Ducal
| Ducal | |
|---|---|
| Razão social | Ducal Roupas Ltda. |
| Atividade | Varejo |
| Fundação | 1950 |
| Fundador(es) | José Vasconcelos de Carvalho, José Cândido Moreira de Souza e José Luiz Moreira de Souza |
| Encerramento | 1986 |
| Sede | Rio de Janeiro, RJ, Brasil |
| Produtos | Lojas de departamento |
A Ducal Roupas foi uma rede de lojas de roupas masculinas brasileira de muito sucesso nas décadas de 1950 e 1960.[1] Seu nome, além de remeter ao nobre título de duque, também era a junção das sílabas das palavras "duas calças", pois quem comprava um paletó e uma calça ganhava outra mais barata e ficava, assim, com duas calças. A promoção deu fama à empresa junto com o seu sistema de crédito.
A Ducal Roupas era referência no mercado de moda masculina na metade do século passado. Seus ternos vestiram vários brasileiros anônimos e famosos em sua época. A Ducal tinha lojas em três estados do país: Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.
A Ducal não era apenas uma grande marca mas sim um grande grupo empresarial da época e que possuía além das lojas, indústrias de roupas e eletrônicos (Denison), supermercados (Dado – o primeiro do gênero no Rio), varejo de utilidades domésticas (Decasa), imobiliárias (Daviga), além de serviços de banco de dados (Datamec), consultoria jurídica, crédito (Banco Delta e Decred), agência de publicidade (Denison Propaganda) e até galeria de arte (Petit Galerie).[1]
História
[editar | editar código]Todo esse império começou em 1950 quando o jovem José Vasconcelos de Carvalho, então com 30 anos incompletos, juntou o que aprendeu em cursos de especialização em administração nos Estados Unidos[2] à experiência profissional adquirida nas lojas "A Exposição" - de propriedade do seu pai, Lauro de Souza Carvalho - associou-se aos primos José Cândido e José Luiz Moreira de Souza e abriu uma fábrica de roupas (Cia. Brasileira de Roupas) e a primeira loja da Ducal na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, então capital federal. Para viabilizar o sonho dos três Josés, foram levantados e investidos vinte e dois milhões de cruzeiros.
As vendas a crédito em até 24 vezes e a ousada promoção das "Duas Calças" foram as primeiras estratégias de marketing para o crescimento da Ducal.[2] A promoção pretendia que o cliente ficasse com uma calça para o trabalho e outra para o esporte.
A Ducal firmou-se como uma marca popular para a classe média-baixa. As roupas da marca eram de boa qualidade, mas não chegavam a ser muito sofisticadas e com cortes impecáveis. "Quem quisesse roupa bem cortada, que procure o alfaiate", diz Paulo Afonso de Carvalho, irmão de José Vasconcelos, fundador da Ducal.
Na publicidade, a Ducal investiu em modelos e manequins desconhecidos e famosos, como Pelé que, graças à conquista do primeiro título da Copa do Mundo em 1958, começava a despontar também como garoto-propaganda.[3] Foi o primeiro anunciante famoso da Ducal. Era notório que a marca queria usar o esporte como conceito de comunicação. Outro exemplo foi o patrocínio ao programa esportivo de debates "Ducal nos Esportes", um tipo de programa que hoje chamamos de mesa-redonda. Emerson Fittipaldi também fez algumas campanhas para a marca.
