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Ataque ao engenho Tracunhaém

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Ilustração de engenho de Pernambuco por Frans Post.

O ataque ao engenho Tracunhaém, também conhecido como tragédia de Tracunhaém ou chacina de Tracunhaém foi um conflito travado entre indígenas brasileiros e colonizadores portugueses em 1574 no atual estado do Pernambuco.[1] O conflito ocorreu por meio de um ataque de indígenas potiguaras coordenado pelo chefe Iniguaçu contra o antigo engenho de Tracunhaém de Baixo, de um senhor chamado Diogo Dias, próximo a Goiana. Tal ataque foi motivado pelo sequestro da filha do chefe por um mameluco que a levou até Olinda e, posteriormente, foi mantida cativa por Diogo Dias. Neste ataque, 2 mil indígenas dizimaram toda a população colonizadora da região e estima-se que morreram 614 trabalhadores livres e escravizados.[1] Tal evento foi o marco da falência da capitania de Itamaracá e deu início à chamada Guerra dos Potiguaras e a conquista da Paraíba.

Contextualização

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Povo potiguara da Baía da Traição - PB

Depois do descobrimento do Brasil pelos portugueses, nas terras ainda por serem ocupadas, transitavam piratas e corsários, traficantes de pau-brasil. Estes traficantes eram na sua maioria franceses e logo formaram alianças com os indígenas potiguara, conhecidos como indígenas do litoral. Tal como nos dias atuais, os antigos potiguara costumavam viver na Baía da Traição, na antiga capitania de Itamaracá e posterior estado da Paraíba.[2] Por outro lado, os portugueses formavam alianças com os indígenas tabajara, conhecidos como indígenas da serra. Tais alianças ocorriam por meio de escambo e cunhadismo. No escambo, os indígenas trocavam o pau-brasil e recebiam em troca objetos considerados sem valor pelos europeus, como espelhos, pentes, tesouras, dentre outros.[3]

Já o cunhadismo se mostrou a forma mais eficiente de estabelecer alianças por meio de relacionamentos amorosos e sexuais entre indígenas e europeus, dando origem à filhos mestiços chamados mamelucos, unindo famílias portuguesas e povos indígenas. Um grande exemplo foi a relação entre Jeronimo de Albuquerque e a indígena tabajara Muira Ubi (também chamada de Tabira), que garantiu a aliança entre os tabajaras com os administradores coloniais de Olinda e Recife.[4][5][6]

Para explorar as terras, a Coroa portuguesa dividiu o país em capitanias hereditárias, porções de terra administradas por um só dono, que tinha poder sobre tudo que acontecia dentro desta. Em 1534, D. João III doou a capitania de Itamaracá a Pero Lopes de Sousa. As suas terras iam desde a foz do rio Santa Cruz (hoje rio Igaraçu) em Pernambuco, até próximo ao rio Paraíba, que, nessa época, chamava-se São Domingos. A administração da capitania coube a Francisco Braga, que rivalizava com Duarte Coelho. Francisco Braga, no entanto, levou a capitania à falência. Foi substituído por João Gonçalves, que desenvolveu engenhos e fundou a Vila Conceição.[7] Posteriormente, Brites de Albuquerque, esposa de Duarte Coelho Pereira e irmã de Jerônimo de Albuquerque, se tornou governadora de Pernambuco.[8]

Por volta de 1570, um cristão-novo chamado Diogo Dias (não confundir com o navegante Diogo Dias), morador da Vila Conceição, recebeu braçadas de terra de Jerônimo de Albuquerque na região do rio Capimaribe-Mirim, afluente do rio São Domingos, hoje conhecido como rio Paraíba.[9] Possivelmente, o rio Capimaribe-Mirim seja o rio Sirigi da atual cidade de Goiana, conhecido também como Sirgi. Nessas terras, Diogo Dias construiu diversos engenhos de açúcar, como o Goiana Grande, Jacaré, Três Paus e o Japumim.[10][11]

O rapto de Lábios de Mel

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O ataque à um desses engenhos do proprietário Diogo Dias foi motivado por uma relação entre um comerciante mameluco e uma indígena do povo potiguara, inimigos declarados dos portugueses e aliados dos franceses.[1] Tal indígena era uma jovem de 15 anos conhecida como Iratembé ou Lábios de Mel, filha do chefe potiguara Iniguaçu.[12] Iniguaçu e Iratembé viviam na aldeia de Copaôba, grafada também como Capaôba ou Capeôba, localizada no planalto da Borborema e onde atualmente está a cidade de Serra da Raiz, a alguns quilômetros da Baía da Traição. Anteriormente, essa cidade era conhecida como Serra da Copaoba.[9]

Ruínas do Castelo de Duarte Coelho em Olinda, por Frans Post.

