Ahmad al-Muqtadir

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa

Abu Jafar Ahmad ibn Sulayman al-Muqtadir Billah (em árabe: أبو جعفر أحمد "المقتدر بالله" بن سليمان; transl.: Abu Ja'far Ahmad al-Muqtadir bi-Llah ibn Sulayman) foi rei da taifa de Saragoça entre (1046 e 1081).

Abu Ja'far 'Ahmad al-Muqtadir Billah, da dinastia dos Banu Hud, levou a taifa de Saragoça ao seu máximo apogeu político e cultural. Foi mecenas das ciências, da filosofia e das artes. Mandou construir o belo palácio de la Aljafería onde se reuniram importantes intelectuais andaluzis.

Al-Muqtadir conseguiu reunir sob o seu mandato as terras dos domínios de Saragoça repartidas entre os seus irmãos por seu pai Sulayman banu Hud al-Musta'in. Apenas Yusuf, governador de Lérida, resistiu durante mais de trinta anos as tentativas de integração do seu irmão, até ser feito prisioneiro em 1078.

Foi o período de máximo esplendor da Taifa saragoçana, a qual, na segunda metade do século XI, apenas teve rival na Taifa de Sevilha de Al-Mutamid. As suas fronteiras chegaram até o Mediterrâneo, quando, a partir de 1076 reuniu sob o seu domínio as taifas de Tortosa e de Dénia, sendo vassalo seu o rei da taifa de Valência.

Contudo, a difícil situação de Saragoça, ameaçada pelo reino de Aragão de Ramiro I e Sancho Ramírez e em constante litígio fronteiriço pelas terras da estremadura navarra e castelhana (Tudela, Sória, Guadalajara), obrigavam tanto Al Muqtadir como Yusuf de Lérida a pagar párias aos seus vizinhos cristãos, em especial ao poderoso Afonso VI de Castela. Até o ponto de, em 1081, o seu sucessor, Al-Mutaman ter de contratar os serviços de um mercenário castelhano, Rodrigo Díaz de Vivar, conhecido mais tarde como "El Cid".

História do reinado de Ahmad I al-Muqtadir[editar | editar código-fonte]

Ao obter o reino de Saragoça em 1046, al Muqtadir foi reduzindo os seus irmãos à sua obediência, que foram situados à frente do governo dos diferentes distritos da Taifa. Excepto Lubb de Huesca, que cedo reconheceu a seu irmão como seu senhor, tanto Muhammad em Calatayud quanto Mundir em Tudela começaram a cunhar moeda com o seu nome, outorgando-se títulos soberanos. Em 1051 Ahmad al-Muqtadir já teria destronado três dos seus quatro irmãos (exceto Yusuf al-Muzaffar de Lérida) recorrendo até mesmo a ciladas não muito nobres.

Painel decorativa taifal da Aljafería

Yusuf tentou até mesmo dominar Saragoça, atacando o seu irmão al-Muqtadir, que, por sua vez, e para impedir que Lérida se aliasse com exércitos cristãos para consegui-lo (sobretudo estavam interessados nisso os condes catalães pelas recompensas territoriais que poderiam obter), deveu começar com a sua política de aplacá-los pagando-lhes párias em troca da não intervenção. Assim, um dos males endêmicos de Saragoça começou pronto a manifestar-se, pois as grandes necessidades de dinheiro para tributar aos reinos cristãos provocaram contínuas subidas de impostos, o que implicou um descontente crescente da classe produtiva de Saragoça. Além disso, a economia da taifa ressentia-se ao mesmo tempo que aumentava a disponibilidade de numerário duns reinos cristãos cujo metálico era de escassa entidade até então. O cargo mais oneroso para as arcas de al-Muqtadir foi ser tributário do poderoso reino de Castela, que o defendia dos ataques do rei aragonês. Já em 1060, Fernando I de Castela cobrava o imposto anual do rei de Saragoça. Em 1058 tentara assinar a paz com Yusuf de Lérida para evitar pagar párias ao conde de Barcelona, Raimundo Berengário I (até mesmo consta que receberam tributos de Saragoça em algum momento entre 1048 e 1063 Raimundo de Cerdanha, Armengol III de Urgel, Ramiro I de Aragão e Garcia de Pamplona), mas a desconfiança entre os dois irmãos impediu o acordo.

