Doença de Huntington
| Doença de Huntington | |
|---|---|
| Sinónimos | Coreia de Huntington, Mal de Huntington, Doença do Bole |
| Imagem microscópica editada de neurónios espinhosos médios (amarelo) com corpúsculos de inclusão (laranja), que ocorrem como parte do processo da doença | |
| Especialidade | Neurologia |
| Sintomas | Perturbações a nível do humor, capacidades mentais e coordenação motora[1][2] |
| Complicações | Pneumonia, doenças cardiovasculares, lesões físicas por queda, suicídio[3] |
| Início habitual | 30–50 anos de idade[4] |
| Duração | Crónica[4] |
| Causas | Genéticas (herdadas ou nova mutação)[4] |
| Método de diagnóstico | Exames genéticos[5] |
| Condições semelhantes | Coreia de Sydenham, coreia hereditária benigna, lúpus, síndrome paraneoplásica, doença de Wilson[6] |
| Tratamento | Cuidados de apoio[2] |
| Medicação | Deutetrabenazina |
| Frequência | 4–15 em cada 100 000 (descendência europeia)[1] |
| Classificação e recursos externos | |
| CID-11 | 8A01.10 |
| CID-10 | G10, F02.2 |
| CID-9 | 333.4, 294.1 |
| OMIM | 143100 |
| DiseasesDB | 6060 |
| MedlinePlus | 000770 |
| eMedicine | article/1150165 article/792600 article/289706 |
| MeSH | D006816 |
A doença de Huntington ou coreia de Huntington é uma condição genética, hereditária e neurodegenerativa que afeta o sistema nervoso central[7]. Os primeiros sintomas são geralmente problemas subtis a nível do humor ou das capacidades mentais.[1] A estes sintomas segue-se falta de coordenação motora e locomoção instável.[2]Os sintomas específicos podem variar entre as pessoas.[1] Os sintomas geralmente têm início entre os 30 e 50 anos de idade, mas podem manifestar-se em qualquer idade.[4][3] Cerca de 8% dos casos têm início antes dos 20 anos de idade e é comum manifestarem sintomas semelhantes aos da doença de Parkinson.[3]
A doença de Huntington é geralmente herdada de um dos pais, embora em 10% dos casos seja causada por uma nova mutação genética.[1] A doença é causada por uma mutação autossómica dominante em qualquer uma das duas cópias de um gene denominado huntingtina.[4] Isto significa que um filho de uma pessoa com a doença tem 50% de probabilidade de herdar a doença.[4] Este gene fornece a informação genética para uma proteína também denominada "proteína huntingtina".[1] A expansão da repetição do tripleto CAG nesse gene resulta numa forma mutante da proteína, que vai gradualmente destruindo as células no cérebro. No entanto, este mecanismo ainda não é compreendido na totalidade.[4] O diagnóstico é realizado com exames genéticos, que podem ser feitos a qualquer momento, independentemente de existirem ou não sintomas.[5] Esta possibilidade está na origem de alguns debates sobre ética: a idade em que uma pessoa é considerada suficientemente adulta para decidir fazer os exames, se os pais têm o direito de fazer exames nos filhos e como gerir a confidencialidade dos resultados.[2]
Embora não haja ainda cura para doença de Huntington, há diversos estudos em andamento para novos tratamentos.
Existe de toda forma tratamento que vai além do medicamentoso, que pode ser apoiado por diversos profissionais de saúde: fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, nutricionista, psicólogo, neurologista.[7]
[4] Nos estágios avançados da doença são necessários cuidados a tempo inteiro.[2] O tratamento pode aliviar alguns sintomas e melhorar a qualidade de vida em algumas pessoas.[3]
[3] A doença afeta entre 4 e 15 em cada 100 000 pessoas de ascendência europeia.[1][3] A doença é rara entre japoneses, sendo desconhecida a prevalência entre africanos.[3] A doença afeta mulheres e homens em igual proporção.[3] A esperança de vida é reduzida em resultado de complicações como pneumonia, doenças cardiovasculares e lesões físicas por quedas.[3] Em 9% dos casos a causa de morte é suicídio.[3]
A primeira provável descrição da doença foi feita em 1841 por Charles Oscar Waters.[8] No entanto, a primeira descrição detalhada da doença foi feita em 1872 pelo médico George Huntington, de quem tem o nome.[8] A base genética da doença foi descoberta em 1993 por uma colaboração internacional de cientistas coordenado pela Hereditary Disease Foundation.[9][10] A partir da década de 1960 começaram a surgir organizações de apoio e investigação, que trabalham o sentido de aumentar a percepção pública da doença, financiar investigação e oferecer ajuda às pessoas e familiares.[10][11] A investigação atual foca-se na determinação do mecanismo exato da doença, na melhoria dos modelos animais, no ensaio de medicamentos para o tratamento de sintomas ou atraso da progressão da doença, e no estudo de procedimentos como a terapia de células estaminais com o objetivo de reparar os danos causados pela doença.[9]
Causas
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Trata-se de doença hereditária, causada por uma mutação genética no cromossomo 4. Trata-se de doença autossômica dominante, então se um dos pais tem Huntington, os filhos tem 50% de chances de também desenvolverem a doença. Se um descendente não herdar o gene da doença, não a desenvolverá nem a transmitirá à geração seguinte.