Um comerciante mameluco à serviço de Diogo Dias teria então se afeiçoado de Iratembé e a desejado para casamento, e assim, Iniguaçu permitiu o matrimônio contanto que o mestiço vivesse na aldeia de Copaôba entre os demais potiguara e suas tradições.[13] Em um primeiro momento, o mestiço aceitou às condições do chefe, mas após Iniguaçu sair para uma longa caçada, o homem fugiu com Iratembé e a levou até Olinda.[14]

Após este ato de desobediência, Iniguaçu ordenou que seus filhos homens, Timbira e Japiaçu, saíssem à procura da sua irmã.[15] Ambos então a encontraram em Olinda e exigiram seu retorno até Copaôba, negociação diplomática esta que sucedeu graças à intervenção de Antônio de Salema, governador do sul do Brasil e do Rio de Janeiro.[14] Para impedir mais conflitos entre os indígenas e os portugueses, o governador proibiu também que mais mamelucos se relacionassem com os potiguara. Por ser amigo de Diogo Dias, Antônio concedeu também aos potiguara a permissão de passarem um pernoite em uma propriedade do senhor de engenho. Cruzando então a região do vilarejo de Goiana, entre Olinda ao sul e a Baía da Traição ao norte, os indígenas passaram a noite no dito engenho de Tracunhaém de Baixo, chamado também de Recuzaém, e durante o pernoite, Diogo Dias raptou Iratembé para si.[14][16][17]

Novamente, os indígenas reclamaram do cativeiro de Iratembé à Antônio de Salema, mas este nada fez. Paralelo à isso, os corsários franceses haviam sido atacados pela frota do capitão-mor Afonso Rodrigues Baltar, também colega de Diogo Dias. Os indígenas tentaram exigir a soltura de Iratembé também para o capitão-mor, mas novamente, ele fez pouco caso deles.[9] Dessa forma, Iniguaçu se aliou à Tijukupapo, chefe potiguara de uma aldeia que posteriormente originou o vilarejo de São Lourenço de Tijukupapo, atual distrito de Tejucopapo da cidade de Goiana. Iniguaçu se aliou também a indígenas tabajara da região e, juntos, coordenaram um ataque até o engenho onde Iratembé era mantida cativa por Diogo Dias e sua família.[1][18]

Chegando ao engenho, os indígenas se esconderam estrategicamente nos arredores e, diante de um ataque inicial, Diogo Dias e outros homens saíram da propriedade para atacá-los. Quando o senhor de engenho deixou a propriedade à cavalo, contudo, os indígenas se revelaram em uma grandiosidade numérica muito maior que o esperado, cerca de 2 mil.[1] Caindo na cilada, Diogo Dias foi atacado pelos indígenas e todos os demais invadiram a propriedade, a destruindo e matando cerca de 614 trabalhadores livres e escravizados. Com exceção de dois filhos de Diogo Dias, Boaventura Dias e Pedro Dias, nenhum membro de sua família e nenhum trabalhador do engenho sobreviveu.[1]

Consequências

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Tempos depois, Boaventura Dias deixou a falida capitania de Itamaracá e retornou à Portugal com o objetivo de reclamar as posses de seu falecido pai, organizando também ataques contra os indígenas com o apoio da coroa portuguesa.[9] Eventualmente, Boaventura Dias constrói, junto de Miguel de Barros, os engenhos Mariúna e Dois Rios em 1577. Os indígenas, contudo, continuaram resistindo à colonização portuguesa durante muitos anos.[10]

Devido a localização geográfica, acredita-se que as terras do engenho de Tracunhaém de Baixo se localizem atualmente onde hoje ficam as ruínas do engenho Japumim, onde se encontram duas colunas que estabelecem o marco zero de Goiana, conhecidas como Pontas de Roma.[19] Também em Goiana se localizam ruínas de outros engenhos atacados e destruídos durante o período colonial, como o engenho Mariúna.[20][21][22]

Associação com Iracema

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José de Alencar, autor brasileiro do romance indianista Iracema, possui uma personagem com nome e história semelhantes à lendária Iratembé da história do ataque ao engenho de Tracunhaém. Em uma nota de rodapé, o autor afirma que o nome da "virgem dos lábios de mel" provém das palavras "ira" (mel) e "tembé" (lábios), e que "tembé" se altera na palavra "ceme", como em "ceme-iba".[23] Não se sabe se Alencar teria se inspirado na história do ataque para criar sua personagem, mas desde então, muitos paralelos entre a história da potiguara Iratembé e da tabajara Iracema foram traçados.