Em 1060, um acontecimento inesperado viria a iniciar a expansão para levante de Ahmad I al-Muqtadir, obtendo saída ao mar. Ao falecerem os dois régulos eslavos da taifa de Tortosa, Muqatil e Ya'la, um terceiro que os sucedeu, chamado Nabil ou Labil, não pôde manter-se no poder, acossado por pressões internas e do exterior e, com os seus súditos sublevados, abandonou a taifa e entregou-a a al-Muqtadir em troca de asilo político. Assim começou uma expansão territorial que ocuparia todo o Levante com a vassalagem de Valência em 1076 e a rendição de Lérida em 1078. Paradoxalmente, o seu poderio com referência ao restante dos reis taifas da zona contrasta com a debilidade mostrada ante os pujantes reinos cristãos, aos que apenas podia fazer frente pagando em troca de alianças, apoios militares e exércitos mercenários, como o do desterrado Cid.

Em meados do século XI, a fronteira norte do reino hudi situava-se na atual Barbastro, e dispunha de um forte em Graus. Ramiro I de Aragão tentou repetidas vezes apoderar-se destes pontos estratégicos que formavam uma avançada em forma de cunha entre os seus territórios. Em 1063 cercou Graus, mas Al-Muqtadir em pessoa, à frente de um exército que incluía um contingente de tropas castelhanas no comando de Sancho, o futuro Sancho II de Castela, que talvez contava na sua mesnada com El Cid, conseguiu rejeitar os aragoneses, que perderam o seu rei nesta batalha, aparentemente assassinado por um soldado árabe, chamado Sadaro, que falava romance e que ia disfarçado de cristão e que, achegando-se ao real de Ramiro I, cravou-lhe uma lança na testa. O seu sucessor, Sancho Ramírez, com a ajuda de tropas de condados francos ultrapirenaicos chamadas a cruzada pelo papa Alexandre II, tomou Barbastro em 1064.

No ano seguinte, Ahmad al-Muqtadir, reagiu solicitando a ajuda de tudo o Al-Andalus, chamando pela sua vez à jihad e voltando a recuperar Barbastro em 1065. Este triunfo induziu-o a tomar o apelido de Al-Muqtadir Billah ("o poderoso graças a Deus), que imediatamente mandou gravar em inscrições cúficas nas gessarias de la Aljafería, que então estava construindo, com as lendas "Isto é o que mandou fazer o poderoso graças a Deus" (ou seja, Al-Muqtadir Billah).

Apesar da perda de Barbastro, o reino de Aragão era uma força emergente e nesse mesmo ano tomou o castelo de Alquézar. Para contra-arrestá-lo, al-Muqtadir assinou tratados em 1069 e 1073 com Sancho IV, rei de Pamplona, pelos quais obtinha a ajuda navarra em troca de párias. A aliança com o rei pamplonês deteve por um tempo o expansionismo aragonês, mas Sancho IV faleceu pronto, em junho de 1076, assassinado por obra de uma conjura dos seus irmãos Raimundo e Ermesinda.

A leste, a rica taifa de Dénia, que fora uma potência marítima e comercial na época de Mujahid e o seu filho Ali (que casou com uma irmã de al-Muqtadir), estava subordinada ao grande al-Mamun de Toledo, que faleceu envenenado em 1075. Al-Muqtadir aproveitou esta ocasião para se apresentar em Dénia com um exército notável, animado por um vizir daquele soberano chamado Ibn al-Royólo, que conseguiu movimentar a população em favor do monarca saragoçano. Negociou-se sem batalha a entrega da Taifa de Dénia a al-Muqtadir em 1076, com o que os domínios de Saragoça estenderam-se até a atual Múrcia.