Mas o período próspero da marca acabou na metade dos anos sessenta. A inflação acabou trazendo grandes prejuízos para a Ducal por causa do seu crediário em parcelas fixas e sem correção monetária. Foi necessário que a Ducal se unisse à igualmente famosa rede mineira de eletrodomésticos Bemoreira em 1966.[4]
Golpe de 1964 e ascensão
[editar | editar código]Apesar de anunciar seus produtos na Ultima Hora (jornal ligado ao getulismo e que apoiou Jango), a Ducal tinha raízes no movimento de oposição a Getúlio e Jango. Entre seus sócios, José Cândido Moreira de Souza foi membro do Clube da Lanterna de Carlos Lacerda e José Luiz Moreira de Souza foi um dos fundadores e primeiro presidente da seção fluminense do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e era cunhado do General Afonso Augusto de Albuquerque Lima, então comandante da Escola Superior de Guerra e membro da linha dura do regime.[5]
| “ | ...Eu sou um revolucionário, participei do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), onde conheci o general Golbery..." | ” |
— José Luiz Moreira de Souza, sócio da Ducal, em entrevista para a revista Veja em 18 de maio de 1977[6] | ||
O apoio da Ducal ao Golpe Militar de 1964 foi recompesado mais tarde com o apoio oculto do Tesouro Nacional após a primeira crise financeira da Ducal, ocorrida em 1965. Segundo o Senador Dinarte Mariz (Arena-RN), o apoio do Tesouro a Ducal foi intermediado pelo General Albuquerque Lima, já como Ministro do Interior do governo Castelo Branco.[7] Apesar de Moreira de Souza ter salvado a Ducal da falência, teve de se desfazer do Banco Delta (vendido ao BCN), Supermercados Dado, Big Lar, A Exposição, Colombo (Doces), Datamec, Decasa Utilidades Domésticas e da Denison Propaganda.7[6][8] Com seu caixa turbinado com os recursos do Tesouro Nacional, a Ducal adquiriu da família Moretzonh em 1966 a cadeia de lojas mineira Bemoreira[9] e a Corretora Independência.[10] Com a aquisição da Independência, a Ducal ambicionava e ampliar a obtenção de crédito no mercado financeiro. Mais tarde, após a Reforma Bancária, a Independência – Decred obteve carta patente e se converteu em um banco. A atuação do banco Independência – Decred se converteria na Década de 1970 como a principal causa para a ruína da Ducal.
Declínio e falência
[editar | editar código]Durante o governo Geisel ocorreu uma mudança no trato do governo com os grupos empresariais brasileiros, com o corte de auxílios ocultos aos grupos em dificuldade (resultando na falência dos bancos Halles e União Comercial em 1974). A Ducal passou a enfrentar problemas financeiros que obrigaram o grupo a colocar o General Albuquerque Lima, agora na reserve do Exército, como presidente para tentar obter maior simpatia do Regime com a Ducal. Diante da resistência do governo Geisel em oferecer recursos, Albuquerque Lima apelou em carta ao Ministro-Chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva que interviesse junto à Caixa Econômica Federal para a Ducal obter um empréstimo de 12,6 milhões de dólares.[11]
Em 1977 o Banco Central decretou intervenção no Banco Independência – Decred. Naquele momento foi revelado que a instituição se encontrava insolvente, com o governo federal injetando recursos para evitar sua falência. Durante a intervenção, o Banco Central injetou mais de 300 milhões de dólares no Independência – Decred. Mais tarde o Ministério da Fazenda admitiu que a Ducal era auxiliada pelo Tesouro Nacional desde 1965.[6]
A quebra do Independência – Decred afetou fortemente a Ducal que chegou a ter sua falência requerida pelo Banco Francês e Brasileiro após atraso no pagamento de títulos no valor de 1 milhão de cruzeiros. Pressionada pelo pedido, a Ducal efetuou o pagamento.[12][13] A negociação de ações da Ducal na BVRJ chegaram a ser suspensas[14] enquanto um novo pedido de falência da empresa foi requerido, agora pela Singer do Brasil.[15] Diante do pedido o presidente da Ducal Roupas, Aluízio Alves, pediu a concordata da empresa em junho de 1977. Com ativos de 2 bilhões de cruzeiros e passivos de 1 bilhão, a concordata foi aceita.[16]
