Emília

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Emília
Morada Sítio do Picapau Amarelo
Espécie Boneca de pano
Família Encerrabodes de Oliveira
Criado por Monteiro Lobato
Gênero(s) Feminino
Primeira aparição A Menina do Narizinho Arrebitado
Última aparição Histórias Diversas
Interpretado por Dirce Migliaccio
Reny de Oliveira
Suzana Abranches
Isabelle Drummond
Tatyane Goulart
Isabela Guarnieri (atualmente)
Projecto Literatura  · Portal Literatura

Emília é uma das personagens principais da obra infantil de Monteiro Lobato, na série relacionada ao Sítio do Picapau Amarelo.[1]

Sobre[editar | editar código-fonte]

Emília, na trama criada por Lobato, foi feita por Tia Nastácia para a menina Narizinho. Nasceu muda e é curada pelo dr. Caramujo, que lhe receitou uma "pílula falante". Emília, então, desembesta a falar: "Estou com um horrível gosto de sapo na boca!". Narizinho, preocupada, pediu ao "doutor" que a fizesse vomitar aquela pílula e engolir uma mais fraquinha. Mas, explicou Caramujo, aquilo era "fala recolhida", que não podia mais ficar "entalada".[2] Ela é conhecida por volta e meia "abrir sua torneirinha de asneiras", principalmente quando quer explicar algo de difícil explicação ou justificar uma ação ou vontade. Além de falar muito, também costuma trocar os nomes de coisas ou pessoas por versões com sonoridade semelhante.

Emília é uma boneca de pano, recheada de macela. Em muitas histórias, ela troca de vestido, é consertada ou é recheada novamente. Narizinho também faz e refaz suas sobrancelhas (segundo Reinações de Narizinho) e seus olhos (que são de retrós e por isso arrebentam se Emília os arregala demais). Ela é capaz de andar e se movimentar livremente, porém muitas vezes é tratada por Narizinho como uma boneca comum e é "enfiada no bolso".

Por ser uma boneca, embora evolua e vire gente, Emília pode cometer impunemente pecados infantis como birra, malcriação, egoísmo, teimosia e espertezas. Diz o que pensa e quando leva bronca, finge que não é com ela. Não teme nada, apronta todas e é cheia de vontades.

Em A reforma da natureza, ela inventa o "livro comestível": "(...) Em vez de impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. (...) O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas, lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura, está almoçado ou jantado." Através da boneca, Lobato expressa a idéia de leitura prazerosa.

Livre de obrigações sociais impostas pela educação à criança, é ela quem melhor se define: quando Visconde lhe perguntou que criatura ela era, respondeu:

"Sou a independência ou Morte".[3]

É uma boneca/menina muito inteligente, Bonita e Divertita. Nao é nem um pouco timida e pode conhecer e ficar amiga de pessoas rapidamente! Todos gostam de conversar e ficar perto dela!

Dentro das histórias do "Sítio", Emília foi biografada pelo Visconde de Sabugosa. Todo cheio de conhecimento enciclopédico, ele aproveita para dizer umas verdades sobre a boneca: "Emília é uma tirana sem coração. (...) Também é a criatura mais interesseira do mundo. (...) Só pensa em si, na vidinha dela, nos brinquedos dela".

Origens[editar | editar código-fonte]

A boneca de retalhos de Oz

Lobato travara contato com as ideias pedagógicas de Anísio Teixeira, e por elas se entusiasmara. Torna-se grande amigo do educador baiano, e há sérias razões para se acreditar que a personagem nada mais era que uma brincadeira entre ambos - já que "Emília" era como se chamava a esposa do pedagogo.

Diversos bonecos falantes permeiam a literatura infantil, desde Pinóquio. Sem dúvida, a literatura de L. Frank Baum deve ter influenciado Lobato, como todos aqueles que lhe foram pósteros e se aventuraram na escrita infantil. O Espantalho e até mesmo "The Patchwork Girl of Oz" certamente foram bases sobres as quais nasceu Emília.

Uma boneca em especial existe no conto russo "A Bela Vasilissa". A personagem título do conto é possuidora de uma boneca abençoada por sua mãe, que ganha vida ao ser alimentada. Quando a menina acaba prisioneira da bruxa Babayaga, a pequena boneca a ajuda a executar os trabalhos impostos pela feiticeira, e mais tarde a ajuda a escapar, pois a feiticeira tinha aversão a objetos e pessoas abençoados. Curiosamente, a personagem Vasilissa, assim como Narizinho também se casa com um rei ao final do conto.

Diversos autores consideram Emília como um alter ego do Autor. Nela, Lobato exprimiria, muitas vezes, suas próprias opiniões que, por contrariarem o senso comum da época, foram colocadas na boca de uma criatura cuja índole era irresponsável e que, por ter enchimentos de macela, falava sem pensar. "A Emília é infernal", bem definiu Lobato: "Quando estou batendo o teclado, ela posta-se ao lado da máquina e quem diz que eu digo o que eu penso?".

A irreflexão é a principal marca da boneca mais famosa da Literatura Brasileira. Suas "asneiras" dão-lhe encanto próprio, graça que fizeram-na deixar o papel a que estava destinada, como personagem secundária, para ser uma das principais - a principal, ao menos para os leitores, curiosos para saber o quê ela irá aprontar.
 