Mapa da máxima extensão da Taifa Hudi na época de Ahmad I al-Muqtadir em 1076

Após este sucesso, Ahmad I al-Muqtadir fixou o seu objetivo em comunicar os seus domínios, interrompidos pela Taifa de Valência. Esta era governada por Abu Bakr de Valência, que estivera subordinada politicamente a Toledo e estava na órbita de Afonso VI, de quem dependia de fato. Al-Muqtadir dirigiu-se para Valência com as suas tropas e Abu Bakr saiu ao seu encontro e declarou-se o seu vassalo. Assim, Valência passou a ser uma taifa vassala do senhor de Saragoça e, em troca, este manteve o rei-títere Abu Bakr em Valência no poder. Não podia efetuar uma conquista mais efetiva, pois, tanto Afonso VI, quanto o restante dos régulos de taifas, estavam muito receosos do excessivo poder que acumulava o rei de Saragoça.

Nos seus três últimos anos de governo, de 1078 a 1081, Al-Muqtadir concentrou as suas forças em conseguir submeter ao seu poder a taifa de Lérida, onde resistia o seu irmão Yusuf al Muzzafar. Após muitos confrontos, fê-lo prisioneiro na fortificação de Rueda e conseguiu o reconhecimento do seu domínio sobre Lérida por parte do seu irmão. Em que pese a isso, e tal e qual fizera seu pai Sulayman, voltou a dividir o reino ao entregar ao seu filho al-Mutamin Saragoça e a zona ocidental, e ao seu filho al-Mundir, Lérida, Tortosa e Dénia. No fim de 1081 Al-Muqtadir, aparentemente gravemente doente, teve de delegar o poder nos seus filhos, falecendo em 1082.

Além do seu talento político e militar, Ahmad I al-Muqtadir foi um rei sábio, com amplas inquietudes artísticas e culturais. Como amostra do esplendor do seu reinado mandou erigir um palácio-fortificação na explanada da saria saragoçana, na Almozara, onde se celebravam as paradas militares, as festas das vitórias e os exercícios equestres:A Aljafería (al-Jafariya deriva de um dos seus nomes, al-Jafar). Este suntuoso palácio foi a sede da sua Corte, criando nas suas dependências um centro de cultura onde acudiram intelectuais e artistas de todos os pontos do al-Andalus, buscando um refúgio de tolerância e mecenato na Taifa mais setentrional e afastada do influxo almorávida pela sua distância e por ser regida por uma dinastia hispano-árabe. Lá confluíram poetas, músicos, historiadores, místicos e, sobretudo, nasceu a melhor escola de filosofia do Islão, com a incorporação plena de Aristóteles à filosofia árabe, trabalho que, iniciado no Oriente por Avicena (Ibn Sina), foi desenvolvido com um critério independente por Avempace (Ibn Bayya). O trabalho de Avempace foi o ponto de partida da filosofia hispano-árabe, que foi continuada por Averróis (Ibn Rushd) e na cultura hebraica por Maimônides.

Precedido por
Sulayman ben Hud al-Musta'in
Al-Muqtadir
Rei taifa de Saragoça

10461081
Sucedido por
Al-Mutaman

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • CERVERA FRAS, M ª José, El reino de Saraqusta, Zaragoza, CAI, 1999. ISBN 84-88305-93-1
  • CORRAL, José Luis, Historia de Zaragoza. Zaragoza musulmana (714-1118), Zaragoza, Ayto. de Zaragoza y CAI, 1998. ISBN 84-8069-155-7
  • MONTANER FRUTOS, Alberto, "Introducción histórica" ao capítulo "El palacio musulmán", em: Bernabé Cabañero Subiza et alt., La Aljafería (vol. I), Zaragoza, Cortes de Aragón, 1998. pp. 35–65. ISBN 84-86794-97-8
  • VIGUERA MOLINS, María Jesús, Aragón musulmán, Zaragoza, Mira editores, 1988. ISBN 84-86778-06-9
  • VIGUERA MOLINS, María Jesús, El islam en Aragón, Zaragoza, CAI, (Col. «Mariano de Pano y Ruata», nº 9), 1995. ISBN 84-88305-27-3

Referências

  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em espanhol, cujo título é «Al-Muqtadir».

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • Mapa de máxima extensão da Taifa Hudi na época de Al-Muqtadir ([1]).