Para sair da concordata em 1979[17] a Ducal/UEB negociou a venda do UEB Center e da Torre UEB. No entanto, em 1983 ocorreu nova concordata após uma tentativa de venda malsucedida da Ducal para o grupo Multiplic.[18] Em 1984 a Ducal foi adquirida pelo Grupo Vila Rica por 32 milhões de cruzeiros.[19] Após dois anos a Ducal foi colocada à venda no mercado pela Vila Rica. Sem encontrar compradores, acabou encerrando as atividades em 1986.[20][21]
Referências
- 1 2 «A TRAJETÓRIA DE UM PIONEIRO DA PROPAGANDA MINEIRA» (PDF). Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. Consultado em 13 de julho de 2013
- 1 2 «Ducal, Ducal, Ducal». O Globo. 20 de novembro de 2023. Consultado em 21 de janeiro de 2025. Cópia arquivada em 23 de novembro de 2023
- ↑ «De remédio para disfunção erétil a marca de luxo francesa, Pelé teve extensa carreira como garoto-propaganda; relembre | Midia e Marketing». G1. 29 de dezembro de 2022. Consultado em 21 de janeiro de 2025. Cópia arquivada em 27 de maio de 2023
- ↑ Guilherme Cardoso (1 de dezembro de 2012). «BELO HORIZONTE SEGUNDO A PERIFERIA». Reage cidadão. Consultado em 13 de julho de 2013
- ↑ DREIFUSS, René Armand (1981). 1964: a conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe 3ª ed. [S.l.]: Vozes. p. 167. 817 páginas. ISBN 8532632327
- 1 2 3 Veja (1977). Independência-Decred: O maior estouro do mercado Edição 454, 18 de maio de 1977 ed. [S.l.]: Abril. p. 103. 132 páginas
- ↑ «Mariz X Albuquerque: acusações mútuas». Opinião, edição 192, página 9. 9 de julho de 1976. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Começo, meio e fim de algumas aventuras». Opinião, edição 205, página 9. 8 de outubro de 1976. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ Matéria paga (30 de outubro de 1966). «Importante fusão de empresas de eletro-domésticos». O Jornal, ano XLVII, edição 13832, página 5. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Fusões de empresas». O Jornal, ano XLVII, edição 13883, página 5. 30 de dezembro de 1966. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ GASPARI, Elio (2003). A ditadura derrotada: o sacerdote e o feiticeiro 1ª ed. [S.l.]: Companhia das Letras. p. 420. 538 páginas. ISBN 853590428X
- ↑ «Ducal diz que pagou os títulos». Jornal do Brasil, edição 7, página 28. 15 de abril de 1977. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ Banco Francês e Brasileiro (17 de abril de 1977). «Anúncio oficial». Jornal do Brasil, edição 9, página 32. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Bolsa não se surpreende e sobe». Jornal do Brasil, edição 35, página 22. 13 de maio de 1977. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Singer do Brasil pede falência da Ducal Roupas S/A». 14 de maio de 1977. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Última empresa da UEB tem concordata aceita em São Paulo». Jornal do Brasil, edição 62, página 22. 9 de junho de 1977. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Grupo UEB levanta concordata de suas empresas industriais». Jornal do Brasil, edição 37, página 17. 15 de maio de 1979. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Bemoreira e Ducal pedem concordata e Moreira de Souza culpa Multiplic». Jornal do Brasil, edição 158A, página 15. 2 de agosto de 2026. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Grupo Vila Rica compra a Ducal por Cr$ 32 milhões». Jornal do Brasil, edição 317, página 15. 21 de fevereiro de 1984. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ «Oferta de compra de ações da Ducal Roupas». Jornal do Commércio (RJ), edição 155, Caderno Bolsa, página 7. 12 de abril de 1986. Consultado em 2 de agosto de 2026
- ↑ Roosevelt Garcia (25 de maio de 2017). «14 grandes lojas que fecharam as portas em São Paulo». Veja São Paulo. Consultado em 2 de agosto de 2026