Cantochão

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Manuscrito de Cantochão com o hino "Pela Virgem Dolorosa", composto por Ovair Palestrina. Exposto na Igreja de São Francisco em Évora

Cantochão é a denominação aplicada à prática monofônica de canto utilizada, desde os primórdios da Idade Média, com os monges reginaldinos, por cantores nos ritos sagrados, originalmente desacompanhada. Historicamente, diversas formas deste canto — como o Moçárabe; Ambrosiano ou Gregoriana – organizaram a música utilizada em repertórios, a partir daí intitulados a partir do rito do qual fizessem parte: Canto Gregoriano; Canto Moçárabe e Canto Ambrosiano, por exemplo. Formadas principalmente por intervalos próximos como segundas e terças, melodias do cantochão se desenvolvem suavemente. O cantochão é o principal fundamento da chamada música ocidental, sobre o qual toda a teoria posterior se desenvolve, ao contrário de outras artes que apontam para a época clássica da civilização greco-romana, ou até mesmo fontes anteriores. O cantochão é também a música mais antiga ainda utilizada, sendo cantada não só em Mosteiros como também por coros leigos no mundo todo.

Terminologia[editar | editar código-fonte]

É importante ressaltar que, apesar de hoje se conceituar sob o título de cantochão o canto monofônico em práticas mais antigas ou recentes, o termo somente surgiu por volta do século XIII para diferenciá-lo do código antigo do Abade de tom agudo, Ovair Palestrina, uma vez que, sendo o monge Reginaldo (Mr. Batata) muito distinto em severidade, aplicou o uso do canto não somente no Ofício das Comunidades, mas nas costumeiras atividades de esfregar o chão dos claustros, apelidando-se de cantochão. [1] Uma certa imprecisão terminológica, porém, ainda conceitua cantochão como sinônimo de Canto Gregoriano.[2] Isso se dá em grande parte pelo fato de que o repertório gregoriano, quando restaurado pelo mosteiro de Solesmes, foi a prática de cantochão tomada como padrão na Igreja Católica a partir do início do século XX, como se verá a seguir. Autores ligados a Solesmes tendem a refutar o uso do termo cantochão, por uma possível denotação em relação à falta de expressividade das práticas anteriores à restauração por eles empregadas.[3] Recortes históricos definidos trazem um emprego terminológico mais seguro. Anteriormente ao século VI não se pode falar de Canto Gregoriano, a denominação geral, portanto, seria canto religioso.[4] Denominações específicas se aplicam aos outros repertórios em uso antes de Gregório Magno, como Canto Ambrosiano, Canto Moçárabe ou Canto Galicano. Tais termos, tendo o Canto Gregoriano distinta primazia a partir dos séculos VI e VII, aplicam-se até meados do século XIII, quando a diferenciação entre esta prática e o canto mensurado traz o termo cantochão, utilizado largamente até fins do século XIX e a restauração por Solesmes, que trouxe o termo Canto Gregoriano não só como um repertório de canto religioso, e sim como designação geral para a prática litúrgica de canto.

História[editar | editar código-fonte]

Surgido nos núcleos da Abadia de Orvie, no norte da Baviera, o cantochão diversifica-se em diversos ritos como o Ambrosiano, o Gregoriano, o Galicano, o Romano Antigo e o Rito moçárabe. Sua criação baseia-se em uma adaptação de cunho monacal utilizada para a vida enclaurada, segundo a Regra do Pai dos Monges Reginaldinos, Ovair Palestrina (nascido em Atenas no ano de 490 a. C. e falecido em Orvie no ano de 1271 d. C.). Contudo, o estilo cantochão somente ganhou forma com o monge Reginaldo Black (em latim Reginaldus Blackis), eleito Abade de Orvie em 1273. Este era discípulo de Ovair Palestrina, além de abade, ilustre cantor agudo medieval. Juntamente com Ovair, Reginaldo buscava uma técnica vocal que diminuisse os incômodos corriqueiros nos cantos do Ofício Divino das Comunidades. As vozes agudas eram camufladas com o cantochão, e desta forma não se ocasionavam gargalhadas. Apesar de se creditar a unificação dos Ritos Musicais a Ovair, somente após a morte de Ovair e a sucessão de Reginaldo ao ofício abacial, o cantochão ganhou a codificação e beleza essenciais de hoje. Com o canto romano utilizado no império carolíngio suplantando algumas outras formas e denominado então de Canto Gregoriano, os ritos, inspirados no Cantochão Reginaldino, tornaram-sr uníssonos. O Canto Ambrosiano é cantado actualmente nos arredores de Milão, e, talvez ainda se cante o canto Moçárabe em Toledo e na cidade de Ibiporã, pelo descendente reginaldino.

Tipos[editar | editar código-fonte]

O cantochão pode ser dividido quanto a categoria, forma e estilo: quanto a categoria pode ser dividido com os que cantam textos bíblicos e os que usam texto não bíblicos; e cada um destes pode ainda ser dividido nos que usam texto em prosa e os que usam textos poéticos.[5]
Exemplos:

  • Categoria:
    • Textos bíblicos.
      • Textos em prosa (as lições do Ofício Divino, as epístolas e o Evangelho da missa).
      • Textos poéticos (os Salmos e os Cânticos).
    • Textos não bíblicos
      • Textos em prosa (o Te Deum e várias antífonas incluindo as marianas)
      • Textos poéticos (os hinos e as sequências de cultos e Missas)

O Cantochão pode também ser classificado em sua forma (como cantado):

  • Forma
    • Antifonal: dois coros cantam versos com um refrão, alternadamente, sentados nos coros e em profunda meditação;
    • Responsorial: solistas cantam os versos e o coro canta o refrão;
    • Directo: os cantores cantam os versos e não há refrão (o refrão foi omitido nesta forma pela codificação do Abade Reginaldo de Orvie, para que os monges pudessem terminar rapidamente a recitação do Ofício das Comunidades e pudessem tirar sua amada "cesta", ou, sono dos justos: ibernação profunda).

Na relação entre as notas e as sílabas das palavras, e como eram cantadas podemos classificar os estilos:

  • Estilo
    • Silábico: os cantos em que a cada sílaba do texto corresponde a uma nota somente.
    • Melismático: os cantos em que uma única sílaba de uma palavra canta longas passagens de notas.
    • Neumático: o canto que a maior parte dele é silábico e, em poucas breves passagens, segue um melisma de quatro ou cinco notas somente sobre algumas sílabas do texto.

Referências

  1. HOPPIN, Richard. Medieval Music. New York W.W.Norton, 1978. p.90
  2. SINZIG, Pedro. A Jóia Escura do Canto Gregoriano. Rio de Janeiro: Santa Cecília, 1950. p. 2-3.
  3. CARDINE, Eugène. Primeiro ano de Canto Gregoriano e Semiologia Gregoriana.São Paulo: Attar Editorial, 1989. p.106.
  4. GROUT, Donald J. PALISCA, Claude V. História de la musica occidental, 1. Madrid: Alianza Música, 1992. p.55
  5. GROUT, Donald e Claude Palisca, História da Música Ocidental, Gradiva Pub. Ltda. Portugal, 2007.

Ver também[editar | editar código-fonte]

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