A Natividade Mística

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A Natividade Mística
Autor Sandro Botticelli
Data c. 15001501
Técnica óleo sobre tela
Dimensões 108.5  × 74.9 
Localização National Gallery, Londres

A Natividade Mística (cerca de 1500-1501), é uma pintura do grande mestre renascentista italiano Sandro Botticelli, exposto na Galeria Nacional de Londres. Botticelli construiu a imagem usando a pintura de óleo sobre tela. É sua única obra assinada, e tem uma iconografia muito pouco comum para a Natividade.[1]

A inscrição em grego no topo traduz-se assim:

  • "Esta imagem, no final do ano de 1500, nos problemas da Itália, eu Alessandro [verdadeiro nome de Botticelli], meia depois da hora do tempo, pintei, de acordo com o décimo primeiro [capítulo] de São João, segundo do Apocalipse, durante o lançamento do diabo para três anos e meio, então ele ai será obrigado no [capítulo] XII e veremos [ele enterrado] como na imagem."[2]

Botticelli, acreditava estar a viver durante a Tribulação, possivelmente devido às transformações na Europa na época, e devido à previsão do Milénio de Cristo, tal como indicado no texto bíblico.

Tem sido sugerido que a pintura pode estar ligada a Savonarola, cuja influência aparece numa série de pinturas finais de Botticelli,[3][4] embora o conteúdo da imagem pode ter sido pedido especificamente pela pessoa que a encomendou. A pintura utiliza a convenção medieval mostrando a Virgem Maria e o Menino Jesus maiores do que outras figuras à sua volta, o que certamente foi feito deliberadamente para o efeito.

Contexto Histórico e Aspectos Curiosos[editar | editar código-fonte]

A Natividade Mística descreve uma cena de alegria e celebração, de alegria terrestre e celeste, com anjos dançando no topo da pintura. No topo da pintura o nome de Botticelli - mas também as palavras apocalípticas e preocupantes. E também há premonições obscuras - a criança indefesa repousa sobre uma folha que evoca uma mortalha em que seu corpo um dia vai ser enrolado, enquanto a caverna em que a cena é montada chama a atenção para o seu túmulo. Os Reis à esquerda não têm ofertas, mas a própria devoção. Na parte superior da pintura doze anjos vestidos nas cores da fé, esperança e caridade dançam em círculo, segurando ramos de oliveira, e acima deles o céu aberto numa grande cúpula dourada, enquanto na parte inferior da pintura, três anjos abraçam três homens, aparente de conseguem até levantá-los do chão. Eles sustentam pergaminhos em latim, "paz na terra aos homens de boa vontade ". Atrás deles, sete demónios fogem para o submundo, alguns empalados nas suas próprias armas. "Nos tempos da Renascença pinturas do Juízo Final mostrou aos espectadores a contagem dos condenados e os que se salvam no momento da Segunda Vinda de Cristo. A Natividade Mística põe-nos a pensar que não é só o nascimento de Cristo, mas também o seu retorno .. "(Jonathan Nelson, da Universidade de Syracuse, em Florença).

A pintura surgiu na cidade de Florença, num momento em que o fanático pregador Savonarola tinha a cidade nas suas garras. Ele tinha chegado a Florença em 1490, mas foi repelido pela glória artística e enorme riqueza que tanto impressionou o mundo. Ele pregou que Florença era um lugar corrupto. Um grande flagelo estava a aproximar-se e, de seguida, suas palavras tinham assumido uma realidade aterradora: a Guerra Italiana de 1494-1498. Em 1494 um enorme exército francês invadiu a Itália e 10.000 tropas entraram em Florença, e os florentinos temia que o rei da França saqueasse a cidade. Savonarola entrou no vácuo político, ele se encontrou com o rei francês e persuadiu-o a sair de Florença pacificamente. Na sua gratidão e alívio, os florentinos, viram o frade como um profeta e as suas pregações atraiam multidões à Catedral de Florença. Savonarola alegou que Florença se poderia tornar a nova Jerusalém, se os cidadãos iriam se arrepender e abandonassem os seus luxos - o que incluía grande parte da sua arte. Sua opinião foi-se tornando real, por grupos de jovens evangélicos que foram para as ruas para incentivar as pessoas a largar seus luxos, seus retratos lascívos, os livros, as suas vaidades, pentes, espelhos, etc. Botticelli pode ter visto alguns dos seus quadros consumidos pelas chamas. No entanto, o artista nunca se opôs, como grande parte da cidade, também ele estava sob a influência de Savonarola. Parece que um sermão pregado por Savonarola interfere directamente com a criação da Natividade Mística.

Os discursos de Savonarola atraiam grandes multidões para a Catedral de Florença, como todos os outros assim também Botticelli era atraído.
Num dos sermões Savonarola pregava que, tinha tido uma visão em que uma multidão vinha direito a ele acabando por ver uma enorme coroa celestial. Na base da multidão estavam doze coroas e doze fitas enroladas em volta e escrito nestas, as qualidades místicas e os privilégios da Virgem Maria.[5]

Durante anos Savonarola teve Florença na sua mão, mas o seu governo fez poderosos inimigos políticos. Ele foi desafiado a provar a sua santidade, caminhando através do fogo e quando ele se recusou, a opinião voltou-se contra ele. Ele foi preso e, sob tortura, confessou ser um falso profeta. Em 23 de maio de 1498 foi enforcado, com dois dos seus principais tenentes, seus corpos queimados e suas cinzas atiradas ao Arno. Alguns vêem os três homens na parte inferior da pintura como representantes dos três executados, a levantarem-se e a serem restaurados para a Santa Graça - mas a perseguição e não a paz aguardava os seguidores de Savonarola e foi assim numa atmosfera de opressão que Botticelli pintou a Natividade Mística.

