Cerco de Mutina

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Disambig grey.svg Nota: Para outras batalhas em Mutina, veja Batalha de Mutina.
Cerco de Mutina
Segunda Guerra Púnica
Shepherd Map Regio Aemilia (1911).jpg
Mapa da região da Emília-Romanha, onde ficavam as colônias de Mutina e Placência.
Data 218 a.C.
Local Mutina (moderna Módena, Itália)
Desfecho vitória de Cartago
Beligerantes
República Romana República Romana
  Gauleses:
  * Cenomanos
  Gauleses:
  * Boios
Forças
4000 cavalerios 6000 cavaleiros
Baixas
pesadas mínimas
Mutina está localizado em: Itália
Mutina
Localização de Mutina no que é hoje a Itália

O Cerco de Mutina, em 218 a.C., foi um dos primeiros episódios da Segunda Guerra Púnica. Os embaixadores de Aníbal na Gália Cisalpina haviam conseguido levar os gauleses boios e ínsubres à revolta. Eles rapidamente expulsaram os colonos de Placência, forçando-os a fugir para Mutina, que foi cercada e, por pouco, não foi ocupada[1].

Contexto histórico[editar | editar código-fonte]

O expansionismo romano levou seus exércitos a atravessarem pela primeira vez o rio Pó em 224 a.C.. A dura resistência das tribos gaulesas, especialmente dos boios, fez com que os romanos percebessem o quão difícil seria a guerra na região nos anos seguintes[2]. Os comandantes naquele ano foram os dois cônsules, Tito Mânlio Torquato e Quinto Fúlvio Flaco[3].

Esta nova ofensiva romana foi uma reação natural da invasão gaulesa que levou à Batalha de Telamão (225 a.C.). Logo depois, os romanos atravessaram os Apeninos e atacaram o território dos boios[2]. Nos anos seguintes vieram os cônsules Caio Flamínio Nepos e Públio Fúrio Filo (223\x a.C.), que lutaram contra os ínsubres[4] e conseguiram um triunfo "De Galleis"[5], que acabou sendo recusado a Flamínio por questões religiosas e políticas[6]. Em 222 a.C., depois da vitória decisiva na Batalha de Clastídio, os romanos tomaram a capital ínsubre, Mediolano (moderna Milão)[2][7].

Para consolidar seu próprio domínio na região, Roma fundou as colônias de Placência, no território dos boios, e Cremona, no dos ínsubres. Os gauleses da Itália setentrional se revoltaram novamente quando Aníbal invadiu a Itália depois de atravessar os Alpes.

Casus belli[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Segunda Guerra Púnica

Quando chegou a notícia de Aníbal havia conseguido invadir a Itália, os boios, depois de terem instigado também os ínsubres, se revoltaram. Segundo Lívio, o principal motivo foi a fundação, em território gaulês, das duas colônias romanas (Placência e Cremona)[8].

Os gauleses decidiram atacar o território das colônias de forma improvisada, gerando terror e destruição não apenas entre os colonos mas também nos triúnviros romanos que eram responsáveis pela distribuição das terras e pela fundação das colônias. Sem confiar nas defesas de Placência, os romanos preferiram refugiar-se em Mutina (moderna Módena)[nota 1].

Cerco[editar | editar código-fonte]

Uma vez cercada a cidade de Mutina, os gauleses, que não tinham experiência nenhuma em cercos, já "preguiçosa e inertemente acampados sob as muralhas", começaram a tratar da paz[10]. Lívio reconta os líderes gauleses convidaram os embaixadores romanos para um colóquio, mas, depois de prendê-los, violando todas as leis do direito das gentes, se recusaram a libertá-los se não fossem libertados seus próprios reféns[11].

Quando esta notícia chegou até o pretor Lúcio Mânlio Vulsão, ele ficou furioso e levou seu próprio exército, de forma desordenada, até a vizinhança de Mutina, repleta de florestas. Suas tropas foram emboscadas pelos gauleses, pois, não tendo explorado anteriormente e adequadamente território, os romanos mal conseguiram correr para o campo aberto, sofrendo numerosas baixas[12].

Já acampados e fortificados, Vulsão recuperou a coragem depois das perdas sofridas (500-1 000 homens)[nota 2]. Quando ele retomou a marcha, o exército romano encontrou mais florestas e, mais uma vez, os gauleses atacaram, desta vez pela retaguarda, causando grandes estragos: 700 foram as vítimas romanas e seis insígnias perdidas[14].

Juntos novamente em uma planície, os romanos se refugiaram na vizinhança da vila de Taneto, perto do rio Pó. Ali, fortificaram novamente seu acampamento e passaram a transportar suas provisões pelo rio graças ao apoio dos gauleses cenomanos e dos habitantes de Bríxia[15].

Teatro de operações[editar | editar código-fonte]

A Gália Cisalpina, teatro das operações no outono de 218 a.C.: da revolta dos boios com Cerco de Mutina às vitórias de Aníbal na Batalha de Ticino e na Batalha de Trébia

Consequências[editar | editar código-fonte]

Assim que a notícia da revolta dos gauleses chegou a Roma, o Senado Romano determinou o envio do pretor Caio Atílio Serrano com uma legião e 5 000 soldados aliados (uma ala), uma força que havia sido recém-alistada pelo cônsul Públio Cornélio Cipião. Atílio Serrano conseguiu chegar até Taneto sem ser atacado, pois os gauleses se retiraram para suas fortalezas para não enfrentar os romanos[16].

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Segundo relata Lívio[9] os triúnviros eram certamente Caio Lutácio Cátulo e duvidosamente, por divergências entre as fontes, um dos seguintes pares: Caio Servílio Gêmino e Marco Ânio; Mânio Acílio e Caio Herênio; Públio Cornélio Cipião Asina e Caio Papírio Masão</ref>.
  2. Jakob Gronov defende 500 homens e Arnold Drakenborch, mil homens[13].

Referências

  1. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.
  2. a b c Dyson (1985), p. 31.
  3. Políbio, Histórias II, 31.8-10; Lívio, Ab Urbe Condita Periochae 20; Paulo Orósio, IV, 13; João Zonaras, Epitome VIII, 20.
  4. Políbio, Histórias II, 32–33.
  5. Fastos Triunfais; Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 63.2 e XXIII, 14.4; Sílio Itálico, Punica VI, 653–635; João Zonaras, Epitome VIII, 20.
  6. Sílio Itálico, Punica IV, 704–706; V, 107–113 e 649–655; Plutarco, Vidas Paralelas Fabius 2.4; Floro I, 20.4; Paulo Orósio, IV, 13.4.
  7. Dyson (1985), p. 32.
  8. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.2.
  9. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.3-4
  10. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.6.
  11. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.7.
  12. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.8-9.
  13. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.10
  14. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.11-12.
  15. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.13-14.
  16. Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 26.1-2.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias[editar | editar código-fonte]

Fontes secundários[editar | editar código-fonte]

  • Brizzi, Giovanni (1997). Storia di Roma. 1. Dalle origini ad Azio (em italiano). Bologna: Patron. ISBN 978-88-555-2419-3 
  • L. Dyson, Stephen (1985). The creation of the roman frontier (em inglês). [S.l.]: Princenton University Press 
  • Piganiol, André (1989). Le conquiste dei romani (em italiano). Milano: Il Saggiatore 
  • Scullard, Howard H. (1992). Storia del mondo romano. Dalla fondazione di Roma alla distruzione di Cartagine (em italiano). vol.I. Milano: BUR. ISBN 88-17-11574-6