O DNA é constituído de substâncias químicas denominadas nucleotídeos. O indivíduo possuidor dessa desordem apresenta em seu material genético repetições anormais da sequência de bases nitrogenadas citosina, adenina e guanina (CAG), responsáveis pela codificação da glutamina. Numa pessoa sadia a sequência CAG é encontrada com repetições menores que 20; já em pessoas portadoras da doença de Huntington há sempre mais de 36 repetições, tornando assim o gene defeituoso. Estudos recentes indicam que essa região de poliglutamina interfere na interação normal entre uma região rica em glutamina do fator de transcrição chamado Sp1 e uma região rica em glutamina correspondente no "TAFII130", uma subunidade de um componente da maquinaria de transcrição chamado TFIID. Essa interferência dificulta a transcrição nos neurônios do cérebro, incluindo a transcrição do gene para o receptor de um neurotransmissor.[12]
Embora cada célula do corpo tenha duas cópias de cada gene, é suficiente uma cópia do gene anormal para que se tenha esta doença. Então, pode-se dizer que o gene que condiciona a doença de Huntington é um gene dominante.
Sinais e sintomas
[editar | editar código]Os sintomas típicos de Huntigton são[13]:
- Coreia (movimentos involuntários, rápidos, irregulares e sem finalidade dos membros, da face e/ou do tronco, geralmente associados à hipotonia e à diminuição da força muscular);
- Perda progressiva de memória;
- Transtornos psiquiátricos: depressão, ansiedade, irritabilidade, hipersexualidade, egocentrismo.
- Disartria (distúrbios da fala, mastigação e deglutição);
- Fala incompreensível, hesitante, explosiva e desorganizada;
- Perda da visão periférica.
O paciente de DH não morre da doença, mas das complicações oriundas destes sintomas e sequelas instaladas no decorrer da evolução da doença, que é lenta e fatal: tais como fraturas por quedas, desnutrição grave, por não conseguir deglutir, e outras
Diagnóstico
[editar | editar código]O exame genético é determinante. O exame clínico é análise dos sintomas relatados e do histórico familiar da doença. Pode ser diagnosticado por exame genético no feto durante a gravidez.[14]
Prognóstico
[editar | editar código]Desenvolve-se lentamente, provocando uma degeneração progressiva do cérebro, especialmente dos núcleos lenticulares.
A sobrevida varia muito de indivíduo para indivíduo, mas geralmente é de cerca de 10-20 anos após o aparecimento do primeiro sintoma. A morte não é pela doença, mas sim, como consequência de problemas respiratórios (30%) ou cardíacos (25%) causados pela movimentação ineficiente da musculatura, por suicídio (7%) que tem um risco aumentado pelo quadro depressivo ou devido às lesões de quedas frequentes e por má nutrição.
Tem a mesma probabilidade de se desenvolver em ambos os sexos. É muito mais comum entre os descendentes de europeus ocidentais, sendo raro em asiáticos e africanos.
Tratamento
[editar | editar código]Sintomas do movimento
[editar | editar código]Há uma medicação específica para doença disponível no Brasil sendo aprovada pela ANVISA em 2021, a deutetrabenazina [15]. A deutetrabenazina [16] é uma modificação da já existente e utilizada medicação tetrabenazina, que também trata movimentos espamódicos, porém não desenvolvida especificamente para DH e com mais efeitos colaterais.
Nos Estados Unidos, outra medicação foi aprovada pela FDA (orgão similar a ANVISA no Brasil): a valbenazina [17] em agosto de 2023. Ela já estava aprovada desde 2017 para outros acometimentos, mas em 2023 foi aprovado seu uso especificamente para DH.
Embora essas medicações indiquem progresso sobre o manejo da doença, é importante levar em consideração o contexto de cada paciente, possíveis efeitos colaterais das medicações e interações medicamentosas, bem como o custo do tratamento, dado que podem ser também medicações de alto custo.
AMT-130
[editar | editar código]A terapia gênica desenvolvida pela empresa uniQure [18][19] apresentou em setembro de 2025 o seu estudo clínico em fase I/II, com humanos, com resultados positivos, reduzindo a velocidade de progressão da doença ao suprimir os genes que a causam. Esse foi um marco histórico de tratamento que vai além dos sintomas da doença. Há outras pesquisas em andamento no mesmo sentido: SKY-0515, votoplam, WVE-003 e tominersen.
