Ação social

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O termo ação social foi introduzido por Max Weber, em sua obra póstuma Economia e Sociedade em reação ao liberalismo europeu colonial católico ocidental.[1][2][3] É um termo mais abrangente que o fenômeno social de Florian Znaniecki, posto que o indivíduo executando ações sociais não é passivo, mas (potencialmente) ativo e reativo.[4] Posteriormente, Arnold Gehlen empregou-a para fundamentar sua obra O ser humano (1940). Também Georg Simmel entendia que o objeto de estudo da sociologia eram as formas assumidas pelas interações sociais. Outro precursor da teoria da ação é Vilfredo Pareto e sua distinção entre ações lógicas e ações não-lógicas. A ação social pode ser efetuada pela sociedade civil com uma pressão de relevância superior ao Estado por exemplo.[5]

Origens:

No entanto, é com Max Weber que se consolida a mais famosa classificação de tipos de ações sociais. Para ele a ação difere do comportamento porque nela está contido um sentido dado a ela pelo próprio agente. Cabe a sociologia compreender ou captar este significado e refletir sobre as consequências da ação. Com base nesta definição, Weber apresenta quatro tipos puros de ação:

  • Ações racionais com relação a valores: ações tomadas com base nos valores do indivíduo, mas sem pensar nas consequências e muitas vezes sem considerar se os meios escolhidos são apropriados para atingi-lo.
  • Ações racionais com relação a fins (também conhecidas como ação por fins, do alemão zweckrational)): ações planejadas e tomadas após avaliado o fim em relação a outros fins, e após a consideração de vários meios (e consequências) para atingi-los. Um exemplo seria a maioria das transações econômicas.
  • Ações afetivas: ações tomadas devido às emoções do indivíduo, para expressar sentimentos pessoais. Como exemplos, comemorar após a vitória, chorar em um funeral, seriam ações emocionais.
  • Ações tradicionais : ações baseadas na tradição enraizada. Um exemplo seria relaxar nos domingos e colocar roupas mais leves. Algumas ações tradicionais podem se tornar um artefato cultural.

No centro da teoria weberiana, portanto, está a racionalidade da ação que pode estar relacionada com interesses ou com valores. Na hierarquia sociológica, a ação social é mais avançada que o comportamento e é em sequência seguida por contatos sociais mais avançados, como a interação social e a relação social.

Desenvolvimento[editar | editar código-fonte]

Dando continuidade a teoria da ação social de Weber, Alfred Schütz se preocupou em analisar o problema da constituição intersubjetiva do significado. Ele enfatiza que os sentidos dados pelos atores as suas práticas não é construído por cada um isoladamente e leva em conta o próprio contexto da relação. Esse autor introduz na sociologia o conceito de mundo da vida (de Martins Cabaço) como instrumento de teorização do cotidiano dos indivíduos.

Outra importante teoria da ação foi proposta por Talcott Parsons no livro A estrutura da ação social de 1937: trata-se da sua teoria voluntarista da ação. Para esse autor a ação social precisa ser analisada segundo três elementos: agente (ator), a situação e os fins visados pelo ator social. Na fase seguinte de sua obra ele apresentou uma dicotomia de orientações da ação conhecidas como variáveis-padrão: afetividade x neutralidade afetiva, especificidade x difusão, qualidade x desempenho, universalismo x particularismo, orientação para si próprio x orientação para a coletividade. As relações médico x paciente, por exemplo são neutras afetivamente, específicas, baseadas em desempenho e universais. Parsons também adotou a tese da dupla contingência, teorema que leva em consideração a incerteza nas relações entre alter (ator social 1) e ego (ator social 2). Contudo, em suas obras seguintes Parsons adota uma orientação cada vez mais distante da teoria da ação social e passa a construir uma teoria dos sistemas de ação.

Essa orientação será combatida pelas correntes microssociológicas que buscam entender o cotidiano dos atores sociais, como é o caso da etnometodologia de Harold Garfinkel. Já teoria de Erving Goffmann é chamada de teoria dramatúrgica da ação social dado que para ele os atores sociais desempenham papéis de acordo com a situação e a necessidade.

Dentre as principais teorias contemporâneas da ação social, a chamada teoria da escolha racional ou Rational Choice adota a tese do homo economicus: os indivíduos dão preferência a cursos de ação movidos pela utilidade ou maximização de preferências. Consideram-se teóricas da escolha racional, entre outros, John Elster, James S. Coleman e Hartmut Esser. Um importante desenvolvimento dessa vertente é a chamada teoria dos jogos.

Essa visão é contestada pela teoria de Jürgen Habermas que distingue entre ações estratégicas e ações comunicativas. Cada um desses tipos de ação existe em espaços diferenciados: a ação comunicativa ocorre no mundo da vida e ação estratégica ocorre no nível dos sistemas econômico, político e jurídico.

Com a teoria de Pierre Bourdieu um novo conceito é introduzido na sociologia para refletir sobre a conduta humana: trata-se do conceito de prática social (termo retirado do conceito de práxis social de Karl Marx). Para Bourdieu as práticas sociais dos indivíduos tendem a se conformar a esquemas de percepção e ação que são incorporados pelos indivíduos em seu processo de socialização. Esses esquemas prévios de comportamento são chamados por ele de habitus. Os habitus são incorporados pelos indivíduos a depender do campo social no qual ocorre aquela prática social. Nas teorias pós-estruturalistas (como a de Michel Foucault) que combatem a centralidade da ideia de sujeito no pensamento social e no qual a figura do indivíduo é uma construção social, a conduta humana é referida como prática discursiva.

Na sociologia contemporânea as formas de conduta serão retomadas por Anthony Giddens que se refere a elas como agência social. Ele procura mostra que a agência social é constituída e ao mesmo tempo constituinte das estruturas sociais: entre as duas existe uma relação de complementaridade e não de superioridade. Uma visão bastante heterodoxa é defendida por Bruno Latour que, adotando o princípio da simetria, advoga que a agência não é uma exclusividade humana e que também elementos não humanos possuem poder de causação.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Dewey, J. (1963), Liberalism and Social Action, 93 pp. New York: Capricorn
  1. Dewey, J. (1963), Liberalism and Social Action, 93 pp. New York: Capricorn Citação: "“To put it inadequately, until the 19th century the overwhelmingly dominant ideological tradition was synthetic. And by that I mean the effort to establish and stabilise an all-subsuming ideology, one that would settle eternally the ascription of value to individuals, since that ascription is always and necessarily unstable. The Fall – Redemption pattern has been the most redundant mode of such an ideology.” "
  2. Tjibaou, Jean-Marie. 1976, ‘Recherche d’identité mélanésienne et société traditionnelle’, Journal de la Société des Océaniste
  3. Thomas, Pamela. «PACIFIC REFLECTIONS: PERSONAL PERCEPTIONS OF AID AND DEVELOPMENT» (PDF). Australian National University. DEVELOPMENT BULLETIN. Consultado em 16 de maio de 2021 
  4. «The Ultimate Divide and Conquer». OffGuardian (em inglês). 27 de julho de 2020. Consultado em 16 de maio de 2021 
  5. Chapter 1, Impasse In Race Relations, in Martin Luther King, The Trumpet of Conscience (Boston: Beacon Press, 2010) pp. 15-16