Café Gelo

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Café Gelo
Tipo cafeteria
Geografia
Coordenadas 38° 42' 51.4832" N 9° 8' 24.6656" O
Localidade Praça de D. Pedro IV
Localização Lisboa
País Portugal

O Café Gelo é um tradicional café de Lisboa. Situado na Praça do Rossio (ou Praça D. Pedro IV), foi local desde a sua fundação no século XIX de uma grande tradição revolucionária e oposicionista republicana e contra a ditadura do Estado Novo.

História[editar | editar código-fonte]

O Café Gelo foi inaugurado em meados do século XIX. Inicialmente chamava-se Botequim do Gonzaga, passando depois para Café Freitas, depois "Café do Gelo", e, finalmente "Café Gelo". O "Gelo", como era usualmente conhecido por todos teve sempre uma grande tradição revolucionária e reviralhista, a sua sala traseira era o local de encontro de republicanos, entre maçons, socialistas, anarquistas e carbonários.

Aquilino Ribeiro chamou-lhe a sede informal da ala radical da carbonária e da maçonaria e um centro conspirativo por excelência, segundo este escritor o atentado no Terreiro do Paço foi urdido naquelas quatro paredes.[1]

Seria daqui que terão saído em 1 de Fevereiro de 1908, Alfredo Costa e Manuel Buiça para o Terreiro do Paço para cometerem o atentado contra a família real e o governo de João Franco. Nos anos seguintes o Café do Gelo era pousio habitual da intelectualidade de Lisboa, por exemplo, Fernando Pessoa e Raul Leal eram uns dos seus frequentadores habituais.

Nos anos 50 sofreu uma profunda remodelação, a maior até então, tendo ficado no exterior com umas portas envidraçadas. tendo no seu nome perdido o "do" e ficando simplesmente Café Gelo. Foi por esta altura que começou aqui a reunir-se o chamado Grupo do Café Gelo, muitos deles vindos do Café Herminius, na Avenida Almirante Reis, embora tenham continuado a frequentar, em paralelo, o Royal, no Cais do Sodré, do mítico grupo do Gelo, muito ligado ao surrealismo, faziam parte nomes como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Ernesto Sampaio, António José Forte, Virgílio Martinho ou Manuel de Lima entre outros.

Esta tertúlia durou neste café até ao 1 de Maio de 1962, neste dia verificaram-se violentos confrontos no Rossio entre a polícia de choque e os manifestantes, conta-se sobre este incidente que segundo Luiz Pacheco, o trabalho dos bufos[2] poderia ser perigoso, um criado de mesa do Café Gelo, conhecido por ser bufo, teve o azar de levar umas injustas bastonadas dadas por agentes da polícia, que deveriam ser seus supostos aliados, quando estes entraram pelo café adentro a bater a torto e a direito, durante a manifestação referida, os clientes do café ripostaram lançando à cabeça dos agressores os açucareiros metálicos esféricos que havia em cima das mesas, vários dos escritores e artistas implicados no contra-ataque, Luiz Pacheco incluído, foram proibidos de voltar ao Café Gelo, tendo a PIDE proibido o proprietário do café de receber este grupo, sob pena de ser obrigado a fechar o café. "O grupo do Gelo” rumou assim para outras paragens e aproveitaram, então, para assentar arraiais no Café Montecarlo, no Saldanha.

A partir dos anos 70, o Gelo começou a entrar em acelerada decadência, por falta de clientela. Foi vendido e acabou até por perder o nome nos [[Década de 1990|anos 90. Transformando-se, então num fast-food o Abracadabra. Em 2007 o fast-food encerrou e o Café Gelo recuperou agora ao velho nome e foi completamente remodelado.

Neste faz-se o lançamento de livros e de movimentos culturais ganhado assim Lisboa mais um café activo culturalmente dentro da sua Baixa.[3] José Ramos Perfeito diz: "O Café Gelo, ao Rossio, tinha umas mesas redondas, onde eram discutidas as políticas, as ideias, criticava-se e até se insultava. Tudo era falado no Café Gelo. O Café Gelo era, para o poder, o antro dos republicanos e da Carbonária." [4]

Arquitetura[editar | editar código-fonte]

É um edifício com vidros amplos para o exterior, as paredes são claras, envoltas com lambris em mármore escuro, os candeeiros são em forma quadrangular, cobertos num revestimento branco, conferindo um toque de irreverência ao local, as paredes não deixam de invocar a história que o espaço carrega, com duas entradas, para o Rossio[5] e para a actual rua 1 de Dezembro (antiga Rua do Príncipe como aliás tinha na sua génese) tem nas paredes fotografias do café ao longo do tempo, desde o início do século XX, contemporâneo da conspiração dos carbonários, continuando com imagens de 1961 (quando se reunia o grupo do Gelo) e finalmente uma de 2007, na altura da remodelação que deu origem à sua configuração actual, ao fundo do café tem uma enorme fotografia do regicídio de modo a relembrar que foi daqui que saíram Manuel Buíça e Alfredo Costa, em frente do balcão corrido em inox, fotografias de várias personalidades, passando pelo rei D. Carlos I, Afonso Costa e Mário Cesariny, para citar apenas alguns, na porta de acesso ao Rossio, uma grande placa expõe, sumariamente, a história do café, evocando o regicídio, bem como o movimento de contestação ao regime de Salazar.

Referências

  1. O Atentado de 1 de Fevereiro de 1908 (Regicídio)- Na versão de Aquilino Ribeiro
  2. Designativo popular para denunciantes da polícia politica do Estado Novo, a PIDE
  3. Colectivo Multimédia Perve
  4. José Ramos Perfeito. Anatomia de um regicídio. Guerra e Paz; 2008. ISBN 978-989-8014-86-3. p. 82.
  5. Fernando Dacosta. Máscaras de Salazar. Leya; 2007. ISBN 978-972-46-1694-0. p. 142.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]