Batalha de Arrécio

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Batalha de Arrécio
Conquista romana da Gália Cisalpina
Data 283 a.C./284 a.C.
Local Arrécio, na Gália Cisalpina
Desfecho Vitória gaulesa
Beligerantes
República Romana República Romana   Possivelmente gauleses sênones
Comandantes
República Romana Lúcio Cecílio Metelo Denter   Possivelmente Britomaro
Baixas
Incerto, 13 000 segundo fontes dúbias[1]. Desconhecidas
Arrécio está localizado em: Itália
Arrécio
Localização de Arrécio que é hoje a Itália

A Batalha de Arrécio, que foi provavelmente travada em 283/4 a.C., é um evento parcamente documentada na história da República Romana por ter ocorrido num período para o qual alguns dos livros da "História de Roma", de Lívio, o mais detalhado relato da história de Roma, se perderam. Ela só foi explicitamente citada num texto por Políbio, um historiador grego, que não entra muito em detalhes e a coloca apenas no contexto de outros eventos. Um texto de Apiano cita estes eventos, mas não cita a batalha explicitamente. Ela teria sido travada entre os romanos e os gauleses do norte da Itália, possivelmente os sênones, em Arrécio (moderna Arezzo).

História[editar | editar código-fonte]

Relato de Políbio[editar | editar código-fonte]

Segundo Políbio, uma tribo gaulesa não especificada cercou a cidade de Arrécio e derrotou uma força romana desviada para defendê-la. Seu comandante, o pretor Lúcio Cecílio Metelo Denter, morreu no combate, o que ajuda a datar o conflito em 283 a.C., pois Denter foi cônsul em 284 a.C.. Depois da batalha, Denter foi substituído por Mânio Cúrio Dentato, que enviou emissários para negociar a soltura de reféns romanos, mas eles foram assassinados. Os romanos invadiram a Gália e enfrentaram os sênones, uma das tribos gaulesas do norte da Itália, que foram derrotados em uma batalha campal.

Porém, Políbio utilizou um termo muito genérico para definir a "Gália", mas certamente estava se referindo à Gália Cisalpina, a terra dos gauleses "deste lado" dos Alpes do ponto de vista romano, e não à Gália Transalpina, do outro lado dos Alpes, a região do sul da França atualmente. Assume-se que o combate com os sênones ocorreram no Campo Gálico (em latim: Ager Gallicus), o nome que os romanos deram à área ocupada pelos sênones, na costa do Adriático (correspondente à moderna região italiana da Marcas), pois ele escreveu que "...os romanos invadiram o território dos sênones, matando a maior parte deles e expulsando o resto para fora de seu país, fundando a colônia de Sena Gálica". Porém, Políbio não cita quem liderou esta campanha[2]. Ele continua o relato afirmando que "...os boios, vendo os sênones expulsos de seu território e temendo um destino similar para si e para suas próprias terras, imploraram a ajuda dos etruscos e marcharam com todo seu exército. Os exércitos unidos lutaram contra os romanos perto do Lago Vadimo e, nesta batalha, a maior parte dos etruscos foram dizimados e apenas uns poucos boios escaparam". No ano seguinte, os boios lutaram novamente contra os romanos e foram novamente derrotados e obrigados a assinar a paz com os romanos[3].

Relato de Apiano[editar | editar código-fonte]

Apiano escreveu sobre as guerras entre Roma e os gauleses na Itália e na Gália, mas sua obra sobreviveu apenas em fragmentos geralmente curtos e de difícil interpretação. Ele escreveu sobre os eventos em 283 a.C. e mencionou uma batalha entre os romanos e uma força reunida de gauleses e etruscos sem mencionar onde foi travada. Este fragmento se concentra num incidente envolvendo embaixadores e ações romanos no Campo Gálico.

Segundo ele, os romanos enviaram seus embaixadores especificamente aos sênones e por um motivo diferente do relatado por Políbio. Os sênones haviam fornecido mercenários a forças que haviam lutado contra Roma apesar de terem um tratado de paz. Os embaixadores tinham a missão de alertar os sênones do descontentamento romano. Apiano escreveu que "Britomaro, o gaulês, incensado contra eles por conta de seu pai, que havia sido morto pelos romanos enquanto lutava com os etruscos nesta mesma guerra, assassinou os embaixadores" enquanto eles ainda estavam segurando o cajado de arautos. Ele fornece mais alguns detalhes, muito provavelmente fictícios e enviesados em relação aos "bárbaros". Apiano conta que Britomaro vestiu suas vestes oficiais e "cortou seus corpos em pequenos pedaços e os espalhou pelos campos". Públio Cornélio Dolabela, cônsul em 283 a.C., rapidamente marchou para o Campo Gálico atravessando o território dos sabinos e picenos. "Ele arrasou-os todos [sênones] com fogo e espada. Reduziu mulheres e crianças à escravidão, assassinou os homens adultos sem exceção, devastou o território de todas as formas possíveis e tornou-o inabitável para qualquer outro". Apiano acrescenta ainda que "pouco depois, os sênones (que serviam como mercenários), não tendo mais lares para onde retornar, atacaram corajosamente o cônsul Domício, e, sendo derrotados por eles, se mataram em desespero[4].

