Alfange (arma)

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Alfange

O alfange ( do árabe hispânico al-khanjar ou al-khanjal[1], que significa «o punhal») trata-se dum tipo de arma branca corto-perfurante de folha larga e curva, com gume só de um lado (o contragume, se o houver, poderá estar no último terço da lâmina), que se encontra a meio termo entre a espada de bordo europeia e o sabres asiáticos do próximo oriente, como os kilij turcos, e que, durante a Idade Média e até ao Renascimento, foi usada na Península Ibérica, boa parte do Mediterrâneo e primacialmente em Itália.[2][3]

Apesar do nome de origem árabe trata-se de uma arma de origem europeia, usada já desde o século XI.[4]

Disquisição: sabre ou espada[editar | editar código-fonte]

O busílis por de trás da palavra "alfange" está em definir concretamente a que tipo de arma corto-perfurante se referiria realmente, à época. Para começar, a definição mais antiga reporta-se a um tipo de sabre curto de origem muçulmano-oriental, que foi adoptado e modificado, tanto na Península Ibérica, como noutras partes da orla cristã do Mediterrâneo, onde foi introduzida.[5] Esta palavra também tende a ser usada para abarcar todas as armas de folha curva e gume único, desde o bracamarte, à messer alemã, ao fauchar francês, à storta italiana, aos kilij turcos. No português antigo também se terá usado para referir a chanfalhos e outros tipos de espadas curvas de folha larga.[6][7]

Na sua acepção principal, consiste numa evolução dos sabres asiáticos, presentes nos mais díspares territórios da China e Mongólia à Turquia, à qual se acrescentou a folha de lâmina larga de estilo medieval europeu.[4]

Soldado de alfange em punho

Por conseguinte o alfange não é exactamente como uma espada centro-europeia, nem muito menos tal qual um sabre moiro típico do Próximo Oriente, mas conjuga características dos dois.[8][9] É mais curto e mais pesado do que os sabres orientais, com um contragume típico que parece herdado da espada e com um guarda-mão em S, que também faz lembrar os chanfalhos tardios e os bracamartes. Este tipo de alfange tornou-se moda nas grandes cidades-estado italianas, como Veneza, e daí exportaram-se por todo o Mediterrâneo.[10][11]

Na obra de Juan Montalvo «Os capítulos de que se Esqueceu Cervantes» há uma passagem que menciona o alfange. Quando os vários cavaleiros europeus defrontam D. Quixote, cada qual porfiando pelo direito de chamar à sua dama a mais bela de todas, Late Ximénes do Porto, o cavaleiro andante lusitano, depois de dizer que iria trazer à luz da verdade o reconhecimento de que a sua dama, Rosinha, era a mais bela, é retrucado com o seguinte trecho:[12]

" - «Vós é que precisais dessa luz»- respondeu o manchego e encertou a batalha com uma talhada tão desmedida que, se a arma fosse um alfange, ali teria ficado o português para fazer ossadas."

História[editar | editar código-fonte]

A percursora dos alfanges, pelo menos no Ocidente, será a sax ou seax, um facão de um só gume, feito de aço fajuto e de empunhadura simples, utilizada pelos povos germânicos e escandinavos, por torno do de 450 d.C a 800 d.C.[13]

O alfange propriamente dito, surge na Idade Média, por volta do século XI, resultado de influências trazidas pelos sabres do próximo Oriente, tendo sofrido inúmeras permutações ao longo dos tempos e desdobrando-se numa infinidade de subtipos de armas.[8][14]

Alfange-cutelo[editar | editar código-fonte]

Alfange-cutelo

Até ao século XIV, um dos tipos mais populares de alfange usados foi o chamado alfange-cutelo (cleaver falchion em inglês), caracterizado por uma lâmina pesada, amiúde de um só gume, mais larga na ponta do que na empunhadura.[13] O grande mérito da configuração deste alfange é que permitia uma concentração maior do peso no gume da ponta da lâmina, conferindo-lhe assim uma força perfurativa concentrada na ponta da lâmina equiparável à de uma machada, quando aplicada a armaduras de cota de malha.[15][16]

No entanto, o grande defeito deste alfange prendia-se exactamente nesta distribuição peculiar do peso da lâmina na ponta, que tornava o manejo muitas vezes maljeitoso e lento, quando comparado a armas mais leves e lestas, como machetes e adagas.[8]