Não possui cura, porém possui tratamento sintomático e pesquisas genéticas em primatas estão desenvolvendo uma terapia de silenciamento dos genes causadores da doença.[20] Existem diversos medicamentos para diminuírem os sintomas e o progresso da doença. Exercícios cognitivos diários ajudam a preservar as habilidades mentais reduzindo a perda de memória, percepção e orientação.
Associações e Mobilizações no Brasil
[editar | editar código]Associação Brasil Huntington - ABH
Casa Hunter
Referências
- ↑ a b c d e f g Dayalu, P; Albin, RL (fevereiro de 2015). «Huntington disease: pathogenesis and treatment.». Neurologic Clinics. 33 (1): 101–14. PMID 25432725. doi:10.1016/j.ncl.2014.09.003
- ↑ a b c d e Warby, SC; Graham, RK; Hayden, MR; Pagon, RA; Adam, MP; Ardinger, HH; Wallace, SE; Amemiya, A; Bean, LJH; Bird, TD; Fong, CT; Mefford, HC; Smith, RJH; Stephens, K (2014). «Huntington Disease». PMID 20301482
- ↑ a b c d e f g h i j Frank, S (janeiro de 2014). «Treatment of Huntington's disease.». Neurotherapeutics : the journal of the American Society for Experimental NeuroTherapeutics. 11 (1): 153–60. PMC 3899480
. PMID 24366610. doi:10.1007/s13311-013-0244-z
- ↑ a b c d e f g h «Huntington's Disease Information Page: National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS)». NINDS. 28 de janeiro de 2016. Consultado em 19 de julho de 2016. Cópia arquivada em 27 de julho de 2016
- ↑ a b Durr, A; Gargiulo, M; Feingold, J (novembro de 2012). «The presymptomatic phase of Huntington disease.». Revue neurologique. 168 (11): 806–8. PMID 22902173. doi:10.1016/j.neurol.2012.07.003
- ↑ Ferri, Fred F. (2010). Ferri's differential diagnosis : a practical guide to the differential diagnosis of symptoms, signs, and clinical disorders 2nd ed. Philadelphia, PA: Elsevier/Mosby. p. Chapter H. ISBN 0323076998
- ↑ a b «O que é a Doença de Huntington?». ABH - Associação Brasil Huntington. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ a b Vale, TC; Cardoso, F (2015). «Chorea: A Journey through History.». Tremor and other hyperkinetic movements (New York, N.Y.). 5. PMC 4454991
. PMID 26056609. doi:10.7916/D8WM1C98
- ↑ a b «Learning About Huntington's Disease». www.genome.gov. Consultado em 19 de julho de 2016. Cópia arquivada em 4 de julho de 2016
- ↑ a b «History of the HDF». Hereditary Disease Foundation. Consultado em 18 de novembro de 2015. Arquivado do original em 19 de novembro de 2015
- ↑ «Huntington's Disease Society of America – Our History». Huntington's Disease Society of America. 2008. Consultado em 17 de março de 2009. Cópia arquivada em 9 de abril de 2015
- ↑ Andrew SE, Goldberg YP, Kremer B et al. (1993). "The relationship between trinucleotide (CAG) repeat length and clinical features of Huntington's disease". Nat. Genet. 4 (4): 398–403. doi:10.1038/ng0893-398. PMID 8401589.
- ↑ van Duijn E, Kingma EM, van der Mast RC (2007). "Psychopathology in verified Huntington's disease gene carriers". J Neuropsychiatry Clin Neurosci. 19 (4): 441–8. doi:10.1176/appi.neuropsych.19.4.441
- ↑ De Die-Smulders, C. E. M.; De Wert, G. M. W. R.; Liebaers, I.; Tibben, A.; Evers-Kiebooms, G. (2013). "Reproductive options for prospective parents in families with Huntington's disease: Clinical, psychological and ethical reflections". Human Reproduction Update 19 (3): 304–315. doi:10.1093/humupd/dms058. PMID 23377865.
- ↑ ANVISA (3 de novembro de 2021). «Austedo®(Deutetrabenzina) : nova indicação». gov - ANVISA. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ «FDA aprova um novo fármaco para os sintomas de doença de Huntington – HDBuzz». 6 de abril de 2017. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ «Medicamento para tratar os sintomas de movimento da DH aprovado pela FDA – HDBuzz». 22 de agosto de 2023. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ «The First Domino Falls: AMT-130 Gene Therapy Slows Huntington's in Landmark Trial – HDBuzz» (em inglês). 24 de setembro de 2025. Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ uniQure. «Phase I/II Clinical Trial of AMT-130 | Programs & Pipeline». uniQure (em inglês). Consultado em 1 de outubro de 2025
- ↑ McBride JL, Pitzer MR, Boudreau RL et al (25 October 2011). "Preclinical Safety of RNAi-Mediated HTT Suppression in the Rhesus Macaque as a Potential Therapy for Huntington's Disease". Molecular Therapy 19 (12): 2152–2162. doi:10.1038/mt.2011.219. PMC 3242667. PMID 22031240.