Análises modernas[editar | editar código-fonte]

O texto de Apiano é pouco claro e confuso, pois ele não liga o evento dos embaixadores com o cerco e a batalha de Arrécio. Ele também não cita onde os embaixadores se encontraram com Britomaro. O fato do pai dele ter sido morto pelos romanos enquanto lutava para os etruscos na mesma guerra pode sugerir que esta batalha anterior teria sido a Batalha do Lago Vadimo, que envolveu uma força combinada de etruscos e gauleses (a batalha de Arrécio envolveu apenas gauleses). A segunda batalha, mencionada por Políbio, na qual etruscos e gauleses foram novamente derrotados e pediram à paz, pode muito bem corresponder à segunda batalha mencionada por Apiano. Porém, enquanto Políbio localiza esta segunda batalha contra gauleses e etruscos no ano seguinte (282 a.C.), Apiano alega que ela teria sido vencida por Cneu Domício Calvino, o outro cônsul de 283 a.C.. Apiano não menciona os gauleses boios nesta segunda batalha e aparentemente não faz referência à Batalha de Arrécio, pois não há menção de um cerco, de uma batalha de romanos e gauleses apenas e nem de prisioneiros romanos; além disto, o motivo da embaixada era diferente. A falta de menção de onde as batalhas foram travadas piora o problema.

Pode também haver uma discrepância na sequência de eventos mencionados por Políbio e a que se pode inferir a parti do texto de Apiano. Segundo Políbio, a ordem foi a Batalha de Arrécio, a devastação do Campo Gálico, a Batalha do Lago Vadimo e uma batalha final. Já segundo Apiano, Batalha de Lago Vadimo, a devastação do Campo Gálico e a batalha final (sem menção à Batalha de Arrécio).

Forsythe defende que, na Batalha de Arrécio, os romanos teriam sofrido uma devastadora derrota que resultou na morte do general, sete tribunos militares e 13 000 soldados[1] baseando-se nas obras de Santo Agostinho[5] e Paulo Orósio[6]. Porém, é importante notar que estes dois autores escreveram no início do século V, setecentos anos depois da batalha. Ambos eram clérigos cristãos e, em seus livros, defendiam o cristianismo e tinham como objetivo mostrar que o mundo estava melhorando com ele e que muitos desastres aconteciam nos dias dos pagãos. Orósio também colaborou com Agostinho em seu livro "A Cidade de Deus" e seu texto é muito parecido com o dele. Ambos também escreveram sobre uma coalizão entre lucânios, brútios, samnitas, etruscos e gauleses sênones. Esta aliança jamais ocorreu, mas houve uma coalizão entre samnitas, etruscos, úmbrios e gauleses sênones que lutou contra na batalha de Sentino, em 295 a.C., durante a Terceira Guerra Samnita (298–290 a.C.). Todos estes motivos lançam dúvidas sobre a acurácia destes relatos. Finalmente, embora os dois cônsules de 283 a.C. tenham sido citados, Arrécio não foi.

Referências

  1. a b Forsythe, G., p. 349
  2. Políbio, Histórias II 19.7-13
  3. Políbio, Histórias II 20.1-5
  4. Apiano, Guerras Gálicas 2.13 (fragmento em "Embaixadas", de Constantino Porfirogênito
  5. Santo Agostinho, A Cidade de Deus 3.17
  6. Paulo Orósio, História contra os Pagãos 3.33.13-14

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Apiano (1989). Loeb, ed. Roman History I: v. 1 (em inglês). [S.l.]: Loeb Classical Library. ISBN 978-0674990043 
  • Forsythe, G. (2006). A Critical History of Early Rome: From Prehistory to the First Punic War (em inglês). [S.l.]: University of California Press. ISBN 978-0520249912 
  • Orósio (2010). Seven Books of History Against the Pagans (em inglês). [S.l.]: Liverpool University Press. ISBN 978-1846312397 
  • Políbio (2010). The Histories (em inglês). [S.l.]: Oxford World's Classics) OUP Oxford. ISBN 978-0199534708 
  • Santo Agostinho (2009). Hendrickson, ed. The City of God (em inglês). [S.l.: s.n.] ISBN 978-1598563375 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]