Monteiro Lobato,

A personagem ganhou livros quase que inteiramente lhe dedicados.

A criatura foge ao "criador"[editar | editar código-fonte]

Em carta dirigida a Godofredo Rangel, Lobato declarou:

Emília começou uma ridicula,feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo - aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: 'Mas que você é, afinal de contas, Emília:' ela respondeu de queixinho empinado: 'Sou a Independência ou Morte.' E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la
 
Monteiro Lobato, in: Barca de Gleyre, 14ª ed, Brasiliense, S.Paulo, 1972),

Em A reforma da natureza, ela inventa o "livro comestível": "(...) Em vez de serem impressos em papel de madeira, que só é comestível para o caruncho, eu farei os livros impressos em um papel fabricado de trigo e muito bem temperado. (...) O leitor vai lendo o livro e comendo as folhas, lê uma, rasga-a e come. Quando chega ao fim da leitura, está almoçado ou jantado." Através da boneca, Lobato expressa a ideia de leitura prazerosa.

Personificações[editar | editar código-fonte]

Desde sua criação, em "A Menina do Narizinho Arrebitado", livro publicado em 1920, Emília mereceu diversas representações por grandes ilustradores, no Brasil e no exterior - pesquisados por Camilla Cerqueira César e Cecília Reggiani Lopes.

"Uma bonequinha sem-graça, quase despersonalizada", foi assim que a primeira Emília foi vista por Voltolino. Sem dedos nas mãos, os cabelos eram rabiscos que seguiam a descrição inicial de Lobato:

Uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo. Emília foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa."

Muitos ilustradores não deixaram assinatura em edições que se seguiram, mesmo que rebuscadas. Algumas dessas trazem uma Emília já cabeludinha e, sendo todas em preto e branco, grossos cabelos negros curtos são a constante - já que as feições variam.

Jean Gabriel Villin traz uma Emília de cabelos claros, com pernas e braços afilados e compridos (1931-34); Belmonte traz uma Emília com feições mais humanas, tendo evoluído para as bonecas que imitavam o rosto infantil - mantendo os "olhos de retrós", ou seja, dois pontos negros (1936-39). Rodolpho (1944) coloca Emília nas proporções devidas - pequenina como as bonecas de pano devem ser e, claro, sem nariz. Jurandir U. Campos, conhecido pintor e genro de Lobato, já havia ilustrado a obra do sogro, sem modificações de vulto quanto à boneca Emília.

Na década de 60 dois extremos: as belas e elaboradas ilustrações de André Le Blanc[4] contrastam com as distorções mais artísticas que ilustrativas de Odiléia Toscano.

Finalmente, na década seguinte, Emília ganha personificações mais humanas. Quarenta anos depois de sua criação original, Manoel Victor Filho traz uma boneca com formas quase totalmente de menina [5] - até chegar na última personificação, mas ainda não "definitiva", feita pela artista Ely Barbosa, para a Rede Globo de Televisão, esta última adaptando a boneca às necessidades da nova mídia na qual a obra de Lobato vinha a inserir-se - ou seja, uma menina disfarçada de boneca. Com algumas alterações, sobretudo com o advento das cores na tv, Emília passou por constantes atualizações. No começo do século XXI, Emília tornou-se um grande sucesso comercial, com a venda de bonecas dos mais variados tamanhos e sempre dotadas de um visual extremamente colorido.

Durante inúmeras versões do Sítio do Picapau-amarelo para a televisão, a personagem Emília já foi interpretada por Lúcia Lambertini nas versões feitas do Sitío do Picapau Amarelo pela extinta TV Tupi (de 1951 a 1962) e pela Rede Cultura (1964) e Dulce Margarida; por Zodja Pereira na versão feita pela Rede Bandeirantes (1967 a 1969); por Dirce Migliaccio (em 1977), Reny de Oliveira (em 1978 a 1983) e Suzana Abranches (de 1983 a 1986), na versão feita da obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato, realizada pela Rede Globo; e por Isabelle Drummond (de 2001 a 2006) e Tatyane Goulart (2007), na versão produzida também pela Rede Globo.

Em dois momentos o Governo Federal "adotou" os personagens lobatianos. Passando pela ilustração de Gian Calvi, em 1973, nos selos em bloco comemorativo da obra de Lobato, em que uma Emília simplista entrega flores ao Lobato. Esta imagem é utilizada, também, no carimbo comemorativo ao 1º dia de lançamento, usado em Taubaté, São Paulo e Rio de Janeiro. Chega-se às imagens que foram cunhadas por Ely Barbosa - e modificadas até chegarem no modelo atualmente divulgado - em "cartilhas" do programa "Fome Zero" [6]

Referências

  1. Personagens do Sítio Literatura Infantil.
  2. COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil. Ática, SP, 1991.
  3. SANDRONI, Laura. De Lobato a Bojunga - as reinações renovadas. Agir, Rio de Janeiro, 1987.
  4. Emília - ilustração de André Le Blanc
  5. Emília - ilustração de Manoel Victor Filho
  6. Emília - ilustração de Roberto Fukue

Ligações externas[editar | editar código-fonte]