescas (e estas da comparsas de carnaval). Antes disso não existe tuna, mas tão só o ideário de "correr la tuna", a que muitos estudantes aderiram - daí a designação "estudiantes de la tuna" (erradamente entendido como membros de uma Tuna), ou seja um modo de vida caracterizado pela mendicidade, o engano, a cata de sustento (através dos mais variados expedientes- alguns musicais e artísticos, outros na trapaça, no engano) que não era exclusivo do foro estudantil (pese embora ter permanecido a imagem do estudante boémio, em razão do prestígio que as gentes de letras, com estudos, sempre tiveram).[1]

Na actualidade, e desde o ressurgimento do fenómeno no contexto universitário, durante os anos 80 do século passado, a tuna académica/universitária é entendida como um grupo musical composto exclusivamente por alunos ou ex-alunos do ensino superior, embora tal não obste à existência de tunas académicas fora da geografia universitária (mas, nesse caso, já não há o uso do traje académico, só permitido aos que frequentam um curso superior).

Etimologia[editar | editar código-fonte]

Havendo muitas teorias, os investigadores do "QVID TUNAE?" apontam com a mais plausível a que defende a origem em "thune" -"albergue para mendigos", embora façam também a análise detalhada de todas as demais e apresentem provas e argumentos que suportam ou descartam essas várias teses.

Principais instrumentos utilizados[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", Porto (2011), Euedito. ISBN 978-989-97538-0-8;
  2. Note-se que o termo "Escolar" era igualmente utilizado para distinguir as estudantinas e tunas compostas apenas de estudantes.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", Porto (2011), Euedito. ISBN 978-989-97538-0-8;
  • SARDINHA, José Alberto. Tunas do Marão. Vila Verde, Tradisom, 2005. ISBN 972-8644-08-6;

Ver também[editar | editar código-fonte]