Características[editar | editar código-fonte]

A pintura é sobre tela - normalmente Botticelli teria usado o painel de madeira - talvez por ser uma pintura com uma mensagem perigosa, a lona tinha a vantagem que poderia ser enrolada e escondida. Com a sua tela preparada esboçou um projecto detalhado sobre o papel, só depois transferido para a tela. Baseou-se em várias fontes - a dança dos anjos lembram as suas três graças da "Primavera", o diabo foi inspirado numa gravura alemã. Raios-X mostram que muito pouco do projeto original foi alterado - só as asas de um anjo foram ajustadas e as árvores acrescentadas sobre o telhado do estábulo. Para criar a abóbada celeste, Botticelli embarcou nas práticas de ourives que tinha aprendido enquanto criança. "O simbolismo do ouro tem a ver com a natureza, imutável imaculado do céu - o ouro não deteriora, não escurece como a prata, Botticelli teria usado uma camada adesiva feita de óleo misturado com resina. - Não polido, o ouro só deu uma ajuda para tapar as irregularidades da superfície da tela. Fé, Esperança e Caridade, [os três anjos vestidos de branco, verde e vermelho] – foram escurecendo com o tempo transformando-se aos poucos em bronze. Originalmente teria sido vibrante".[6]

Destino do Quadro[editar | editar código-fonte]

Botticelli morreu em 1510. A Natividade Mística permaneceu escondida por mais de três séculos. Roma no final do século XVIII era muito diferente da Florença renascentista - excepto pela presença dos invasores franceses. Muitos estrangeiros saíram de Itália, mas não um jovem inglês, William Ottley.

Enforcamento e incineração do corpo de Savonarola na Piazza della Signoria - (Anônimo, 1498, Museu Nacional de São Marcos).

Era um amante da arte, e rico, com uma plantação com escravos nas Caraíbas. Ele comprou muitas pinturas a um preço baixo. Na Villa Aldobrandini viu uma obra pequena, desconhecida, a Natividade Mística de Botticelli. Botticelli era então nessa altura muito desconhecido.

Ao chegar a Londres, a casa de Ottley tornou-se num museu privado de obras de arte italiana. Após a morte de William Ottley, Fuller-Maitland de Stansted ganhou a pintura num leilão por &80. Quando a emprestou para uma Exibição de Arte em Manchester em 1857, a pintura esteve pela primeira vez em exposição publica.

"A partir do momento em que a arte de Botticelli é mostrada ao publico em Manchester, ouve uma grande mudança de opinião sobre o seu trabalho. Entre 1870 e finais de 1890, Botticelli torna-se uma figura de culto, alguém que todos os artistas da época diziam estar na linha da frente da arte que o mundo aspirava ser ideal. Dante Gabriel Rossetti, Edward Burne-Jones adaptaram elementos de Botticelli para o seu próprio trabalho. Burne-Jones copiou algumas ilustrações de Botticelli na Divina Comédia de Dante para os seus próprios livros. Rossetti demonstrou a sua afeição ao trabalho de Botticelli ao comprar o auto retrato de "Esmeralda Badinelli" [1] em 1867."[7]

John Ruskin ajudou a dar à pintura o nome pela qual hoje é conhecida, depois de vê-la em Londres, ele se referiu a um "simbolismo místico" de Botticelli. Quando Maitland morreu, o National Gallery de Londres entrou no jogo pelo quadro. De acordo com Nicholas Penny, a Galeria "estava interessada em comprar obras da Renascença -. Anteriormente tinha como a sua principal prioridade, comprar obras que não tinham controvérsia e sobretudo porque havia um elemento de excitação de vanguarda sobre a compra de imagens como esta no século XIX." A galeria teve que pagar &1.500, sendo quase 20 vezes mais cara se a tivesse comprado 30 anos mais cedo.

Galeria[editar | editar código-fonte]

Alguns detalhes:

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Referências

  1. Rupert Featherstone, Hamilton Kerr Institute, Cambridge, entrevistando em A Vida Íntima de uma Obra Prima, BBC 2009
  2. National Gallery
  3. Botticelli's Mystic Nativity, Savonarola and the Millenium" por Rab Hatfield em Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, vol. 58, 1995
  4. A Vida Íntima de uma Obra Prima
  5. Rab Hatfield, Universidade de Syracuse (Florença), falando na A Vida Íntima de uma Obra Prima, BBC TV 2009
  6. Rupert Featherstone, entrevistado em A Vida Íntima de uma Obra Prima, BBC TV Dezembro 2009
  7. Suzanne Fagence Cooper, entrevistada no programa da BBC A Vida Íntima de uma Obra Prima e na "Arte Pré-Rafael", Publicações V&A 2003

Ligações externas[editar | editar código-fonte]