O alfange-cutelo tradicional teria cerca de 75 a 85 centímetros, in totum, pesando entre um quilo e meio a um quilo e oitocentos gramas, grosso modo.[17]

De perfil, a lâmina seria bastante fina com cerca de 1,2 milímetros de dorso.[18]

Alfange de ponta[editar | editar código-fonte]

Do século XIII ao século XVI também esteve bastante em voga o alfange de ponta (cusped falchion em inglês), por sinal mais ligeiro e afilado, de gume pouco curvo e ponta afiada, estava vocacionado para a estocada, embora também pudesse servir para corte. Teria pouco mais de 90 centímetros, dos quais os derradeiros 80 centímetros seriam a lâmina, geralmente recta, que remataria numa curva acentuada. Pesaria à volta de um quilo.[19]

Aparenta-se à kilij turca, sendo objecto de discussão se não terá surgido por influência dos sabres turco-mongóis surgidos na Europa por volta do século XIII, se bem que nessa altura esses sabres ainda não possuíam um remate da lâmina com uma curva tão acentuada.[20]

Neste alfange, o ponto de contacto situa-se ao meio da lâmina e o centro de gravidade fica a um terço do comprimento da arma a contar do punho.[21]

Narceja[editar | editar código-fonte]

Também chamado o sabre suíço (Schweizersäbel em alemão), surge no século XVI, era uma espada curva com guarda-mão em S, teria cerca de 1,15 centímetros de comprimento total, dos quais, dos quais 95 centímetros comporiam a lâmina. Pesaria cerca de quilo e meio. Recebeu a alcunha de "narceja", em alemão Schnepf ou Schnäpf, por virtude da semelhança do feitio da lâmina com o bico da ave com esse nome. [22]

Terçado[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Terçado
Terçado alemão

Embora já existisse desde o século XVI, tornou-se especialmente popular nos séculos XVII a XIX, às mãos da infantaria ligeira e artilharia.[23] Este alfange, também alcunhado de chifarote (fascine knife em inglês, braquemard em francês, storta em italiano e Malchus em alemão), estava dotado de uma lâmina larga e curta e de ponta afiada, tanto podia ser recta como curva, com um gume ou dois, podendo inclusive ter o contragume serrilhado.[24]. Não tinha copos no guarda-mão, teriam 75 centímetros de comprimento, dos quais a lâmina teria cerca de 50, pesando por volta de 1,35 a 2,25 quilos.[25]

É possível que tenha sido inspirada na espada baselarda, uma espada curta usada pelos mercenários suíços, nos finais da Idade Média. [26] Tanto podia ser usada como arma pessoal ou como instrumento utilitário, para cortar feixes, bardas e almiaras no campo de batalha, por esse motivo lhe chamaram fascine knife em inglês, fascine são bardas ou feixes de ramos, dispostos de feição a formar vedações ou barreiras, a atulhar valas e fossos, ou simplesmente para auxiliar no fabrico de construções temporárias de apoio militar .[27]

O nome “chifarote”, diminutivo jocoso de “chifra” ou “chanfra” (implemento de ferro, semelhante a faca, usado por encadernadores e outros artífices, para adelgaçar o coiro, ao raspá-lo, a isso se chama fazer o chanfro, a palavra por seu turno tem origens árabes, do árabe-hispânico xifrâ, que significa cutelo).[28]

Quanto ao nome “terçado”, cunhou-se por ser um alfange com um terço do tamanho de uma espada comum.[29]

O nome alemão adveio do nome do sacerdote hebraico de Caifás a quem, de acordo com o Evangelho segundo João, o apóstolo Pedro cortou uma orelha ao tentar defender Jesus (Malco).[30]