Veja mais

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Referências

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  1. a b c d e f Frei Vicente do Salvador (1 de janeiro de 2016). História do Brasil por Frei Vicente do Salvador. [S.l.: s.n.] pp. 96–98. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  2. «Potiguara - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  3. Garcia, Elisa Frühauf. «"Trocas, Guerras e Alianças na formação da sociedade colonial" In: FRAGOSO, João; GOUVEA, Maria de Fátima (Org.) O Brasil Colonial: 1443-1580. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.». Consultado em 23 de novembro de 2025 
  4. «Wayback Machine» (PDF). buratto.net. Consultado em 23 de novembro de 2025. Cópia arquivada (PDF) em 6 de março de 2016 
  5. «Jerônimo de Albuquerque - Pesquisa Escolar». pesquisaescolar.fundaj.gov.br. Consultado em 23 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 18 de fevereiro de 2025 
  6. Raminelli, Ronald (2018). «Nobreza e principais da terra - América Portuguesa, séculos XVII e XVIII». Topoi (Rio de Janeiro): 217–240. ISSN 1518-3319. doi:10.1590/2237-101X01903809. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  7. «Historia da colonização portuguesa do Brasil». 1921–1924. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  8. «Viagem pela História do Brasil». www.historiadobrasil.com.br. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  9. a b c d Ângelo Jordao Filho (2 de janeiro de 1977). Povoamento, Hegemonia e Declínio de Goiânia. [S.l.: s.n.] pp. 97–107. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  10. a b CABRAL DE MELLO, Evaldo (2012). O Bagaço da Cana. São Paulo: Companhia das Letras 
  11. Lourodrigues (22 de setembro de 2016). «Engenhos de Pernambuco: Capibaribe,Três Paus, N. Sra. da Encarnação, Boa Vista/Goiana». Engenhos de Pernambuco. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  12. «Tragédia de Tracunhaém - Paraíba Criativa». https://paraibacriativa.com.br/. 9 de dezembro de 2023. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  13. Alexandre, Paulo (20 de abril de 2025). «A "Tragédia de Tracunhaém": Resistência indígena e discurso colonial». HistóriaBlog. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  14. a b c Cervantes, Biblioteca Virtual Miguel de. «História do Brasil». Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes (em espanhol). Consultado em 23 de novembro de 2025 
  15. Clementino, J. (15 de dezembro de 2009). «AratacAndarilho: Iratembé: uma trágica histόria de amor que deu origem ao estado da Paraíba.». AratacAndarilho. Consultado em 28 de novembro de 2025 
  16. Faria (9 de fevereiro de 2012). «FATOS HISTÓRICOS DO BRASIL: TRACUNHAÉM , CHACINA DE 1574 - POST». FATOS HISTÓRICOS DO BRASIL. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  17. «A conquista da Paraíba e a Capitania Real». Consultado em 23 de novembro de 2025 
  18. Estudando a História da Paraíba: uma coletânea de textos didáticos. [S.l.]: Zenodo. 3 de maio de 2021. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  19. Japuminianos (28 de setembro de 2010). «Japuminianos: O Que é Japumim». Japuminianos. Consultado em 29 de novembro de 2025 
  20. «Estrada de Ferro Usina Nossa Senhora das Maravilhas -- Ferrovias Particulares do Brasil». www.estacoesferroviarias.com.br. Consultado em 23 de novembro de 2025 
  21. Basilio Augusto (10 de janeiro de 2023), ENGENHO MARIÚNA GOIANA PE, consultado em 23 de novembro de 2025 
  22. Basilio Augusto (25 de abril de 2023), ENGENHOS: JAPUMIM E MARIÚNA, consultado em 23 de novembro de 2025 
  23. José de Alencar (25 de julho de 2013). Iracema (Versão original). [S.l.]: Luso Livros. Consultado em 10 de dezembro de 2025 

Ligações externas

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