Referências

  1. https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/alfange
  2. Alchin, Linda. «Falchion sword». The Middle Ages. Consultado em 6 de Novembro de 2014 
  3. Capwell, Tobias; David Edge; Jeremy Warren (2011). Masterpieces of European Arms and Armour from the Wallace Collection. London: Wallace Collection. pp. 98–99. ISBN 978-0-900785-86-3 
  4. a b M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 52. 176 páginas 
  5. Oakeshott, Ewart (1980). European Weapons and Armour. Guildford & London: Lutterworth Press. p. 152. ISBN 0-7188-2126-2 
  6. Hellqvist, Björn. «The Conyers Falchion» 
  7. Collection, The Wallace. «The Wallace Collection – What's On – Treasure of the Month». www.wallacecollection.org (em inglês). Consultado em 6 de março de 2017 
  8. a b c Oakeshott, Ewart (1980). European Weapons and Armour. Guildford & London: Lutterworth Press. p. 152. ISBN 0-7188-2126-2 
  9. Alchin, Linda. «Falchion sword». The Middle Ages. Consultado em 6 de Novembro de 2014 
  10. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 52. 176 páginas 
  11. Collection, The Wallace. «The Wallace Collection – What's On – Treasure of the Month». www.wallacecollection.org (em inglês). Consultado em 6 de março de 2017 
  12. «Capítulos que se le olvidaron a Cervantes: 41 - Wikisource». es.wikisource.org. Consultado em 27 de junho de 2020 
  13. a b M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 52. 176 páginas 
  14. Hellqvist, Björn. «The Conyers Falchion» 
  15. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 52. 176 páginas 
  16. Oakeshott, Ewart (1980). European Weapons and Armour. Guildford & London: Lutterworth Press. p. 152. ISBN 0-7188-2126-2 
  17. Blair, Claude and Tarassuk, Leonid, eds. (1982). The Complete Encyclopedia of Arms and Weapons. p.17. Simon & Schuster. ISBN 0-671-42257-X.
  18. James G. Elmslie
  19. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 52. 176 páginas 
  20. Nathan Robinson. «German Falchion -- myArmoury.com». Consultado em 26 de Outubro de 2014 
  21. Oakeshott (1980), p.152
  22. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 53. 176 páginas 
  23. Oakeshott, Ewart (1980). European Weapons and Armour. Guildford & London: Lutterworth Press. p. 152. ISBN 0-7188-2126-2 
  24. Peter-Michel, Wolfgang: Faschinenmesser. Preußen, Sachsen, Bayern, Württemberg. 2013, p. 9-11 http://www.wpm-koeln.de
  25. M. C. Costa, António Luiz (2015). Armas Brancas- Lanças, Espadas, Maças e Flechas: Como Lutar Sem Pólvora Da Pré-História ao século XXI. São Paulo: Draco. p. 53. 176 páginas 
  26. *Nuremberg : man hat verboten [...] daz dhein burger weder in der stat noch auzwendig niht sol tragen dhein silberin gürteln [...] dhein welhisch messer noch dheinen basler (Satzungsbücher und Satzungen der Reichsstadt Nürnberg aus dem 14. Jahrhundert ed. Werner Schultheiß, 1965, p. 217)
    • Mainzer Friedgebot (1300), 101: wel man zu Meinze inne woninde ist, der rutinge dregit odir swert odir beseler, der sal uz Meinze varin ein vierteil iaris (ed. Rudolf Steffens), in: Mainzer Zeitschrift 98 (2003), 1-10; beseler glossed as "two-edged knives" in F. J. Mone, Der Friedensbruch der Stadt Mainz, um 1430 (1856).
    • A 1427 law code of Tegernsee lists paslär as one of a number of illegal weapons (verpotne wer), setting a fine for carrying them in the street: Gustav Winter, Osterreichische Weistümer, vol. 8 (1896), p. 970. mhdwb-online.de
  27. L'Estrage, C. J. (Janeiro 1888). «Europe in Arms, No. X - The Spanish Army». Illustrated Naval and Military Magazine: A Monthly Journal Devoted to All Subjects Connected with Her Majesty's Land and Sea Forces. 8: 263 
  28. Infopédia. «chifra | Definição ou significado de chifra no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa». Infopédia - Dicionários Porto Editora. Consultado em 17 de outubro de 2020 
  29. S.A, Priberam Informática. «Consulte o significado / definição de terçado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o dicionário online de português contemporâneo.». dicionario.priberam.org. Consultado em 17 de outubro de 2020 
  30. George Cameron Stone, Donald J. LaRocca: A Glossary of the Construction, Decoration and Use of Arms and Armor. In All Countries and in All Times. Verlag Courier Dover Publications, 1999, ISBN 978-0-486-40726-5, S. 224.